Capítulo IV
Como o compadre Paciência fez-me levantar da cama ao romper do dia: despedimo-nos do Marca de Judas, e continuamos a nossa viagem; dou conta da visão, que tive, ao meu companheiro, que a explica, como a cara dele; chegamos a uma vila (cujo nome deixo no tinteiro), onde depois de tropeçar em uns artiguinhos constitucionais, que estavam na cadeia rolando pelo chão de envolta com os tamancos do carcereiro, subimos à casa da câmara e assistimos a uma sessão de júri, que fez o compadre Paciência ter ocasiam de dizer cobras e lagartos contra os sábios patriotas adversários dessa instituição perigosa.
Não sei como serenou a exaltação do meu espírito depois daquela singular visão, de que felizmente me vieram arrancar os estrepitosos roncos do compadre Paciência.
O certo é que dormi.
Também não me admiro disso; os ânimos os mais exaltados serenam às vezes com qualquer coisa, e até com a aplicação de meios contraditórios. A uns por mais furiosos e endiabrados, que estejam, basta que lhes batam com o pé, e que lhes deem quatro gritos, ainda que sejá em voz de falsete, para fazê-los tornar à razão e tomar uma atitude pacífica, ou guardar um silêncio muito significativo; a outros o som argentino e metálico de umas onças, que não arranham nem fazem mal a ninguém, acomoda perfeitamente: outros aplacam-se e tornam-se de água fervendo em água gelada, com a simples promessa de alguma vara, que nem mesmo é vara de pau; estes abdicam até o direito de pensar com o aceno de uma pensão; aqueles sufocam as fúrias, e esquecem a teima, quando os levam aos empurrões; alguns até, que têm excelência de jure, sossegam completamente recebendo mercê.
Segredos de organizações delicadas e nervosas! Ainda bem que a ciência têm descoberto e estudado em todas as suas nuanças estes segredos da organização humana, e ensina os meios de se tirar proveito deles; se assim não fora, as arengas não teriam termo, nem certos ministérios conseguiriam arranjar maioria em certos parlamentos.
Talvez digam que os tais meios são um pouco atentatórios da dignidade do homem; mas eu entendo que isto de dignidade pessoal é muito relativo; se há homens que têm dignidade de homens, outros há que têm dignidade de cavalo, dignidade de carneiro, dignidade de serpente, dignidade de hiena, dignidade de ostra, dignidade de rato, e até mesmo dignidade de lesma; não creio, pois, que os tais meios sejam attentorios da dignidade de ninguém, porque quem não tem, nem nunca teve, nunca perdeu, nem pode perder; e demais, contanto que a coisa vá indo, ainda que sejá aos empurrões, pouco importa. «Os fins justificam os meios» e o mais é peta.
A minha exaltação serenou, como já disse, com os roncos do compadre Paciência, e eu ferrei num sono tão profundo, como o do ministro que teve fama e deitou-se a dormir! Bem se vê que não há, nesta comparação, indireta atirada a nenhum salvador da pátria; porque hoje em dia os ministros de Estado andam tão ocupados consigo mesmos, e com os seus compadres e afilhados, que trabalham nesse patriótico mister vinte e cinco horas por dia, não lhes restando tempo algum para dormir, e muito menos para cuidar da pátria, cujos negócios, como são de todos, não são de ninguém, e portanto acham-se adiados indefinidamente até que apareçam os tolos, que não tratam de si.
Adormeci, pois, e dormia muito sossegado, e ainda estava o dia lá nas botas de Judas, quando fui obrigado a despertar aos gritos do compadre Paciência, e às marteladas, que ele me dava na porta do quarto, como se a quisesse arrombar.
— Que é isso lá?... bradei espantado!
— São horas de viajar.
— Ó compadre do diabo: não vê que ainda é noite fechada?
— As galinhas já desceram do poleiro, e o senhor, como homem da escola do Eu, deve regular todos os seus atos pelo que se passa no poleiro.
— Sim; mas eu me regulo pelo que fazem aqueles que estão no poleiro, e não pelo que praticam os que descem dele. Sou capaz de apostar, que o amigo Constante ainda está no primeiro sono?
— O Marca de Judas é um representante da conciliação da barriga, e pode por consequência dormir até o dia de juízo sem o menor inconveniente para ele.
— E no dia de juízo?...
— No dia de juízo há de lhe ser preciso acordar mais cedo, do que nós acordamos hoje, para atirar foguetes e girândolas aos novos santos da festa.
— Mas eu não acho razão plausível para nos pormos a caminho a horas em que ainda não se vê a estrada.
— Compadre, o que me parece é, que o senhor pertence a uma certa qualidade de gente, que nunca acha luz bastante para ver o que lhe não faz conta. Dizem-me que há repartições públicas, por cujas portas entram e saem escândalos vergonhosos do tamanho da arca de Noé, sem que os seus primeiros chefes tenham jamais luz suficiente nos olhos para vê-los. Dizem-me que há autoridades policiais, que têm o pobre povo em uma suspensão de garantias perpetua, sem que os presidentes de província, e ministros de Estado tenham olhos para ver esse estado de miséria civil, esse estado de mentira constitucional, em que existe atenazada a população, para acodi-la uma vez ao menos com a bandeira da misericórdia. Dizem-me....
— Basta, compadre, basta! tenho medo, que o seu dizem fique mais comprido do que os discursos do Marca de Judas.
— Está bem, não irei adiante com o que me dizem; mas quero sempre concluir asseverando-lhe, que quem mais soffre com todas essas cataratas do governo é por um lado o povo, que padece, e por outro lado o tesouro público, que paga as favas; e o que eu peço a Deus é, que a paciência dure mais no coração do povo, do que o dinheiro nos cofres do tesouro.
— O compadre acordou hoje com mais meio palmo de língua!
— Pois se não quer que eu fale, toca a viajar.
— Homem dos meus pecados: que necessidade temos nós de andar fazendo madrugadas por esses caminhos fora?...
— Quem mais cedo anda, mais depressa chega.
— Nem sempre, compadre.
— Pelo menos assim deve em regra acontecer.
— Nego a pés juntos.
— E faz bem em negar a pés juntos, porque a lógica dos pés anda agora muito na berra; mas eu não me arredo do adágio antigo, e tenho dito.
— Não se deve, nem se pode resistir à evidência, meu caro compadre: regras, só matemáticas; todas as outras servem somente para fazer-nos dar cincadas, e perder no jogo! Diz vossa mercê que quem mais cedo anda, mais depressa chega; e eu sou capaz de apresentar-lhe trinta mil exemplos, que contrariam a sua regra: lá vai um por todos: a independência do Brasil, que é uma coisa que, segundo dizem, já está feita, posto que eu não o saiba com certeza....
— Nem eu; vamos adiante....
— A independência do Brasil foi o fim de uma viagem política, que se fez em 1822; entretanto já no século passado o Tiradentes, e os seus companheiros tinham-se posto a caminho, para fazer a mesma viagem: e o que aconteceu?... o Tiradentes, que andara mais cedo, ficou enforcado na estrada!
O compadre Paciência fez uma careta, que eu julguei dever tomar por um sinal de respeito à minha lógica. Animei-me com esta primeira vitória e prossegui:
— O mais seguro é esperar sempre que o sol estejá fora para se viajar sem correr o risco de dar topadas no caminho, e até mesmo porque viajando-se em claro dia o caminhante pode colher os frutos, que penderem dos ramos das árvores, que bordarem a estrada. Compadre, Talleyrand, que foi o maior homem da sua época, e o mais feliz dos viajantes políticos, nunca teve pressa na sua vida, nem jamais se lembrou de acordar cedo para viajar; pelo contrário tinha por princípio nunca fazer em um dia o que poderia fazer no seguinte: note, que Talleyrand foi chamado o príncipe de Benevento, porque ele sempre esperava, que lhe soprasse bom vento para transportar o seu barquinho de um porto para outro.
— E, por fim de contas, sempre velhacaria no caso!...
— Isto não é velhacaria, é prudência, ou habilidade política. Suponhamos, que eu sou ministro de Estado, e que amo a minha pasta sobre todas as coisas....
