Parte 10
braços amorosos em busca da felicidade, da gotta de água indispensável á sua sede insoffrivel! Era isso que ella percebia com um vislumbre de triumpho irradiando-lhe entre as meiguices do olhar e da voz. Ah! o velho tonto, o velho orgulhoso, abrir-lhe-ia um dia por suas próprias mãos, para recebel-a como filha, a porta de que a expulsara com tão criminosa brutalidade ! Esse desafio ella o atirava agora ao destino, do fundo da sua alma, na certeza de vencer. A belleza assegurava-lhe a victoria, a vontade atiçava4he o animo. Foi no fim da visita que Rolinha, sentando-se ao pé de Ruy, lhe disse com modo grave, em que fluctuava a sombra de üma grande tristeza : r — Tive muita alegria em vêl-o hoje; mas peço-lhe que não volte a minha casa... Adda ergueu-se de um salto. r — Oh ! mamai, não diga isso ! Rola repetio, calcando as palavras : —- Não volte a minha casa. Seu pai;considera-nos como inimigas.
Não deve eontrarial-o. E\ Gedo para resistir á sua vontade. Espere. — Meu pai convencer-se-á de que não tem razão... — Mas elle tem razão; conhece a minha historia e sabe que esta menina não tem nem origem nem fortuna. Não é a noiva que lhe convém. Adda avançou, com os lábios trêmulos e as sobrancelhas contrahidas. — A senhora está louca? ! exclamou ella com raiva. — Não, filha, não estou louca. Escute, Ruy. Pense bem : freqüentar a minha casa é comprometter esta menina, com quem vOcê não casará nunca. Adda ergueu a cabeça com um sorriso de profunda ironia. Ruy balbuciou muito pallido : — Meu pai terá de submetter a sua vontadff á minha... A senhora verá como ha de ser elle quem lhe venha pedir a mão de Adda... Rola teve um gesto de incredulidade. — Pois só depois desse dia você poderá voltar a esta casa. — Assim... despede-me?... — Despeço-o... com muito desgosto. Bem sabe quanto sou sua amiga...
como se fosse meu filho... Isto não quer dizer qüe não nos fallemos em qualquer parte onde nos vejamos... Adda continha a custo uma grande revolta e antes que Ruy sahisse ella murmurou-lhe rente ao hombro, rapidamente : — Amanhã á tarde, em casa do João Sérvulo... Foi ella quem lhe fechou a porta desabridamente, voltando-se logo para a mãi, numa fúria : — Como a senhora gosta de me humilhar! Não tenho origem ! e a delle ? ! Parece que tem prazer em lembrar a todo o mundo que sou uma engeítada! Antes a senhora não me tivesse apanhado da rua, e me deixasse á chuva, para os cães famintos ! — Adda ! — E' isto mesmo. Seria mais caritativo deixar-me na lama para onde me atiraram, do que recolher-me para isto! Para quem me destina a senhora? Para algum filho engeitado, como eu? Procure-o então já, para se ver livre desta peste ! — Adda! — Eu não tenho culpa do crime de meus paispara arrastar toda a vida a sua responsabilidade, Tenho jús a viver e a ser amada, como as outras mulheres.
Sou bonita, sou moça ! E' o principal. — Você não faria a felicidade de Ruy... — Mas elle fará a minha. — Não basta. E' precizo que ambos sejam felizes. Você é dominadora e amiga do luxo. Deve procurar um homem rico. — Não tenho origem. — Tem belleza, é o principal. Ruy é um nervoso e um ciumento. Tudo nelle é espirito. Vocês não se entenderiam. — Mas que tem a senhora com isso? — Tudo, visto que sou sua mãi. Se Ruy conseguir que o pai venha pedir-me a sua mão, você me agradecerá esta açção. . — Elle não virá. — Quem sabe?... — A senhora, que parece ter interesse em não me casar com Ruy. — Ah! ingrata... Adda sahio da sala, batendo com a porta. — Ahi está a recompensa de se criarem filhos alheios... criticou a viuva, do canto em que permanecera como espectadora. 'l — Cale-se, D. Ricarda, cale-se ! supplicou Rola, com os olhos rasos.de água. — Sim, agora não ha outro remédio; é agüentar...
