XI. A Evolução Brasileira As Relações Luso-Brasileiras · Capítulo 12 de 17
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XI. A Evolução Brasileira

Estamos deante do Brasil em deploravel ignorancia das suas coisas.

Não fora esta a verdade e teriamos clara noção dos fenomenos ethnicos alli operados ou ainda em elaboração e estariamos certos de que não há perigo de desnacionalização, mas tão sómente se dá, nesse país, uma evolução geral logica, inevitavel e fatal.

As instituições politicas e sociaes da nação brasileira seguiram o seu curso, sob influencias peculiares ao meio americano e às exigencias do concerto internacional, por um lado, e, por outro, em obediencia à educação e às aspirações do povo que se foi e ainda está constituindo dentro da nossa antiga colonia.

A raça, sem perder as suas caracteristicas iniciaes, obedeceu ao determinismo do novo meio e transformou-se, como, com as successivas migrações, succedeu, através da história, a todas as chamadas raças e nacionalidades.

Portugal não deu por isso. A falta de curiosidade vae neste país, dos que governam aos que são governados; dos assumptos mais sérios aos mais facêtos, dos factos decisivos aos incidentes subalternos da politica, da economia, das artes — de tudo!

Ora, se é verdade que, em 1615, nas instrucções dadas a Fragoso de Albuquerque para o tratado de paz com La Revardière, [18] se dizia que no Brasil «havia mais de três mil portugueses» e, portanto, «as suas terras não estavam despovoadas», não há duvida, todavia, de que ao predominio da nossa população se deveu o não ter o Brasil caido em outras mãos, apezar das vicissitudes porque passou Portugal, volvidos poucos anos sobre essa data.

Ao fechar o XVII século, o povoamento tinha tomado incremento notavel com o descobrimento das minas de ouro de Caethé e Rio das Velhas. Não sómente a miragem do ouro determinou a imigração: havia, então, um sistema colonizador no espirito dos governantes portugueses. E, embora deficiente, o critério que dictou as doações era digno de um governo; e os seus frutos foram valiosos. Em 1680, uma carta régia, reveladora da noção de imminente conflicto entre colonos e gentios, mandava conceder terras a estes «ainda mesmo as já dadas de sesmaria visto que deviam ter preferencia os mesmos indios naturaes senhores da terra». [19]

Não se repellia o gentio.

As ondas de africanos, que, desde os fins do século XVI, foram atiradas sobre a America portuguesa, o indigena e o português foram as componentes ethnicas do tipo brasileiro.

Os cruzamentos deram-se. Fez-se a selecção lenta, sob a preponderante ação da raça superior, cujos atributos a hereditariedade resalvou da existencia transitoria do mestiço.

Estudando este fenomeno, Euclides da Cunha, alto espirito de artista e pensador, escreveu que «a raça superior se tornára objecto remoto para que tendiam os mestiços deprimidos, e estes, procurando-o, obedeciam ao próprio instincto da conservação e da defeza».

Junte-se a este facto, comprovado pela história de todos os cruzamentos desse genero, o axioma ethnologico da tendencia das raças eugenicas para subordinarem ao seu destino os elementos inferiores com que se encontram e ter-se-á explicada a hegemonia do português na formação do tipo novo, a que se refere Silvio Roméro.

Não foram exterminadas as raças inferiores; foram absorvidas lentamente, eliminadas pelos cruzamentos sempre ascendentes. Tanto assim foi que, apezar da enorme superioridade numerica dos africanos, a imigração escassissima dos lusos indo-europeus foi capaz de formar a maioria branca que há no Brasil e que é uma evolução ainda não bastante differenciada do tipo português.

A nossa resistencia, como raça colonizadora, apresentou na America uma prova sem par. A sobreposição das heranças psichicas das raças fundidas quasi se não distanciou da parcella lusitana, apesar da nossa falta de cultura nos três séculos ultimos e apezar do evidente accrescimo fisiologico da população ser devido aos cruzamentos.

Com absoluta razão, e em contrario do que affirmou o visconde de Ouguella na Questão social, sustentou o sabio brasileiro dr. Luiz Pereira Barretto que a raça portuguesa não degenerou.

Não é, diz o dr. Barretto, um caso de degeneração, mas sim de inhibição cujas causas, a seu ver, se encontram na educação clerical e na subserviencia dos poderes publicos ao clericalismo.

O Brasil curou-se desse mal, que ainda domina a nossa terra.

O que se vê da estratificação dos primeiros elementos constitutivos da população do Brasil é a conservação das linhas geraes do tipo português, com os seus defeitos, mas com as suas qualidades de adaptação e de resistencia.

Foi com essa massa que, a partir da abertura dos portos da ainda colonia ao commercio universal, se tiveram de encontrar, em escala cada vez maior, os colonos europeus de outras linguas.

Não se verificava, apezar do atrazo do português e do brasileiro, a hipothese da collisão de uma raça superior, a exótica, com outra inferior, a nossa comum.

Se tal acontecesse, repetir-se-ia a selecção realizada com os indios e africanos, selecção que, desta vez, seria em prejuizo dos luso-brasileiros.

Ora, é precisamente o contrario — isto é, a absorpção do elemento exótico — o fenomeno que se tem de reconhecer na fusão de raças operada no Brasil, visto que, apezar da superioridade numerica desses exóticos sobre os immigrantes portugueses, o tipo brasileiro não se alterou sensivelmente e as caracteristicas nacionaes permanecem intactas e predominantes nos próprios descendentes de gente de lingua estranha.

Daqui tem de se inferir que os dezoito a vinte milhões de brasileiros — a estatistica dirá, em 1910, se são mais ou menos — possuem energias nacionaes capazes de subordinar os adventicios ao seu modo de ser próprio.

A civilização varía de clima para clima.

O homem, ao expatriar-se, está condemnado, por uma fatalidade invencivel, a aspirar, para si e para a sua descendencia, à civilização adequada ao país que escolheu para domicilio.

Por isso, o emigrante procura, em regra, as regiões em que a sua adaptação é menos violenta.

Por isso, como diz Cesar Zumeta[20], «quaesquer que sejam as raças povoadoras, na zona tórrida não imperará senão uma civilização lentamente progressiva».

Por isso, o italiano e o allemão se congregam nos estados do sul do Brasil. [21]

Por isso, finalmente, todos os estrangeiros das raças superiores são assimilados no Brasil, cujo meio, antes de se modificar, os modifica a eles, até a sua completa identificação com o tipo nacional, que, é claro, por sua vez tambem se transforma, como acontece aos tipos de todos os outros paizes.

As migrações nunca deixaram de ter este resultado: adaptam-se ao meio, mas influem na sua evolução.

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