Livro IV Feitos de Mem de Sá · Capítulo 5 de 6
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Livro IV

Livro IV

Longe daí, onde o Sul proceloso

com chuvas freqüentes

açoita as terras e os plainos imensos do mar turbulento,

aonde chega o sol, completado quase o giro do ano

e percorridos em seu carro de luz os signos celestes:

os inimigos tem seus campos voltados para as túmidas ondas

do oceano, e numerosas aldeias junto às áridas praias,

e outras muitas sitas ao ocidente, pouso do Zéfiro,

construídas ora nos campo, ora em meio de densas florestas.

Estes provocam em guerra contínua aos portugueses

cujas povoações não distam muito das deles.

Aprisionam os homens traiçoeiramente, saqueiam

as propriedades sem guarda, lançam o incêndio nos campos

e cometem mil assassínios em freqüentes sortidas.

Com eles tratam, ávidos do comércio da bárbara gente,

os Franceses; trocam mercadorias, e com luzentes espadas,

foices, anzóis, tesouras em grande número, amansam

os corações ferozes dos índios e recebem em troca

o pau brasil, que serve para tingir de vermelho

as vestes, a acre pimenta, aves variegadas

e os animais que imitam as maneiras humanas.

De há pouco tempo, com o correr silencioso dos anos,

erguem a cabeça altivos e arrastados pela cobiça

querem para si o que os lusos com grande trabalho

alcançaram. Movidos pois de furiosa coragem

usurpam reinos alheios, fundam em altos rochedos

fortaleza possante e a cingem com todas as armas.

Mais ainda: com o coração infeccionado pela heresia,

e com a mente opressa pelas trevas do erro,

não só todos se afastam do reto caminho da crença,

mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas

os míseros povos índios, de todo ignorantes.

O Governador prepara uma esquadra para expulsá-los

das terras mal havidas: esquipa com armas luzentes

muitas naus e as enche de escolhidos soldados.

Chega o dia em que manda largar porto à esquadra:

desligam-se as amarras e ouve-se a grita alternada

com que disfarçam o trabalho penoso os marujos

endurecidos às intempéries dos sóis e das chuvas.

Uns puxam as cordas entesadas pelo peso avultado

e enrolam-nas no cabrestante ao passo que sobem:

enfim aparece a âncora nas fortes mãos. Outros abrem

as velas bojudas e erguem ao alto as antenas. Uns sobem

à ponta dos mastros firmando, nos nós e nas redes

das muitas cordas, as mãos e os pés. Outros seguram o leme

com os braços robustos e todo o peito. Fora, o oceano

rouqueja ao redor; dentro, entre clamores variados

fervilha a faina. Para as plagas do Sul voltam-se as proas,

enchem-se em bojo as velas, ao sopro do Norte assobiam

as enxárcias estiradas, muge o mar sob o peso das popas

e a quilha calafetada rasga profundo sulco nas ondas.

Finalmente junto às desejadas praias as popas deslizam

e de noite fundeiam no porto: presa ao cabo traseiro

a âncora denteada morde o chão e firma os navios.

Quando a aurora em seu manto de luz trouxe ao mundo

o novo dia, eis que aparecem nos altos rochedos

as torres soberbas, cingidas de toda a sorte de armas,

e as fortificações escavadas em vivo granito.

Por acaso, nessa ocasião, os Franceses se achavam dispersos

pelas várias aldeias dos índios; poucos vigias guardavam

a fortaleza. Ao avistar a esquadra, apavoram-se os guardas.

Dá o toque de recolher a corneta estridente

e a todos chama à fortaleza o sinal da fogueira.

Daqui e dali acorrem todos e apressados se acolhem

aos ninhos altaneiros, como fazem as pombas

quando em dia cálido, ao sopro do Norte, vagueiam

pelos prados em busca do variado biscato campestre:

Mas se o vento Sul se levanta e negrejam as nuvens

e se entrechocam nimbos e se ouvem trovões reboando

no céu escuro: então fogem rápidas, deixam os campos

e, ruflando asas, se escondem nos pombais sossegados.

Uma nau francesa carregada de inimigos e armas

estava surta no interior do porto sinuoso.

Por ordem do Governador para lá se dirige

pequena galé, que a ataca e rende: salvam-se apenas

a nado os índios com os franceses acolhendo-se à praia.

A nau rendida é ligada à popa da nossa: a fortaleza

tenta impedir-lhe a volta com projéteis incendiários

e o monstro de ferro vomita suas bolas de fogo.

Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:

antes, a pólvora explode no paiol inimigo

a um centelha, e o fogo em turbilhão num momento

envolve e engole desprevenidos a sete soldados.

Infelizes! começam já a sentir as chamas do inferno

em que os ímpios corações, manchados pela heresia,

sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem.

Mas. viu o piedoso chefe que tal guerra só se faria

a peso de muito sangue e ao preço e muitas cabeças.

Compassivo, preferiu evitar a crueza da guerra

e tenteando a via da paz, ao general dos Franceses

mandou estes dizeres num pequenino bilhete:

"A fama, general gloriosos, te canta como excelente

em feitos prestantes, e longa experiência da guerra

e também as belas artes todas te poliram a alma.

