Capítulo I
Em que se prova (além de muita coisa, que quem lê saberá), que o cavalo de meu tio é incompatível com algumas estradas provinciais do Rio de Janeiro, e quase que se encontra um grande pensamento político chafurdado em um lamarão.
Sei muito bem que, segundo o uso de todos meus colegas viajantes, e conforme os conselhos da boa razão, era do meu dever começar a importantíssima história da viagem, que já estou fazendo, pela determinação do ponto donde parti; mas a casa de meu respeitável tio é uma espécie de velho castelo encantado, cuja situação geográfica não me é possível assinalar precisamente: eu podia sem dificuldade declarar, que ela demora aos tantos graus, minutos e segundos de longitude tal, e tantos e quantos de latitude, entretanto, procedendo assim, não faria mais do que pregar uma tremenda peta aos meus queridos leitores: não desconheço que as narrações de todos os meus colegas viajantes, e principalmente as daqueles, que têm andado pela nossa boa terra, contêm mais patranhas e mentiras do que os artigos de certos jornais políticos, e os programas de todos os ministérios; estou, porém, decidido de pedra e cal a seguir os conselhos de meu tio, escrevendo na Carteira, que ele me confiou, verdades e só verdades.
Contentem-se, pois, os meus leitores com saber, que eu parti da casa de meu tio, e que essa casa existe por ora dentro dos limites da província do Rio de Janeiro: digo por ora, porque sou um homem de consumada prudência, e não sei se mais dia menos dia passará pela cabeça das duas conquistadoras vizinhas tomar para si, e muito honradamente, a casa de meu tio: o caso não seria de todo novo, nem de todo velho: novo não, porque lá pelas bandas do Sul com uma só unhada arrancaram-nos um bananal inteiro: e velho também não, porque agora mesmo estamos correndo o risco, de ver efetuar-se uma tratadazinha de igual natureza lá pelas bandas.... et cetera e tal.... vamos adiante. (*)
As primeiras duas horas da minha viagem pertenceram exclusivamente ao domínio das reflexões sobre as circunstâncias em que me achava, e sobre o que me cumpria fazer. Larguei a rédea no pescoço do ruço-queimado: abri o paletó, e tirei do bolso do peito.... o quê?... adivinhem lá.
— A sua companheira de viagem, a Constituição do Império; pensarão alguns.
Pois não, senhores: o que eu tirei do bolso e consultei antes de tudo foi a bolsa, que meu tio me dera ao despedir-se: eu sigo sempre as lições dos grandes mestres: a Constituição contém letras mortas, e a bolsa contém letras vivas, e portanto, quando se trata da bolsa, que é negócio sério, põe-se de lado não só a Constituição, como todas as leis do Império, que são coisas de pouco mais ou menos.
Contei o dinheiro, e achei seiscentos mil-réis justinhos!
— Bravo! exclamei entusiasmado; bravíssimo! exatamente o subsídio mensal de um membro da temporária! oh que prazer não dará o fazer leis em cima da coxa, quando para isso se recebe seiscentos mil-réis por mês!
E nem mesmo tanto exige hoje em dia dos seus deputados a pátria ou o governo, que é a mesma coisa: antigamente os eleitos do povo tinham seu trabalho; o povo os elegia, e eles preparavam leis para o povo: eram parvoíces do tempo do onça: agora aperfeiçoou-se a geringonça: o governo, que ama o povo, e que não o quer fatigar por ninharias, nomeia os deputados em lugar dele; e também para não maçar a paciência dos seus escolhidos representantes, arranja as leis lá consigo, e se contenta, que a troco dos seiscentos mil-réis, o deputado esgoele de vez em quando o seu apoiado! quando fala um ministro, e de vez em quando ponha em ação os grandes glúteos, quando chega o momento da votação.
