Parte 4 Cruel Amor · Capítulo 4 de 24
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Parte 4

Igreja. Elle muito alto, grisalho, ella com os cabellos loiros rutilando ao sol e um alegre brilho nos olhos azues; Fortunata suspirou alto : — Eu só queria que você cantasse hoje, Hortensia, para essa gente da cidade ficar toda pateta! — Uê! coitada de mim... quem sou eu! — Ruy diz que você é a Bonança !... — Fantasias do Ruy ! João Sérvulo, com a opa a fluctuar-lhe no corpo magro de ave pernalta, disse que seria bom irem tomando lugar na Igreja. Flaviano não esperou segundo aviso, e mais carrancudo, mordido por ignorada vespa, fez signal á noiva que o seguisse. Ella passou rente ao Marcos que, muito mais alto, todo se curvou para sentir-lhe o cheiro dos cabellos lustrosos. Com uma voz argentina, de inegualavel timbre, a Hortensia faliava, olhando para o mar : — Graças que chegou o dia dos peixinhos poderem nadar na beira da praia sem medo nenhum... os remos estão descançados, as redes enxutas...

— Do que você se foi lembrar : dos peixes! interrompeu Fortunata rindo; e depois : vamos, que ahi vem o Ruy, e conversa puxa conversa, não se acha depois lugar lá dentro ! Chegado ao alto, Ruy não entrou na Igreja, quedou-se á espera, olhando para o caminho. Vestidos alegres tachonavam a encosta de tons de papoula e boninas campestres. Ella ainda não apparecia; caminhou então para a frente, olhando para o horizonte '|S CRUKI. AMOR largo. Que manhã, que doçura ! dir-se-ia a infância do mundo, tal a pureza do mar e do céo sem uma sombra! Por um momento o seu espirito inquieto repousou deleitado naquella grande paz. Parecia-lhe que se a vida fosse sempre assim, o homem poderia viver mil annos sem sentir jamais o vinco da lagrima, a pulsação do esforço, a agonia do suor ou o amargor da saudade. Maio formoso despejava no ar um fluido de suave repouso, que adormecia na alma o soffrimento. Resoavam fora os cânticos da Igreja, e uma gaivota pairava no ar sobre a sua cabeça, como a glorifical-o na natureza harmoniosa.

A abstracção foi curta. Uma voz chamou-o. Era a de D. Delphina, mulher do senador Guidão, que ia com a filha solteira, a impassível D. Leonor dos olhos grandes, e pedia a sua companhia para ajudal-as a entrar na igreja, já repleta de povo. Ruy teve de abrir caminho até fazel-as passar para a capella-mór, e, só depois de mal ou bem as ter accommodado, foi que procurou ver a filha adoptiva de Rola, essa formosa Adda, que não lhe sahia um instante do pensamento. Não procurou muito tempo. No meio de um bando de véus brancos e de grinaldas de rosas de commungantes, ella rezava de joelhos, com o seu lindo perfil levantado para o altar. Entre o grupo pallido. das virgens veladas, a sua figura resaltava num destaque sensual, com o seu vestido escuro degollado mostrando-lhe o pescoço roliço e branco, todo nú, o cabello negro e abundante enrodilhado na nuca num rolo traspassado por um prego doirado e um enorme l'.l ibisco escarlate sangrando-lhe o peito, arredondado, feito para o amor.

Parecia uma Venus de joelhos, castigando a sua carne de peccado, e redimindo a sua alma no anceio desesperado das supplicas catholicas. — Que pedirá ella a Deus? pensou Ruy, sem despregar os olhos do seu bello rosto extatico. Pedirá que eu a ame ainda mais? que os nossos destinos se unam depressa e para sempre? Toda aquella contricção, todo aquelle enlevo nascerão do amor que me tem, este amor que é a nossa tortura e a nossa maior... a nossa única felicidade?! Nada a avisará de que eu estou aqui? Não... nada... ella percebe só que está linda e deixa-se contemplar naqüella attitude, tão em desaccôrdo com o seu typo de deusa paga... Como meu pai se riria se a visse assim... O Coronel Mangino costumava dizer que Adda era só artificio, o próprio fingimento em fôrma de mulher. Ouvindo tal, Ruy revoltava-se, rompendo em protestos que a defendiam, mas no fundo do seu espirito ' ficava alguma cousa -dessa accusação : a duvida.