Não creio pois que te hás de lançar a empresa tão árdua

para defender uma causa injusta, contra todo o direito

divino e humano, com a morte de tantos soldados.

Essa terra que habitas é nosso domínio intangível:

pois que a conquistou o trabalho esforçado dos lusos.

Se te aprouver abandonar nossos reinos, de grado,

como ordena o nosso e vosso rei, será suprimida

toda a ocasião de manchar nossas destras com sangue,

e nada sofrerá por isso a tua honra de chefe.

Doutro modo, decididos estamos a atacar sem piedade

a fortaleza e a travar horrendo e cerrado combate,

manchar as mãos de sangue e a tingir de vermelho

as naus, os rochedos e as praias brancas de areia.

Fa-lo-ei contra a vontade, testemunha me seja

Deus aqui presente: tu só darás conta tremenda

do que suceder, no tribunal do Senhor. Responsável

tu só o será dos crimes, das ruínas e sangue

que se derramar: do alto do céu nos contempla

Cristo que um dia virá julgar-nos os atos da vida."

Às linhas do Governador, assim respondeu o Francês:

"Qual seja melhor ou mais justo partido, ótimo chefe,

não cabe a mim decidi-lo, é alçada daquele

por cuja ordem habito os litorais do Brasil:

foi ele quem me confiou a defesa do forte.

Foi mandado de Henrique, o soberano, a fortíssima torre,

que vês, ergue a fronte até os lumes celestes.

Sem ordem do grande Francisco, a quem coube por dita

o governo da França, que dirige os destinos da pátria

de cetro ilustre na mão e coroa na fronte,

jamais abandonarei essas muralhas que erguemos.

Vive eternamente o juiz do universo

que pesa as culpas de cada homem em rigorosa balança:

Ele me guardará as mãos puras de todo o atentado

e livres de todo o sangue: tu vê bem a guerra que intentas.

Temos grande soma de munição, espadas luzentes,

artilharia rija, dardos incendiários, armaduras

para proteger os corpos afeitos a guerras contínuas.

Tudo enfim está bem preparado: aqui estou eu a postos

para defender os rijos muros da fortaleza.

Vamos pois! prontos estamos para a defesa do forte"!

Esta a resposta que o chefe Francês remeteu ao herói.

Que cega loucura, ó Francês altivo, que soberba tamanha,

que incêndio de cólera te invadiu a cabeça?

Rejeitas a paz que te oferecem? Com que auxílio confias

conservar a vida? Cruéis batalhas te aprestam

a morte, nem pouparão a pequeno nem grande.

Tanta confiança te inspira o alcantil desse forte?

Sim, mas não é fácil ao Senhor, desde seus fundamentos

arrasar garbosas cidades e espatifar contra o solo

altaneiras torres? Ele que sacode as muralhas do mundo

e com um aceno aterra os firmamentos celestes?

Enquanto correm estas negociações de uma parte e de outra

o general português manda pedir à cidade,

que se ufana do nome ilustre do Mártir Vicente,

enviem reforços e tropas índias de auxílio.

Inflamaram-se os corações: preparam ligeiros

naus velozes e armas e, sem tardar, conforme o pedido,

chegam, e com eles a flor dos guerreiros brasis,

na mãos esquerda o arco e na direita as rápidas flechas.

Vejo com seu Irmão de Ordem um sacerdote adestrado

armado com o raio inflamado da palavra divina,

membro da Companhia de Cristo Rei, para o soldado

confessar suas faltas e lavar suas almas das manchas,

antes de entrar no combate, onde talvez deixe a vida.

O restante do povo os ajuda, erguendo preces ao alto;

todo o sexo piedoso, com as crianças e os velhos,

suplicam ao Senhor e aos Santos do céu a vitória.

E que direi dos Jesuítas e dos ministros sagrados?

Dia e noite, com fervor sua mente e seus lábios se voltam

ao Pai celeste, ao Filho divino e ao Espírito Santo

a se atribui igual felicidade,

igual poder e igual glória nas moradas eternas.

Pedem-lhe que os auxilie e dê aos nossos guerreiros

a mais gloriosa vitória e o mais estrondoso triunfo.

Foram eles, estou certo, que com seus gemidos e queixas

comoveram os céus e lhes abriram as portas da graça;

eles que, dardejando do peito ardente setas de fogo,

moveram o Pai eterno a prostrar o inimigo,

incutir-lhe terror e afugentá-lo para longe do forte.

Vinte vezes a aurora erguera ao mundo o manto de trevas,

desdobrando sua púrpura sobre o pálido rosto.

O Governador prepara-se para o ataque do forte:

reúne os conselhos dos chefes, ainda que saiba

a relutância de todos. Diziam eles que não era possível

com armas algumas escalar o forte, cercado

por rochas enormes, defendido por construções numerosas.

Mas o chefe magnânimo tinha a peito acima de tudo

propagar a fé. Apoiado de força divina,

sozinho opõe-se a todos e não sofre que o dobrem

discursos alguns: atira-se ousado contra o impossível

e procura vencer os perigos da empresa que intenta:

tal o rio, que lavradores represam com grandes

barreiras de troncos e desviam para outras bacias,

vai pelos campos vizinhos em regas estreitas,

mas continua a lutar com esforço contra a represa,

até que, forte pela massa das águas, rompe a muralha

e em turbilhão se alarga como vasto oceano.