Isto é que é progresso! o parlamentarismo é uma peste pior que a febre amarela; era preciso acabar com ele.... e o bicho está por um triz a dar com os ossos em pantana! é verdade que às vezes ainda aparece algum teimoso diabo, que fala em Constituição, e falha com os ministros; mas é uma raridade, que não vale a pena, e que não embaraça a ninguém: contra a inteligência do parlador há a firmeza com que se põe de pé na ocasião precisa a coluna cerrada dos independentes: mais uma prova da perfeição humana! Os grandes glúteos, que são os músculos menos decentes do corpo do homem, triunfam mil vezes da inteligência, que é um sopro divino!... e digam lá que não vai o Brasil à vela!...
Assim que tive a certeza de que estava com seiscentos mil-réis na algibeira, veio-me logo a ideia de partir para a corte, aboletar-me aí em algum hotel famoso, divertir-me um mês nos bailes, nos teatros e nos passeios, passar, enfim, vida regalada, e improvisar nas horas vagas duas mil mentiras, com que pudesse encher a Carteira de meu tio.
Esta pouca-vergonha não teria nada de original, e não podia espantar a ninguém: alguns dos meus colegas viajantes, e principalmente os franceses, que são incomparáveis nesta, como em muitas outras espécies de charlatanismo, já têm feito o mesmo, que eu estive quase não quase a praticar: uns sem sair do Pharoux já têm passeado por Minas, Goiás e Mato Grosso, e milagrosamente escapado de serem lambidos pelos bugres e pelas onças: outros, depois de devorar um lauto jantar, e de escorrupichar algumas garrafas do bordeaux e de champagne, juram ter no mesmo dia e à mesma hora estado a ponto de morrer de febre e de sede nos campos de S. Paulo, onde os caipiras negam pão e água aos estrangeiros; estas inocentes mentiras tiram um imenso trabalho à gente, e é até um belo meio de apurar a imaginação: os tais viajantes franceses são pela maior parte homens de mão cheia! consciência até ali!...
Oh! a mentira! a mentira é um vasto e longo capote, que serve para esconder a preguiça, o erro, e toda a qualidade de traficância; a mentira é como a orquestra do nosso teatro italiano, que com seus cheios, fortes, e fortíssimos e arranjos oportunos encobre as desafinações e as misérias artísticas das cantarinas e cantores de cartaz, que nos vêm da Europa ganhar dezenas e dezenas de contos de réis por ano.
Se não fosse a mentira, como é que um ministro de estado poderia explicar e defender muitos de seus atos na presença do parlamento?... e como é que o político astuto e ambicioso havia de subir ao poder, enganando aos papalvos, que lhe servem de escada?...
Se não fosse a mentira, como se arranjariam certos generais para dar conta das batalhas que perdem?
Como é que os estudantes lograriam alcançar um aumento de mesada, ou um crédito suplementar dos pais menos condescendentes e cegos, se não fosse a mentira?...
Como é que os alfaiates ficariam às boas com os fregueses, a quem faltam com a casaca no dia prometido?...
Se não fosse a mentira, como se sustentariam as facções políticas?... como viveria a imprensa diária?... como se haveriam as direções e os diretores de teatros?... como fariam as moças pazes com os seus namorados?... como os advogados teriam causas de que tratar, e os escrivães custas que cobrar?...
A mentira esconde-se por detrás dos reposteiros de todas as secretarias de estado, dentro da manga do frade, no acolchoado da casaca do taful, nos postiços da moça casquilha, no carmim das faces da matrona desbotada, na cabeleira do velho careca, nos atestados de muitos médicos, em todos os diplomas eleitorais, nos protestos de todos os atores, nas declarações dos candidatos às deputações, nos títulos de nobreza de todos os fidalgos, no pincel dos pintores, na pena dos romancistas, no capelo dos bacharéis e doutores, nas lágrimas das viúvas, nos sorrisos das donzelas, nas cortesias dos diplomatas, nas promessas dos ministros de estado, nos desenganos de todas as mulheres, nas palavras dos vivos e nos epitáfios dos mortos!