Aquella menina... aquella menina tem pinta; eu nunca me enganei... Deus queira que... D. Ricarda resmungava, muito indignada. Rola, fincando o queixo na palma da mão, procurou encaminhar seus pensamentos para uma solução definitiva. Era ella, afinal, quem tinha a obrigação moral de esclarecer, de dirigir... A cada resolução, o seu passado saltava para diante delia, como uma.barreira insuperável. Só via um meio : tentar ainda', fosse como fosse, uma entrevista com o pai do Ruy, supplicarTlhe misericórdia a affirmar-lhe .que desappareceria daquelle lugar para sempre no próprio dia do casamento de Adda. Se a sua.pessoa era o que servia de embaraço, esse embaraço sumir-se-ia como, por encanto... Lá fora erguera-se bruscamente uma forte ventania, que fazia tremer os-caixilhos das janellas, como se também a casa comparticipasse da crise que fazia estremecer as moradoras. ' Fora no meio de uma confusão igual, a que-se juntara o barulho calamitoso de grandes vagalhões, que uma certa noite, havia dezenove annos, ella ouvira quasi indistinctamente QS vagidos de -uma criança junto á sua porta.
Abrira apressada. Na soleira estava uma menina recemnascida, enrolada em flanellas usadas. Rola erguera-se espantada, aconchegando a pequenina ao seio magro; depois tornou CRUEL-AMOR 135 a fechar a porta, muito calada, transida de frio e de" piedade. — Que é isso? ! inquirira a viuva, já então sua companheira. •• — Uma filha, D. Ricarda; veja! A viuva, mais pratica, menos sentimental, revoltára-se. —'- Que! era urgente ir fállar á policia. Que não fosse tola. Adoptar a pequena seria comprometter-se. Todos sabiam da historia ainda recente dos seus amores, e de como-o amante lhe fugira dos braços; julgariam a criança fructo dessa ligação transitória, que era precizo esquecer. A criança lembral-a-hia eternamente. Que não fosse idiota. Que ia fazer? — Dar-lhe leite e cuidar delia. Fora a sua resposta. Com a criança no regaço, já aquecida no seu chalé, já confortada por umas colherinhas de leite, ella reconstruía o seu-passado, enuque o abandono predominava em tudo.
O Destino fizera-a para a tristeza. Ficara Orphã cedo e como orphã fora educada num collegio de Irmãs, em que a Caridade não dissimulava a esmola... Depois, o tio recolhera-a e cubiçara para si a esbelteza do seu corpo de lírio... fora então que ella vivera na visinhança dos pais-de Ruy, vendo soffrer a D. Angela, fugindo da casa do tio para o quintal da-visinha, onde passava os' dias com o pe-;" quenito no collo, já toda maternal e carinhosa. De-r pois... depois o scu.arnor pelo guarda-marinha que morava defronte, aquella paixão embriagadora, a sua fuga com elle numa-noite escura... Depois... 0 abandono d'elle. a sua partida para uma' CRUBL AMOR viagem de que nunca mais voltou, e os dias sem fim que ella passara voltada para o mar, numa esperança irrealizada, numa saudade tão dolorida e tão longa... que a cobrira de lucto como a das viuvas... Vinha-lhe dahi uma grande sympathia pelos desherdados da ventura.
A criança atirada á sua porta trazia o nome cosido aos cueiros : — Adda. — Era pouco, mas era alguma cousa. Com o rosto cheio de lagrimas, Rola ergueu a criança á altura do rosto e beijou-a longamente. O vento reunia as sementes da mesma planta — o abandono; não era uma filha que lhe vinha para o regaço : era uma irmã ! Desde essa hora,, nada faltara á linda creaturinha, que foi crescendo a seu lado, como uma rosa junto a uma sepultura. De que lar tinha vindo aquella menina? Diziam uns terem-n-a visto como um embrulho nas mãos do Pedro mudo. Em vão Rola lhe supplicou que lhe aclarasse o mysterio. A cada um dos seus rogos elle uivava como um cão, relanceando olhares intraduziveis. Diziam outros que a pequena era filha de uma italiana de theatro, ave de arribação que alli tinha pousado por alguns mezes e que fugira deixando a filha fora do seu caminho. Mas o pai... quem seria o pai, indagava agora Rola de si para si, morta por ir pedir-lhe como soccorro para a felicidade da filha — o seu nome...
A idéa dessa exigência do Coronel, fel-a sorrir de ironia. No miio da sociedade contradictoria, desordenada em que viviam, aquella imposição não representava um escrúpulo, mas uma arma. — Chegou o dia que eu esperava com medo, mas que era inevitável, suspirou D. Ricarda do seu canto. Rola voltou para ella um olhar transfigurado, muito pallida, numa inquirição muda. — O dia da ingratidão, affirmou a velha, dando o nó á linha da costura. f? CRUhL AMOR .i:>y,ry IX Assim que vio Flaviano na cancellinha do quintal, Maria Adelaide fugio para os fundos da casa o foi esconder-se atrás do gallinheiro. — Maria Augusta ! supplicou ella á irmã, diga que eu estou na cidade. N O mestiço recebeu o recado,mas teimou por entrar mal convencido, affirmando não vir vêr a moça, mas fallar com a mãi a seu respeito. A viuva andava desconfiada com a tristeza da filha e attribuia-a a arrufos com o noivo. Com os braços enterrados na gomma até aos cotovellos, gritou da janella ao rapaz que entrasse.