Ninguém em Copacabana sabia de quem era filha essa Adda, enjeitada á porta da Rolinha, em uma triste noite de chuva. Os pescadores antigos do lugar conheciam-n-a de pequenina, quando ainda de gatinhas se arrastava na praia, á vista cautelosa da sua mãi adoptiva. Todos elles tinham sentido nos braços o seu peso, a todos tinham puxado os cabellos as suas mãosinhas trefegas. Todavia, á proporção que ia crescendo, e se ia embellezando, essa creaturinha sem origem, tomava ares de filha de doutor, como fitl elles diziam com resentimento e desdém. Mesmo as suas companheiras de infância, nascidas e criadas no mesmo bairro, a Maria Adelaide e a Hortensia, eram agora evitadas por ella, que pendia Ioda para a D. Leonor, filha do ricaço Guidão... Atinai, a Maria Adelaide, orphã de carpinteiro, era noiva de um pescador mestiço; e a Hortensia fazia redes cantando para ajudar o pai ! Ella insinuara-se, não se sabia como, em casa do senador Guidão; herdava os vestidos da D.

Leonor, que chegava a leval-a ao theatro e a outras festas comsigo. Se Adda fugia dos humildes, Rola conservava o seu lugar entre elles. Era a medica dos pobres, com a sua caixa de homoeopathia sempre prompta; e, quando Deus queria e o tempo lhe sobrava, servia-lhes de enfermeira... Em baixo do púlpito e encostado á parede, o pescador Marcos não tirava os olhos de cima da Maria Adelaide; por duas vezes a moça o fixara também, rápida e furtivamente; mas o noivo estava a seu lado, de sentinella, e ella retrahia-se logo, assustada, apertando os dedos entrelaçados, em que luziam as pedrinhas falsas dos anneis dos turcos. Desfiava PadreNossos, sem pensar no que fazia, machinalmente. Por seu gosto, voltar-se-ia de todo para esse pescador branco, que a comia com a vista, e era por certo muito mais interessante do que o Flaviano, seu noivo... Quando se levantou, findo o officio, tinha os joelhos magoados e uma tristeza no coração.

O noivo parecia ter adivinhado qualquer cousa e acercou-se delia carrancudo. Maria Adelaide teve então vontade de fugir e metteu-se, calada, pelo grupo das mulheres CnUEL AMOR 51 dos pescadores — a Fortunata, desembaraçada, fallando a toda a gente; a mulher do Rufino, com o seu rancho de creoulinhos, e a filha do Lino, a doce Hortensia, que a acolhia sempre tão bem. A mãi e as irmãs chamavam-n-a para o seu lado e ella fingia-se surda, queria rodear-se de outra gente, fugir do Flaviano, certa de que, dentro do peito delle, roncava trovoada, prompta a desabar sobre ella... Ao sahirem da igreja, vio Marcos ao pé da porta. O seu vestido roçou nos joelhos delle, os seus olhos de cordeiro manso levantaram-se para o seu rosto queimado do sol e dos ventos do mar. Elle tinha um ar triste e luminoso ao mesmo tempo; ella empallideceu, como se lhe dera uma vertigem. Fortunata propunha : — Vamos ficar aqui um bocado, para ver as moças de Botafogo?...

Vocês estão reparando? Para estar todo o pessoal da Guanabara — falta só seu Freitas, seu Baptista e o Rubião... A gente da Cruzeiro t& quasitoda também... Só Pedro mudo não deixa os peixes em paz nem em dia sagrado. Está lá sósinho nas pedras... Lá vem Rohnha com a gente do Dr. Guidão... Flaviano commentou : •— Disseram que hontem ella foi apanhada aqui sósinha com o Ruy... — Apanhado é peixe; não venha já com malícia, exclamou Fortunata, offendida. Tá vendo, João Sérvulo? ninguém escapa á lingua do mundo... D. Rola é uma santa ! Flaviano respondeu ; — E' mulher. CRUEL AMOU — Que novidade, gente 1 Ser mulher é crime ? ! — A mulher é perdição do mundo. — E o homem é a tentação do diabo ! — Quando a mulher não é séria deve ser morta aos bocadinhos, como tatuhy para iscas de cação ! Houve uma gargalhada. Só Maria Adelaide baixou para o seu vestido branco a vista toldada por uma nuvemsinha triste...

— Sabe que mais, Maria Adelaide? — aconselhou Fortunata, alto, com a sua franqueza sã : Eu se fosse você procurava outro noivo, mais socegado. Flaviano pensa que mulher é sardinha e que é tão fácil passar a navalha em uma como em outra. Livra ! Até estão fazendo a gente peccar com estas conversas depois da missa ! João Sérvulo tá com cara de fome, adeusinho. Até logo de tarde para a procissão ! Voltando-se para um pescador negro que viera á festa com a mulher e os filhos endomingados e lozos, continuou sacudidamente : s. — Compadre Rufino, o senhor vai comnosco mais a comadre Rosa. As^crianças têm cama, têm leite, tá tudo prevenido. — D. Maria da Conceição, disse ainda dirigindo-se á mãi do Marcos : — não faça cerimonia ! quando quizer descansar, minha casa está ás ordens. Até logo pr'a todos ! A pouco e pouco foram descendo os fieis. Só Maria da Conceição segredou ao filho que ficasse com ella mais tempo alli.