Logo que se reuniram todos os maiorais em conselho,

o governador expõe o desígnio que guarda no peito,

e no meio da assembléia profere estas palavras:

"Chegamos, senhores, ao termo: estou enfim decidido

a atacar a fortaleza altiva: bem sei a posição estratégica

do lugar e as construções montadas de inúmeras peças,

os muitos braços do inimigo e os Franceses postados

a perder a vida ou salvar o forte a preço de sangue.

Mas que são essa forças para a onipotência divina?

Porventura é difícil arrasar as torres mais altas

ao Senhor que a um aceno faz tremer o palácio celeste?

Não é ele homem a tremer de batalhões de soldados

embora cruéis: ele desconhece os terrores dos homens.

Ele incutirá forças e ajudará compassivo

a causa do justo e do fiel e com a destra potente

abaterá e esmagará o inimigo, castigando co'a morte

corações ímpios, vazios da fé verdadeira.

Confiados pois na força do Deus invencível,

lancemo-nos à grande empresa para glória divina.

Preceda-nos o estandarte fulgente do triunfo de Cristo,

e a desejada vitória seguirá a bandeira da Cruz!"

Esse grito que o chefe arrancou do peito ardoroso

arrastou todos ao seu parecer: já o peito dos bravos

se acende no anseio das batalhas furiosas.

Estuam as almas impacientes de ir arrasar

as fortificações francesas e entregá-las às chamas,

ou generosas perder a vida em morte gloriosa

pela causa santa da fé e da gloria divina.

O próprio chefe, conduzido em batel, passa em revista

a todos e manda que as naus avancem em ordem.

Distribui seus homens: que todos cumpram seu cargo

e guardem seu posto, quando começar o combate

e se atirarem à refrega. Então purifica sua alma

das culpas e a fortifica com as armas de Cristo,

caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado.

Muitos imitaram o belo gesto do chefe

e de coração sincero lhe seguiram o exemplo,

purificando suas almas, manchadas de culpas.

Chegara o dia que veria as batalha sangrentas

de corpo a corpo, e de bandeira contra bandeira.

Do alto da popa o almirante toca a trombeta,

os homens em entusiasmo ardente se erguem de um salto,

lançam mão à obra, arregaçam os braços robustos

e com grande grita recolhem os cabos pesados

para soltar a proa. Abrem as velas bojudas

que a aura suave, vinda do vasto oceano

enche imediatamente com o afago do sopro.

O sol volve seu carro de ouro ao completar a subida

íngreme do céu. As proas em bico fendem as túrgidas ondas

em demanda das ameias da fortaleza inimiga.

Há uma ilha pequena no meio da vasta baía

que o mar rodeia, de todas as partes, de ondas:

cercam-na rochas e as praias do continente vizinho

donde saem as naus que vão para o oceano

através de estreitas portas, as quais divide uma laje

pela metade. Aí outrora construíram um forte

os Franceses: porém carregou-o a força das ondas.

Agora esta outra ilha ergue suas torres ferozes,

forte por sua rochas inacessíveis, fervendo ao embate

do mar furioso e gemendo ao som de grutas soturnas.

Para o lado do ocaso se levanta a pequena colina:

uma que outra palmeira ao longe a cobre de sombra

com seus verdejantes leques. Perto dessa colina

está enorme rochedo talhado todo ao redor

pelo picão tenaz. Em cima da pedra imponente

se eleva o baluarte altivo, prenhe de artilharia.

Mais além há uma pequena altura e à sua direita

uma cisterna, com casa dum lado e doutro, repleta de água.

Bombardas numerosas defendem as estreitas veredas.

Entre estas e a cisterna há enorme abertura,

onde as ondas remugem espumando de raiva.

Ponte de um pau dá estreita passagem por cima do abismo.

Transposta esta, do lado da aurora esplendente,

depara-se um monte que parece subir às estrelas,

com escarpas a pique em redor. É impossível

subir por aí ao cume, ou descer de lá para baixo.

Um só caminho escarpado e estreito conduz à altura:

talhou-o na pedra, à força de golpes teimosos

e muito suor, o duro picão dos Franceses.

E protegeu-o com baluartes de alvenaria. No cume

ergue-se a torre sob armação de grossos madeiros

defendida por bombardas e pela estratégia do posto:

o rochedo todo é inacessível e se lança às alturas

qual gigantesca montanha e inexpugnável penhasco.

Assim pois os navios, túrgidos de brisa os velames,

vêm sulcando a planície do mar: em direção do oriente,

já volvem as naus maiores para, do meio das ondas,

atacar a fortaleza com suas terríveis muralhas.

Canoas velozes, prenhes de soldados e armas fulgentes,

se dirigem ao litoral crivado de escolhos

e atacam a colina das palmeiras, onde os franceses

postaram inumerável guarnição de selvagens,

que a defendam afastando os esquadrões portugueses.