— Admito a hipótese, e tanto mais que paixões românticas, como essa que supõe, andam na última moda. Continue.
— Bem: suponhamos que eu sou ministro, ou mesmo que eu sou um ministério inteiro....
— Também admitto esta segunda hipótese; porque há ministérios, em que um ministro é o tudo e os outros nada são: é um tudo e nada, no governo do Estado.
— Muito bem, sou eu pois um ministério inteiro, e vejo que há um partido, que quer fazer uma viagem de um princípio velho para um princípio novo, isto é, que prega e sustenta uma ou algumas reformas; ao mesmo tempo que outro partido por conveniências pessoais, por medo, ou por convicção, se opõe a essa viagem política: que devo eu fazer?...
— Pôr-se à frente dos viajantes, se julga a coisa conveniente ao Estado; ou francamente contrariá-los, e impedir a viagem, se a acredita perigosa ou má.
— Asneira, compadre! se eu andar cedo, e a viagem burlar-se, adeus pastas; se eu me opuser francamente á viagem política, e ela ainda assim realizar-se, adeus poleiro!
— E então?... nem peixe, nem carne: não é assim?...
— Melhor ainda: peixe e carne ao mesmo tempo: fico de espreita e sem mover-me: digo aos homens do progresso, ou da viagem: «andem lá, que quero ver, se a estrada é boa.» e se eles andarem, e a coisa for para adiante, espero um dia, em que nem chova, nem hajá sol muito quente, e soltando as rédeas ao meu bucéfalo, apanho os viajantes no caminho, ponho-me na frente deles, chego antes de todos, tendo saído mais tarde, torno-me — herói —, e fico sempre abraçado com a minha querida pasta, que é um anjo cheio de feitiços e de encantos!
— E se a rapaziada viajante mandar, que fique na retaguarda, o espectador político que vai tão tarde ajuntar-se a ela?
— Em tal caso volta-se as rédeas ao cavalo, suspendem-se as garantias, e manda-se trancafiar a reforma na cadeia, em nome da ordem pública; mas nunca se faz preciso tanto.... a família dos tolos é tão fecunda, que os velhacos têm sempre um mundo cheio de gente para enganar, e desfrutar.
— Isso é verdade, e tão verdade, que o senhor teve a habilidade de me ir entretendo com as suas extravagantes ideias até que se abriu o sol, e é dia claro!...
— Ainda bem! agora tomemos uma xícara de café com o Marca de Judas, e ponhamo-nos ao fresco.
Saímos para a varanda da estalagem, e aí encontramos o amigo Constante, que, como se adivinhasse o meu pensamento, nos esperava com algumas xícaras de café e um prato de beijos.
Em quanto dávamos aquele excelente bom dia aos nossos estômagos, o Marca de Judas pronunciou um novo discurso sobre o progresso material: é verdade que disse a mesma coisa, que já umas poucas de vezes nos tinha repetido na noite da véspera; mas ainda nisso o bom do estalajadeiro provou que era um verdadeiro parlamentar, e que podia ser um deputado ministerial do trinque.
Da varanda da estalagem passamos à estrebaria: a mula ruça comia palha seca, e o ruço-queimado devorava uma pingue ração de milho: a minha conciliação tinha chegado até o meu cavalo...
O cavalo conciliado comia milho; estava em regra!
Chegou enfim o momento da despedida.
O amigo Constante fez uma cortesia muito desenxabida ao compadre Paciência, e correndo a mim, deu-me três meios abraços; foram meios e não inteiros, porque a barriga lho impediu; também escapei de um beijo, graças ao seu famoso nariz.
Mas não escapei da conta da despesa: o Marca de Judas enterrou os dedos nos meus seiscentos mil réis sem atenção nem piedade!
Não tenho remédio senão confessar uma coisa, e aqui vai ela: os tais políticos da barriga, quando se trata de dinheiro, não fazem cerimônia nenhuma, e lambem, se podem, até o ultimo vintém, que veem!...
Tive vontade de vingar-me do Marca de Judas, soltando um viva à oposição; não o fiz com vergonha do compadre Paciência, que ria-se a bandeiras despregadas da catástrofe financeira, com que terminara a comédia da minha conciliação!
Começamos a viajar: no primeiro quarto de hora guardamos um tão obstinado silêncio, que poderíamos parecer duas estátuas a cavalo: não sei porque o compadre Paciência estava, contra o seu costume, tão pouco disposto a tirar a ferrugem da língua: quanto a mim, levei todo o quarto de hora a pensar no desvergonhamento com que o Marca de Judas tinha roubado, com tanto escândalo, a um seu aliado político.
O cavalo de meu tio e a mula ruça do meu compadre iam marchando par a par no seu passo inalterável e constante: são dois animais conservadores, na extensão da palavra, e não admitem mudança, nem reforma no seu andar: a única diferença que neles observei nessa manhã foi, que a mula ruça caminhava de pescoço estendido para diante, e sem fazer o menor movimento com a cabeça, em quanto o ruço-queimado voltava de vez em quando o focinho para trás, como se sentisse saudades da estalagem do Sr. Constante: a razão disso era clara: um tinha tido por ceia e almoço palha seca e as tábuas da manjedoura, ao mesmo tempo que o outro comera toda a noite capim fresco, e de manhã devorara uma ração conciliatória de milho; ora, como o ruço-queimado, à semelhança dos bons bebedores, que em quanto acham boa pinga não mudam de venda, estimaria ter-se deixado ficar na estrebaria do Marca de Judas, explicava-se sem dificuldade aquele impulso de gratidão que lhe fazia voltar o focinho para trás.
Era ao menos um quadrúpede sensível e agradecido, e assim como assim tinha um focinho que valia o dobro do coração daqueles homens, que se esquecem dos obséquios que recebem e fingem desconhecer os bemfeitores, quando não precisam mais deles: honra pois sejá feita ao focinho do cavalo do meu tio!
Mas no fim do quarto de hora de viagem ou porque me incomodasse aquele teimoso silêncio, ou porque me quisesse distrair e arrancar da triste lembrança do desencanto final da minha conciliação com o maldito estalajadeiro, abri a boca e disse:
— Compadre, é contra a minha natureza estar tanto tempo calado.
— Já se vê que a sua natureza há de lhe obrigar a dizer muita asneira.
— Sejá assim; mas agora vou lhe dizer alguma coisa, que não será asneira.
— Ninguém pode ser juiz em causa própria, meu caro; há homens que se despacham a si próprios, quando têm nas mãos as chaves dos despachos, o que é na verdade ser juiz de si mesmo; isso porém não deve servir de regra, por mais que sejá moda do tempo.
— Compadre, quero lhe contar um caso, que me aconteceu esta noite.
— Então que foi?
— Tive uma visão, compadre!
— Uma visão?...
— É verdade; e desejo que me ponha em trocos miúdos a extravagante embrulhada que sonhei acordado.
— Homem, cada um no seu ofício: não se encomendam botas aos alfaiates; explicações de embrulhadas, quem melhor lhas poderia dar era uma certa rodinha de salvadores da pátria, que têm embrulhado por tal maneira os negócios do Estado, que é uma verdadeira dificuldade achar quem venha depois deles desembaraçar a maranha política; mas, enfim, conte lá a história da sua visão, ainda que sejá somente para fazer com que a viagem nos pareça mais curta.
Larguei as rédeas sobre o pescoço do ruço-queimado, e comecei a minha narração, descrevendo a singular procissão, que eu tinha visto, com todos os ff e rr; à medida que eu ia falando o compadre Paciência arregalava os olhos e deixava cair o queixo, de modo que quando fiz ponto final, já ele tinha o queixo tão caído que não lhe foi preciso abrir a boca para responder-me; tomou pois a palavra, e principiou por este teor e forma a dizer cobras e lagartos.
— Pois é a isso que chama embrulhada? oh! senhor! a sua visão é o quadro fiel da atualidade; e em vez de considerá-la um sonho extravagante e atrapalhado, considere-a, pelo contrário, uma verdade simplicíssima, evidentíssima, que está entrando pelos olhos de todos.
