Memorial
Gesto de pudor de minha mãi
Estrela de abas abertas
Não sei quando começaste em mim
Em que idade
Em que eternidade
Em que revolução solar
Do cláustro materno
Eu te trazia no colo
Maria Antonieta d’Alkmin
Te levei solitário
Nos ergástulos vigilantes da ordem intraduzivel
Nos trens de subúrbio
Nas casas alugadas
Nos quartos pobres
E nas fugas.
Cais de minha vida errada
Certeza do corsário
Porto esperado
Coral caído
Do oceano
Nas mãos vazias
Das plantas fumegantes.
Mulher vinda da China
Para mim
Vestida de suplícios
Nos duros dorsos da amargura
Para mim
Maria Antonieta d’Alkmin.
Teus gestos saíam dos borralhos incompreendidos
Que tua boca anciosa
De criança repetiam
Sem saber
Teus passos subiam
Das barrocas desesperadas
Do desamor
Trazias nas mãos
Alguns livros de estudante
E os olhos finais de minha mãi.