Bem sabia o Francês que essa fortaleza altaneira

só daí podia ser atacada pior flechas e balas.

mas de nada adianta às pobres forças humanas

provocar o Onipotente: o chefe inspirado pelo alto

manda volver à esquerda, que o Sol refulgente desperta

quando sobre os corcéis da aurora deslumbra o oceano.

Manda voltar velas às outras naus e tomar de corrida

a praia para onde forte arroio corre de altas florestas

e se mistura ao mar. Era para que o incauto inimigo

cresse nos apertava grande falta de água

e enganado por essa idéia abandonasse a colina.

Foi um instante: apenas viu o bando inimigo

que as naus a velas cheias voavam para esta abertura,

precipita-se da colina em desordem e sobe

às canoas ligeiras e deslizando no dorso das vagas

ocupa o litoral sinuoso e em vertiginosa carreira

se atira às torrentes marulhantes afim de poderem

afastar das águas límpidas ou trucidar nossos guerreiros.

Loucos! deveriam ter ficado no sítio marcado

para afastar do acesso à colina os soldados intrusos,

único posto que permitia o ataque do forte.

Mas aguilhoada pela paixão infrene do sangue,

a instável multidão em vão se arroja e furiosa

e tresloucada vence o grande espaço de areia.

Entretanto, voltando as velas com vento propício

nossos barcos armados ferraram a colina das palmas.

Sem hesitar um momento, de todas as naus os guerreiros

rompem como chama de fogo, pelo meio das rochas,

escalam de um salto a colina, ocupam-lhe os cimos,

escavam fundas trincheiras e no alto do cume

fincam vitoriosa a bandeira da cruz resplendente.

Outros correm às naus e entre gritos possantes

arrastam o falcão: num momento, ei-lo postado

no cume a vomitar incêndios, da boca tremenda,

e a arrojar pelouros, forçando a cantaria das casas.

Já as balas de ferro arrombam a casa e os madeiros

se desmoronam: responde feroz o Francês arrojando

balas que zunem. Entretanto nosso bronze gigante

atira globos incandescentes do navio fronteiro.

Fere duas vezes a casa, abala-a com toda a força;

e solapa a grande mole: as vigas partidas desabam

em ruína. Fogem os Franceses e pelos penhascos,

seguros a cordas, apressados se escapam

ao alto refúgio da torre. Em grita, nossos valentes

se precipitam do outeiro das palmas e seguem

de vencidas aos fugitivos. Ultrapassando as ruínas

da primeira casa, se arrojam com ímpeto ardente

à segunda colina. Ocupam as águas que a cisterna recolhe,

defendendo-se num parapeito de terra elevada.

Entretanto trovejam horrendas as altas muralhas

e com tiros tremendos espedaçam e arrombam

os navios fundeados no meio das águas.

O bruto canhão vomita em chamas pedras e balas

e cobre o azul do céu de negra fumaça.

O troar medonho acompanha o fogo incessante,

ribombam os céus e geme os espaços imensos,

ringe a terra ao peso do fragor horroroso,

freme o mar mugindo em longo murmúrio.

Dir-se-ia que todo o universo saltara dos eixos:

tamanhos eram o estrondo, a grita e o fogo das balas!

Para o lado do áureo levante, estava postada

junto de um baluarte uma bombarda de metal amarelo

sobre rodas de ferro. De boca enorme, o monstro arrotava

penhascos e balas de metal, molestando à vontade

com tiros contínuos as naus: fere as popas e arromba

um e outro flanco, estilhaça mastros e pranchas

com fragor espantoso. Ora aponta a esta, ora àquela,

e espedaça com um só tiro mortífero os corpos

de muitos soldados. Os conveses se inundam de sangue.

Já não mais podem as naus continuar fundeadas.

Livres das amarras fazem-se ao mar avariadas.

O sol mergulha seu carro luzente nas ondas,

e Vésper desdobrara seu manto noturno de trevas

e na abóbada celeste brilhavam mil luzes de estrelas.

Não se dormia no acampamento; cada qual preparava

suas armas. Da colina das palmeiras o falcão continuava

a bater o alto da torre, arrotando bolas de fogo.

Ressoam vozes e gritos de mulheres nas casas.

Manda entretanto o governador fortificar por inteiro

as trincheiras. Uns contra as balas enchem de pedra e terra

grandes canastras tecidas de vime flexível.

Outros retiram das naus os canhões e os arrastam

com o fragor gigantesco de suas rodas pesadas,

e os colocam em postos escolhidos erguendo em redor

um parapeito de terra. Depois esperam impaciente

as batalhas temerosas do dia seguinte.

Já os primeiros clarões afastavam as trevas da noite

e a aurora tingia o mar com seus raios serenos,

já o sol da orla do horizonte se lançava à corrida

que espalharia mais uma vez a luz pelo mundo:

quando refulgem no alto as falanges francesas

armadas de espadas e longas lanças; os corpos

cobertos de reluzentes couraças. Armados de flechas

aí se acham também os selvagens que tinham voado

à aguada, para derramar o sangue dos lusos,

quando nossas naus voltaram e deixaram as praias

com as águas, ajuntando-se aos seus e enganado

o inimigo cruel que nutria feliz esperança.