— E que ainda não entrou pelos meus!
— Porque não há pior cego, do que aquele que não quer ver: pergunte aos ministros de Estado se enxergam os abusos, os despotismos e as atrocidades que praticam os agentes do poder?... aquelas alminhas inocentes veem sempre toda a sua família oficial e policial andando cuidadosa e passo a passo pelo caminho da lei, quando o país inteiro brada, que muitos membros dela desencabrestam pelas charnecas e pelos espinhais do arbítrio, jogam e escoiceiam como burros bravos, e atolam-se até as orelhas nos lamarões da corrupção.
— Deixe-se de ministros, e da família oficial e policial, compadre; e vamos ao meu caso.
— Essa é boa! pois se o seu caso diz respeito muito de perto aos ministros e aos seus agentes: como quer que eu me deixe deles?
— Mas explique-me antes de tudo a visão que tive, e depois fale, ralhe e malhe quanto quiser.
— A coisa está tão clara, que não precisa explicações; mas, enfim, lá vai tudo em duas palavras: a sua visão quer dizer que é efêmero, falso e insubsistente todo o progresso material que não se demonstra a par do progresso moral do povo; quer dizer, que nas épocas desastrosas, em que se faz da corrupção um sistema político, ou um meio de governo, os homens do Eu, que se acham de cima, declaram-se amigos e patronos dos interesses materiais, pregam a sua excelência sobre todas as questões de princípios; porque sabem que o materialismo político mata o espírito público, que é a alma dos povos livres, e a enxada que abre a cova dos ministérios corruptos.
— Compadre, a sua explicação está ainda mais embrulhada do que a minha visão! Eu falo-lhe em alhos e o senhor responde-me com bugalhos! eu trato de progresso material, e o senhor atordoa-me os ouvidos com essa frioleira de progresso moral do povo!... O que tem o governo com a moral do povo?... a moral pertence à alma, e por consequência os padres que se avenham com ela; o governo do Estado não tem nada que ver com isso; governa-se sem moral, compadre.
— Há exemplos disso, é verdade; mas cá na minha língua, um governo sem moral chama-se desgoverno, — verbi gratia...
— Alto, a sua verbi gratia vem com jeito de faca de ponta; e eu não sou homem que consinta que à minha vista se ofenda os meus amigos políticos. Vamos à questão.
O compadre Paciência prosseguiu então dizendo:
— Eu também estimo, louvo e quero o progresso material: que alma danada haverá aí, que não almeje ver o nosso país bordado de belas estradas, cortado de extensos canais, com suas mais longínquas províncias ligadas e aproximadas pelo encanto das vias férreas, com os seus mares e os seus rios sulcados por dez mil ou por cem mil vapores, com os seus desertos povoados de colônias, com as suas riquezas minerais aproveitadas, com todas as suas cidades, vilas e aldeias iluminadas a gás?... quem não desejará calçadas em todas as ruas, aterros em todos os pântanos, pontes em todos os rios?...
— Por consequência, têm razão o Marca de Judas: viva o progresso material!...
— Viva, sim, não há dúvida nenhuma, senhor compadre; mas viva também e indispensavelmente outra coisa...
— O que mais?...
— Viva o progresso moral e político!
— Isso é birra de revolucionário!
— Não; é porque sem eles todo o progresso material, ou é uma mentira, ou uma ilusão, ou dá com a nação em vasa-barris, e enfim não presta para nada.
— Petas, meu caro: a única realidade desta vida é a riqueza: quem têm dinheiro, têm tudo: um povo rico é sempre um povo feliz!
— Sublime princípio! é um princípio ensinado na escola, de que é mestre o diabo; ensaiemo-lo porém na prática, e tomemos para exemplo um homem. Faça de conta, que tem diante de seus olhos um homem que tenha amontoado riquezas fabulosas, que possua milhares de milhões em seus cofres, que sejá senhor de cem palácios maiores do que o do imperador da China, e do Dairi do Japão; que vejá ao seu aceno moverem-se vinte mil escravos: eis por consequência um homem verdadeiramente feliz!
— Quem me dera! ficava eu sendo logo bonito, engraçado, sábio e benemérito da pátria!
— Espere, que ainda não acabei. Faça agora também de conta, que esse homem é desmoralizado e corrupto; que vive a vida da devassidão e da crápula, e que naturalmente em resultado dessa vida de vícios, e de vergonhosos excessos, estragou a saúde, e reuniu em seu corpo um composto de todas as enfermidades: ei-lo curtindo dores desde a manhã até à noite: ei-lo paralítico, tísico, coberto de úlceras, sem poder engolfar-se nos banquetes, nas orgias, na devassidão, como dantes, e vendo cada dia abrir-se a sepultura, que o deve tragar: que diz a isto, compadre?...
— Digo que arranjou um quadro lúgubre!
— Pois é este o retrato de um povo rico, mas desmoralizado.
— Nego a consequência: se o argumento procede a respeito de um homem, pode não proceder a respeito do povo.
— Oh! pois não! cheguem todos os nossos melhoramentos materiais ao seu maior desenvolvimento, tudo isso será vão, e quimérico, se a moralidade pública não for regenerada, e se a verdade do sistema representativo não for restaurada: sabe o que há de acontecer?... por um lado, à medida que aumentar a riqueza pública, aumentará também a fome dos parasitas do Estado, e se multiplicará o número das sanguessugas da nação: a prevaricação mostrará sempre o fundo do tesouro público; a riqueza será o privilégio exclusivo de cem espertalhões, ao mesmo tempo que a miséria cobrirá de andrajos a milhares de inocentes: o exemplo dos crimes impunes centuplicará a falange dos criminosos, e o veneno que corromper o coração do Estado, cairá um dia no seio das famílias, e a desmoralização tocará o seu auge: e por outro lado o sistema representativo, que, graças a Deus nos foi dado, arrancado de seus eixos, não podendo fazer o bem, que devia, e podia, transtornado, sofismado, convertido em uma coisa, que ninguém entenderá, servindo de base ao poder oligárquico de um círculo egoísta, desacreditar-se-á na opinião do povo, que não raciocina, e que lançará sobre o sistema as culpas dos desorganizadores do sistema: o caos político substituirá a ordem, a descrença mirrará o coração do povo, que não tendo mais nem fé, nem esperança, acabará também por não ter caridade, passará da descrença ao desespero, e depois...
— Acabe...
— Compadre, do desespero do povo a uma revolução há só um passo a dar, e desde que o vulcão revolucionário irromper os melhoramentos materiais, as fontes da riqueza pública, as verdades, e as mentiras, os bons e os maus, tudo enfim ficará à mercê de Deus. Oh! sim!... não basta o progresso material; é preciso também progresso moral e político; é preciso sobre tudo que se moralize o povo, e para isso é essencial que se moralize a si próprio o governo em primeiro lugar.
— Difficilem rem postulasti! o nosso governo é essencialmente governo das maiorias: e como quer o compadre que os ministérios se moralizem, se lhes é necessária a desmoralização para arranjar maiorias?...
— Patriotismo, honra, e boa vontade sobram para levar ao cabo essa obra: dizia-se que a cessação do tráfico de africanos era um impossível, e quando o governo... quis (sou Brasileiro: devo dizer, que o governo quis) o tráfico acabou: diz-se, que o patronato é invencível entre nós, e vimos no fim de 1854 e no princípio do ano de 1855 bater-se com a porta na cara do patronato, nos exames de instrução pública da capital do Império. Nada é impossível debaixo deste ponto de vista a um governo patriótico e honesto; quando o governo entender que as maiorias devem ser formadas pela opinião, e pela consciência, e devem ter por laço a homogeneidade de princípios, os ganhadores políticos serão mandados plantar batatas, os homens de bem se farão poderosas colunas do governo, e metade da obra da regeneração da moralidade pública estará feita.
— Bravo! têm pregado, como um frade velho! mas creia, que os peixinhos não cabem na isca: as suas teorias servem muito bem para a família dos Sócrates; mas a família do Eu não entende pitada da sua geringonça.
