Capítulo XIX Caetés · Capítulo 19 de 31
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Capítulo XIX

EM PRINCÍPIO de Março, Adrião foi à capital acertar contas com os fornecedores e pedir a restituição de uns títu los resgatados. Eu havia escrito várias cartas reclamando, e o detentor dos papéis dava respostas evasivas e protelava a remessa.

No dia em que Adrião viajou dirigi-me a casa dêle, à noite, esperando entender-me com Luísa. A voz sumida, em tremuras, interroguei o negro:

— D. Luísa está aí, Zacarias?

— Está. Um bocado murcha, nem quis beber café.

— Está só?

— Sim senhor. A menina d. Josefa saiu ainda agorinha.

Entre v. mcê., eu vou avisar.

Penetrei na saleta de espera, gelado, a vista escura. Assal tou-me um pavor estúpido. Vi no espelho do porta-chapéus uns olhos atônitos e uns beiços muito brancos.

— De pé, João Valério? disse Luísa aparecendo. Demorei-me um pouco. Desculpe.

A minha figura no espelho pareceu-me burlesca.

— Uma cadeira, João Valério, continuou: Luísa.

Sentou-se no sofá:

— A Josefa andou por aqui, e a Marta. Comentámos os seus modos esquisitos.

— A senhora estava deitada, exclamei. Talvez doente.

— Doente? Não, apenas meio aborrecida, por causa do calor. Pensa a Marta. . .

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— Pois pensa mal, interrompí, metendo os pés pelas mãos. A scnliora não tem outro assunto? Vim pedir-lhe um favor.

Respirei com esforço:

— Que mal lhe fiz eu? Já lhe perguntei há tempo, lemhra-sc? Tinlia confiança em mim, e de repente... Não negue. Ora essa!

Aproximei-me, sentei-me no sofá, longe dela:

— Eu não quero saber o que os outros pensam de mim.

O que me interessa é o seu pensamento. Hoje que tudo m udou...

■ — Eu não mudei, João Valério, murmurou Luísa bai xinho. E começou a fazer pregas numa das fitas do- vestido branco.

— Não? Santo Deus! Como tem coragem de afirmar isso? Foi desde aquele amaldiçoado jantar. E se soubesse...

Enquanto dançavam, fui para o jardim, com a esperança de encontrá-la. E sonhava poder um dia beijar-lhe a mão. Não com preende... É horrível!

Ela estava lívida:

— Muito tarde, João Valério, quando nos conhecemos...

Era melhor que nos separássemos.

— Era melhor que não nos separássemos nunca', bradei numa exaltação. Vivemos mentindo, acovardados.

Zacarias entrou, foi ao salão, fechou as janelas silencio samente, voltou, rondou por ali, inquieto:

— A sinhá quer alguma ooisa?

— Não, podem deitar-se.

Depois que o preto saiu, contemplei Luísa, esquecido.

Os meus sofrimentos se atenuaram num instante, maior auej . .. \ * meses de angustia.

— E há cinco anos vivemos nisto! exclamei, novamente despeitado. Levo esta peste de vida e.tenho de mostrar cara alegre. i ] Uma serenata passou na rua. Cantos, sons de bandolim e flauta, perderam-se.

— Fale. Pelo amor de Deus, fale.

— Que hei-de dizer? sussurrou Luísa com lágrimas nas pálpebras. \

— Eu sei lá. Aí duas pala'vras que me tirem deste in ferno. Seja franca, seja boa. Porque se eneolerizou no dia do jantar? E, diante do presépio, noite de Natal, porque me olhou daquela forma?

\ Tomei-Uie as mãos:

— Ninguém se zanga sem motivo, é claro. E nós que éramos tão amigos... Aborreceu-se, amuou. Acertei?

— Não posso, João Valério, soluçou Luísa com voz quási imperceptível, que estremecimentos cortavam. É como se fôsse uma pessoa minha. Muita amizade. Se nos tivéssemos conhecido mais cedo.. .

Um deslumbramento. No silêncio que se fêz a sala en cheu-se com os rumores da usina eléctrica e de automóveis ro lando longe.

— E havíamos de ser felizes, segredei com o intuito de completar-lhe as frases esboçadas. E seremos felizes, porque não? Falou em amizade. Eu não lhe tenho amizade, o que tenho é um amor doido, como ninguém lhe há-de ter. Duvi dou de mim, julgou que me importava... Foi uma injustiça.

Que tortura, estes dois meses!

Zumbiam-me os ouvidos, a respiração tomou-se-me ofe gante:

— Um beijo!

Pancadas de relógio soaram na sala próxima e gastaram uma eternidade a escoar-se. Vi mentalmente Adrião, que era meu amigo, Vitorino, Nicolau Varejão, mentiroso, o boticá rio Neves, intrigante.

— Um beijo! repeti desvairado, ,abrasando-a com o de sejo que em mim gritava. Um beijo!

Ela fêz um movimento para se levantar, tomou a cair no sofá e desviou o rosto.

— Um beijo! balbuciei como um demente.

Soltei-lhe as mãos, agarrei-lhe a cabeça, beijei-a na bôea, dcA agar e com voracidade. Apertei-a, machucando-lhe os peitos, mordendo-lhe os beiços e a língua. De longe em longe interrompia êste prazer violento e doloroso, quando já não podia respirar. E recomeçava. As mãos dela prendiam-me; através d a. roupa leve eu lhe sentia a vibração dos músculos.

Não tive consciência do tempo decorrido naquela noite:

guardo a lembrança de que o relógio, no salão vizinho, ba teu mais de uma vez.

A posição em que nos achavamos no sofa estreito eia in cômoda. Senti as pernas entorpecidas. j Veio-me depois grande lassidão, o súbito afrouxamento dos nervos irritados. As imagens brutais debandaram, Luí-j sa me inspirou imensa piedade. Achei-a pequenina e fraca, ali caída, numa confusão. Ergui-a, compus-lhe a rou pa, encostei-a ao peito, onde ela se aninhou, trêmula. Nao se assemelhava à - mulher que me deixara aniquilado ao pé da manjedoura onde repousava um Jesus de hiscuit, junto a um rio de vidro. Embalei-a como a uma criancinha, passando-lhe pelos cabelos os dedos pesados, numa carícia lenta.

E disse-lhe coisas infantis que se sumiram depressa nas névoas daquela embriaguez. Assim estivemos até que as luzes de ram sinal para apagar-se.

Cerrei as janelas e levei-a para a alcova.

Quando, com a aproximação da madrugada, me retirei, Luísa veio acompanhar-me. Na calçada, depois do último abraço, lembrei-me .da noite em que ela me repeliu naquele mesmo lugar. Tomei-lhe as mãos com arrebatamento e co bri-as de beijos.

Afastei-me, tremendo na escuridão, receando que alguém me encontrasse. À porta de casa retrocedi, com a idéia es quisita de procurar a minha estrela protectora sôbre o monte negro. E sorri interiormente. Fui à beira do açude, avistei-a. Tinha mudado de lugar e estava menor.

Contemplei-a, supersticioso, quási convencido de que ela me enviava parabéns lá de cima.

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