Não era de cerimonias ; ella não podia interromper o trabalho. Elle entrou, relanceando a vista pelos cantos. — Que novidade.... gentes ! por aqui a estas horas !... Flaviano desabafou logo ; vinha decidido a uma deliberação : marcar o dia do casamento è acabar com essa historia de uma vez. Até já tinha vergonha; toda a gente lhe perguntava : — quando C~RUEL'-ÁMOR' 139 Casa?... você dasa mesmo? Parecia caçoada... Pedia urgência. ' • ''.""- Â viuva '' tôrnóu-se séria, chamou a outra filha, Maria" Aurora, para continuarJo'seu serviço, que não devia ser interrompido e, enxugando as mãos e os braços rosados pelo calor da gOmma cozida,rvèio Sentar-se diaíite do pescador. '- - - • Houve uns momentos de silencio, em que só sé ouviam b chapinhar das niãos^ de Maria Aurora na bacia da gomma e o cacarejar das. gallinhas fora, no quintal. A viuva começou pausadamente, fixando compenetração os olhos de Flaviano:' — No dia ém que o senhor veio.
me pedir a mão de Maria Adelaide, sé alémbrã do que eu lhe respondi?... Respondi que ella havia de sahir de casa de sua hiãiJpará entrar na casa de seu marido. Quando o senhor tivesse com que sustentar família, então casasse. Só assim. Sabe que eu sou pobre, não posso com mais ninguém..Deus sabe já o que me custa carregar com o meu fardo. Sua mãi tem muito dinheiro, mas não dá nada; .quer o seu socego..." e não atura nem o ouvir falla.r no nome da minha..filha . .— Todo o mundo diz que minha mãi tem muito dinheiro, mas ninguém vio o dinheiro delia... . . - —: Não fui eu que inventei essa riqueza. Só sei que-este casamento"nãò ata nem desata; a •oülpã é sua, è quem mais soflre é minha filha, que emquanto espera pódè perder outro casamento, -vque èlla não é nenhum peixe podre...' Os olhos de Flaviano fuzilaram de raiva. Elle julgara perceber a intenção das ultimas palavras. Já se pensava em outro casamento e era isso que elle queria obstar!
Com todo o corpo a tremer-lhe, protestou : —- Isso não! Ella é minha noiva, é o mesmo que ser minha mulher. Ninguém pôde voltar com a palavra atraz... — O mesmo do que ser sua mulher... não... Ha muita differença... A observação fez explodir o ciúme do mestiço. Queria vêr só, se tinham coragem para romper um pacto tão sério. Veriam que. desgraça succederia, se tal se desse. A verdade é que eram todos egoístas e contra elle. Se, casado com Maria Adelaide, viesse morar com a sogra e as cunhadas, seria um elemento de prosperidade no lar. Elle ajudaria a manter a casa, com o seu trabalho. A viuva a isso é que não queria ceder, conhecia as pessoas e não se fiava em promessas. Confessava ter aceitado a proposta do casamento, pensando que elle se realizasse cedo e estar nesse tempo desanimada e com dividas deixadas ainda por seu defunto marido. A vida apavorava-a. Mas o caso mudara de figura. Com a ajuda de Nossa Senhora, já pagara tudo e agora, mais desafogada, não se precipitaria numa resolução tão grave...
Era prudente era pratica, e não queria criar embaraços futuros... Elle que montasse casa, e então lhe fallasse ! E que não perdesse tempo em conversas; ella tinha um montão de camisas na gomma e queria aproveitar o sol; era natural que elle também quizesse aproveitar as horas... As cousas eram ditas clara e chatamente, sem reticências nem rodeios. Se quer é assim, se não quer vá-se embora ! Flaviano farejava o ar com o sentido na noiva, adivinhando perfídia. Por vezes como que aspirava o cheiro de lima e óleo de coco com que ella amollecia os cabellos, e lhe ouvia o ruído das chinellinhas no chão arenoso do quintal. Do canto da sala, perto da janella, Maria Aurora espreitava o pescador, disfarçando a custo a vontade de rir. Era bem feito. Por seu gosto a irmã não se casaria nunca com tal sujeito. Só a idéa de um sobrinho mulato!... Quando elle por fim sahio, com assomos mal-criados, ella correu a avizar Maria Adelaide, que podia entrar, que o cabra já se tinha ido embora.