O compadre Paciência já não me escutava; e continuou entusiasmado:
— Quando o progresso material de um país não se mostra a par do progresso moral do povo, não exprime senão uma prosperidade fictícia. Riqueza material cobrindo miséria moral, é o mesmo que uma árvore, que apresentasse a casca verde, e que tivesse o miolo podre: é a alegria da embriaguez durante dez ou vinte anos, para ser logo depois seguida de séculos inteiros de humilhação e de vergonha. Quando o progresso material de uma nação aparece em sua marcha de braço dado com o progresso moral, isto é, quando a riqueza se desenvolve, e ao mesmo tempo se aprimora a virtude, e se purificam os costumes, então há verdadeiro progresso, há o progresso de Deus; mas se pelo contrário somente se dá importância ao dinheiro, e aos melhoramentos materiais; quando nesse caso, o que se diviniza é só a matéria, e se vai deixando corromper cada vez mais os costumes, estragar de todo a moralidade pública, e cair em desprezo a religião, as instituições políticas, e as grandes inspirações do amor da pátria, da liberdade, da glória, e de tudo quanto é nobre, grande e generoso; oh! então não há senão um progresso falso, pérfido, e fatal; não há senão o progresso do diabo, que é o que nos querem dar.
— Já acabou com os seus quando?...
— Ainda não: lá vai mais um, que há de levar água no bico: e quando ao contemplar a minha pátria, a par de tanta coisa boa, no que diz respeito ao material, eu sinto as tendências, que mostram alguns figurões, para arrancar ao povo as conquistas gloriosas do sete de Setembro, e do vinte e cinco de Março; e vejo que a Constituição do Império nos garante a imprensa livre, e sinto que nos querem amarrar a imprensa às varas dos juízes de direito; e vejo que a Constituição do Império nos garante o júri, — e sinto que pela surrelfa nos querem surripiar o júri; e vejo que se têm feito da eleição uma peta, da harmonia dos poderes do Estado outra peta, da inviolabilidade do asilo do cidadão outra peta, da municipalidade outra peta, da Guarda Nacional outra peta, da liberdade individual outra peta, e do sistema representativo, falseado, como está, uma grande peta, que resume todas as outras petas; ponho-me de orelha em pé, compadre, e digo cá comigo: ai! que este progresso material, que hoje tanto se preconiza, traz dente de coelho, e é preciso cuidado com ele!...
— Mas que diabo têm uma coisa com outra, meu caro Paciência?...
— É que os maganões que aspiram à eternidade do poleiro, estão, segundo penso, nos atirando terra nos olhos: ajunte a tudo isso, que acabo de dizer, a corrupção, que lavra por toda a parte, a corrupção, erigida em sistema, a corrupção tão forte, tão poderosa, que até já invadiu os domínios da gramática, e vai desnaturando por sua conta e risco as palavras, como sucedeu à pobre e doce palavrinha — conciliação —, que, ao contrario do que era antes, transformou-se atualmente em uma palavrada, que faz subir o sangue ao rosto da gente honesta: sim! ajunte a tudo isso a corrupção com que se envenena o sangue, e se estraga o coração do povo; e diga-me cá, se o progresso material, em que tanto se fala, é ou não é também uma famosa dose de ópio político, com que os homens da tal escola do Eu pretendem fazer dormir o povo para com menos perigo aliviá-lo do peso de algumas de suas instituições, sem receio de vê-lo abrir a boca, e pôr-se a gritar — «há quem d'El-Rei!» — o que na verdade seria muito desagradável, porque si le roi le saurait!...
— Brilhantemente, compadre!... morra portanto o progresso material!
— Isto lá é consequência de cabo de esquadra: abram-se as asas ao progresso material; mas trate-se também de regenerar a moralidade pública, que anda aí pelas ruas da amargura: restabeleça-se o sistema representativo, que está fora dos seus eixos; tornem-se reais e efetivas as garantias do povo, não se atropelem seus direitos nem se faça guerra crua às suas sagradas instituições, e verão os prodígios e milagres, que opera a nossa sábia Constituição, a quem o Sr. D. Pedro I encheu de tantos encantos e beleza, e contra quem pela surdina forjam planos de ruína e morte alguns ingratos, que ela elevou e distinguiu, e que a não ser ela, em vez de andarem, como andam, em carros magníficos, fazendo brilhaturas e espalhafato na cidade, talvez andassem como eu, de Herodes para Pilatos, montados em alguma mula ruça semelhante à minha.
O compadre Paciência fez ponto final, e eu, perdendo a esperança, de ver por ele explicada a minha singular visão, entendi que lhe não devia dar mais corda; esquecerei pois a minha visão, e o progresso material ficará sendo um sonho, e nada mais!
Estou arrependido depois que não me dirigi ao Marca de Judas para dar-me a explicação desejada: o meu compadre é um tolo, e o Sr. Constante um genuíno representante da política que domina, e das ideias que governam; ele portanto poderia me pôr ao fato dos segredos de abelha do progresso material.
Este meu compadre improvisado é um pobre homem, que têm a cabeça cheia de teias de aranha, e agora deu-lhe a mania para andar proclamando, que a corrupção dos povos nasce de cima, e que o nosso povo vai se desmoralizando cada vez mais por culpa do governo, que dá os mais fortes exemplos de desmoralização, infringindo e postergando todos os dias a Constituição e as leis do Império.
Não se diz maior asneira!... eu até nunca vi governo que consagrasse mais religioso acatamento à tal importuna defunta, e a essas trapalhadas políticas, a que se chama — leis.
Quando os inimigos da ordem pública tratando de hostilizar o nosso paternal governo, esquecem as declamações, em que são grandes, e descem aos fatos, espicham-se tão completamente, como o cavalo de meu tio no atoleiro da barreira! Ora vejamos alguma coisa, do que eles dizem.
Primeiro: o governo não pode despender os dinheiros do Estado, senão conforme as disposições do orçamento da despesa e entretanto alimenta as lâmpadas da imprensa ministerial com o azeite dos cofres do tesouro, sem haver verba marcada para a conciliação dos jornais políticos. Resposta sem réplica: o orçamento marca uma quantia para se gastar com a repressão do tráfico; ora o tráfico de africanos não se combate só com a força, mas também com o raciocínio; logo pode o governo dar dinheiro às mãos cheias aos seus publicistas, a fim de animá-los a combater o tráfico; agora se os tais publicistas não se ocupam disso, a culpa não é do governo, que foi dirigido pelas mais santas intenções.
— Mas hoje já se ostentam à face do parlamento essas despesas ilegais, feitas com a imprensa!
— Qual!... isso havia de ser brincadeira, ou lapso de língua: a língua é o diabo! não falemos nela: vamos adiante.
Segundo: a lei é igual para todos, e entretanto o governo açula com a impunidade, e até com honras, que confere, a ricos potentados eleitorais, que atropelam, trucidam e sacrificam os pobres, de quem julgam dever irar vinganças às vezes sanguinolentas. Resposta sem réplica: o artigo da defunta, que diz, que a lei é igual para todos, acaba dizendo, que recompensará em proporção os merecimentos de cada um, e por tanto o governo está na letra da Constituição recompensando com a impunidade o merecimento da riqueza e da influência eleitoral.
— Mas os pobres...
— Quem é pobre não têm mandinga. Vamos adiante.
Terceiro: a Constituição diz que «nenhum cidadão pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei»; e entretanto o empregado público é obrigado a votar nas eleições com o governo, sob pena de uma demissão; o juiz de direito a cabalar a favor do governo, sob pena de uma remoção; e o Guarda Nacional a ser portador de uma lista do governo, sob pena de ser destacado, recrutado, e posto fora da lei. Resposta sem réplica: 1.º, o governo ainda não deu por causa de nenhuma demissão, ou remoção o emperramento e a desobediência do empregado público ou juiz de direito, que não querem votar com ele; nem as autoridades subalternas confessarão jamais que destacam, recrutam ou põem fora da lei aos guardas nacionais pelo fato de votarem livremente: 2.º, em tempos de eleições suspendem-se as garantias da honra, da probidade, e também a Constituição.