Viram-se então enganados, fremiram terríveis

em vão, acalentando cruéis desejos, de novo

vencem num vôo a praia já em vão percorrida

e deslizam nas canoas ligeiras até conseguirem

grimpar pelas rochas espumosas ao alto da fortaleza.

Nossas naus tentaram com balas estorvar-lhes o acesso:

quanto preferiram eles subir à colina das palmas!...

Portanto, índios e franceses, multidão numerosa,

atiram-se ao campo inimigo. Seus gritos abafam

o rumor do oceano. Pressurosos lhes vêm ao encontro

os outros. Travam-se de mãos. Ferve duro o combate

de uns e de outros. Cortam o ar as flechas zunindo

de parte a parte. Geme os arcos ao golpe da corda,

e a bala metálica sibila rente às cabeças.

É um incêndio o ardor da luta. A terra se crava

de inúmeras setas, o espaço imenso se tolda

e o céu se cobre sob o denso granizo das flechas.

Assim, depois que o Sul chuvoso deixou de regar

campos verdes e bosques, e os trovões já cessaram

de sacudir os nimbos; quando arde a atmosfera

sob um sol causticante: sai das entranhas da terra

a formiga, e, deixando os profundos lares maternos

busca nova casa, pouco a pouco, junto das portas

avulta o cicio, ergue-se em enxame cerrado

sobre as quatro asinhas e libra-se nas auras ligeiras

e forma densa nuvem sobre nossas cabeças.

De parte a parte voam nos ares as flechas velozes

e o combate flutua daqui e dali, com sorte indecisa.

Não cedem estes, nem aqueles recuam vencidos;

nem estes arredam pé, nem voltam as costas aqueles.

Enfim, com os membros quebrados do longo trabalho

e rendidos pelo esforço da luta renhida,

afastam-se os dois exércitos de tácito acordo,

este para o acampamento, aquele para o forte altaneiro.

Entretanto, de um de outro lado, vomita chamas horrendo

o canhão; voam incessantes as balas traçando

riscos de luz, na densa fumaça, entre sons pavorosos.

Ora é a bombarda inimiga que arromba o casco das naves,

ora é o nosso canhão que fere a torre altaneira,

partindo traves e parapeitos e portas e trancas.

Já o sol transpusera o zênite de sua carreira

e volvia para o mar seus corcéis apressados.

Os Franceses, como não puderam num primeiro combate

reconquistar em contra ofensiva as águas perdidas,

espumam de raiva e aguilhoados pelo despeito

retomam o combate, fiados em armaduras agora.

Cingem o peito com a couraça luzente, e a cabeça

com o capacete. A mão empunha a espada recurva

e a veste de malha cobre o corpo de alguns dos maiores.

Assim armados, se precipitam da penha, cercados

pela chusma dos índios. Brandem as espadas que chispam

ao sol fronteiro e cortam o ar com golpes freqüentes.

Sem temor algum transpõem a estreita ponte de um tronco.

Começa a chover denso granizo de flechas:

sem cessar os inimigos distendem os arcos e os tiros.

Crivam de inúmeras feridas as fileiras contrárias.

Fúria de parte a parte, de parte a parte golpes tremendos.

Mas os Franceses, com o peito protegido de rija couraça,

já não combatem com dardos, lançam mão das espadas

e se lançam à luta e com ousadia se esforçam

por afastar das águas perdidas os arraiais inimigos.

Já as forças começam faltar aos nossos, cansados

de tanta peleja, já lhes nasce o desejo da fuga:

largar aos Franceses que avançam as águas tomadas.

Eis senão quando um tiro da nossa bombarda arrebata

a dois franceses encouraçados, varando de um golpe

couraças e peitos altivos. Com que fulminados

rolam estraçalhados no chão pernas e braços,

e o sangue que salta tinge armas e pedras em volta.

Fogem os outros arrastando os corpos despedaçados

dos infelizes colegas e rápidos galgam o forte.

Entretanto os cavalos do Sol relinchavam

já próximos do pouso da tarde. Com a morte de muitos

as naus se afastaram da terra. Não mais bombardeiam

os muros da torre elevada: imenso cansaço

prostrara os batalhões que pelejavam em terra,

tão porfiadamente. Não há meios algum para o cerco

do forte altivo, rodeado todo de íngremes rochas,

peças de fogo, valentes franceses e ferozes selvagens.

Ademais um caminho reúne grandes montes de pedras

para prostrar e esmagar os soldados que tentem

escalar a montanha: é esta a única senda

de acesso ao forte. Quem ousará galgar tal muralha?

E eis que um cuidado maior acresce ao cansaço,

surge um estorvo que não podiam sequer esperar.

Na guerra de mar e de terra, gastara-se a pólvora toda,

esse pó, que a mão do destro operário fabrica

de vivo enxofre, de negro carvão e de nitro

em grande fornalha, pó que alimenta a chama furiosa

e aumenta de muito o poder desse elemento.

Que farão dora em diante? com que forças o forte

será atacado, se o fogo mortal com golpe incessante

deixar de derrocar as posições inimigas? contínuos

cuidados vários começam a angustiar soldados e chefes.

Com que estratagemas se acolherão aos navios

eles e os canhões, de tal sorte que não o sinta o inimigo?

