Livro III Feitos de Mem de Sá · Capítulo 4 de 6
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Livro III

Livro III

Já nossa mente fatigada perfez longas viagens

nas eriçadas planuras do mar, nas densas florestas da terra.

Já percorreu litorais, dantes jamais palmilhados.

Convidam-me feitos maiores, forçam-me a seguir soldados,

lançar-me de novo às ondas revoltas e desbravar os recessos

da floresta sombria. Guerras de maior vulto me restam

por cantar, mais gloriosas empresas do magnânimo Chefe.

Que ruínas e mortes espalhou seu valor triunfante,

de quanto sangue tingiu as ensombradas florestas

sopeando o furor do bárbaro, vós, ó celestes irmãos

inspirai-mo! Alta progênie, vós habitais os templos supernos

e a bondade do Rei celestial vos deu como guias

ao grande Chefe, para ajudá-lo, a seus tempos,

nos múltiplos trabalhos das expedições e da guerra,

e para abalar de pavor os corações inimigos.

Os triunfos obtidos do feroz inimigo, agora domado,

picaram de júbilo o peito de todos, num alvoroço

de paz suave. Mas, eis que, acompanhada de justa tristeza,

chega de repente notícia que desterra a alegria

da cidade do Salvador. Enquanto ao longo da praia

três cristãos lançavam insidiosas redes aos peixes,

foram cruelmente presos e arrastados pelo inimigo

que os trucidou com injusta e bárbara morte.

Mal ouviu a notícia, o Chefe, ferido no íntimo d'alma,

ergueu os olhos ao céu. Não se esqueceu que tudo sucede

por permissão divina; mas disse consigo estas palavras:

"Creio chegado o grande dia em que a bárbara tribo

receberá em morte o cruel castigo que pedem

tantos crimes cometidos, tanto sangue inocente vertido."

Sobem às naus sem demora, e entre o clamor dos marujos

rangem as amarras retesas: para o Sul voltam as popas.

Desliza a quilha alcatroada e singrando o oceano

aporta no seguro remanso da remansosa baía..

Entra na cidade logo o herói com o séquito grande.

Recebem-no com longas aclamações, música e danças,

como um vencedor em triunfo: mas ele abalado

por dor imensa, prepara-se para vingar as mortes injustas

com a chama e a espada. O incêndio do peito indomável

não sofre demoras. Então envia ao feroz inimigo

embaixadores que exijam se lancem em cordas e entreguem

a ele os assassinos, que sofrerão o merecido castigo

pelo crime cometido, pagando morte por morte.

Hesitam a princípio os bárbaros, tomados de medo.

Ondas de opiniões os arrastam em vários sentidos:

entregarão aos enviados os criminosos, metidos

em apertadas cordas, ou antes os livrarão, apiedados,

das fauces da morte? De um lado o medo do Chefe os aperta

do outro o amor e cuidado fraterno os coíbe.

Assim à onça parida acossam com inúmeros dardos

os caçadores que lhe vão roubar os filhotes:

nem o medo das armas, nem a cruel perspectiva da morte

lhe permitem parar um momento, nem a ânsia materna

lhe consente a fuga do posto e o abandono do ninho.

Mas houve uns loucos, a quem a desenfreada sede de sangue

atiçava mais ativa em labaredas de raiva

os peitos ferozes. Tinham chegado altivos, há pouco,

de suas terras natais, onde há o tempo já tinham sofrido

cruel matança das hostes cristãs, comandadas

pelo ilustre Chefe. Ainda ferozes os corações explodiam:

"Hesitar ainda? Não, não ceder! Esse terror vergonhoso

expulsai-o do peito! Perante esquadrões de mulheres

de que serve tremer? A vosso lado estamos para ensinar-vos

o modo de exterminar completamente o inimigo"!

Animados por tais palavras, desterram do peito os temores,

erguem a cabeça orgulhosos e remetem ao Chefe valente

estes mesmos dizeres. Quem poderia sofrer tal afronta?

Apressa-se o Chefe para devastar em guerra tremenda

o soberbo inimigo. Manda arrolar de todas as partes

batalhões de indígenas já submissos ao jugo de Cristo.

