O papagaio do Limo Verde
UMA VEZ HAVIA, NUM LUGAR retirado duma cidade, uma velha que tinha três filhas: uma de um só olho, outra de dois, e outra de três. Perto da casa da velha havia uma outra casa, onde morava uma moça muito bonita. Por esta moça namorouse o príncipe real do reino do Limo Verde, que a visitava todas as noites, e lhe estava dando muitas riquezas. A velha vizinha entrou a desconfiar daquelas riquezas, e, uma vez por outra, ia à casa da moça para ver se pilhava alguma coisa, e nada...
Uma vez sua filha mais velha, que tinha três olhos, lhe disse: “Minha mãe, me deixe ir passar a noite na casa da vizinha que eu descubro o segredo.” A velha concordou, e a moça dos três olhos foi. Chegando lá disfarçou: “Ó vizinha, há muito tempo que não lhe vejo; vim hoje passar a noite com você.” — “Pois não, vizinha, a casa está às ordens!”, respondeu a bela namorada. Quando foi na hora de irem dormir, a dona da casa deu à sua companheira, em lugar de chá, uma dormideira. A moça dos três olhos ferrou no sono como uma pedra; roncou toda a noite e não viu nada.
Opríncipe real do Limo Verde veio, como de costume, encantado num grande e lindo papagaio; foi chegando e batendo com as asas na janela do quarto; a namorada abriu-a, e ele foi dizendo: “Dai-me sangue, dai-me leite, ou dai-me água!” Amoça apresentou-lhe um banho numa grande bacia; o papagaio caiu dentro da água a se arrufar e bater com as asas; cada pingo d’água que lhe caía das penas era um diamante, e assim é que a moça ia ficando cada vez mais rica. O papagaio, no banho, desencantou-se num lindo príncipe, que passou a noite com a sua namorada. De madrugadinha tornou a virar em papagaio, bateu asas e foi-se embora. A mulher dos três olhos não viu nada; voltou para casa e disse à mãe que tudo eram boatos falsos, e que na casa da vizinha não havia novidade.
Daí a tempos a irmã de dois olhos se ofereceu para ir passar também uma noite na casa da vizinha; foi e chupou da dormideira, pegou no sono, e veio o papagaio, e ela nada viu. Voltou para casa sem descobrir o segredo. Passados dias, a moça de um só olho se ofereceu à mãe, dizendo: “Agora, minha mãe, minhas irmãs já foram, e eu quero também ir descobrir o segredo.” As irmãs caçoaram muito dela: “Quando nós, que temos mais olhos do que tu, não vimos nada, quanto mais tu, que tens um só!... ” Enfim a velha consentiu, e a sua filha de um só olho foi. Chegando lá, fez muita festa à rica vizinha, e, quando foi a hora da ceia, fingiu que bebia a dormideira, e derramou-a no seio. Deitou-se e fingiu que estava dormindo. Lá para alta noite chegou o grande e bonito papagaio, batendo com as asas na janela; a dona da casa abriu, e ele se desencantou num moço muito formoso, e, como das outras vezes, dentro da bacia do banho ficou muito ouro e muitos brilhantes que a namorada guardou. A sujeitinha de um olho só via tudo caladinha. No outro dia bem cedinho largou-se para casa e contou tudo à mãe. No dia seguinte a velha foi quem veio passar a noite na casa da moça. Quando entrou para o quarto de dormir disfarçou e colocou umas navalhas bem afiadas na janela por onde tinha de entrar o papagaio. Ele, quando veio se cortou todo nas navalhas e disse para a namorada: “Ah, Maria ingrata! Nunca mais me verás; só se mandares fazer uma roupa toda de bronze e andares até ela se acabar... ” Bateu asas, e voou. A moça, que não esperava por aquilo, ficou muito desgostosa, e logo compreendeu a razão das visitas daquela gente a sua casa. Mandou fazer uma roupa toda de bronze, e com chapéu, sapatos e bastão também de bronze, e largouse pelo mundo a procurar o reino do Limo Verde. Depois de muito andar, sem ninguém lhe dar notícia, foi ter à casa do pai da Lua.