A dúvida e o medo de um grande desastre os oprime.

Referve o anseio cruel no fundo de todos os peitos

e a imagem do perigo já paira em todos os olhos.

Então, como creio, o governador, no silêncio da angústia,

arrancou do coração vozes queixosas,

pedindo ao Pai celeste o auxílio que as forças humanas

não lhe queriam dar. Com olhos cravados na altura

lançava para o céu estas palavras de prece:

"Ai! porque nos entrega, supremo Criador do universo,

sem recurso nenhum, aos últimos riscos da vida?

Bem vês que nossas forças, rendidas por imenso trabalho,

já não podem subsistir. Como podes deixar que sejamos

o opróbrio do inimigo?

porque zombarão de teu nome

esses bárbaros?

porque há de o francês conspurcado

pelo crime feio da heresia, insultar teus soldados

cristãos e fiéis? A coragem nos abandonou por completo,

não resta outra força; compadece-te tu, senão perecemos!

Olha, Pai Celeste, para os que carecem de todo o recurso.

Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro.

a raça inimiga. Se soltares as rédeas da ira,

o próprio espaço se armará de feixes de luzes,

lançará em combate suas torrentes de dardos,

e com a destra oculta arrojará seus raios ferozes,

incendiando do bojo das nuvens o forte altaneiro.

Vamos, apressa-te, corre em auxílio e levanta

os que estão a cair; e aos povos selvagens e ímpios

castiga-os! experimentem o imenso poder de teu braço

nossos contrários! enfim arranca dos perigos presentes

o exército cristão que te ama e respeitoso te adora

e por tua glória se atira às mais duras pelejas".

Ouviu o Rei celeste estas vozes, ouviu juntamente

as que os jesuítas e os povos fiéis nesse tempo

arrancavam do peito, abalando com gemidos e prantos

as portas do céu compassivo. Não houve demora.

Oh! quem pudera sequer imaginar de que modo haveriam

os ferozes Franceses de abandonar um forte tão firme

pela natureza e tão seguro pela arte da guerra?

Mas, eis que Deus chama um ministro do exército alado

Manda-lhe que corte os espaços com as céleres asas

afugente os inimigos do posto altaneiro,

insuflando-lhes o terror pelas trevas da noite.

Cumprem-se as ordens: voa ele veloz pelas nuvens

e segue-o de aspecto horrendo e impassível,

esquálido e lívido, o terror: envolve-o um manto de sombras

e ruflam as asas negras pelos céus nevoentos.

Apresenta duras feições, a morte sangrenta,

cruéis grilhões com ranger de correntes e ferros,

suplícios vingadores prenhes de extermínio e de sangue.

Tal foi o monstro horrendo, miserável e feio

que, às ordens forçosas do Senhor do universo,

um ministro alado, membro da hierarquia celeste,

lançou incontinente dentro das muralhas francesas.

Apenas o terrível temor transpôs os umbrais altaneiros

da primeira porta, já todos dentro começam

a empalidecer; tremem, e pelos membros lhes côa

gelado pavor. Em breve é a fuga por rochas e ondas.

Sem demora, sem descanso: o temor agarra-se aos ossos.

Parecia que o horror cercara saídas e portas,

e logo, logo espadas vingadoras e dardos agudos

e chamas devoradoras se comprimiam às portas.

Tudo incute terror a essas mentes turvadas,

e ameaça, aos valentes de há pouco, morte cruenta.

Do lado em que o Sol se lança à corrida brilhante do dia,

por rochedos abruptos, todos ele, agarrados em cordas,

muito longas e armadas de nós numerosos,

vão-se acolhendo a barcas e através de ásperas rochas

e de agitadas ondas buscam o litoral dos selvagens,

deixando o forte erguido em formidável penhasco,

construções descomunais e inexpugnável rochedo.

Tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente

lhes metera nas mentes e corações apavorados!

Nos aflitos arraiais lusos espalha-se em breve o boato

da fuga pelos rochedos e abandono do forte.

Erguem-se todos à pressa, com a ânsia de verem

esses muros desertos e atingem a parte mais alta

do penhasco, e fincam logo a cruz vencedora

no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo.

Pasmam da construção gigante, dos rochedos em roda

todos a pique, protegendo em suas dobras edifícios recentes,

dos escolhos em que o mar espuma horrificamente.

O próprio governador, olhando todo esse posto,

que forças humanas jamais com arma nenhuma

poderiam arrasar, do íntimo peito canta louvores

ao deus eterno, que tomou o monte e o forte altaneiro

e com a força de seu braço afugentou o inimigo.

Ó muito amado de Deus, ancião venerando,

por quem batalham os astros da altura e pelejam

o céu e os corpos angélicos, a quem dos fortes celestes

envia auxílio o Pai onipotente: tu, quando

forças humanas não podiam trazer-te socorro,

com tuas preces arrancadas do fundo do peito,

atraíste aos teus desejos o soberano do mundo,

para apoiar teus combates com sua força divina.

Eia, novo ânimo, ancião, no templo celeste

terás por destino a glória, e os coros dos anjos

te cingirão com a coroa de rei triunfante:

depois de sujeitares a Cristo os litorais brasileiros

e ensinares a venerar o nome santo de Cristo.