Preparam todos eles seus arcos e flechas farpadas

e esses escudos fabricados com couros de feras

tão duros que são impenetráveis às setas ligeiras.

Arrebatados de ardor, os peitos selvagens suspiram

pelos belos riscos da guerra. Inflama-se além do ordinário

a mocidade lusa. Anseiam partir e domar essas hordas

com o braço carregado de vingança. Rufam tambores

em rouco som. Ajustam-se as armas: ao peito a couraça,

o capacete à fronte. Enverga este uma pele de anta,

aquele se envolve em malha de liso algodão

que frustra o corpo ao golpe das setas velozes.

A maior parte não carrega o corpo com armas algumas

para livre de peias poderem seguir no encalço

aos inimigos em fuga e alcança-los em corrida ligeira.

Cintilam as espadas e os chuços de larga ponta de ferro,

os escudos de couro e de metal luzidio. Irrequieto,

o cavalo morde o freio, aspirando auras de guerra.

Tudo se alvorota: o furioso ardor guerreiro se apossa

da cidade inteira, cada qual se entrega à respectiva tarefa

diligente: tine por toda a parte o ferro das armas.

Tal qual na primavera, quando o céu se lava de nuvens,

saem dos fundos cortiços as abelhas em busca das flores

e por aqui, por ali recolhem contentes o pólen,

zumbem entre as ervas e, felizes com as patas douradas,

voltam para a colmeia, onde distilam o orvalho suave,

o mel para o próximo inverno: tudo é vida e trabalho

na faina alegre do lar. Rouqueja a escura oficina;

todas se aplicam à labuta, cada qual no seu posto:

cuidam estas das crias, aquelas do mel destilado,

Outras afastam os zangãos que

indolentes descuram

Todo trabalho, e, para gastar-lhes o mel que devoram,

se metem entre as abelhas procurando esconder-se,

mas elas os detém

e fincando-lhes os ferrões os destroçam,

e em linhas cerradas até aos umbrais da porta de entrada

varrem os cadáveres dos infelizes vencidos.

Dispostos todos em ordem, entram já pelas ondas.

Coalhado de naus, o mar espuma debaixo dos cascos.

São naus, são barcas e igaras, nas quais os Brasis

se atrevem à luta com vagas encapeladas.

Ao sopro do Sul macio as velas incharam

e em breve ferraram as praias da terra inimiga.

Situada no poente e erguida em picos de montes,

parece topar com a fronte as grimpas celestes.

Separada por entradas do mar que a invade

olha para a cidade dos Portugueses fundada

ao nascente do sol com inclinação para o norte.

De há muito tempo que brancos não tinham pisado

essa terra. Cercados de toda a parte por densas florestas,

os inimigos habitavam em escarpados rochedos,

como leões ferozes metidos em escuras cavernas.

Ardorosos os nossos põem-se ao caminho de dia e de noite:

ao peso da chuva e de mil outros incômodos , abrem

picada com a foice curva, abatem florestas,

tine o machado, geme o tronco, e ei-los à vista

do primeiro forte, fundado no cume de monte elevado

em ladeira escarpada. A bandeira da cruz na vanguarda,

atacam-no de rijo, abalando os céus com a grita.

Acodem as hordas contrárias e com flechas impedem

a subida aos soldados: horrenda fúria a todos inflama.

O horror cruel da guerra se espalha: já os selvagens

começam a tombar feridas: ao baque dos corpos

a terra estremece e fica toda juncada de mortos.

Caem já aos índios brutais os brutos braços e pernas.

Já se não fiam de suas flechas e ocas: embrenham-se

em vergonhosa fuga pelos matos e no escuro dos bosques

se escondem. O soldado prossegue e vence ardoroso

o píncaro do monte, desfechando golpes tremendos

e semeando a morte nas hordas que fogem.

Ficaram os troncos da selva tintos do sangue inimigo.

Depois que as armas prostraram o inimigo e a batalha

o lançou nas tocas dos bosques, como alcatéia de lobos

que os lebréus aterram e dispersam com latidos ferozes:

alegres acampam todos desfrutando o triunfo.