Marcos olhou espantado para a mãi. — Ficar alli, para que? ! Maria da Conceição não respondeu logo e caminhou para a frente da igreja, postando-se a olhar muito séria e sombria para o mar. O filho tornou a indagar do que lhe quereria ella.. — Quando estivermos sós eu t'o direi! Espera ! Marcos girou sobre os calcanhares e foi espiar para os lados da praia, a vêr se lobrigaria ainda ao menos um esvoaçar das fitas da Maria Adelaide. Entretanto, os fieis iam descendo e o outeiro em cima ficando deserto. Quando se vio só, Maria da Conceição chamou o filho, fêl-o sentar-se no grammado do chão, a seu lado, e depois de um instante de preparo, fixando nelle os seus olhinhos azues, de ruiva, disselhe, com amargura : — Tu gostas da Maria Adelaide ! 0 rapaz córou subitamente; depois, os olhos encheram-se-lhe de água e elle abaixou a cabeça. Maria da Conceição, estendeu a sua mão curta e engilhada, mais pelo trabalho do que pela idade, segurou na mão calejada e comprida do filho e ficou-se a contemplal-o, com pena.

Toda ella faiscava ao sol, nos seus ouros bem limpos é abundantes : as arrecadas das orelhas, os cordões do pescoço, os corações enormes de filigrana que se lhe espalmavam no peito sobre a casemira preta de um casaquinho sem abas, até nos cabellos ruivos, enrolados em trancas apertadas na nuca. Marcos contemplou-lhe o rosto longo, sulcado de rugas e perguntou : — Como foi que a senhora percebeu?... -— Olhando para ti. Sabes que não olho para mais ninguém; mas, filho, é precizo mudares de tenção. A pequena tem dono. E que dono ! — Ella não gosta delle. — Hein? — Ella não gosta delle. — Cala-te; é sua noiva, deve* querer-lhe bem. — Teme-o. — Cala-te. Vem fazer commigo uma promessa a Nossa Senhora. Vamos pedir-lhe, de joelhos, meu filho, que te faça esquecer essa paixão... — Não quero. Prefiro soffrer. Ella não o ama, ainda poderá ser minha mulher... — Como sabes tu isso? Ella disse-l-o? — Adivinhei-o, mãi.

Ella nunca me fallou. — Adeus ! adivinhaste ! Pensas uma cousa e ella é outra. Se o Flaviano, aquelle bode excommungado, sabe que lhe cobiças a noiva, mata-te ! —• Que mate. — E eu? — A senhora é mãi, me perdoará. — E' o pago que me dás! — Mas o que é que a senhora quer que eu faça? ! respondeu elle quasi gritando. — Quero que me promettas que nunca mais lias de olhar para ella, nem lhe passares á porta, nem andares em companhia da sua gente... — Que mais? ! — Que venhas commigo fazer na igreja uma promessa, para a esqueceres. — Prefiro morrer com ella no coração. — Lembra-te de que o noivo é um pescador como tu! — Só isso, mãi, só isso é que é a desgraça... —- Um pescador não quer a infelicidade de outro pescador. — Não, não pôde querer! — Bem vês que tens de mudar de idéa. — Oh, mãi! — Já me tens dito que um pescador é como um irmão de outro pescador. Então não has de ser como Caim... Deixa a rapariga em paz...

— Sabe? a senhora não lucrou nada com dizer-me essas cousas... antes ficasse calada. Eu não vou dizer á moça que gosto delia... mas gosto... não sei por que... nem como foi... ella também gosta de mim... o resto é com Deus ! . — Ou com o diabo ! Ao dizer estas palavras, a portugueza sentio bafejar-lhe á nuca um sopro quente, como o hálito de um animal. Voltou-se assustada. Atraz delia estava o mudo, ágachado, de orelhas pendentes, como para guardar lá dentro o que tivesse ouvido. — Arre ! que bruto ! exclamou ella com máo humor. Marcos aproveitou a occasião para levantar-se e depois de sacudir-se, como se quizesse enxotar qualquer bicho importuno de sobre o corpo, disse : — Vamo-nos embora; voltaremos para a procissão. Lembre-se, mãr, que eu não lhe prometti nada ! — E tu, lembra-te do que eu te disse ! Emquanto os dois desciam, o pescador na frente, com largas passadas, a mãi atraz pensativa, Pedro mudo atirou-se na relva, de uruços, grunhindo como um porco para o azul do mar e do céo.

