Parte 9
Bié respondeu : — E' o nosso jardim. Nita deitou-se de braços e occupou-se em esvasiar um dos lagozinhos, remexendo-o com a mão rapidamente. — Deixe essa água. — Pr'a que? — Pr'os passarinhos. y Ella fez un muchocho e continuou. — E' verdade mesmo que seu sabiá morreu? — E' sim. — Pensei que fosse de brinquedo — Tio Pedro torceu o pescoço delle.. — Você vio? — Vi. — Então porque é que você deixou? — Uê... eu gritei... corri... mas ellé não fez caso. — D'ahi? — D'ahi eu chorei muito. Pois então? — Porque é que seu Pedro mudo tinha raiva do passarinho? — Elle não gosta de nada. E' por isso que eu escondo as minhas conchas e os ovos da collecção... — Eu tenho medo delle... Com a sua fanfarronice de rapaz, Bié afíirmou : — Eu não. Se elle não fosse meu tio, eu dava uma bpfetada nelle! Calaram-se ambos, ouvindo cantar um bemtevi. Depois, Nita tirou do seio umas bolachas e repartio-as com o companheiro.
Bié tirou araçás do bolso o deu-os a Nita... . — Você sabe uma cousa, Bié? - — Não... — Estou com um somno ! — Dorme. — E você ? — Eu fico aqui mesmo... D. Adda disso que ama nhã D. Rola faz annos. Se a gente achasse uma parasita bonita ! ': ' — Você sabe como é que a gente • faz annos? perguntou Nita com uma. faisca de curiosidade nos olhinhos já amortecidos pelo somnO' — Fazendo — Eu gostava de saber fazerannos, para ganhar presentes... .-.,-; . y •• . ' í — Boba ! Pois você também faz annos ! *— Eu?! Quando?! — No dia em que você-nasceu... — Eu nasci no dia de meus annos? ! A explicação do Bié foi confusa e pouco adiantou á Nita, entretanto foi demorada. Ainda elle fallava "quando ouviram eantar um sabiá. Calaram-se para o ouvir. Bié estendera-se ao lado de Nita e ouvindo o sabiá adormeceram os dois; Por entre as palmas flabelladas dos coqueiros o pássaro cantou ainda embakdõramente por lsfrgo tempo.
Vespas zumbiam num tronco velho, trazendo ásua colmeía o mel das-flores douradas e o perfume das resinas que exsudavâm das arvores -benignas. UrfUEL "AMOR 119 Comr d âíçu Vôo Fulgurante, uma enorme-borboleta azul agitou as azas lentamente sobre as cabeças
Sentaram-se. Deante delles estava o Flaviano, de má catadura. — Bié, diga a verdade; onde'é que você hoje vio Marcos? inquirio logo o mestiço. Bié, extremunhado, respondeu : — Eu não sei... eu não vi Marcos nenhum ! Mas Nita, com a memória mais clara e perfeitamente desperta, atalhou : —• Vimos, sim! Eu o vi na estrada velha, lá para os lados da casa de Maria Adelaide. Foi tal a expressão de ódio na cara de Flaviano, que as crianças estremeceram, aparvalhadas, sem comprehenderem nada. — Venha me mostrar o lugar ém que você vio elle, ande ! Bié retrucou : — Ella não vio nada... — Vi. sim! elle estava parado ao pé... Bié fez signal a Nita para que se calasse. Era tarde; ella,'já muito atrapalhada, concluía a phrase : ...ao pé da cerca da Maria Adelaide VIII Chereletes... enxovas... corocorocas... curvinas..." a rede trouxera peixe de vários tamanhos e differentes feitios. Setembro não nega lanço a pescador, embora não seja de tantas farturas como o verão.
Quando a Guanabara manobrou, era muito cedinho e já havia gente no banho. A maré descia; o céo muito algodoado tinha uma luz pallida que permittia descanço á vista e arrefecera bruscamente o tempo, que fora de extremos em Agosto. A queda de temperatura fizera crer ao João Sérvulo que perderiam atoa as suas horas no mar. Quando nessa madrugada o Baptista assobiou do alto annunciando o .peixe, elle puzera os pés na canoa sem en-thusiasmo. Agora, vendo estorcer-se no chão aquelle amontoado de corpos vivos que saltitayam, arqueavam-se, cahiam uns sobre os outros em embates desesperados, dizia lá comsigo que a natureza tem caprichos de mulher : dá quando se não espera, recusa quando se supplica... Rubião, agachado, roçava o peixe com as barbas. Um saltou-lhe na cara. Fortunata, que acudia sempre •a vêr o pescado, deu uma gargalhada sonora. — A sororoca queria já entrar para a sua boca. Our pena comer um bicho tão esperto, que até parece cavalla.