Descansavam já esquecidos dos trabalhos pesados,

quando de súbito uma voz, de boca em boca voando,

se espalha e cresce e perturba a paz dos guerreiros.

Dizia-se que um braço fora cortado e roubado a um cadáver

dos muitos que aí prostrado s deixara o inimigo.

Furtara-o talvez algum índio dos nossos, vencido

do antigo costume, para devorá-lo em segredo.

Mal chegou o rumor aos ouvidos do Chefe piedoso

manda apregoar em voz alta por todos os bandos

a ameaça de morte para quem se manchou de tal crime,

senão restituir esse braço e o não ajuntar quanto antes

ao corpo do qual o cortara às escondidas de todos.

Tão grande amor de Cristo lhe inflamara o desejo

de abolir os costumes cruéis dessa bárbara gente!

Estremeceram todos, um calafrio lhe correu pelos ossos

ao ladrão; foi-se depressa e repôs às ocultas

o manjar mal havido e em vão cobiçado!

Já Vésper no céu acendera os fogos dos astros

e os soldados a uma descantam os louvores divinos,

enchendo de melodia aquelas solenes alturas.

Os batalhões brasílicos e as lusitanas coortes

juntos louvam a Deus, e ao Pai celeste com preces

inclinam aos seus desejos; e ao Senhor poderoso,

que num sopro liqüefaz os cumes dos montes,

Cristo e a todos os bem aventurados com súplicas pedem

derrotem os inimigos. Com o coração ardoroso

esperam as futuras pelejas e refazem as forças.

Já a aurora afastara do céu as sombras da noite

despojando as terras do negro manto de trevas;

erguem-se lestos, decididos a exterminar o inimigo

e devastar-lhe com a vingança do fogo todas as casas.

Avançam em ordenadas fileiras pela selva, coberta

de verde ramagem, e a quantos inimigos encontram

dão morte cruel; devastam os campos e lançam nas ocas

o incêndio. Infatigável o soldado ora arroja seus passos

a montes altos, ora desce ao fundo dos vales,

ora se arrasta por sendas difíceis, até que altíssimo cume

de monte escarpado põe termo ao longo caminho.

Aí fundo vale parece descer ao abismo do inferno,

sombreiam-no impressionantes matos de densa folhagem,

divide-o em duas partes uma torrente em cascatas,

que enche toda a floresta do seu rouco murmúrio.

O monte, que ao lado se ergue, se vai às nuvens, de altura,

áspero de escalar; só existe caminho, e difícil,

por estreito trilho. Assombram à direita e à esquerda

precipícios medonhos e rochedos inacessíveis.

No cume do monte se alinham as defesas, formadas

de grandes troncos de árvores e de pedras enormes.

Aí se aglomera a flor da juventude inimiga.

Estremecem a princípio os nossos e desfalecem à vista

do cabeço que julgam inexpugnável: incute-lhe forças

Aquele que abala o mundo com um aceno de fronte.

Exortam aos companheiros os chefes do exército: "Vamos!

confiança no Pai dos céus: confiança em Deus poderoso

que move os astros! Ele próprio com sua força divina

esmagará o feroz inimigo. Jovens, à cidadela!

passo firme e avante!" Então precipitam-se os jovens

tentando a escalada. Ribomba o céu aos clamores,

ecoam as escarpas, respondem os vales profundos.

As hordas selvagens contratacam de cima do monte,

levantam o grito de guerra que reboa na altura,

e vibram fremindo os arcos; furor guerreiro os sacode,

e logo despejam do alto uma chuva de flechas,

cobrindo os cumes verdejantes como uma nuvem.

Assim, quando o vento Sul flagela às vezes os campos,

o granizo despoja dos seus belos cachos as vides

e denso saltita sobre os tetos tragicamente soando.

Há um frêmito de horror nas matas. Os inimigos resistem

com denodo aos assaltantes, rolando pedras enormes.

Mas aos esquadrões de Cristo nem flechas nem pedras

conseguem parar; o soldado, em fileiras cerradas

se arroja teimoso, vence as escarpas, despede certeiro

dardos de arremesso. Chegam às mãos: foge o selvagem.