Oh! certamente, a mentira é uma grande verdade da vida humana! E, digam lá o que quiserem, a mentira tem o seu altar e o seu culto em todas as nações e debaixo de todos os tetos: até já conta uma sociedade que a venera, e exercita os seus ditames; não quero dizer onde, para não brigar com amigos, que me obsequiaram muito, quando cheguei da Europa, e apareci no Rio de Janeiro, como um homem novo (*).
A mentira é como o sol, cujos raios penetram em toda parte: o único lugar em que ela não entra, é no céu. No mundo, não há casa em que seja hóspede nova, e do mesmo modo que facilmente se introduz nas cabanas, penetra também nos palácios reais, servindo-lhe aí de porta a excelentíssima boca dos conselheiros, ou trepando pelos bordados das fardas dos criados de galão de ouro.
Mas eu já disse que por ora não sou completamente digno do século em que vivo: porque ainda me resta um átomo de consciência; abandonei portanto o pensamento heroico de ir gastar os meus seiscentos mil-réis na corte, engolfando-me nos seus prazeres, e resolvi-me a executar à risca a vontade de meu sábio e respeitável Tio.
Caindo das nuvens de minhas reflexões, achei-me na terra, montado no terrível ruço-queimado, que caminhava de tão má vontade, como um jurado, para o nobre e alto tribunal, de que é membro, pela graça da sorte!
Maldito animal! Há quem diga, que os cavalos mouros são dos que provam pior: confesso que em minha ignorância adotei esse princípio até hoje de manhã; mas a experiência de duas horas tem sido suficiente para me convencer de que não pode haver ronceiro que iguale a um ruço, e principalmente ruço-queimado!... O cavalo de meu Tio é uma preguiça-monstro com cascos nos pés, crinas no pescoço e cabeça de três palmos do focinho às orelhas: é cavalinho que, se não anda para trás como o caranguejo, está pelo menos no caso da política do nosso país, pois que, suba quem subir está sempre no mesmo lugar, ou não sai de um círculo vicioso. Ah! que este cavalo há de gastar-me toda a paciência! E falam dos cavalos mouros! não há nada pior do que um ruço e ainda mais queimado! oh! queimados sejam todos os ruços: eu prefiro os mouros.
Mas o homem deve tirar partido de todas as circunstâncias em que estiver colocado; o gênio brilha em toda a parte e em todos os casos; ora, não há dúvida alguma, eu sou um homem de portentoso gênio, e portanto cumpre que me aproveite deste cavalo mesmo tal, qual é, para demonstrar a superioridade do meu talento.
Infame ruço-queimado! juro por meu respeitável Tio, que hei de imortalizar-te.
Que o Tasso imortalizasse Eleonora, que Petrarca imortalizasse a sua Laura, Gonzaga a sua Marília, Byron suas trinta mil namoradas (que tal bichinho que era este poeta inglês!); que Garrett imortalizasse os olhos pretos, e o nosso Gonçalves Dias uns olhos verdes; que Luís de Camões imortalizasse o terrível Adamastor, e o nosso Porto-Alegre o soberbo Corcovado; não é coisa que espante, nem que sirva para se aquilatar devidamente o gênio de tais escritores; porque todos esses objetos por eles decantados eram já de si mesmos ou formosos ou sublimes, e fáceis por isso de se levar à imortalidade.
O que na verdade assombra é ver imortalizar a fumaça de uma candeia e o pé de uma laranja, como o fez aquele mesmo Gonzaga; ou as Harpias, como Virgílio, ou uma escada, como Garção; ou um Perum, como Nicolau Tolentino; e enfim, muitas outras coisas feias, como muita gente de bom gosto.
