Capítulo XXX Caetés · Capítulo 30 de 31
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Capítulo XXX

DECORRERAM mais três meses. Passei a sócio da casa, que Vitorino não pode dirigí-la só; Luísa é hoje comanditária;

a razão social não foi alterada'.

Abandonei definitivamente os caetés: um negociante não se deve meter em coisas de arte. Às vezes desenterro-os da gaveta, revejo pedaços da ocara, a matança dos portugueses, o morubixaba de enduape (ou canitar) na cabeça, os destro ços do galeão de d. Pêro. Vem-me de longe em longe o desejo de retomar aquilo, mas contenho-me. E perco o hábito.

Vou quási tôdas as noites à redacção da Semana. Não para escrever, é claro, julgo inconveniente escrever. Limito-

-me a dar, quando é necessário, algum conselho ao Pinheiro.

- . ü l Há uns verbos que êle estraga, uns pronomes que atrapalha.

Escorregaduras sem importância: na Semana de qualquer maneira que estejam estão bem.

E ouço com atenção e respeito as cavaqueiras de Nazaré com o dr. Liberato. Quando têm pouco fundo e posso nelas tomar pé, agrada-me escutá-los, rio interiormente, na ilusão de que não sou ignorante de todo. Depois êles afastam-se, mergulham, somem-se, e eu fico desalentado, olhando triste mente padre Atanásio, que procura seguí-los, e o óptimo Isi doro, que permanece junto a mim.

Todos os dias, das oito da manhã às cinco da tarde, trabalho no escritório, e trabalho com vigor. Temos ocupa ção: precisamos inspirar confiança à freguesia e sossegar os fornecedores, mostrar-lhes que podemos gerir o estabeleci mento na falta do chefe que desapareceu.

Continuo na pensão de d. Maria José, mas aos domingos janto com Vitorino. Quási sempre vai Isidoro. A Teixeira, excelente dona de casa, traz aquilo muito bonito. Há no salão duas paisagens a óleo. Os móveis da sala de jantar foram substituídos por outros, onde porcelanas e cristais novos brilham. Uma habitação confortável.

Quando chegamos, fazemos uma visita rapida a d. Mariana, que lá está na cama, paralítica, soletrando a correspon dência do padre Cícero. O aposento dela antigamente era um buraco de ratos; hoje é um lugar cheio de ar e luz, com as janelas abertas sobre os canteiros do jardim, as paredes foro c C í i T I t fT Q Depois do jantar, ficamos à mesa, tomando, tomando café, conversando. À noite, na sala, a Teixeira toca, Isidoro recita, Vitorino cochila — seroes bem agradáveis. E se temos a Clementina, são aquelas canções ingênuas que ela diz com um fio de voz muito suave, que nos faz bem à alma e nos enche de piedade e ternura.

Gosto da Teixeira. Tem uma linda perna, uns lindos olhos, várias habilidades, e é alegre como um passarinho.

No silêncio do meu quarto, penso às vezes que a vida com ela seria doce. E digo a mim mesmo que ainda podemos ter quatro filhos vermelhos, fortes e louros. Parece-me que vou casar com a Teixeira.

A lembrança da morte de Adrião pouco a . pouco se des vaneceu no meu espírito. Afinal não me devo afligir por uma coisa que não pude evitar. A minha culpa realmente não é grande, pois estão vivos numerosos homens que certas infidelidades molestam. E sou incapaz de sofrer por müito tem po. O dr. Liberato falou em nevrose, e eu não tenho razão para pretender saber mais que o dr. Liberato. Repito isto a mim mesmo para justificar-me.

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