Parte 19 Cruel Amor · Capítulo 19 de 24
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Parte 19

Desesperada, Rola avançou até á borda d'agua e gritou para a filha que sahisse. Nunca a sua voz fora tão imperativa. Regressando a casa, Adda apressava-se na frente da mãi, toda enrolada no enxugador, sem consentir em observações. Só depois de mudada a roupa e alizado o cabello, confessou que fora a pedido seu que o Eduardinho começara os banhos na enseada da Igrejinha, com o fim de ensinal-a a nadar... Rola declarou-lhe então, peremptoriamente, que aquelle fora o ultimo banho. Avisasse D. Leonor para communicar isso mesmo ao sobrinho. Adda amuou. Queria continuar; estava anêmica... defendia a sua saúde e não daria satisfação aos papalvos de Copacabana. Que mal havia em que o Eduardinho a ensinasse a nadar? Ella não era peixe, para saber tal prenda sem ter um mestre... Fizessem como ella, que não se importava com a vida dos outros. Demais a mais não vira conhecidos na praia... Só o mudo. Mas esse ou ninguém, era a mesma cousa.

Que a mãi se deixasse de fantasmagorias ! Mas a mãi desta vez persistio no seu propósito. Aquelle fora o ultimo banho. A responsabilidade afinal era sua. Conhecia a lingua do mundo. Do seu canto, emergindo entre os morins das roupas brancas, D. Ricarda assistia á contenda, sem dizer sim nem não. Por vezes os seus olhos se encontravam em relances significativos com os olhos de Rola, mas logo se desviavam para o caseado das camisas... Adda sacudia-se, espalhava no ar a humidade dos 5 8 seus cabellos negros o abundantes, excitava-se, fallando com vivacidade nervosa. Apostava em como todos aquelles medos eram por causa do Ruy, que não atava nem desatava, com receio do pai ! 0 velho implicante, que teimava em viver, quando morria tanta gente bôa ! Se a apoquenlassem muito ella acabaria com tudo, logo de uma voz ! Rola atalhou : - Por força : se você já não gosta de Ruy, devi' ser franca, o não entreter o pobre rapaz com esperanças mentirosas !

Adda empallideceu e estacou. Não. Ella queria muito bem ao Ruy, desde mocinha... Vêl-o sofTror seria para ella a cousa mais horrível deste mundo; mas elle exigia delia sacrifícios sobrehumanos... Julgaria alguém possível que elle consentisse em desobedecer ao pai para casar-se com ella? ! Não. Elle era um fraco. Só obstinado no ciúme... Somente ella, Adda, não teria a passividade de urna D. Angela... — Você não compare Ruy ao pai! protestou Rola. — O sangue é o sangue, rnannãi ! — E' pena que você não se tivesse lembrado disso ha mais tempo... em todo caso, ainda não é tarde. Onde está o annel que elle lhe deu? Eu mesma o levarei hoje com as suas despedidas, porque eu não quero que elle viva enganado. Acredite mesmo que o único desgosto que tenho com este rompimento é a certeza do que elle vai -offrer. U — A senhora sempre gostou mais delle que de mim... — Isso é uma tolice. Mande-lhe o annel e nunca mais fallarei nesta historia.

Mesmo porque ella não me dá satisfação nenhuma... Mas não houve palavras capazes de decidirem Adda a entregar o annel nem a desenganar o namorado. Queixava-se de que a não comprehendiam, que a atormentavam; accusava os outros, debatia-se num grande desespero. Concedeu interromper os banhos; deixou de ir uns dias á casa do senador Guidão, pôz-se a escrever cartas ao Ruy, a correr á janella mal lhe ouvia o signal. Apezar de ser indiflerente aos versos, decorou os últimos mandados por - elle; toda ella arfava, empallidecia num ardor concentrado, que lhe pisava os olhos, fazendo-os mais sombrios e mais lindos. O seu aspecto tornara-se. meditativo, o seu andar mais pesado. Sahia menos. Esquecia-se ás vezes o dia inteiro com o mesmo vestidinho velho, desde pela manhã. E foi por essa semana de socego que chegou aos ouvidos de Ruy que o Eduardinho Guedes passara uma vez.uma longa hora mettido n'agua a fazer Adda nadar.