E no que diz respeito aos cavalos, Ariosto não meteu nenhuma lança em África perpetuando a memória do ginete de Orlando, nem do palafrém de Angélica, nem dos próprios hipogrifos: cá para mim mais habilidade teve Homero mandando à posteridade o cavalo de Troia, que apesar de sua fama não passou de um cavalo de pau; e maior esforço de gênio foi ainda preciso a Alexandre Dumas para eternizar o cavalo de d’Artagnan, a Lesage para levar ao galarim da fama a ronceira mula do tio Gil-Peres; e finalmente a Cervantes para tornar imorríveis o rossinante de D. Quixote, o burro de Sancho-Pança.
Isto, sim, é que é grande, assombroso, e digno de um gênio, como o meu! e portanto, não há mais que hesitar, imortalizarei também o estacionário cavalo de meu Tio!
Vou descrever este importante animal, mas, bem entendido, há de ser em prosa, primeiramente, porque abomino a poesia, e dou ao diabo os poetas; e em segundo lugar, porque, a despeito de todo o meu desmarcado gênio, este miserável cavalo não seria capaz de me inspirar nem mesmo um verso de pé quebrado!
O ruço-queimado tem de comprimento uma vara, da raiz da cauda até a charneira, e outra vara da charneira até a parte anterossuperior da cabeça; já se vê portanto que em relação ao pescoço, apresenta suas semelhanças com um ganso; na altura não é lá essas coisas, chega apenas a vara e terça: meu Tio, que é homem da Marca de Judas, usava de um tamborete para ganhar o estribo, quando queria sair a cavalo no seu impagável ruço-queimado. A cauda deste chibante animal quase inteiramente despelada faz lembrar a do carneiro, que acaba de despir a lã; as ancas, sempre mais altas que a cabeça, dão-lhe o aspecto de uma ladeira pouco íngreme; os ossos dos quadris, descarnados e salientes, figuram as pontas de duas espingardas ensarilhadas; logo depois vêm as costelas, que se podem contar uma por uma, e abaixo delas demonstra-se uma barriga enorme e inchada, como o bojo de uma pipa! sustentam esta pesada massa duas pernas e dois braços finos, cabeludos e ornados aqui e ali de tumores de diversas qualidades, tendo os machinhos cobertos por bastos e compridos pelos: os cascos são grandes, esparramados, gretados e tortos, como os pés de um velho negro cambaio: o peito é fino, e descarnado: o pescoço sobre o qual caem longas crinas duras, como as sedas de um javali, é extenso, esguio, e abatido; as orelhas caem como dois alforjes aos lados da cabeça, que é enorme: os olhos fundos, tristes e lacrimosos parecem-se com os de um boi de carro; e sobre as órbitas abrem-se dois buracos de meter medo: as ventas são murchas, como odres vazios; e o beiço inferior pende sempre caído, como uma meia sem liga calçada numa perna fina.
Tal é o bicho, quanto ao seu aspecto físico.
Em relação a outros dotes, que possui o ruço-queimado é ainda não menos extraordinário: principia logo por ser um animal de constância inabalável: tem um só andar, que não é passo, nem marcha, nem trote: é um movimento inexplicável, um tiquetique, que vascoleja os intestinos do cavaleiro, e que nunca se torna nem mais vivo, nem mais moderado: também é cavalo que dispensa chicote e espora, porque quer o castiguem, quer não, anda sempre do mesmo modo; é um animal de constância inimitável.
Silencioso e pacato, rinchar é coisa que nunca soube; dar coice é coisa que nunca fez; quanto ao mais, acomoda-se a todas as circunstâncias; come tudo, desde o milho e o capim fresco até os espinhos e urtiga; se me não engano, apanhei-o uma vez comendo terra na estrebaria: é um glutão sem segundo! se não fosse cavalo, podia ser jornalista da polícia.
Paro aqui por agora: no decurso da viagem tornarei e muitas vezes a me ocupar do cavalo de meu Tio, já que lhe prometi a imortalidade.