Maria Adelaide é que não ria. Estava livida. Entrou pela porta da cozinha, onde a outra irmã preparava o feijão e foi para o quarto sentar-se calada no seujsahú, aos pés da cama. Não saberia explicar o que sentia nem por que se transformara em medo a confiança que desde os tempos da escola depositara em Flaviano! A sua presença agora aterrorizava-a, como se delle tivesse recebido alguma offensa grave. A sua imagem tomava proporções grotescas e a sua pelle, a cuja côr se habituara desde menina, repugnava-lhe agora... não saberia tampouco explicar porque o pescador Marcos lhe occupava coiíi tanta insistência o espirito. Querendo pensar em Flaviano, só pensava nello.- Marcos enxotava o outro, oeeupando já todo o seu coração. Seria um grande crime aquillo? Parecia-lhe que sim," Com elle nunca fallára, só tinha trocado olhares; mas pelo Flaviano... até se deixara beijar uma voz,- na volta da estrada, á sombra do cajueiro...
A' lembrança desse beijo torpe, toda arrepiada
Demais a mais, eram ambos pescadores... Com os olhos parados, fixos na nudez dó quarto,- Maria Adelaide voltava a pensar em cousas já bem: pensadas, morta por fugir dos braços do Flaviano, 4 3 v doida por alcançar com a sua boca fremente de virgem amorosa, a boca do pescador branco... . A irmã espreitou-a duas vezes, sem ser percebida. Na meia obscuridadeda alcova, o rosto comprido de Maria Adelaide pa-reoia feito de pedra branca, varada de luar... O seu corpo delgado, apenas coberto com uma saia e um paletósinho de chita desbotada, torcia-se sobre o bahú em contorsões lentas e nervosas. Toda a família se entreolhava com certo espanto, sem poder penetrar no segredo daquella affíicção. .Que teria dito o Flaviano á noiva, para fazel-a zangar assim? Ella era sempre de um natural tão calado, que .ninguém se gabava em casa das suas confidencias. .0 tempo esclareceria o caso; já agora que a situação se modificara para melhor, ninguém se entristeceria se o casamento fosse desmanchado.
Nesse dia Maria Adelaide não quiz jantar. A mãi zahgou-se : —- que não fosse tola dê se matar por um homem. Bem se importam elles! Com o alvoroço da chegada do noivo e aquelles amuos idiotas de sinhásin-ha rica, até se esquecera dentro do tanque de um grande naco de sabão que se teria derretido todo se não fosse ella ! Aquillo era o mesmo que pôr dinheiro fora. Alli estava a negra para o ganhar. Tomasse juizo. Ella também fora moça, também namorara e casara, mas nunca fizera semelhante figura! Pobre não tem luxos ! Maria Adelaide parecia surda. Estava agora como se talhada em granito. As palavras da mãi vinham em ondas, sem lhe causarem o menor abalo. Nem uma resposta, nem um estremecimento... l i i Constara-lhe que estava combinada para essa noite uma pescaria entre o pessoal da Guanabara. E de repente, acudio-lhe a idéa do ir á praia provocar um encontro com o Marcos... Já uma grande saudade a impellia para esse desejo c uma absoluta necessidade de o ver...
Era a ultima prova; queria sentir os olhos delle nos seus olhos, lêr-lhe a alma na expressão do seu rosto. Decidiria tudo depois... bem podia ser que ella estivesse enganada e que o Marcos fizesse tanto caso delia como da primeira camisa que tivesse vestido... Se nessa noite percebesse isso, apressaria no dia seguinte o~ casamento com o outro, para castigar o coração maluco e fugir daquelle pensamento. Ao anceio de ver Marcos, juntava-se-0 pavor de um encontro com o noivo, que havia de estar tàmbem na pescaria e talvez abandonasse o trabalho para vir pela noite escura acompanhal-as até a casa... Acontecesse o que acontecesse, ella veria o Marcos. A' noite influio toda a gente para"o passeio; calçou meias e sapatinhos amarellos; tirou do bahú a saia nova, pôz fitas no cabello e Água Flórida no lenço... — Uê ! como Maria se enfeitou ! exclamou attonita uma das irmãs, acostumada a vêl-a mais singela nos seus passeios nocturnos; e concluio : — Mal empregados sapatinhos...
agora que nínguerrt vê! Eu cá, vou com as botinas rotas... A noite estava calada e cheirosa. Os cajueiros começavam a florir e o seu aroma de mel aveludava a atmosphera mórbida. Pyrilampos verdes abriam pon-