Persegue-o, alcança-o, mete-lhe a espada, vara-lhe o peito.

A uns a lança de ponta aguda atravessa a ilharga,

abrindo à luz do sol as profundas cavernas da vida

e levando a morte aos membros pela larga ferida.

Outros tombam, fendida a fronte a golpes de espada,

a outros trespassa o coração a seta ligeira.

Pelo solo escorre negro sangue, as matas se encharcam

da muita sangueira. Aqui e ali corpos nus e sem vida

jazem nos caminhos e fundos recessos dos bosques.

Quem poderá contar os gestos heróicos do Chefe

à frente dos soldados, na imensa mata! Cento e sessenta

as aldeias incendiadas, mil casas arruinadas

pela chama devoradora, assolados os campos,

com suas riquezas, passado tudo a fio da espada!

Choraram a perda dos pais os filhos queridos,

carpiram as mães inconsoláveis a perda dos filhos,

a esposa, agora viúva, chora a morte do esposo.

Morreram muito à míngua perdidos na selva,

e, fato horroroso! com as próprias mãos, pais desumanos

mataram os filhos que pelos bosques os seguiam chorando,

para que o choro deles não atraísse o inimigo.

O terror se estendeu, estendeu-se o luto profundo:

tudo eram lágrimas, prantos e espectros de morte.

Já há quinze dias, a estrela da manhã, ressurgindo

do fundo oceano à frente do carro do sol resplendente,

contemplava nosso exército a percorrer densas matas,

incendiar casas, talar campos, matar inimigos.

Era tempo de voltar aos lares, rever as igrejas,

casas de Deus, levando em triunfo o pendão da vitória.

Mas o feroz inimigo ardia em ira indomável,

como a ursa terrível, a que há pouco roubaram as crias.

Desgostoso da vida e de uma tranqüilidade forçada,

resolve atacar os batalhões que voltam sem ordem.

Já estes chegam às barcas, quando os assalta o selvagem

sem medo à lâmina da espada e aos mortíferos tiros.

Em seu peito valente, o Chefe não sofreu tal descaro:

manda retroceder aos soldados e ele próprio se atira

aos inimigos que atacam, sobraça a lança medonho,

esporeia o cavalo e lhe solta as rédeas inteiras.

O animal fogoso se lança ferindo a terra e atropela

com as patas ferradas e esmaga esse bando de loucos.

O herói, com o braço fulminante, vai vibrando seus dardos;

com o peito varado lado a lado, vão tombando os selvagens.

Os soldados, atrás do Chefe, juncam de mortos a praia.

O resto do bando foge para o esconso abrigo das matas.

Embarcam pois os nossos em demanda das praias amigas,

e ferram finalmente o porto as quilhas cansadas.

Logo que o herói, cercado de seus batalhões triunfantes,

pisou terra, ressoaram de toda a parte louvores

ao Deus eterno. "É ele que estende as trevas da noite,

qual negro manto, por toda a vastidão do universo;

e ilumina o mundo com a luz suave da aurora.

É ele quem prova os mortais com a pobreza penosa

e cumula de dádivas largas e abundante fartura.

Ele quem deprime as alturas até o fundo dos vales

e ergue as terra chãs até a altura dos astros.

Ele mostrou as forças divinas da destra potente

e os milagres de seu braço; expulsou os soberbos

dos desígnios de seu coração, e de seus tronos sublimes

aos poderosos: aos pequeninos ergueu às alturas,

e dadivoso cumulou de muitos bens e riquezas

aos que a negra fome oprimia, deixando famintos os ricos;

aos débeis encheu de força e aos cheios de força

despojou, quebrou-lhes os escudos, partiu-lhes os arcos.

Ei-los prostrados, os fortes! e com eles armas e dardos:

o medo e o pavor invadiu os bandos selvagens.

Estupefatos estarreceram, como mármores rijos.