Oh! bem diz o antigo anexim que devagar se vai ao longe: saí da casa de meu Tio às seis horas da manhã, e ao meio-dia já tinha vencido não menos de duas léguas!...
Entretanto, é preciso confessar; ainda mesmo que eu viesse montado no mais veloz e ardente cavalo árabe, não me teria adiantado muito mais: a estrada era cheia de socavões, atoleiros e precipícios, e o famoso ruço-queimado fez verdadeiros milagres de ginástica para não estender-se comigo a fio comprido no seio da mãe comum, como o antigo herói romano.
Ficou, em consequência, para mim demonstrado, que o presidente da província não tinha amigo, nem compadre, a quem visitasse uma vez ou outra, ali por aqueles lugares: um passeio, ou viagem do presidente da província é, no meu entender, o que melhor esclarece a urgência do conserto de uma estrada: enquanto as tropas carregadas dos fazendeiros e lavradores se estropiam no caminho, e algumas bestas morrem atoladas na lama, ainda se pode sofrer o mal; mas dar um solavanco à carruagem de S. Ex.!... misericórdia, ficava a pátria em perigo!...
Pela volta de uma hora da tarde cheguei a um lugar da estrada, onde havia uma venda, e logo perto uma casa, da qual saiu um machacaz, que se dirigiu a mim, e estendeu-me a mão.
O ruço-queimado (inteligente animal!) parou diante do homem, que se aproximara e a quem perguntei, meio desconfiado, o que pretendia.
— Os oitenta réis, respondeu-me ele.
— Oitenta réis!... e de quê?...
— Pois o Sr. não sabe?... oitenta réis do tributo da barreira.
— Barreira? exclamei entusiasmado, pagando imediatamente os quatro vinténs ao cobrador: barreira! tome lá, meu amigo, e creia, que pago de todo o coração, porque estou seguro, que pela ninharia de quatro vinténs terei daqui por diante uma estrada transitável.
O cobrador retirou-se, dando uma risada, mas eu não fiz caso: estava então convencido de que quem paga o tributo da barreira de uma estrada, adquire o direito de achar estrada boa, a menos que o governo, que levanta a barreira, não queira passar por estelionatário: pobre tolo! tinha-me esquecido de que em honra e glória desta instituição chamada barreira, que tem aproveitado a outras nações, e que na nossa se acha completamente desacreditada, pela incúria do governo, já houve quem escrevesse estes dois versinhos!
« Porque, Si vera est fama,
« Onde há barreiras, há lama. »
Perdão, se me lembrei de citar um poeta; é o que acontece a quem viaja por algumas das estradas da província do Rio de Janeiro!
Reconheci bem depressa, que o brejeiro do cobrador tivera razão de sobra para dar a sua risada: depois da barreira a estrada tornara-se ainda pior. Ah! se eu chegar a ser deputado hei de propor que os presidentes da província do Rio de Janeiro sejam obrigados a viajar no cavalo de meu Tio pelas nossas estradas quinze dias de alguns dos meses de chuva.
Finalmente estanquei defronte de um vasto e soberbo lamarão... Pareceu-me ver a negligência do governo da província dormindo o sono da indiferença em um leito de lamaçal, por baixo da crosta torrada pelo sol, que eu via cobrindo aquele tremendo atoleiro!
Eu já sentia uma fome de todos os diabos: que havia de fazer?... voltar?... de modo nenhum: sou um homem de coragem.... enterrei as esporas no ventre do ruço-queimado; o prudente animal hesitou, mas tantas esporadas eu lhe dei, que afinal atirou-se no mare magnum!
Ah! apenas tinha o pobre cavalo dado a terceira passada, quando senti, que ele se abismava até os peitos e eu até os joelhos naquele sorvedouro de lama! Não pude conter-me; soltei um viva estrepitoso ao governo da província!
— Atolado em regra!... exclamou, rindo-se a não poder mais, um homem de botas, que nesse momento parava o cavalo do outro lado do lamarão!