Lá chegando disse a que ia. O pai da Lua a recebeu muito bem, lhe disse que só sua filha lhe poderia dar notícia de tal terra, que ele não sabia; mas que ela, quando vinha para casa, era muito aborrecida e zangada com todos, que portanto a peregrina se escondesse bem escondida. Assim foi. Quando ela chegou, veio muito enjoada, dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” O pai a enganou, dizendo: “Não, minha filha, aqui não veio ninguém, foi um frango que eu matei para nós cearmos.”
A Lua tomou banho e se desencantou numa princesa muito formosa e foi para a mesa cear. Aí o pai disse: “Minha filha, se aqui viesse uma peregrina indagar por uma terra, tu o que fazias?” — “Mandava entrar e tratava muito bem, e se está aí apareça.” A moça apareceu e disse a sua história. A Lua lhe respondeu que andara muitas terras; mas que daquela nunca tinha ouvido nem falar; mas o Sol havia de saber. A moça se despediu, e, na saída, a Lua lhe deu de presente uma almofadinha de fazer rendas toda de ouro, com os bilros de ouro, alfinetes de ouro e etc., tudo de ouro. A moça seguiu. Ao depois de muito andar, e estando já com os vestidos de bronze quase acabados, chegou à casa da mãe do Sol. Entrou e disse ao que ia. A mãe do Sol a tratou muito bem; disse que não sabia onde era aquela terra; mas seu filho havia de saber, porque andava muito; o que tinha era que quando vinha para casa era muito zangado, queimando tudo, e que ela se escondesse bem. Assim foi. Quando o Sol veio, foi aquele quenturão de acabar tudo, e dizendo: “Aqui me fede a sangue real, aqui me fede a sangue real!” A mãe o enganou dizendo que tinha sido uma galinha que tinha preparado para o jantar. O Sol tomou seu banho e se desencantou num belo príncipe. Na mesa a mãe lhe disse: “Meu filho, se aqui viesse uma peregrina, perguntando por uma terra, tu o que fazias?” — “Mandava entrar e tratava muito bem.” A moça apareceu e disse o que queria. O Sol lhe respondeu que nunca tinha ouvido falar em semelhante terra, que só o Vento Grande poderia saber dela, porque andava mais do que ele. A moça se despediu, e, na saída, o Sol lhe deu uma galinha de ouro, com uma ninhada de pintos todos de ouro, e vivos e andando. A moça seguiu viagem e foi ter, depois de muito trabalho, à casa do pai do Vento Grande. Lá chegando disse ao que ia, e o velho pai do Vento Grande respondeu que não sabia; mas que seu filho havia de saber, o que tinha era que, quando vinha, era como doido, botando tudo abaixo, e que a moça se amarrasse bem num esteio da casa. Assim ela fez. O Vento Grande quando veio chegando era aquele zoadão, que fazia medo, botando muros e telhados abaixo, e dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” — “Não é nada, meu filho, foi um capão para nossa ceia.” Assim o velho foi enganando até que ele tomou o banho e se desencantou num moço muito belo. Na mesa o pai lhe disse: “Se aqui viesse uma peregrina, tu o que fazias?” — “Mandava entrar e tratava bem.” A moça apareceu e disse o que queria. O Vento Grande respondeu: “Oxente! Ainda agora passei por lá; é perto. Monte-se amanhã na minha cacunda, e, onde avistar um pé de árvore muito grande e copudo na frente de um palácio muito rico, agarre-se nos galhos, deixe-me passar que é aí.” No dia seguinte, quando o Vento Grande partiu, a moça montou-lhe na cacunda e seguiram.