E aquella noticia fêl-o escrever immediatamente á moça, num desatino : « com outro qualquer não se importaria... mas conhecia o caracter e as intenções do Eduardinho... já a tinha avisado; para que insistir numa convivência perigosa? Elle não via no mundo outra mulher, ella era a sua idéa fixa, a sua estrella, »iU a razão única da sua vida, o era assim que correspondia a tanto e tão longo amor? ! » A sua carta não linha ameaças, como as dos outros tempos; tinha supplieas. Elle entregava-se como um escravo nas mãos de Adda. Ah ! se fosse rico, depositaria a seus pés, para realce da sua formosura, todos os seus thesouros... Já não lhe pedia que se fizesse feia, como a doce Noemi de Renan, por amor delle; no seu egoísmo de. homem insuflava-lhe a chamma da vaidade, perguntando-lhe do fundo da sua anciedade que desejaria cila além dos seus beijos e do seu amor em êxtase... OÍTerecer-lhe-ia a lua, as estrellas, o Armamento constellado, todos os seus sonhos de poeta amoroso, todas as suas ambições, para que ella não pensasse, nem fugitivamente, em mais ninguém, e soubesse esperar até o dia em que, maior, assente na vida, elle a fosse buscar para a doçura do seu lar !

Desatava então em phrases apaixonadas a descripção dessas horas honestas de amor consagrado, numa habitação pequena como um ninho, em que ambos trabalhassem e amassem como as aves... A febre alastrava-se incendiando outros períodos em que elle affirmava que depois de formado também elle a levaria a passeios vertiginosos em automóveis, através tias avenidas çhammejantes... também elle a levaria aos theatros e aos cassinos, onde a sua belleza refulgisse como um astro. Propunha tudo, offerecia tudo, comprehendia afinal que a mocidade de Adda tinha exigências differentes da sua mocidade de sonhador; penitenciava-se arrependido do seu rigor antigo, daquella absurda imposição de a fazer disfarçar a sua belleza, justo motivo do seu orgulho. Ella que lhe perdoasse uma, muitas vezes. Promettia trabalhar como um doido, só para poder leval-a a bailes com Vestidos sumptuosos, qúe se arrastassem rugindo no chão1; cobril-a-ia de jóias e de flores raras, — mas que, pelo amor de tudo o que mais quizesse, o amasse a elle só, só, só!

A carta palpitava nas mãos tremulas de Adda. Um grande espanto mesclado de piedade invadia-lhe a alma a cada letra. Ruy a offerecer-lhe passeios vertiginosos... sedas de bailes... noites de theatro... com que dinheiro? ! Elle, tão modesto, sem haveres, eternamente distraindo e eternamente observado pela vigilância de um pai sovina e pobre, onde iria, senão em imaginação, buscar esse luxo tentador que lhe ofTerecia como prêmio de um amor de que exigira dantes tantos sacrifícios? ! O vulto de Ruy, com os seus ternos de casemira baratos, as suas gravatinhas de Unho, os seus chapéos inferiores, passou-lhe pela mente, num contraste ridículo com aquella linguagem recamada o opulenta... Teve ao mesmo tempo vontade do chorar e vontade de rir... Nessa noite mal dormio. Repetia em sonhos o sentido da carta de Ruy, vestindo-o com a pelle e as roupas do Eduardinho... Aquella confusão pôl-a nervosa. Não sabia como responder áquellas palavras de fogo; suspirava pela morte.