Confesso que dentro em mim dei um solene cavaco com aquele impertinente desconhecido, que assim tão sem cerimônia zombava nas minhas barbas do triste caso, que me sucedera! mas entendendo que era prudente não me mostrar ressentido, fingi que também me ria, e respondi:
— Atolei-me, sim, meu caro; dou porém parabéns à minha fortuna; porque descobri neste lamarão um grande pensamento político!
— Um grande pensamento político dentro de um lamarão? Meu jovem viajante, apesar do ar com que o diz, a coisa não tem nada que admire; porque a política da nossa terra apresenta-se às vezes com tão mau cheiro, e os politicões fazedores de programas empregando sistemas, em que tanta gente se atola, que bem se pode dizer, que suas ideias são miasmas, que exalados de um paul, infeccionam a nação; mas, se não leva a mal a minha curiosidade; diga-me: qual foi a descoberta que fez, e a que parece dar tanta importância?
— Enquanto este impagável ruço-queimado descansa e reúne todas as suas forças para arrancar-se dos grilhões de lama, que o prendem, vou satisfazer a sua pergunta.
Dizendo isto levantei as pernas, encruzei-as muito à minha vontade sobre o arção do selim, e falei pelo modo seguinte:
— Meu caro, sentindo-me enterrar até os joelhos neste inevitável atoleiro; compreendi, que a tal instituição das assembleias provinciais é um traste de luxo, que para nada presta, e que de nada serve ao país; quando muito, convém unicamente a certos meninórios, que delas fazem escadas para subir à assembleia geral.
— Homem: mas por que pensa assim?...
— Ora! tirei uma consequência, que o senhor pode também tirar, tomando como premissas a mim e ao meu cavalo enterrados neste lamarão. Assembleias provinciais, que não abrem, nem consertam estradas, que não cavam canais, que não levantam pontes, não valem de certo as despesas e os incômodos, que se têm com elas; e o que se observa é, que o povo se afoga nos rios, e se atola nas estradas; portanto, fora com tais assembleias provinciais!
— Chama-se a isto pagar o mal que não fez! exclamou o homem das botas.
— Sou neste ponto o eco de muitos estadistas do país, respondi.
— Isso vejo eu, que não sou cego; os novos Saturnos querem devorar o próprio filho, e para desacreditá-lo a fim de que a favor dele ninguém se lembre de querer quebrar uma lança, tratam de pô-lo pelas ruas da amargura, carregando-o de calúnias. Diga-me cá, meu amigo: que podem fazer as pobres assembleias provinciais, no que diz respeito ao ponto de que se queixa?... nada mais do que isto: ordenar a construção das obras, e conceder para esse fim os fundos necessários: ora, as assembleias provinciais, de que o senhor tanto se está queixando, não se descuidam de cumprir com esse dever, e às vezes cumprem-no até demais; entretanto, além do poder, que legisla, há o poder, que executa; além da assembleia provincial, há o presidente da província: e o senhor sabe o que é um presidente de província?...
— Pelo menos tenho a vaidade de supor que sim.
— Meu caro, as coisas podem definir-se conforme elas são, ou conforme elas devem ser; eu prefiro sempre defini-las como elas são, e portanto entendo e digo, que o presidente de província é uma autoridade encarregada de não executar as leis do Império, nem as da província que administra.
— Homem, esta agora é de arromba!
— Defini a coisa como ela é; quem quiser que defina como ela deve ser; mas tornemos à nossa questão. As assembleias provinciais mandam fazer obras, abrir e consertar estradas, levantar pontes, etc., a prova disso está nesses livros de letra morta, que têm o nome de Legislação Provincial; que acontece, porém? o presidente da província ou não executa as disposições da assembleia, ou quando as executa o faz pelo modo por que o senhor está vendo neste lamarão!
— Logo?