— Vancê tá se lembrando disso, porque ella não está no seu prato... — Palavra que no dia em que eu Vejo pescar não tenho vontade de comer... olha só pr'as tainhas, coitadas, estão como doidas... até os animaes têm medo da morte. — Só o pescador não pensa nisso... — Vocêssão de cortiça-. Entretanto, seu Freitas distribuía peixes por alguns curiosos que o tinham ajudado a puxar o arrastão e mais ao Bié e á Nita, surgidos como que por encanto naquella parte da praia. O pequeno não correra até alli com o sentido nos magros paratys ou nas chatas corocorocas que lhe ^cahissem por esmola nas mãos. Acudia pressurosa- "mente até á beira d'aguá, sempre que via ou sabia de alguma pescaria, a observar se no fim, ao sacudir da rede, cahiam das malhas miúdas do copio alguma estrella do mar, alga, concha ou caramujo. Nita, mais gulosa,, mal recebia o seu quinhão'pensava logo no melhor modo de o preparar, na sua cozinha improvizada no bosque dos cajueiros, entre as pedras e as bromelias.
Nesse dia não curtiriam fome. — Uma estrella do mar!... Um caramujo azul! A exclamação partira do Bié, que se atirara de -123 bruçôs ha areia, com uma fulguração luminosa nas pupillas negras. Era precizo esconder depressa no seio aquelle Iirido caramujo de tão rara côr, antes que cr tio mudo o quebrasse ás "pedradas até ver-lhe'lagrimas nos olhos. Também elle, o Bié pensou no bosque dos cajueiros, onde esóondia agora os seus thesouros numa toca abandonada, entre um tronco retorcido e cupinado de arvore Velha e um penedo rachado pelo raio. ' O pessoal da Camponeza tinha combinado que se a noite fosse escura haveria um lanço de caraças (*) Teria elle a fortuna de alcançar então outra cousa com que andava sonhando: uma arvore 'dó mar?- J João Sérvulo empurrou-o. — Sae daqui, pequeno... Você está como taturhy, querendo entrar na areia !'... Olhe,, seu tio àhi.vém... , Bié ergueu-se de uni salto e olhou para trás.
O mudo vinha perto, com um sámburá enfiado no braço esquerdo, um caniço na mão direita. As'calças arregaçadas até ao joelho, mostravam-lhe as pernas finafl* desprovidas de pellos, quasi luzidías. O chapèo de palha de coco, .de copa alta e largas abas, ensombrava-lhe o rosto mqlle, côr de cera suja, onde. mal se desenhavam os fios castanhos de um bigode ralo, descabido nas pontas. ""0 mudo tinha percebido o gesto do sobrinho e caminhando para os outros fixava nelle.com inda- ' ' '. O' (*) Madrèporas. Í gações curiosas os seus olhinhos estreitos, côr de café fraco. — Seu tio tá zangado, Bié... notou um pescador, rindo; alguma você lhe fez... Nita acudio em defesa do amigo, sacudindo no ar os peixes que tinha pendurados das mãos : — Qual fez, qual nada ! Seu Pedro tá furioso porque Bié escondeu no cajueiral a collecção dos ovos e das conchas... Elle é ruim como cobra ! O mudo voltou-se para a pequena com ar tão vivo, que se diria tivesse ouvido tudo.