Nesse mesmo dia, á tarde, um criado do Dr. Guidão leVou-lhe um bilhete. Era de D. Leonor, chamando-a para ajudal-a a vestir-se para uma festa. 15. b 2 CRUi.L AMOR Adda não vacillou ; os pedidos da amiga constituíam ordens para ella. Como deixar de obedecer promplainente á vontade de uma pessoa que lhe dava veslidos de seda e a fazia passear a seu lado de automóvel pelas ruas da cidade? Tinha determinado responder naquelle momento á carta doliranle de Ruy, mas já então adiaria isso para depois... afinal, adviera-lhe com a experiência de certos fados a certeza de que, o amor delle parecia augmentar a cada provação. Assim, mais uma, menos uma, que importava? Alinhavando em mente as ponderações c aflirmafivas que tencionava escrever no dia seguinte ao Ruy, numa carta séria e carinhosa, ella foi caminhando para a casa do senador. Logo á entrada, no patamar da escada exterior, deu de rosto com o Eduardinho, refestellado numa cadeira de vime, apreciando um havana...

A' sua vista, ella não percebeu se era eontrariedade ou alegria o que sentia. Elle estava só; ao sentil-a perto, levantou-se e puxou-a suavemente para si, num aperto de mão lento e amoroso. O criado que a tinha acompanhado sumira-se por uma portinha do porão. Adda vio-se sozinha ao lado do homem de quem determinara fugir... Elle envolveu-a toda num olhar que ardia mais que a ponta em brasa do seu charuto. Todo elle rescendia a tabaco fino e a um discreto aroma de água de toilette. As casemiras inglezas, bem talhadas, do seu terno claro, realçavam-lhe a elegância das linhas. Adda observou tudo num relance, com vaidade, satisfeita de ser querida por um rapaz assim... Todo o corpo lhe tremeu no momento em que, fixando os seus olhos dè velludo nos olhos delle, ouvio Eduardinho murmurar,soffregamente : —- Adoro-te! Adda não teve tempo de responder. D. Delfina, fazendo ranger com força a porta de vidro, appareceu~ no limiar.

Que entrasse, Leonor esperava por ella; já que a puzera naquelle costume, que a fosse pentear e vestir... Sempre estava ficando uma exquisita, aquella Leonor! Através das suas palavras sentia-se o travo de um aborrecimento. Nem permittio á moça o apertar-lhe a mão, disfarçando com uma volta súbita o gesto de cortezia que desmanchou. Adda seguio-a embaraçada, e o Eduardinho, que adivinhara o motivo do máo humor da avó, levantou os hombros, sacudindo a cinza do charuto sobre as trepadeiras do gradil... De que valeriam aquellas zangas, seja tinha resolvido que Adda havia de ser sua ! Emquanto no quarto, picando-se em alfinetes, enfiando e desenfiando agulhas, a moça se arrastava de joelhos no chão, corrigindo os defeitos do vestido da amiga, cuja imagem se reproduzia impassível no crystal do espelho, lá fora o estudante, de olhos semicerrados, antegozava num devaneio.o prazer de a cingir nos seus braços...

Não sahiria dalli sem tornar a vel-a, sem lhe dizer de um modo ainda mais expressivo que a amava. A avó que tivesse paciência... Persuadia-se de que Adda nascera para uma das melhores horas da sua existência e não se resignaria a perdel-a... Uma Sombra veio contrarial-o. Rola appareceu, enrolada num chaile. Vinha doente, buscar a filha que lhe tardava... A sua voz ora como um suspiro. Desde essa tarde a inquietação de Adda era tamanha, que toda a gente a notava. As cosi uras, freqüentemente interrompidas, arrastavam-se por sobre a mesa e a cama, sem lerem fim. A carta do Ruy ficara sem resposta; não atinava com os termos para escrever-lhe. A's vezes, ouvindo-lhe o signal e sentindo-o perto da janella, corria para abril-a, mas logo recuava, toda vermelha, escondendo o rosto nas mãos geladas. Entretanto, Eduardinho tivera a habilidade de arranjar um novo passeio de automóvel, uma noite. Para que a avó, já desconfiada, se não oppuzesso, elle sahira de casa só com a tia, a D.