— Mas isso é desmoralizador, é indigno...
— E como tudo é uma verdade muito verdadeira. Vamos adiante.
Quarto: a Constituição diz que «ninguém poderá ser preso sem culpa formada, exceto nos casos declarados na lei, e nestes dentro de 24 horas contadas da entrada na prisão o juiz, por uma nota por ele assinada, fará constar ao réu o motivo da prisão etc.»; e entretanto a polícia, que é hoje a alma do governo, prende a quem quer, e deixa jazer a quem quer nas prisões por oito, dez, vinte, e mais dias, a pretexto de averiguações, e depois solta a vítima, sem lhe dar satisfação. Resposta sem réplica: a polícia quando manda para a cadeia um cidadão, e lá o conserva de molho o tempo, que lhe parece, não prende, recolhe simplesmente à prisão, o que é muito diferente, e por consequência está na letra da Constituição; e viva a polícia!...
— Mas a polícia é entre nós o despotismo vivo...
— E é por isso mesmo que ela é hoje a alma do governo. Vamos adiante.
Quinto: a Constituição diz, que «todo cidadão pode ser admitido aos cargos públicos, civis ou militares, sem outra diferença, que não sejá dos seus talentos e virtudes»; entretanto o governo despreza mil vezes os talentos e as virtudes para atender somente à diferença marcada pelo patronato e espírito de afilhadagem. Resposta sem réplica: virtudes e talentos são coisas muito relativas, e o que não é talento nem virtude para uns, pode sê-lo para outros; não há, portanto, motivo justo para se fazer bulha, haverem ministros, que considerem o servilismo uma virtude, e uma carta de recomendação ou um empenho de compadre, uma prova de talento arromba-paredes.
— Mas assim o verdadeiro talento, e a verdadeira virtude são desprezados...
— Pois que o talento se resolva a dizer amém a tudo, e a virtude, que anda tão por baixo, não se atreva a dar maus exemplos que ofendam o vício, que está de cima. Vamos adiante.
Sexto: diz a Constituição, que «os poderes constitucionais não podem suspender a Constituição no que diz respeito aos direitos individuais, salvo em certos casos extraordinários, que são especificados»; e entretanto não só os ministros de Estado e a polícia na cidade, mas ainda qualquer subdelegado da roça trazem em perpetua suspensão certos direitos individuais dos cidadãos brasileiros. Resposta sem réplica: petas da vida!
— Mas os fatos...
— Qual mas, nem fatos! vivemos todos no seio de Israel: e paremos aí no sexto, mesmo porque a tal senhora Constituição deve ser atirada em um cesto velho, como coisa, que já não presta para nada, ou como um livro cheio de asneiras, e de impiedades, que caíu em desuso, e foi comido pelos bichos.
Assim, pois, ficou provado, que não há governo que execute as leis mais à risca, do que o nosso. Eu até não compreendo, que hajá quem ponha em dúvida o respeito religioso, que o nosso governo consagra aos direitos do povo; porque a defunta estabelece no seu art. 179, que a inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros tem por base a liberdade, a segurança individual e a propriedade; e o nosso governo tem tal zelo pela liberdade, que é o primeiro a dar o exemplo dela, não fazendo caso das leis, que são peias e, pondo e dispondo de tudo muito livremente, a despeito dos limites marcados ao seu poder: desvela-se tanto pela segurança individual, que tem até uma polícia, que conserva os cidadãos na cadeia sem culpa formada para segurar os indivíduos mais completamente, e enfim venera tanto a propriedade, que mesmo a seus olhos o tesouro público tem contribuído, não poucas vezes, para o engrandecimento e fabulosa prosperidade de muitas propriedades.
E querem um governo ainda mais constitucional?... isto só pau.
Quem tem culpa dos ralhos e da algazarra dos revolucionários é mesmo o governo dos meus amigos, porque tolera que no país ainda se fale, e, embora só em nome, ainda também exista a maldita Constituição: em minha opinião desde muito tempo, que eu tinha mandado às favas as câmaras, e dado de presente a algum fogueteiro fazedor de bombas todas as coleções das leis do Império; desde muito tempo que eu tinha proclamado clara e francamente o absolutismo (bem entendido, o absolutismo dos ministros); mas dizem os meus amigos, que é melhor um absolutismo encapotado, do que um absolutismo nu e cru e que sem o proclamar, como eu o quisera, clara e francamente, vão eles sofismando e calcando aos pés a Constituição e todas as leis, e fazendo tudo, quanto poderiam fazer em um governo despótico e arbitrário, como o da Turquia ou o da Rússia. E o mais é que eu devo ceder à razão; porque os tais meus amigos são mestraços passados por Índia e Mina, e têm-se arranjado às mil maravilhas com o sistema, que seguem, e empregam.
E pensando bem na nossa geringonça política, é preciso confessar que para termos a gloria de viver debaixo de um governo absoluto, só falta dar o nome de absoluto ao nosso governo. O que há de mais absoluto, e onipotente do que a vontade dos nossos ministros?... Em que época foi, que a sorte dos cidadãos brasileiros esteve mais do que hoje à mercê das vinganças, e dos caprichos dos agentes do poder?
A polícia não trancaria na cadeia, quando isso lhe apetece um ou dez, ou vinte, e mais venturosos súditos deste Império constitucional?... não os conserva presos, sem formar-lhes culpa, dias, semanas, meses, e ao soltá-los, quando eles têm o desaforo de perguntar pelos motivos de sua prisão, não os manda bugiar, e a coisa não fica nisso?...
Um coronel de legiam da Guarda Nacional, que está à janela, de barrete na cabeça, de capote nos ombros, de charuto na boca, acreditando-se talvez com a sua patente impressa na ponta do nariz, não manda atirar com os ossos em uma prisão ao oficial da mesma Guarda Nacional, que vestido à paisana passa por defronte de sua casa, e não lhe faz a continência militar?... e quando o malvado oficial se queixa ao ministro de Estado, o excelentíssimo pai da pátria não lhe responde: «é bem feito, seu brejeiro! oito dias de prisão não bastavam; ainda foi pouco; e se para outra vez se esquecer da continência... olhe a chibata!»...
A polícia em um dia de eleição não dá a voz de fogo! contra o povo, que quer votar!... a voz terrível não é obedecida, e as balas não acertam nos principais adversários da política do governo?... não sucumbem vítimas, e o crime da polícia não fica impune sendo pelo contrário perseguidos os amigos dos assassinados?...
Os deputados da nação, que devem fiscalizar os atos dos ministros, não andam em grande número agarradinhos às abas das casacas bordadas dos mesmos ministros, como se fossem mariscos apegados ao costado de tubarões, ou como rabo-levas de suas excelências?...
O júri não está com uma corda ao pescoço, e cabe não cahe de cima do patíbulo, e debaixo dos pés de seus algozes?...
A imprensa não está cheirando a azinhavre?...
A magistratura não é, salvas as exceções revolucionárias, uma espécie de relógio, que anda conforme a corda que lhe dá o poder executivo?...
Os delegados e subdelegados de polícia não são por aí além uns reizinhos pequenos, que tudo fazem e decidem com um quero, posso e mando, que faz a gente andar com a sua liberdade, honra e vida, libertas, decus, et anima nostra, dependuradas por um cabelinho na ponta da espada policial?
Não há dúvida! os mestres têm juízo a fartar: o endiabrado sistema constitucional está tão distante de nós, como a vergonha está afastada da corrupção; graças aos pais da pátria temos o santo absolutismo na terra; por causa das dúvidas anda encapotado; mas o diabo é, que quase sempre pela maneira do capote lhe escapa, e se estende pela rua um rabo tão comprido, como... como... tal e qual como o rabo de certos heróis, que todos nós conhecemos.
A consequência de tudo isto que acabo de dizer, é que neste nosso Brasil temos aparentemente, isto é, de língua, Constituição até não poder mais; e realmente, isto é, na prática, absolutismo até mais não poder: é uma coisa por dentro e outra por fora, e portanto dá-se o caso de se repetir os versinhos:
Por cima muita farofa,
Por baixo molambo só!
