Apêndice da edição de 1563
Apêndice da edição de 1563
AO ILUSTRE MEM DE SÁ
Por muito tempo, herói, esteve oculta a sublime
majestade veneranda de teu coração generoso,
digníssima do poder, em limites alguns estreitado,
fadada a suster os raios torvos de Marte sangrento,
restaurar no mundo, por razão ou força, os séculos d'ouro.
Enfim te enviaram como governador a essas plagas
da gente austral, avessa a leis e tanta vez opressora,
sacudindo (ó maravilha) de nossa cabeça seu jugo.
Mas a Morte feroz foi, como sempre, invejosa
de teus feitos. Então lastimada chorou a terra guerreira
ao ver roubar um jovem, em cuja fronte brilhava
quanto pareceu a outro pai fugir em Ascânio.
Fora ele que do nobre sangue te nascera primeiro,
digno de que tal fama lhe celebrasse os destinos na morte
qual eles a concederam a tais pais, quando nascia,
digno de que a glória lhe preferisse à vida o sepulcro.
A morte, digo, saltando em tão grande duelo,
arrebatou esse penhor, último consolo paterno.
Reservado a qualquer risco e conduzido contigo
por horrendos abismos, atormentara-o o oceano
nas curvas ondas. Já não afaga os tenros braços inglório,
mas no campo de batalha, cobertos de armas, ativo
prostra corpos de inimigos, e grava nos astros
que brilham eternamente eterna lembrança.
Átropos já em chamas, mas inda não satisfeita,
esforça-se por mergulhar tais triunfos nas águas
do negro Letes. Na rápida torrente arrebata
das mãos vencedoras as palmas verdejantes da idade
áurea dos Portugueses; para que o olvido da hórrida noite
cubra a luz dos fatos com as trevas eternas.
Enquanto impiedosa prepara às tuas glórias e foice
com que ocultara os dois filhos, astros fulgentes do mundo,
ralentada pelo número das obras, seguindo-a
pelas costas, aproxima-se Francisco, filho segundo,
ilustre, vestido com as armas douradas da Apolo.
Com elas de improviso a agride, e rapidamente
rouba-lhe das mãos as verdes palmas, e à morte vencida
arranca os mesmo troféus que a cruel se dispunha
a roubas a teus filhos, aos teus feitos e fama.
Pois esta, sangrando monumentos a sucessos gloriosos,
poupou um merecido renome às fauces do tempo
devorador; e a luz que tu, chefe ilustre, concedes
aos filhos nascidos ao mundo, ele sozinho a restaura
a ti, aos teus feitos, a seus irmãos, como vida
que não se extinguirá jamais nos tempos vindouros.
Com razão pois nada perdeste, caríssimo pai:
pois vive um filho, por quem os mais te revivem,
e séculos felizes te sagrarão a vitória.
Estas poesias, fê-las editar Francisco de Sá, filho de Mem de Sá.