Leonor, ainda ignorante da astucia, e fora affoitamente parar á porta de Rola. Percebendo o estratagema do sobrinho, a moça retrahiu-se, muito severa, como offendida pelo papel que a faziam representar á força. O Eduardinho era muito demonstrativo para que o não comprehendessem; ella voltou para elle um olhar de reprehensão, recebido com absoluta indifferença. Rola acudio a desculpar a filha, que era forçada nessa noite a fazer serão para acabar umas costuras... agradecia muito o convite, mas não podia acceder... A' relutância de Rola em' consentir no passeio, Eduardo pretextava que seria esse o ultimo e duraria curtos instantes. Era uma noite de illuminação na cidade e a bôa titia Leonor só consentiria em ir na companhia de Adda ! Leonor não esboçou nem um gesto com que respondesse a um olhar interrogativo de Rola. Sem attender á recusa da mãi, Adda gritava de dentro que esperassem, e mudava ás pressas, febrilmente, uma blusa de cassa, apertava sobre a saia de lã um cinto velho de seda, colhido ao acaso, na atrihulação da a/afama e punha sobre as ondas negras dos seus cabellos maravilhosos um chapéo de palha puida cm que uns ramos de papoulas rubras descahiam amarrotados e encardidos sobre os filós das abas.

Quando, appareceu no limiar da porta, o Eduardinho estremeceu de alegria. Rola gaguejava ainda um não timido, e já a filha saltava para o automóvel com um movimento decidido. Na certeza de que as mulheres preferem os audaciosos, o Eduardinho sentou-se ao lado da moça e comeu-a com olhos de faminto. O automóvel rodava, como se fosse levado pelo vento. As ruas de Copacabana e de Botafogo desappareciam numa vertigem. D. Leonor, sentada de face para o sobrinho, parecia uma esphinge. Nem um músculo do seu rosto pallido se contrahia e os seus grandes olhos sérios pareciam ainda mais tenebrosos. Por ironia ou por querer fugir ao contacto da amiga, ella tinha-lhe cedido o seu lugar sem dizer uma única palavra. Adda acceitára inconscientemente o favor, sem notar mesmo o amúo da outra. Pouco a pouco o Eduardinho apoderava-se da sua mão, disfarçadamente, esmagando-a em pressões repetidas e doces, e fallando-lhe baixo, quasi rente ao ouvido.

Elle dizia banalidades, que a titia alli em frente 6 0 poderia ouvir sem exlranheza se quizesse prestar atlencão, e não era o sentido das palavras, mas o tom amoroso da voz em que ellas eram ditas que significava tudo. O seu corpo ardia como uma fogueira ao lado da moça... Quando entraram no forvilhamerifo de luzes da Avenida Cejilral, Adda sentia-se desmaiar. Ia como num sonho. Toda a rua tumultuava, palpitava, sob a onda movediça do povo, dos carros e dos automóveis cheios. Até do asphalto e das pedras inanimadas das calçadas irrompia a animação da febre. Olhando por entre as palpebras alquebradas para as Ires enormes filas de luzes, Adda tinha como que a sensação extravagante de que ellas teriam sido acendidas em seu louvor! Nunca a certeza da sua formosura lhe suggerira uma idéa tão clara do seu prestigio na ferra; affigurava-se-lhe que toda a gente voltava para ella os plhos, corno para uma rainha que passasse numa procissão.

' Outros automóveis se cruzavam com o seu; alguns conduziam mulheres menos bellas do que ella, mas refulgindo de luxo e de pedrarias. O Eduardinho commenlava o gosto e a elegância de certas mulheres. Ah, elle detestava a fita amarrotada... os leques de papel... os vestidos baratos... o calçado inferior... A mulher que fosse sua só trajaria sedas e rendas o exhalaria o odordas mais raras essências... Elle adorava as esmeraldas, cada vez mais preciosas... o fulgor dessa pedra fazia-o devanear cousas divinas. Comprehendia o monoculo de Nero. Daria á súa noiva um collar rutilante de esmeraldas quando se casasse... 6 7 J*. mais tarde, ao sentir-se triste, bastaria repousar a cabeça sobre os hombros da amada è ver-lhe a carne moça atravéz áo lampejar verde das pedras, para julgar-se num astro... Toda a rua fulgurava nas lâmpadas electricas e combüstores de gaz. Adda tinha a sensação de estar vivendo dentro de chammas.