Como o pó se desfaz e dispersa ao sopro do Norte furioso,

assim se desfizeram os bárbaros à vista de Cristo

e foram despenhados nos escuros abismos da morte"

Assim descantavam todos, as mães e as esposas,

os meninos e os velhos trêmulos. Eles todo o tempo ansiosos,

enquanto os soldados cristãos devastavam o solo inimigo,

erguiam preces e mais preces ao Deus das batalhas,

para que refreasse a cólera e o furor dos selvagens,

e o exército fiel alcançasse completo triunfo.

Já agora exultam de gozo, já tudo revibra

de ruidosa alegria, entregam-se a danças e cantam

à volta do grande Chefe, desfraldando a bandeira

da cruz vencedora e das cinco chagas que tu, ó Cristo,

sofreste em teu corpo exangue pelo gênero humano,

e que domaram para sempre o feroz tirano do inferno.

Os canhões em salva vomitaram tiros horrendos

com ribombo medonho, enchendo o céu de fumaça.

Tudo dá sinais de desusada alegria: ressoam

as casas em festa, as ruas se apinham

de gente, que aclama o Chefe e o precede ao templo sagrado.

Aí o exército, que tornara são e salvo, entre louvores

e justas ofertas, rende a Deus graças do íntimo d'alma.

Depois acompanham o Chefe ilustre até ao seu paço.

Três vezes a aurora afugentara dos céus os astros noturnos

e a fronte orvalhada lhe brilhara aos raios solares,

quando apareceram, singrando o mar, com muitos remeiros,

algumas canoas: vinham em direção da cidade e traziam

os inimigos que tantas guerras e derrotas prostraram.

A que vêm? porque agora visitam os litorais inimigos

de boa mente? que trazem? Armados os guerreiros esperam.

Eis que pisam a praia e vêm arrastando dois índios

de braços nus amarados, de cerviz e fronte caídas,

outrora tão altivos. Suas mãos estão úmidas ainda

do sangue cristão que derramaram há pouco.

Colocam-nos aos pés do Governador e suplicam,

já tímidos, que deponha ira e expulse do peito

o justo rancor: "De nosso sangue sorveu a terra bastante,

dizem eles, tingimos de rubro as nossas florestas

com o sangue dos pais, dos irmãos e dos filhos queridos.

Choram a morte de suas esperanças as mães desgraçadas,

os filhos procuram, ainda em vão os pais que o sepulcro

escondeu. No fundo das matas a fome impiedosa

corta com morte horrenda a vida dos errantes.

Derrocou as aldeias todas a fúria do incêndio;

os campos talados pela guerra não nos dão o sustento.

Os dois principais e cruéis assassinos dos homens.

que junto da praia lançavam as redes de pesca,

conseguiram, fugindo, escapar à terrível vingança

de teu braço. Ei-los aqui: nós tos entregamos agora:

lavem com o sangue sua culpa, paguem vida por vida!

Vencidos, pedimos paz: já não recusam os ombros

o peso da sujeição. Dá-nos a paz, nós to pedimos, ó Chefe!

Impõe-nos as leis que quiseres, que nós as cumprimos."

O Governador ouviu com bondade essas palavras

e respondeu: "Se vos fiz guerra cruel de extermínio,

devastando os campos e lançando em vossas moradas

o incêndio voraz, levou-me a isso vossa audácia somente.

Já agora, esquecidos os ódios, vos concedemos contentes

a aliança e a paz que quereis e sentimos vossa desgraça.

Porém, deveis vós observar as leis que vos dito."

Manda então que refreiem suas rixas contínuas

que expulsem do peito a crueldade e o hábito horrendo

de saciarem o ventre, à maneira de feras raivosas,

com carnes humanas. Também lhes ordena que guardem

os mandamentos do Pai celeste e a lei natural

e ergam igrejas ao eterno Senhor das alturas

em seu torrão natal; aí serão instruídos

na lei divina e de vontade abraçarão com os filhos

a fé de Cristo, porta única do caminho do céu,

Além disso, tudo quanto roubaram dos Cristãos às ocultas

ou por assalto, em tantos anos, os próprios escravos

mortos ou devorados, tudo pagarão e mais os tributos.