Rubião deu uma gargalhada, concluindo : — A modo que elle percebeu... — Que me importa ! Elle é máo mesmo... affirmou Nita. Pedro retomara a sua placidez. Rubião indagou ainda : — Em que cajueiral você estava fallando? — Perto da pedra rachada, junto do morro da Babylonia... — Quem é que mora lá? — Ninguém... a gente fez armário dentro da bocca da pedra... ao menos lá o malvado não escangalha nada... Na certeza de que o mudo não ouvia nem o estampido da fortaleza, nem os ribombos do trovão, toda a gente dizia delle o que bem lhe parecesse, mesmo á sua beira. João Sérvulo indagou com a vista o que o mudo trazia no samburá. Peixe de pedra : uma salema de prata riscadinha de ouro, duas corocorocas rbocca de fogo e um sardo de marimba. A pesca fora proveitosa; entretanto, João Sérvulo atirou para o balaio do mudo um cherelete gordo, com pena do desgraçado que tinha lingua e não podia contar as suas desventuras; tinha ouvidos e não podia ouvir as cantigas da Hortensia.
—r Seu João, indagou um pescador, o peixe vai por terra na carroça, ou vai mesmo na canoa para a praça? — Homem... tanto por tanto, embora o dia esteja fresco, que vá mesmo na canoa... a corrente está de feição... Para os quatro remos foram logo designados quatro homens. Seu Freitas iria com elles negociar no mercado. João Sérvulo e o compadre Lino ficaram na praia, enrolando a cabaria branca e a preta de cipó imbê. — Amanhã a escala é da Camponeza... Em lua nova e em lua cheia a água corre para leste... amanhã é lua nova... a Camponeza vai ter bom pescado... — Quem sabe? Foi num quarto de lua, com água correndo para o sul, que a gente vio aquelle negro de corocorocas... — Pr'ahi umas trinta mil... — Nem sei como a rede velha não arrebentou... E o Marcos, que não apparece! — Está nas chalanas dos portuguezes, pescando peixe grande na bahia... A mãi foi hoje á minha porta... parece que o Flaviano disse qualquer cousa que a incommodou...
— Asneiras... cada um que se metta com a sua vida... estão ameaçadores que nem vento oeste. o Porque? para que? Você pensa? se não fossem pescadores já se teriam atracado ahi... Quando fôr tempo da garôpeira, então é que hão de fazer as pazes. Lá fora : longe da vista, longe do coração!... O vento livre varre os máos pensamentos... Sem interromper o trabalho, Lino indagou, distrahidamente : — Afinal, por que é que elles estão zangados? i — Rabo de saia... '"' — Hum... — Zangados, zangados não... Não declararam guerra porque as cousas não passam de desconfiança..: Fortunata tem faro de tainha, não sei como percebeu a historia... Mulher é o diabo ! Foi ella que me contouParece que o Marcos foi iscado pela songamonga da Maria Adelaide. Elle anda cozinhando a paixão dentro do peito; como é leal,'fugia para a cidade... a moça está promettida a um companheiro : é sagrada. Por elle eu ponho as mãos no:fogo; agora pela moça...
não; porque é sonsa, e mulher sonsa é mais perigosa numa casa,.que baiacú numa rede... Que isto fique entre nós, compadre. Fortunata, que viera vêr o pescado.na praia, escolhera duas gordas sororocas, que era ver duas cavallas, para mandar levar de presente á Rolinha, que não lhe quizera levar nem um vintém pela sua ultima costura. Ao mesmo tempo tinha com isso pretexta para um bocado de prosa e desabafo de certas novidades. - > Apezar de pobre, Rola tinha sempre uns cineo mil réis guardados^ para acudir nas crises de miséria a' alg^im pescador menos previdente, ou mais cançado, como ao velho Tiburcio, inutilizado desde um naufrágio; ou mesmo a Fortunata Sérvulo, que lhe pedia recursos a titulo de empréstimo, na ignorância do marido, segundo affirmava. Nesse mesmo dia, após a visita de Fortunata, estava Rola cosendo á machina, ao lado da viuva D.- Ricarda, quando bateram á porta. A viuva disse de si para si : *•— Ahi vem peditorio...
• Rola levantou-se sorrindo, certa, talvez por suggestão, de que chegara a hora de fazer bem a. algum necessitado; mas logo ao abrir a porta recuou sorprendida. Ruy estava deante delia, muito abatido, com a golla do sobretudo erguidaj até ás orelhas e ôs olhos engrandecidos, brilhando na palidez do rosto. — Ruy!' ' — Eu mesmo... Não me manda entrar? — Que'imprudência... *— Já estou bom, não tenha cuidado... — Sente-se aqui, neste cantinho mais agazalhado... — Estou bem... Lá em casa sentia-me mai... muito triste,.. - _ Ruy percorreu com a vista os ângulos da sala, procurando alguém. Rola tinha um ar constrangido... r—i Sabe o que vim fazer, Rolinha? — Não... e...