Eu sempre tiro as minhas consequências muito a tempo: ora aí está que agora não me seria possível ir adiante com as minhas reflexões; porque acabo de avistar uma povoação, em que vou entrar com o meu compadre Paciência.
Esta povoação é uma vila, e não digo o seu nome, por uma boa e forte razão: quero acostumar-me pouco a pouco a não dizer em certos casos o verdadeiro nome das coisas; pois que do contrário eu me veria obrigado a escrever na Carteira de meu Tio muito nome sujo para designar pessoas e coisas da minha terra.
Entramos vila adentro e fomos apear-nos à porta de uma estalagem, cujo dono, apesar de andar muito azafamado da sala para a cozinha, porque estava com a casa cheia de fregueses, nem por isso deixou de fazer-nos trinta cortesias e de asseverar-nos que havíamos de ser tratados à fidalga; e ainda para não fazer uma exceção à regra, de que todo estalajadeiro é contador de histórias, achou tempo para dar-nos miúdas notícias da sua terra, enquanto almoçávamos.
Ficamos sabendo, que nesse mesmo dia tinha de abrir-se o júri na vila, o que fez arregalar os olhos ao compadre Paciência, o qual, apenas engoliu o último bocado, obrigou-me a levantar-me da mesa, e a sair com ele a passear.
Assim que pusemos os pés na rua, vimos uma patrulha de guardas nacionais, que ia à cadeia buscar os presos. O meu embirrante compadre teve a ideia de ir visitar os domínios do carcereiro, e a despeito da oposição que fiz a esse estúpido desejo, foi forçoso sujeitar-me a ele.
Entramos na cadeia, e devo confessar que senti assim uma espécie de arrepios ao transpor o repulsivo limiar; foi simplesmente um fenômeno nervoso e mais nada; porque eu sei muito bem que as cadeias não são edificadas para homens da minha qualidade ou acima.
E, se não, haja vista o que vai por todo esse mundo.
O miserável farroupilha, que tem a pouca vergonha de furtar uma galinha do poleiro do seu vizinho, é trancafiado na cadeia, onde fica por largo tempo esquecido, quando não tem um padrinho que por ele se interesse; mas o figurão de gravata lavada que em dois ou três anos e por artes de berliques e berloques se improvisou milionário, sem poder explicar de onde lhe veio a fortuna, anda de carruagem, mora num palácio, todos lhe dão excelência, e ninguém o incomoda; o que tudo é muito bem feito; porque a cadeia é destinada para os ladrões, e ladrão é somente quem furta pouco.
O indigno caixeiro ou o canalha artista, que conseguiu agradar à filha ou sobrinha de um homem rico, e que apenas de longe a namora, ou que se atreve a mandar-lhe uma cartinha de amores, quando lhe descobrem a trapalhada amorosa é logo recrutado, ou caem-lhe com o Ano do Nascimento em cima, e mandam-no para a cadeia por qualquer crime policial, que se arranja; mas o velho milionário libidinoso, ou o desregrado filho do rico, salta pela janela da casinha do pobre, mancha-lhe o leito nupcial, rouba-lhe, pelo prazer brutal de um instante, a única riqueza da filha, lança a desordem e a infâmia no seio da família, e depois conta como uma vitória o crime, e aqueles que o deviam punir, dizem sorrindo-se, quando ele passa — que maganão de bom gosto! — e a coisa fica nisso, e deve na verdade assim ficar; porque se a riqueza não desse direito a tão inocentes gozos, então os ricos e os pobres, a canalha e os fidalgos seriam iguais, o que fora um verdadeiro absurdo social.
Encontram-se na rua um capitalista e um carpinteiro, que têm contas atrasadas um com o outro: o primeiro diz uma léria ao segundo, o segundo responde somente: é você! travam-se de razões, o capitalista tira inglês e dá um soco: o carpinteiro, que é naturalmente capoeira, paga o soco com uma cabeçada, ferram-se ambos à unha, e chega então o inspetor de quarteirão; o que acontece?... o carpinteiro leva uma descompostura, e vai dormir na cadeia, e a autoridade pública pergunta ao capitalista se quer servir-se de uma escova para limpar a casaca. É verdade, que o inspetor nem ao menos procurou saber como se tinha passado o negócio e mandou logo o operário para o chilindró; mas também o capitalista foi horrivelmente castigado; porque o delegado, quando soube do caso, observou a S. S. ou Ex.ª, que não era bonito andar-se sujando com semelhante gente.
Se eu fosse a dar provas da justiça com que se abrem as portas da cadeia para entrarem nela todos os verdadeiros criminosos, encheria só com isso a Carteira de meu Tio.
Vamos adiante.
A cadeia em que eu e o compadre Paciência acabávamos de entrar compunha-se toda da sala do carcereiro, que servia também de sala livre, onde ninguém se achava preso: de uma espécie de xadrez, onde eram recolhidos os guardas nacionais que cometiam, principalmente os dois seguintes crimes: 1.º, não votar nas eleições na chapinha dos comandantes; 2.º, não tirar o chapéu aos oficiais a vinte braças de distância; e, finalmente, uma terceira sala escura, suja, pestífera, onde estavam aglomerados todos os presos, acusados de crimes afiançáveis e inafiançáveis, que tinham de apresentar-se ao júri: era a enxovia.
O compadre Paciência quis arrastar-me para a enxovia; mas eu arranquei-me das suas mãos, e recuei diante da porta fatal: aquela sala, que talvez não se tivesse varrido há anos, exalava um cheiro nauseabundo e empestado; os presos respiravam um ar pesado, mefítico, e pestilencial: cada preso respirava por sua vez a porção de ar já respirado mil vezes por todos os outros!
O compadre Paciência achou que era boa ocasião de tomar a palavra e começou:
— Aí dentro dessa imunda casinha, existem talvez alguns acusados, de quem o júri reconhecerá a inocência daqui a pouco; como não deverão esses inocentes aborrecer uma sociedade, que antes de certificar-se do crime, que lhes imputavam, os confundiu com os facínoras, e os envenenou fazendo-os respirar o ar da peste?... e ainda mesmo que todos esses míseros presos sejam criminosos e celerados: que direito tem a sociedade de tratá-los de um modo tão indigno e brutal?... aí nessa enxovia corrompe-se e perde-se de uma vez para sempre o homem, que, imprudentemente, cometera o primeiro delito, e, que arrependido e moralizado talvez pudesse ainda ser útil à sociedade, que estupidamente o estraga: aí nessa enxovia condena-se o corpo às enfermidades, a alma à imoralidade! aí...
Não pude sofrer por mais tempo o sermão do compadre Paciência, e retirei-me para o xadrez dos guardas nacionais; tão cego e tão apressado vinha, que dei uma topada em um par de tamancas: eram as tamancas do carcereiro, que nesse dia tinha calçado as botas domingueiras, e deixado os tamancos do seu uso ordinário; o que porém atraiu por acaso a minha atenção, foram umas pequenas páginas impressas, que estavam caídas e desprezadas entre as tamancas.
Tive vontade de ver o que continham os tais papelzinhos, e apanhei-os: coisa célebre! vi diante de meus olhos algumas páginas soltas da Constituição, e de outras leis, que tinham provavelmente feito parte de alguma folhinha dos Srs. Laemmert, que, aqui para nós, são homens na verdade perigosos, infensos à ordem pública, visto que têm o mau costume de vulgarizar esses códigos, e leis, que falam em direitos do povo, e em deveres do governo, e outras bugiarias semelhantes.
E, coisa mais célebre ainda!... as malditas páginas continham artigos da nossa defunta, da lei da guarda nacional, etc., etc., que pareciam vir tão a propósito para o caso, em que nos achávamos, que não posso resistir ao desejo de transcrevê-los na Carteira de meu Tio, ao menos para recordar-me e aplaudir-me do desprezo em que são tidos, e do nenhum caso que merecem.