Entram finalmente nas casas desertas. Dentro se achava

número enorme de munições, cuja força não pode

segurar os Franceses. Mas não se encontrava ali a imagem

da cruz resplendente, nem a dos santos que habita,

o reino dos céus, por cujos merecimentos e preces

o Rei supremo se inclina ao perdão e abranda piedoso

a cólera justa e santa, protege os reinos terrestres

e enche de dons abundantes as almas humanas.

Encontrava-se aí um grande móvel, cheio de livros

que encerram doutrinas crivadas de impiedades e erros.

Martim Lutero os compôs com mente perversa

e mandou a seus filhos observá-los à risca.

Enraivado, muitas blasfêmias arrojou contra o papa,

Sumo Pontífice e contra a Igreja, esposa de Cristo.

Muitas outras vomitou de seus lábios impuros

João Brêncio, raça de Lutero e digno de infâmia paterna:

e o petulantes Melanton de coração mal cheiroso.

Também aí estava a fera que os abismos do inferno

há pouco arrotaram de suas vasas imundas,

dragão inchado de todo o veneno que o mundo

preparou em seus monstros. É Calvino, a serpente

de coleio variado e horrendo, que abraça no rolo

de suas espirais o forte, vibra olhares de fogo

e agita a língua trífida em ruídos de morte.

É este quem te protegerá contra força celeste

Ó ímpio francês? estes são os arcos, estas as balas de fogo

que para ti preparaste? Calvino vencer a Cristo,

Senhor do céu e da terra? em que fúrias ardentes

te consumias, que loucura de ti se apossava

quando, desprezando a bandeira triunfante de Cristo,

pensavas defender com teus venenos de monstro

os muros do forte? Não sabias que o dragão que habitava

as cavernas do inferno, caíra outrora vencido,

quando Cristo estendeu os braços nus sobre o lenho,

santificando com rios de sangue o horrendo madeiro?

Eis o digno prêmio que teus feitos merecem!

Assim alegres todos, no meio do forte vencido

descantam os louvores do Pai onipotente.

Erguem um altar: o sacerdote, na veste sagrada,

celebra o banquete augusto do pão sacrossanto,

que jamais fora aí celebrado: a geração de Calvino

rejeita com impiedade o alimento celeste,

nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo.

Então, os soldados vencedores, depois da matança,

atiram-se ávidos aos mal adquiridos bens dos Franceses,

carregam com eles as naus triunfantes, e arrastam

os canhões que tão negras ruínas causaram lançando

seus fogos. Geme sob a massa enorme as rodas de ferro

com horrendo ruído: o batel que os acolhe

mal pode levar aos navios esses pesos gigantes.

Arrasam até aos últimos fundamentos o forte

e abatem todos os bastiões com mãos impiedosas.

Tudo se desmorona, geme a terra ao baque dos pesos.

Com loucos alaridos ajuntam as toras enormes

em altas fogueiras. Obras que há pouco erguiam a fronte

até as estrelas, jazem agora por terra em pedaços,

presa do fogo voraz: a chama se ceva sem freio.

A fumaça cobre o céu de escura fuligem,

e em nuvens densas escurece os orbes celestes,

e luzem as águas rumorosas aos clarões da fogueira.

Como quando o lavrador encerrou nos celeiros

as douradas espigas, despojando de seus frutos os campos:

então lança fogo às hastes secas, sobre a fumaça

às alturas, a relva ao longe vai crepitando,

enquanto os campos se cobrem de escuros resíduos.

Assim ruiu o forte francês desde as cimeiras, e o fogo

num momento reduziu a cinzas esses muros altivos.

Foi Deus quem domou essas iras sem freio, foi ele

que lhes esmagou a soberba: Cristo, sim Cristo

que rege os destinos humanos, a quem obedece

o mundo das orbes, de quem treme a terra espaçosa,

o céu brilhante e o inferno de sombras trevosas.

A força de teu braço realizou estes milagres,

Cristo poderoso; tu meteste no coração dos Franceses

o medo cruel, de ti fugiu a multidão dos malvados,

e aterrorizada abandonou as gigantescas muralhas;

a ti somente se deve, a ti, Jesus, esta glória!

Tu reges com teu cetro os vastos globos do espaço,

e com um aceno guias o mundo brilhante dos astros

volvendo no eterno giro as arcadas celestes.

A ti obedece o sol e a luz com seu ciclo de fases,

os orbes sidéreos, o misterioso lume celeste

e o oceano transparente dos espaços imensos,

a aurora de raios claros e Vésper que cora,

as estrelas do Sul e os astros fulgurantes do Norte,

a primavera e o inverno de gélidas brumas.

Tu governas os abismos e os litorais rumorosos

do mar, habitado de monstros, e suas ondas em luta;

quando queres, o mar, ao sopro turbulento dos ventos,

se indigna e ergue em seus braços tempestades medonhas.

De novo, ao teu mando, o vento indômito deixa

sua raiva, e as ondas mansas guardam fundo silêncio.

