Capítulo XX Caetés · Capítulo 20 de 31
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Capítulo XX

ADRIÃO esteve ausente uma semana. Alta noite, colando-me aos muros para não ser visto, precaução inútil porque era tudo treva, com o coração aos baques eu entrava no jardim, subia as escadas, abafando os passos.

Luísa não mostrou arrependimento, despia-se como se estivesse só, nada ocultava - e eu achava nela uma alma cândida.

Não lhe caí aos pés, com uma devoção mais ou menos fingida. A felicidade perfeita a que aspirei, sem poder concebê-la, rapidamente se desfez no meu espírito. Livre dos atributos que lhe emprestei, Luísa me apareceu tal qual era, uma criatura sensível que, tendo necessidade de amar alguém, me preferira ao dr. Liberato e ao Pinheiro, os indivíduos moços que frequentavam a casa dela.

Não senti vaidade: senti estupefação. Considero-me indigno do favor recebido. Que valho eu? Consideração mortificadora, porque me trazia a ideia de que Luísa me aproveitara como aproveitaria outro nas minhas condições.

Experimentei então alfinetadas no egoísmo, afligiam-me pensamentos de avaro, que debandavam quando, ao penetrar na alcova, eu recebia os beijos dela.

Na intimidade rápida que se estabeleceu entre nós, Luísa me disse:

- O Valério não compreende... Nunca imaginou...

Sentou-se na cama, e a camisa escorregou-lhe de um dos ombros. Engoli em seco e lamentei intimamente tanto ano perdido, os tormentos que passei.

- A cena de Novembro, ali no jardim, Valério. Não percebeu?

- Não percebi, confessei constrangido. Amor de irmão...

Ela sorriu.

- Eu fazia castelos, murmurei. A esperança de lhe arrancar uma palavra... Difícil. Visitas, os criados fervilhando por toda a parte... Ganhei cabelos brancos.

E ela:

- Mais cedo ou mais tarde havíamos de chegar a isto. Não estou arrependida, tenho até vergonha de precisar esconder-me.

Quanto a mim nem me lembrava de Adrião. Se às vezes me espicaçavam alguns espinhos, defendia-me com desespero. Que culpa tive eu? Certamente era melhor que não existisse aquela paixão; mas desde que existia, paciência, eu não podia arrancá-la. E por causa do mandamento dum bárbaro, que teve a desfaçatez de afirmar que aquilo vinha do Senhor, não iria eu, civilizado e guarda-livros, conservar-me em abstinência, amofinar-me no deserto.

Tinha-me vindo a tentação, uma tentação de olhos azuis e cabelos louros, e depois de escorregarmos, nada valia ralar-me por uma coisa que a cidade ignorava, que Adrião não suspeitaria.

- Realmente, disse comigo, que prejuízo traz ao mundo a preferência que ela me dá? E Deus liga pouca importância a bichinhos miúdos como nós: tem em que se ocupe e não vai bancar o espião de maridos enganados. É impossível que algum Deus considere as minhas relações com Luísa censuráveis. Ninguém as conhece, só nós podemos julgá-las - e os nossos corações não nos acusam. Padre Atanásio vive a dizer no púlpito que usar mangas curtas é imoralidade. E as mulheres desnudam o colo, mostram os braços, convencidas de que procedem mal. Luísa é inocente: não se envergonha do que faz.

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