Aí vão essas fantasmagorias legislativas, e constitucionais.
«Constituição do Império: artigo 179.
«§ XXI: As cadeias serão seguras, limpas, e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias, e natureza dos crimes.»
Olhei para a enxovia e soltei uma gargalhada!
«Lei do 1.º de outubro de 1828; Título II — Funções Municipais:
«Artigo 57: Tomarão por um dos primeiros trabalhos fazer construir ou concertar as prisões públicas, de maneira que haja nelas a segurança e comodidade, que promete a Constituição.»
Tornei a olhar para a enxovia e a soltar nova gargalhada!
«Lei da Guarda Nacional: Capítulo II:
«Artigo 116: A pena de prisão imposta aos Oficiais, Oficiais inferiores, Cabos, e Guardas Nacionais, só será cumprida nas cadeias públicas, onde não houver fortalezas, quartéis, casas de câmara, ou outros edifícios, que se possam destinar a esse fim.»
Ia-me escapando uma terceira gargalhada; mas contive-me a tempo, vendo chegar o compadre Paciência, que, se descobrisse o motivo da minha estrepitosa alegria, dava de certo o cavaco, e era até capaz de declarar guerra de morte a aquelas pobres e democráticas tamancas, que ali estavam pisando artigos da Constituição e das leis do Império, como se fossem botas envernizadas e aristocráticas de algum ministro ou alto funcionário do Estado.
Vejam só a que extremo nos têm levado as teorias da igualdade política, que já os carcereiros se julgão com direito de fazer o mesmo, que fazem os fidalgos do poleiro!
— Vamos assistir ao júri: disse-me o compadre Paciência.
— Ao júri?!!! exclamei eu recuando dois passos.
— Pois que mal haverá nisso?... será essa bela e santa instituição algum bicho de sete cabeças?...
— Tem razão, compadre: lembro-me agora de que o homem da hospedaria nos anunciou, que hoje se instalava o júri; declaro porém, que já supunha banida para sempre da nossa terra essa intolerável judiaria.
— É certo, que esteve quase quase indo fazer companhia à defunta guarda nacional, e a outras defuntas do mesmo gênero; mas felizmente, quando mais azafamados se mostravam os estadistas mata-júri, apareceu um gênio benéfico com uma vassoura encantada, que varrendo as ideias retrógradas, deixou os salvadores da pátria com água na boca! Olhe que foi uma coisa dos diabos!...
— Mas como é possível, que...
— Ora como é possível?!!! você nunca ouvio dizer, que galinha quando vira o ovo, por mais que se acaçape, cacareje, se arque, e se esforce, não põe?... pois aí está, como foi; desta vez a galinha virou o ovo.
— Não creio nessa, compadre; os homens da escola sublime, e da política dos caranguejos, não recuam.
— Você não sabe o que diz, menino: a política dominante é uma espécie de período gramatical, que tem oração principal e orações subordinadas e incidentes: quem queria matar o júri era uma oração incidente, e você deve saber, que a gramática dá pouca importância às orações incidentes, e o período pode passar sem elas.
— Por consequência...
— Por consequência a incidente ficou entre parênteses; a principal deixou-a com cara de noivo logrado; as subordinadas riram-se do espicha; e o júri salvou-se abrigando-se à sombra das vassouras. Não há nada mais claro.
— Pois foi uma horrível calamidade para o nosso país! O júri é uma instituição imoral e perigosa; imoral porque muitas vezes um homem de gravata lavada, um barão por exemplo, está sujeito a ser julgado por um calafate!...
— E então?... se o calafate tiver as qualidades exigidas pela lei para ser jurado?...
— Mas os calafates, os pedreiros, e todos os artistas não devem nunca estar no gozo dos direitos de cidadão brasileiro, senão para serem guardas nacionais, e votar nas eleições na chapa da polícia, que é sempre a melhor.
— Bravo! isso é ideia de fidalgo novo, que é synonimo de patuléa de velho.
— E, além de imoral, o júri é uma instituição perigosa; porque no caso de uma revolução política, quando o governo entenda que deve aproveitar o ensejo para aniquilar os culpados também alguns inocentes do partido contrário, pode o júri absolver os revolucionários inocentes, o que é um verdadeiro e poderoso incentivo para novas rebeliões.
— Então, quando o governo diz — mata!...
— Deve haver sempre um juiz, que diga — esfola! — isto será entendido: o governo têm sempre razão.
— E se os homens, que no governo disserem — mata! descerem do poleiro, e subirem os outros, que estavam debaixo?...
— Ficam estes tendo sempre razão, e eu a dar-lhes apoiados e bravos, assim que desconfiar, que eles abrem a boca.
— Oh compadre! você é um herói, e um homem extraordinário!
— Herói, não duvido; mas extraordinário, nego; porque há tanta gente, que pensa, e pratica tal e qual, como eu, que não tenho remédio senão me considerar um homem muito ordinário.
— Isso agora também é verdade.
Assim, conversando, era eu levado pelo meu compadre para a casa, onde se reunia o júri, que era a mesma em que celebrava suas sessões a câmara municipal da vila; mas, ao dizer-me suas últimas palavras, tinha o Sr. Paciência carregado os sobrolhos, e eu entendi que devia fazer ponto final; porque o tal velhinho liberal há de ser, por força, como todos os liberais, que não têm papas na língua, e atiram à cara da gente coisas, que só se devem dizer por detrás.
Se eu algum dia chegar a ser somente subdelegado e apanhar o compadre Paciência debaixo da minha jurisdição, juro, que o farei trancafiar na cadeia, como perturbador da ordem e do sossego público, ou pelo menos o mandarei muito bem recomendado para o palácio da Praia-Vermelha; porque este meu compadre é um doido, e um doido perene.
Pois não se lhe meteu na cabeça defender o júri?...
O que é o júri?...
O júri é um tribunal, para ser membro do qual basta ter bom senso, segundo diz a lei, e por consequência não há bicho-careta, que não se suponha com direito de ser jurado!...
Vejam que lei estúpida, ou antes que excelente lei e que estúpida interpretação se lhe dá. Bom senso! pois deveras o bom senso é coisa que se ache por aí assim com tanta facilidade, que não há freguesia, que não dê cinquenta ou cem jurados?...
Bom senso muitas e muitas vezes não se encontra nos atos dos próprios diretores do governo do país.
Há ministros, que baralham de tal modo os negócios exteriores, que fazem com que a nação carregue às costas com os Estados vizinhos, e ainda em cima seja olhada como inimiga pelos mesmos Estados limítrofes, que sustenta e defende. Serão aconselhados pelo bom senso tais atos de tais ministros?...
Há deputados, que pelo simples prazer de agredir um ministro comprometem o governo do seu país com governos estrangeiros, atirando no meio da discussão proposições imprudentes, intempestivas, e inconvenientes: terão bom senso tais deputados?...
Há jornalistas que defendem até as medidas mais revoltantes tomadas pelo ministério, e outros que atacam os atos os mais justos, e santos do governo, só pelo gosto de os defender ou atacar porque aqueles que estão no poder são seus correligionários ou adversários: terão bom senso tais jornalistas?...
Terão bom senso aqueles que gastam com um teatro italiano (nem ao menos é com o teatro nacional!) tanto dinheiro, quanto seria necessário para abrir uma estrada de algumas léguas, e isto em um país, que precisa tanto de estradas, como de pão para a boca um pai de família que pede esmolas?...
Terão bom senso aqueles que estragam a moeda sublime, com que nas monarquias se costuma pagar os serviços relevantes feitos à pátria, e à coroa, barateando os títulos, as honras, e por consequência depreciando essa bela e proveitosa moeda?...
Eu podia ir ainda muito além, vejo-me porém quase a esbarrar com o nariz na porta da casa do júri, e não devo prosseguir.
Isto mesmo que acabo de escrever na Carteira de meu tio há de ficar muito em segredo; porque aliás seria um verdadeiro comprometimento para mim; pois que falei na linguagem do compadre Paciência, e não segundo as lições da escola, que sigo.
É que, em me lembrando do tal bom senso, fico fora de mim e digo asneiras.