— Logo as assembleias provinciais assim mesmo como vão, fazem o que podem, e os presidentes de províncias, nem ao menos fazem o que devem; mas os tais presidentes são politicões, ou criaturas dos politicões, e os deputados são filhos de uma instituição popular; por consequência, carreguem os deputados com as culpas dos presidentes: eis aí a verdade.
— Mas, em tal caso: por que não sabem os deputados tomar severas contas, censurar, e responsabilizar os presidentes de província?
— Ora.... porque entre nós o voto livre exprime sempre, e seja como for, a vontade de quem domina; o povo vota sempre em quem governa, porque sabe, que quando assim o não quer fazer fica reduzido a cão leproso, que apanha e não tem quem lhe acuda; e portanto, os deputados provinciais são, em regra geral, escolhidos a dedo pelos presidentes de província.
— Por consequência, a coisa vai mal!
— Oh lá se vai! e queira Deus que não vá ainda pior! A nação anda muito incomodada, e os médicos que tratam dela, são piores do que os curandeiros aqui da roça.
— E o remédio?...
— O remédio seria bem simples; bastava que cada um tratasse de si e não se metesse com a vida alheia.
— Como assim?
— É assim mesmo; bastava que o governo se ocupasse unicamente daquilo que lhe compete, e não se metesse com a vida do povo, envolvendo-se nas eleições, que são a pedra angular do sistema que nos rege; é endireitarem o carro para essa verdadeira estrada, que verão a boa viagem que faz! Com eleições livres os ministros tratam de andar direitos, porque sabem que têm de dar contas às câmaras; os deputados procuram zelar os interesses públicos, porque sabem que têm de dar contas ao povo; e o povo quase sempre vota bem, porque sabe que votando escolhe o juiz para sua demanda. O voto livre é a varinha de condão do sistema representativo; e em último caso eu prefiro o soco inglês das eleições das Ilhas Britânicas às espadas e espingardas dos soldados e beleguins da polícia da nossa terra; mas isso não faz conta aos maganões, que se revezam no poleiro, pois podia acontecer que o maldito do povo mandasse às câmaras alguns diabinhos da mão furada, que fizessem tocar a retirada aos tutores obrigados do país: olhe que havia de ser uma festança ver os pais da pátria cedendo o lugar aos filhos do povo!...
— O senhor me está parecendo um pouco republicano!
— Oh lé! também é moda falar assim; hoje em dia quem não jura nas palavras dos ministros e de seus primeiros agentes, recebe logo o diploma de republicano; a monarquia se resume neles; trazem a monarquia na barriga, e aquele que lhes faz uma careta, fica logo revolucionário. Ainda bem que não há mais quem se engane com eles; a monarquia brasileira é bela como uma obra do Céu, e não se pode por modo algum identificar com os tais maganões, que, se os julgarmos por suas obras, devem ser feios como o pé de pato!
— A consequência, pois, de toda essa nossa conversa é, que eu me enganei redondamente, quando supus ter encontrado neste lamarão um grande pensamento político: não é assim?
— Eu o creio.
— É pena, meu caro; porque bem quisera ter achado alguma coisa, que me consolasse da contrariedade por que passei.
— Não se lastime, meu jovem viajante; se não deparou com o pensamento político, que supôs, achou pelo menos outra coisa, que vale tanto como isso, no lamarão em que se acha atolado.
— Então o quê?...
— O retrato do desleixo do governo da província.
Ainda bem.
Neste momento o ruço-queimado fez um esforço para sair da triste posição em que se achava; aproveitei o ímpeto brioso do prudente animal, e enterrando-lhe as esporas no ventre, consegui, a muito custo, fazê-lo sair do tremendo atoleiro.
(*) O autor alude aos limites da província do Rio de Janeiro com as de S. Paulo e Minas Gerais.
(*) Refere-se à sociedade, Petalógica, que diariamente se reunia e se reúne em uma casa da Praça da Constituição.