Para logo, submissos executam os preceitos divinos,

desejosos de abraçar a fé e ouvir a palavra

da salvação e conhecer o nome de Cristo Jesus.

Finalmente, ó Bárbaro, se abriram as portas de ferro

de teu coração, por tantos anos fechadas!

Enfim, o teu peito mais duro que o bronze fundido

já se abranda e tua alma despe a dureza de pedra!

Essa raça altiva, apaixonada por guerras sangrentas,

acostumadas, de há tanto, a devorar, como tigres,

carnes humanas e a viver impune em altos rochedos,

sem jamais acertar o aperto de mão dos Cristãos,

eis que jaz vencida e submete a cerviz alterosa

ao jugo da lei. A que lançava ameaças terríveis,

há pouco, livra-se agora das cadeias do inferno,

escapa das fauces do leão que rugia à sai volta

e entra para o teu rebanho, ó Jesus, bom pastos!

Tu lhes embebe os seios áridos com o orvalho divino,

como chuva abundante que nuvens prenhes derramam,

e lhes abrandas as almas, duras como blocos de mármore.

Como outrora, às tuas ordens , a natureza aterrada

arrojou um rio de água do penhasco sequioso:

assim agora corações-rochedos se abrandam.

Regadas pelas tuas águas, fecundadas pela torrente

da palavra divina, suas almas serão novas fontes.

Depois que tais feitos realizara o Chefe piedoso

por amor da fé, e, firmado na força divina

de Cristo potente, destroçara o feroz habitante

dos montes inacessíveis, terror dos cristãos tantos anos:

prepara-se para ir às praias, onde bárbara gente

espostejara a muitos cristãos juntamente com o Bispo,

conspurcando as mãos ferozes com sangue inocente.

Talvez agrade conhecer os derradeiros sucessos

do Bispo. Serei breve: mais uma vez renovo forçado

a dor passada às almas, provoco o pranto dos olhos

e reabro com o verso cicatrizadas feridas.

Era o tempo, em que ao sopro do Sul o nauta abandona

as praias brasílicas em direção dos reinos que jazem

sob o Boieiro que guia seu carro de estrelas. O Bispo,

com inúmeros cidadãos, embarcou mar em fora

da cidade do Salvador, rumo ao litoral das Espanhas.

Os ventos propícios enchiam o bojo das velas

e alisavam o oceano, como um afago celeste

às naus que sulcavam as ondas do mar espumoso.

De repente trovões começam de ouvir-se rolando

na amplidão do céu, medonhos relâmpagos chispam

do embate das nuvens e as alturas se desfazem em raios.

O vento Sul se atira torcendo em vórtices as ondas

e sacode em turbilhões horrendos o mar tenebroso,

que se enfurece ao peso da borrasca, ergue em montanha

as águas turvadas e as lança raivoso às alturas.

Tudo é confusão: range ao embate das ondas inchadas

a nau que os ventos fustigam com as cordas da chuva.

O piloto já brada do alto da popa: "Marujos,

recolher velas, depressa! soltar as enxárcias..."

"sopra o Sul, depressa!" ergue-se a grita da gente,

precipitam-se todos a uma a soltar as amarras,

e sobem velozes aos mastros e recolhem as velas

e abatem as vergas. Tudo ferve em tumulto feroz!

o terror invade a todos e a todos agita.

Entra o medo, já tremem de horror e o espectro da morte

se agarra teimoso aos olhos espavoridos da gente.

Do alto da popa lança-se então a âncora , para

firmar com o dente férreo a nau: última luz de esperança!

Mas uma onda em montanha se quebra contra o costado,

arranca das mãos a corda e arroja a nau às alturas.

A tempestade horrenda em rugidos imenso se assanha

cada vez mais contra o mar e, prostrando-o às rajadas

revolve e arroja montanhas de água espumosa.

Próximas já estão as praias da bárbara terra

onde o índio feroz habita, em inacessíveis florestas,

ocas escuras que ressumam densa fumaça:

Entre cantos contínuo o bárbaro coze seus vinhos

sobre grandes fogueiras e enche de uivos o espaço.