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CRUEL AMOU O/ De pé, prendendo o filho pela mão, a Fortunata Tazia exclamações, chamando a attenção das mulheres dos pescadores para os detalhes da festa : — Gente ! reparem para o filho do Jeremias, como vai bonito !... D. Rola tem muito geito; foi ella que fez o vestido da Dudú. Também não sei que esperam estes pescadores que não dão um manto novo á Nossa Senhora... caínhas como elles só... A procissão serpeava agora vagarosamente por um trecho da planície. As virgens e os anjinhos, de olhar estupidificado, arrastavam-se sem rythmo, num abandono da vontade, e no azul uniforme e suave da tarde as chammazinhas dos cirios tremulavam pallidas, derretendo a cera que escorria em fios grossos. Atraz da procissão, a mãi de Marcos caminhava de vagar, reluzindo ao peso dos seus ouros e murmurando orações a meia voz. Ao lado delia ia o filho, muito alto, com os cabellos ao vento e os olhos fitos adiante, nas fitas solferinas da Maria Adelaide, fitas que o vento fazia esvoaçar, atirando-lhes as pontas livres para as costas do Flaviano, como para enlaçal-o desde essa hora á noiva, hirta como as imagens dos andores, que não volvem o rosto para lado nenhum...

Dir-se-ia que essas fitas vermelhas se reflectiam nas desbotadas pupillas de Marcos como traços de ódio sanguinolento... A seu lado a mãi precipitava a alma em rezas e supplicas, offertando corações de cera ao altar, pela extincção daquelle amor, que ella via nascer com tanto Ímpeto ! Tinham corrido os moradores do lugar a ver a procissão. O pescador Lino, alto, branco e e?padaúdor seguia a filha de perto, cauteloso. Com o seu ar desanuviado, o vestido de chita muito bem lavado, os cabellos alourados presos no alto, em fôrma de diadema, ella daria a quem só attentasse no seu rosto, a impressão da adolescência mais promissora, desabrochando sem lebres nem anceios, como funcç.ãn natural da vida. A família do Dr. Guidão também se dignara vir do Ipanema para acompanhar o cortejo religioso; mas D. Delphina e Rola tinham-se quedado no alto da igrejinha, emquanto o grupo das moças e dos rapazes seguia a procissão, entre rizadinhas e cochichos, de que não comparticipava a D.

Leonor dos olhos grandes, que se conservava silenciosa e séria. Uma amiga da cidade, a Yayá Serra, de pulseiras tilintantes e quadris postiços, fazia espirito á custa dos pescadores e espicaçava com ditinhos picantes um sobrinho já moço de D. Leonor, fascinado pela belleza de Adda... Esse sobrinho, neto mais velho do Dr. Guidão, e só um anno mais moço que a tia Leonor, cursava em S. Paulo os seus estudos acadêmicos, e só por acaso se encontrava no Rio. Adda fôra-lhe apresentada nessa tarde e logo a Yayá Serra, com um faro de loba, percebeu que o rapaz ficara impressionado e entretinha-se maliciosamente a provocar-lhé uma declaração... Eduardo Guedes, o Eduardinho, como todos o chamavam, aceitava risonhamente as insinuações, até que Ruy, muito pallido, se approximou do grupo e caminhou ao lado de Adda, a quem fallou, baixinho : .7.1 — Por que trazes um vestido assim tão degollado? ! — Porque é moda...

— Mas... na tua idade... nem todas as modas vão bem... — Pois olha, ha até quem diga que o meu pescoço não é feio... — Vaidosa ! — Sempre a mesma palavra; até parece que não sabes outra ! —- Não é S que mais te tenho dito... Vais logo á casa do Dr. Guidão? — Por força. — Dançarás?... — Também não gostas de me ver dançar? ! - Não... — Mas, Ruy, o nosso amor não é um convento ! — Eu assim o queria ! Aposto em como já tens par... E elle olhou de soslaio para o Eduardinho. — Sim, já tenho, até á terceira quadrilha... Preferirias que ficássemos conversando num cantinho da sala, como da outra vez? ! — Sim... - Para teu pai me comer com os olhos e desfeitear-nos, a nós dois? —>- Meu pai desta vez não irá á festa... — E' o que pensas. Elle diz que não; e quando a gente menos o espera é que elle apparece. Faz de propósito... eu tenho um medo delle! — Pelo amor de Deus, Adda !... — De mais a mais não tens nada que me dizer que eu não saiba...

— Antes tivesse. SofTreria menos. — Soffres porque queres. — SofTro porque te amo doidamente ! — Então case-te commigo. — Tenho medo... Adda voltou-se com um movimento brusco e contemplou Ruy bem* nos olhos. Elle fixou-a sem pestanejar. Estiveram assim um segundo, depois ella rio-se, rematando com ironia :

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