— Pela Antonia... a preta velha lá de casa... ella vio tudo... contou-me tudo... — A casa estava fechada ! -— Olhou através das venezianas... Eu ainda duvidava... vejo que ella não me mentio ! — Talvez tivesse exagerado... não se afflija. O que nós pedíamos ao céo era que você não morresse. O mais !... Ella encolheu os hombros. Ruy perguntou : — Onde está Adda? — Dormindo. Toma agora banhos de mar... levanta-se cedo, ao meio-dia tem somno... — Com franqueza : ella soffreu por minha causa? — Nós todos tivemos muito cuidado... —• Não é isso. Sei que são meus amigos; pergunto pela espécie de preoccupação que porventura lhe causei, a ella... Não me responde?... Nenhuma?! — Eu não disse nada... suppuz que os sentimentos de minha filha lhe fossem já indifferentes... Estavam afastados... imaginei um rompimento... — Que a alegrou ! — Não digo que não... cada vez esse casamento se torna mais impossível...
— Não ha nada impossível entre dois corações que se amam... e ella ainda me ama! — Quem lhe disse? — Aquelle grito! A voz de Adda não me sae do ouvido. Ficou gravada no meu cérebro. Chame-a; quero pedir-lhe perdão... fui um vaidoso... penitenciar-me-ei... — Ruy... fuja... faça a vontade a seu pai... não insista numa idéa que... A porta da alcova abrio-se e Adda appareceu com os olhos espantados e a face vincada por uma dobra da fronha. Trazia o calor da cama na pelle rosada e ainda como que um mysterio de sonho na fronte mal encoberta por uma onda molle do cabello escuro. O rosto do moço illuminou-se ao vel-a. Ella approximou-se calada, empurrou um banquinho de costura para a frente da cadeira de Ruy e sentou-se, quasi unida aos seus joelhos, erguendo para os olhos delle os seus lindos olhos impenetráveis. Elle tremia. Ella disse : — Se você não viesse, eu tornaria a ir á sua casa, embora seu pai me botasse outra vez as mãos no peito para me fazer cahir de costas na rua!
Livido, tremulo, o moço curvava-se para ella, de quem se evolava o calor do corpo repousado. Vestida com uma saia de lã usada, de tom escuro, e um casaco de casemira alvadio, mal abotoado sobre uma blusa de chita desbotada, num desalinho caseiro de menina pobre, ella parecia-lhe a elle mais intima, mais sua. — Tenho tido noticias suas todos os dias... A Fortunata transmitte-nos o que sabe... Foi segunda-feira que o medico lhe deu alta... Quarta que deu a sua primeira volta no jardim... Bem vê que estou informada. ..^ Sim... era isso mesmo. Elle sorrio, morto por acariciar-lhe os cabellos macios e despenteadps.; ella continuava : , . , - . _ — Aquella pescaria fez-lhe mal... Meu Deus como as suas mãos estão frias ! Mamai ! arranje uma cinca ra de leite quente para elle... Rola olhou para D. Ricarda, que ageitava os óculos para recomeçar a costura, e sahio. Adda o Ruy ficaram no mesmo cantinho, elle embevecido, ella fallando sem alludir nunca ao desgosto do baile, como se o não tivesse percebido e a ausência de Ruy datasse unicamente do período da doença.
Assim, não tinha de que se arguir. Se havia alli alguém arrependido e humilhado era elle... Para distrahil-o, chamal-o ao presente, ella desfiou um rosário de banalidades, respeitando a presença dê D. Ricarda, toda sorridente. Mas a èlle pouco importava agora o sentido das palavras, o que elle amava nella era a musica da voz. A's vezes Adda fazia-lhe perguntas que ficavam sem resposta; Ruy ouvia-a como a um passarinho, deleitando-se sem procurar entendel-a. Se ella se queixava da sua falta de attenção, elle replicava : — Não era isso que eu esperava que você me dissesse... mas falle, falle sempre ! Ella enchia os olhos de inconsciencia, como se não eomprehendesse o sentido daquella queixa... Toda ella agora exhalava ternura e felicidade. Elle voltava ao seu amor voltando á vida; elle corria para os seus