A ti obedece a terra, tu lhe fecundas o seio

com as águas das altas nuvens, e ela à tua ordem,

das prenhes entranhas jorra seus alegres presentes,

seu variado tesouro! Tu sustentas a vida

a quanto animal se abriga sob o teto celeste,

pintas as aves de cores e lhes concede a todas

librar pelos espaços diáfanos as penas ligeiras.

Tu é único Senhor do mundo,

tu dos globos celestes

é o Criador imenso, que tudo moves,

coevo

do Pai e do Espírito Eterno, eterno laço de amor.

Tu, quando criaste os astros do céu sempre em giro

e as legiões angélicas, habitantes felizes da altura,

derrubaste das sedes etéreas, como folha que rola,

a Lúcifer orgulhoso de seu esplendor deslumbrante,

e ambicioso do cetro divino. Lançaste-o nos antros

do fogo eterno com muitos milhares de seus companheiros,

e em vão o dragão te ameaça com os dentes e a cauda.

Tu, quando a raça de Adão, inchada de orgulho,

intentava até às estrelas levantar uma torre,

de tijolos cozidos ao fogo e de negro betume,

que tocasse com o vértice o firmamento celeste

e que lembrasse a sua glória: tu, desceste da altura,

lhes confundiste a língua e com ela todas as obras;

dispersaste os homens por várias regiões do universo,

deixando inacabado esse momento do orgulho.

E, como foi que outrora experimentou tua força

o Faraó que dominava as sete bocas do Nilo,

quando o agitado Mar Vermelho parou de estupefato,

rasgou em meio as ondas e mostrou longo abismo?

Tu abriste ao teu povo uma estrada segura

pelos plainos profundos do mar e nesses mesmos abismos

afogas o rei e sepultas seus carros de bronze.

Quando as águas do Jordão enchiam ambas as margens

e mal cabiam em seu leito, a uma tua palavra

se dividiram e volveram atrás: uma parte

parou e se ergueu à guisa de monte, e a outra

continuou a correr para o mar. Passaram seguras,

de pés enxutos, pelos vaus secos do rio, as fileiras,

admirando ao lado a montanha de águas suspensas.

De ti recebeu a merecida pena de morte

Jericó, a ímpia cidade das palmas, quando ruíram

ao toque das trombetas sagradas as altas muralhas

e se desmoronaram desde os seus alicerces mais fundos.

Então o teu povo invadiu e devastou vitorioso

a cidade inteira e exterminou a fio de espada

jovens velhos e até indefesas mulheres.

E que grandes extermínio feriu o exército dos Filisteus

que cercavam com tantas forças um povo sem armas,

quando, contigo à frente, Jonatas, soldado animoso,

rastejando de mãos e pés, passou os terríveis rochedos

com suas rudes arestas, e derrotou a multidão inimiga!

Ao medo horrível que lhes incutiste, eles fugiam,

enquanto o jovenzinho, veloz como um raio,

prostrava com seus golpes batalhões de inimigos!

O céu, o mar, a terra imensa, todos te temem,

tudo está sujeito ao teu poder, e até os infernos

estremecem ao teu nome. Tu, depois que a serpente

enganara nosso primeiro pai e sepultara o gênero humano

sob o peso do pecado, tu, para lhe renovares a vida

te abrigaste ao seio da Virgem Mãe; respiraste

auras humanas e nascido iluminaste as trevas da terra,

enriquecendo com dons celestes a pobreza do mundo.

Sofrendo em tua carne inocente horrendos trabalhos

e morte de cruz , arrancaste às fauces da morte

aquele a quem afeava o labéu do pecado,

e lançaste aos antros sombrios o tirano do inferno.

Penetrando nas férreas prisões do limbo vizinho,

soltaste os cativos e devastaste as regiões da tristeza.

Ao livrar das trevas os presos, irritou-se em suas cavernas

o dragão infernal. Tu o prendes em cadeias de fogo

e em vão ele uiva seus gemidos horrendos.

Quebras o poder à morte e calcas aos pés o inferno.

Sai das regiões inferiores cheio de troféus majestosos

e sobes às alturas do céu entre nimbos de glória.

Vencedor aplaudido. Celebras teu ilustre triunfo

sentando-se à destra do Pai, muito além das estrelas:

Com o cetro e a coroa, recebes o reino que mereceste.

Salve, artífice do mundo, Jesus, Glória do céu;

poderes e reinos te temem, veneram-te todos

os climas, onde quer que chegue o Sol com seus raios,

e excede tua magnificência as alturas celestes.

Já o teu nome se espalha até aos confins do universos,

ó Cristo, como torrente de penetrante perfume,

chegando até aos Japões, os mais afastados da terra.

Arrancadas às trevas e iluminada pelo sol fulgurante

da luz divina, também virá um dia adorar-te

a nação que se ceva agora em carnes humanas.

A terra em que sopre o Sul, conhecerá o teu nome

e ao mundo austral advirão os séculos de ouro,

quando as gentes brasílicas observarem tua doutrina

Glória imensa a ti, ó Pai bondoso; glória, ó Filho

imensa a ti; ó Espírito, glória imensa a ti!

Tu que concebeste pelo Santo Espírito ao Filho

do Pai eterno, glória a ti, ó Virgem!.

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