O passeio na avenida não tinha termo. Em cada fim de Volta o Eduardinho ordenava logo outra volta, lenta, que desse vagar a contemplações. Quando, por fim, tomaram a avenida Beira-mar, a aragem fresca e salitrada da bahia despertou a moça de um sonho magnífico, de tentação. Nas águas treiriulas bailavanT reflexos de luzes disseminadas como estrellinhas fluctuantes e modestas. Vinha dalli outro sentimento menos fictício c mais amargo. Era o mar, o seu velho amigo da infância, que lhe mostrava o seu grande seio inquieto, para a despertar daquelle. sonho de virgem peccadora... era o mar que punha de pé, diante dos seus olhos ainda deslumbrados, o phantasma da sua origem e da sua pobreza, para onde o automóvel a levava de novo rapidamente. D. Leonor também voltava o rosto para as águas escuras. O seu perfil sereno e austero desenhava-se na noite, como um medalhão de alabastro sobre um fundo de velludo preto.

Iam ha largo tempo calados, quando Eduardinho, num gesto flexuoso, disfarçado sob a capa de Adda, lhe enlaçou a cintura com o braço, atrevidamente. A moça estremeceu, mas não o repelliu, e quedou-se ' s CRUBL AMOR vencida dentro daquelle meio circulo poderoso e inflexivel. Quando chegou á porta de casa, Leonor mal lhe deu a apertar as pontas dos dedos frios. Os seus olhos ardiam-lhe, como se a devorasse extranha febre. Eduardinho ajudou Adda a descer e disse-lhe rapidamente ao ouvido : — Quer ir amanhã só commigo? Ella cambaleou; elle amparou-a sorrindo. Rola estava já diante delles.

Os felizardos eram o João Sérvulo e.o Lino, que tinham sabido bem guardar p seu ninho no sopé da Igrejinha, alli mesmo de sentinella ás canoas, mais seu Clarindo da Camponeza e o vigia da arrecadação. Os mais viviam espalhados aqui e acolá, longe da musica embaladora das ondas e da vista adorada do oceano sem fim. Para' não morrerem de aborrecimento nos seus quartos, os pescadores reuniam-se ás vezes para jogar a bisca, no tolheiro da arrecadação, ou na toca ile um outro pescador já meio aposentado do trabalho o tenente do Leme. Nossa casa, occulta por dois rochedos que lhe faziam uma espécie de pórtico, havia logo á entrada uma grande sala tosca, sem assoalho, onde os homens se reuniam para jogar ou para o fabrico de redes e mais utensílios de pesca. Da gente da Guanabara só o Rubião freqüentava este pescador, seu conterrâneo e lambem como elle grande conhecedor de lodo este lil loral, que era fechar os olhos e ver inleirinho, com os seus brandos recortes e as suas linhas esliradas e brancas, que parecia não terem fim.

O tenente, muito gabarola, desafiava o oulro, asseverando conhecer mais praias do que ninguém. Rompia assim o tiroteio de affirmações e negações, que durava horas. Se o Rubião dissesse que as melhores ostras eram as criadas no páo do mangue, branco ou vermelho, em águas de mar socegado, logo o outro pulava, dizendo que não, que tal julgamento era de quem não tinha paladar ou não entendia das cousas — as melhores ostras eram as criadas nos recôncavos, em pedregulhos e rochedos. Se era o tenente que elogiava o sabor dos camarões grandes, de águas claras, o Rubião ria-se da ignorância, asseverando que o gosto do camarãozinho do cisco de água baixa era mais accentuado. Elle queria ter de contos de réis como de vezes tinha pescado de uns e de outros eamarões, com a rede — cai-cai — ou de noite escura, com archotes que punham na água manchas tremu-

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