Depois de muito voar por muitas terras e reinos, avistou o pé de árvore na frente dum grande palácio; o Vento logo de longe foi dizendo: “É ali; agarre-se nos galhos, senão eu a levo para o fim do mundo.” Assim a moça fez; agarrou-se num galho da árvore, e o Vento seguiu. Ela desceu e pôs-se em baixo da árvore, iimaginando um meio de entrar no palácio para ver o príncipe, ou ter notícias dele. Com pouco chegaram três rolinhas e se puseram a conversar nos galhos da árvore. Disse uma delas: “Manas, não sabem? O príncipe real do Limo Verde está muito mal; talvez não escape.” Disse outra: “E o que será bom para ele?” Respondeu a terceira: “Ali não há mais remédio; as feridas que ele recebeu na guerra são três e não saram; só se pegarem a nós três, nos tirarem os coraçõezinhos, torrarem e moerem, e deitarem o pó nas feridas.” A moça ouviu toda a conversa das rolas; armou um laço e pegou todas três; matou-as, tirou os corações, torrou-os e fez um pozinho e guardou. Lá no reino tinha-se espalhado a notícia de que o príncipe estava à morte de umas feridas recebidas numas guerras. Não achando um meio de entrar no palácio, a peregrina tirou para fora a almofada de ouro, e se pôs a fazer renda. Veio passando uma criada do palácio, viu e foi dizer à rainha, mãe do príncipe: “Não sabe, rainha minha senhora, ali fora está uma peregrina com uma almofada de ouro, com birros 35 36 de ouro, fazendo renda também de ouro, coisa mais linda que dar-se pode. Só vosmecê possuindo... ” Arainha mandou perguntar à peregrina quanto queria pela almofada. A moça respondeu: “Para ela não é nada; basta me deixar dormir uma noite no quarto do príncipe que está doente.” A criada foi dar a resposta; mas a rainha ficou muito insultada e não quis. Mas a criada lhe disse: “O que tem, rainha minha senhora? O príncipe meu senhor está tão mal que nem conhece mais ninguém; que mal faz que aquela tola durma lá no quarto no chão?” A rainha concordou; foi a almofada de ouro para palácio, e a peregrina dormiu no quarto do doente. Logo nesta primeira noite ela lavou bem as feridas que o príncipe tinha no peito, e botou nelas o pó dos corações das rolinhas; mas o príncipe ainda não deu por de si, e não a conheceu. No dia seguinte a moça foi outra vez para debaixo da árvore, e puxou para fora a galinha de ouro com os pintinhos, que se puseram a andar. A criada veio passando e viu. Correu logo para palácio e disse: “Ó rainha minha senhora, a peregrina está com uma galinha de ouro com uma ninhada de pintos, tudo vivinho e andando... Que coisa bonita! Só rainha, minha senhora, possuindo... ” A rainha mandou propor negócio. A moça disse que não era nada; bastava deixar ela dormir mais duas noites no quarto do príncipe. A rainha não queria; mas a criada arranjou tudo e a moça foi dormir no quarto do príncipe, e deu a galinha e os pintos de ouro. Na segunda noite que ela dormiu em palácio, a moça continuou o tratamento, e aí o príncipe foi melhorando e já a ia conhecendo. Na terceira noite acabou o curativo e o príncipe ficou bom. Depois que ficou de todo com saúde, saiu do quarto e apresentou à rainha e ao rei a peregrina como sua noiva, e assim se desmanchou o casamento que já lhe tinham arranjado com uma princesa vizinha. Houve muita festa na cidade e no palácio... E eu (isto diz por sua conta o narrador popular) trouxe de lá uma panelinha de doce para lhe dar (referindo-se à pessoa a quem contou a história), mas a lama era tanta que ali na ladeira dos Quiabos escorreguei e caí e lá foi-se o doce.
Entrou por uma porta,
Saiu por um pé de pato;
Manda o rei, meu senhor,
Que me conte quatro.