Aí a terra está sempre empapada no sangue

dos pobres prisioneiros, a quem os malvados esmagam

as cabeças com crueldade. Pendem dos tetos escuros

carnes humanas, assadas ao fumo das brasas,

enquanto os crânios desnudados dos cabelos e os ossos

despojados das carnes se colocam à entrada das portas.

As ondas ameaçavam os nautas de morte iminente:

todos com o Bispo procuravam abalar com as preces

os céus: um rio de lágrimas lhes banhava o semblante

e gemiam: "Pai bondoso dos céus e tu, Cristo benigno,

que nos preparas? dizei-nos : permitirás que morramos

no meio das ondas, ó Pai? que sejamos vil pasto

dos peixes vorazes? A morte que nossas culpas merecem

será esta? Socorre compassivo estes teus infelizes,

pelos quais suportaste as ondas do mar agitado

de tuas Paixão e te submergiste na tempestade da morte.

Se nossos pecados movem o furor da tua justiça

que te aplaque a inocência: porque morrer as crianças?

que crime fizeram elas?... Vem auxiliar teus remidos,

Redentor nosso, não nos trague o negro abismo dos mares.

Desgraçado que somos! ao naufrágio das almas pelo pecado

segue-se o naufrágio dos corpos no mar... e tu não nos ouves.

Não nos castigues logo, dá ao arrependimento seu tempo,

Cristo bondoso, para lavarmos nossos crimes com prantos."

Assim em vão oravam, assim de contínuo gemiam.

O oceano cruel em turbilhão os acomete de flanco

e por desgraça arroja a nau sobre duros rochedos.

Assaltam-na as ondas que esbravejam de escuma,

batem-na contra os escolhos e com roncos furiosos

e despedaçam: soltam-se as tábuas, ameaçam os mastros

medonha ruína. Eis que alguns se atiram às ondas

para salvar-se a nado: mas a onda torva os arrasta,

os envolve e os atira aos rochedos brancos de espuma.

Outros de melhor parecer num escaler se acomodam

e à força de muitos remos se dirigem à praia.

Mal desembaraçados, com os corpos úmidos d'água salgada,

para o logo o gentio malvado lhes sai ao encontro:

traz no peito feroz o ardil preparado,

e dá provas de fingida amizade; acolhe os cansados

e necessitados náufragos e os conduz às ocas traidoras.

Põe-lhes alimento, acende fogueiras para aquentar-lhes

os corpos gelados e os membros que tiritam de frio.

A que excessos não obrigas os corações dos selvagens,

ó execranda fome de carne humana! Apressada,

a turba feroz percorre as aldeias vizinhas,

prepara arcos e flechas, aconselha as foices recurvas

e tacapes pintados, enquanto os outros, com vozes amigas

e mesa posta, enganam aos que nada de mal suspeitavam.

Afinal descobrem as ciladas e gemem: "salvos do abismo

e das tormentas do mar, será possível que agora

sejam espostejados, por dentes selvagens, míseros corpos

que o mar furioso poupou? Só isso faltava à sua desgraça?"

Fogem pois dos antros traiçoeiros e buscam as praias

de novo: pressurosos percorrem areais ignorados

homens alquebrados pelo trabalho, delicadas donzelas

e pacíficos meninos. Oh! se houvesse algum modo

de escapar às fauces cruéis! Mas já o feroz inimigo

lhe corre ao encalço e enche as praias de hórridos brados,

insultando aos desgraçados. Já voam as setas de longe

e trespassam, sem dó nem piedade, ora uns, ora outros.

Os golpes destroçam a pobre multidão indefesa:

como quando lobos dos montes se abatem sobre um rebanho

de mansas ovelhas: lá vão horrendos, pungindo da fome,

ameaçando mortes; os cruéis dentes se fincam

nas goelas das vítimas, rasgam e sugam o sangue

e devastam com muitas mortes a grei inocente.

Chegam por fim a um rio de leito profundo

que lhes barra o caminho. De um lado as águas os cercam,

do outro, em transportes de fúria cruel, o inimigo os ataca.

Começa a matança: a este mil setas varam o peito

todo ensangüentado, àqueles o tacape parte a cabeça,

a outros o ferro da espada rasga as entranhas.

O chão estremece ao baque dos corpos feridos,

e o sangue em borbotões tinge as brancas areias.

Oh! quem conteria as lágrimas, quem do fundo do peito

não arrancaria gemidos, ao ver morrer as donzelas

de morte ignóbil. Cruéis despedaçam com golpes ferozes

os delicados corpos, fincam-lhes paus sem pudor nem respeito,

e assim as arrastam com fúria pelas praias bravias.

Espetáculo infame e indigno de ver-se! Que sentimento

experimentaste, malvado, ao perpetrar tais crueldades?

que ódio penetrou teu coração feroz ao trespassares

tenras carnes com paus agudos, ó sangüinário?

ao arrastares pelas praias do mar que gemia

despedaçados corpos femininos, e ao contemplares

todo o litoral em sangue empoçado?

Entretanto, sobre troncos amarrados com vime flexível

o Bispo atravessa o vasto espaço do rio.

Da parte contrária acodem os cruéis inimigos,

vencem a distância a nado por vaus já bem conhecidos.

Espumam as águas: entre gritos horrendos, preparam-se os índios

à matança impiedosa. Corre o Bispo para a úmida praia

e, caindo, seus joelhos cansados se afundam na areia.

Ergue mil preces ao Pai celeste, e nos termos que pode,

assim fala ao bando furioso: "Sou eu, sou eu mesmo

o grande abaré! porque procurais dar-me a morte?"

mas que suspiros lhes dobrariam os loucos intentos,

que queixumes ou lágrimas? seria mais fácil

comover leões da África ou leopardos ferozes

do que com rios de prantos dobrar esses selvagens

acostumados a fartar o ventre com carnes humanas.

Assim clama ele em vão, ajoelhado na praia.

Rápido, vem-lhe ao encontro, pela parte contrária

o desalmado inimigo, de espada em punho. Cego de raiva,

com a foice recurva lhe fende pelo meio a cabeça,

afeiando a fronte ungida, com ferida de morte:

ele caindo forma na margem vasta mancha de sangue.

Os membros todos lhe desfalecem aos poucos: em breve,

espetáculo lastimável, exala o derradeiro suspiro.

Foi este o fim do grande Prelado, quem por primeiro

regeu as plagas brasílicas, de báculo, mitra e tiara.

Glorioso outrora, ei-lo estendido na margem do rio,

cadáver inundado de sangue, e, ó cena horrível!

todo despido, todo ferido, sem a paz do sepulcro.

Assim o braço impiedoso deu morte infamante

a muitas vidas, juncou a terra de cristãos, imolados

cruelmente, banhando as praias com sangue inocente.

Ei-los que jazem nus os corpos dos portugueses crivados

de enormes feridas, mesa posta à rapina das aves

e à gula não menos feroz dessa bárbara gente.

Muitos poucos escaparam à matança, escondidos

em densas florestas. Passados mil riscos de mar e de terra

chegaram por fim ao refúgio cristão a cidade

e aí deram notícia de tão inesperado desastre.

Quem terá palavras para narrar a dor que pungiu

os corações de todos? os gritos loucos das mães,

aí! pobres mães! que tanto choraram os filhos perdidos!

Soltas as tranças ao colo, arrancam de dor os cabelos,

arranham com unhas crispadas as faces em pranto,

e ferem de contínuo os peitos com os punhos cerrados.

Também os filhos órfãos choram seus pais falecidos,

o irmão lamenta a irmã que a morte roubou impiedosa,

a irmã ao irmão assassinado barbaramente,

a esposa ao companheiro querido que a deixa viúva.

Dão todos largas ao pranto e às muitas lágrimas juntam

a indignação pela morte nefanda do Bispo.

Lamentos, fundos gemidos e queixas sentidas

enchem de longos rumores todas as casas.

Estava o Governador valente decidido a vingar-se

dessas mortes cruéis e a domar o feroz inimigo

com represálias: se maiores combates não o chamassem

a outro campo. Maiores trabalhos pela honra de Cristo

e pela conquista da verdadeira glória o esperam.

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