Vou entrar pela porta do júri; mas antes de o fazer, quero tirar a minha conclusão a respeito do bom senso.
Lá vai ela.
Se o bom senso é, como eu entendo, o bom senso, a disposição da lei acerca do júri, é ótima; porque os apuradores ou designadores dos jurados poderão anular essa instituição imoral e perigosa, não achando nunca bom senso no povaréu da Constituição, e tornando por isso impossível o júri.
Se porém entende-se por bom senso o senso comum; proponho que se acabe com o maldito júri, e para isso não é preciso discussão nas câmaras, nem projetos, nem ordem do dia, nem discursos; basta que um ministro, ainda que seja o da marinha, lavre uma portaria, dizendo — Hei por bem revogar o júri —. E está acabado tudo.
Não seria o primeiro nó górdio que por tal modo se desatasse no Brasil. Graças à providência nós temos tido por ministros de estado na nossa terra cada Alexandre Magno do tamanho assim! não é brinquedo, ministros, como o juiz de paz da roça que revoga a Constituição por uma vez somente, contamos apenas um ou outro; mas que revogam a pobre defunta viva, somente por muitas vezes, isso é um gosto: conta-se às dúzias!
Pare! entrei na sala do júri.
O compadre Paciência avançou um passo adiante de mim, e foi o primeiro a penetrar no recinto daquele templo da justiça: o prazer expandia-se no rosto do pateta do velho, e sua cabeça, com o queixo erguido, mostrava-se altiva e orgulhosa para saudar essa fantasmagoria de tribunal filho de uma instituição democrática e revolucionária.
O meu compadre é um pobre homem, que tem a cabeça cheia de lantejoulas e caraminholas, e ainda acredita nas cebolas do Egito!
Creio que lhe caiu a alma aos pés, quando passou além da porta: conheci, que se lhe torceu o nariz, como se sentisse mau cheiro, e que se fez amarelo, como se fosse de repente atacado de alguma dor de barriga.
Eis aqui o que eu vi.
A sala destinada para o júri era vasta, e podia conter além dos membros do tribunal grande número de espectadores; mas dentro desse mundo forrado e assoalhado, viam-se apenas o juiz de direito, o promotor, um advogado, dois procuradores, o escrivão, quatro meirinhos, alguns curiosos, e os jurados enfim, que chegando a duas dúzias, aparentemente rari nantes in gurgite vasto, e podiam-se comparar, espalhados como estavam por aquele imenso salão, aos raros camarões, que nadam nas sopas das sextas-feiras no jantar do seminário.
O juiz de direito sentado na sua cadeira presidencial mostrava-se firme, imóvel, e estático, como o convidado de pedra; mas dentro de si estava dando a todos os diabos a maldita instituição do júri, que naquele momento tinha o desaforo de lhe impedir o prazer de fumar um havana.
O promotor sorrindo-se maliciosamente e com a graça própria de um jovem doutor de esperanças, fitava de vez em quando a sua luneta sobre algum dos jurados e divertia-se depois desenhando com o lápis a casaca de abas de tesoura de um, e as calças de longas presilhas de outro, entremeando os desenhos com versinhos epigramáticos à estúpida instituição do júri.
O advogado contentava-se com fazer notar aos dois procuradores quanto aquela sala se mostrava própria para um baile, e como estava mal empregada destinando-se ao júri, que é uma instituição contrária ao bom senso, ao espírito público, e à boa administração da justiça.
O escrivão resmungava, maldizendo os ossos do ofício, e praguejando contra essa patacoada chamada júri.
Os jurados queixavam-se uns aos outros da maçada, que sofriam, e estavam pelos cabelos.
Era uma revolta geral, embora abafada, contra a fatal instituição.
No fim de uma longa hora foram sorteados novos jurados, e o juiz de direito declarou, que adiava a sessão para o dia seguinte, por falta de número.
Ninguém foi multado, porque entre os que tinham faltado contavam-se duas potências eleitorais, que era preciso respeitar.
Levantaram-se todos, e começou a palestra: o juiz de direito foi para um gabinete fumar o seu Havana, tendo primeiro convidado ao promotor e a dois jurados para jogar o voltarete.
Misturaram-se homens da justiça oficial, jurados, e espectadores: vi-me obrigado a acompanhar o compadre Paciência, que se foi metendo por meio daquela gente, como piolho por costura.
O primeiro que tomou a palavra foi o escrivão, que começou a xingar o júri com toda a força de seus pulmões: o homem era verboso, e eloquente, como um padre-mestre; tinha porém o defeito de, quando falava, cuspir em todos, que estavam ao redor dele; porque soltavam-lhe da boca os perdigotos, como centelhas da forja de um ferreiro: dessa vez o orador cuspia não só nos circunstantes, mas também e principalmente no júri.
Olhei para o compadre Paciência, e logo reparei, que ele já tinha a ponta do nariz vermelha, e os olhos abrasados: agarrei-lhe no rabo da nizia e pedi-lhe, que se mantivesse na ordem: porém o velho deu um arranco, e escapou-me das mãos; é notável! nesta minha terra quanto mais comprido se tem o rabo, melhor se escapa da ratoeira, e mais audácia e altas pretensões se apresenta!... pois a nizia do meu compadre tinha um rabo tão grande, que parecia de ganhador político, que já chegou à excelência.
Previ, que íamos ter arenga no beco, ou tempestade na sala. Assim aconteceu.
O escrivão acabava de levantar a voz, e de exclamar:
— O júri é uma inspiração do demônio das revoluções, ou um parto de cabeças desmioladas...
Quando o compadre Paciência, abrindo-lhe à frente, e cortando-lhe a palavra, respondeu:
— O senhor escrivão não deve caluniar assim uma das mais santas instituições do país.
— Quem é você?...
— Ora quem sou eu!... sou um cidadão brasileiro: serve-lhe esta?...
— E quem o chamou cá?... Quem lhe deu o direito de meter-se comigo?
— E quem deu ao senhor o direito de atacar em um lugar público uma instituição estabelecida pelas leis? Quem o autorizou para sofismar de um modo repreensível contra o júri!...
— Sofismar!... pois a minha lógica...
— Qual lógica, nem meia lógica! o que estava fazendo era lançar a descrença no coração simples e bom destes homens honrados, porém rudes, e isso é um verdadeiro crime.
O compadre Paciência voltou-se para os jurados, e tomando uma larga respiração, começou, como um tribuno de véspera de eleição, a proclamar por este teor e forma:
— Meus amigos, sou roceiro, e vivo de plantar cana e mandioca, assim como vós, e por isso devemos entender-nos melhor que ninguém; escutai pois: eu vou demonstrar-vos, que o júri é uma das mais santas instituições, e que o mais ignorante de vós, contanto que tenha espírito são, está perfeitamente habilitado para ser um excelente jurado: ora bem...
Os jurados cercaram o compadre Paciência, como se se alegrassem por ouvir um homem, que era lavrador como eles, e que não temia ter um bate-barba com o escrivão; mas este dando o cavaco por ver que lhe roubavam o seu auditório, atirou-se adiante do orador, e não o deixando passar além do exórdio, exclamou:
— Deixem-me confundir este doutoraço de triste figura, que não pode deixar de ser algum barbeiro de aldeia...
— Pois vamos lá, confunda-me, senhor barbeiro da cidade!
— Diga: negará por ventura, que no Brasil o júri tem dado mil exemplos de decisões injustas, e de sentenças impostas pelo patronato?... não, e não; logo, morra o júri!
— Muito bem, senhor escrivão, respondeu o meu compadre; aceito o princípio e a consequência: o júri tem sido mil vezes injusto no Brasil, logo, morra o júri!
O escrivão soltou uma gargalhada de triunfo, e o compadre prosseguiu.
— Mas o que a sua lógica decide ou conclui a respeito do júri deve também concluir a respeito de todos os juízes e tribunais injustos; ora, ninguém ignora que muitos juízes municipais e de direito têm cometido no foro clamorosas injustiças, alguns por ignorância, outros por compadresco, e outros até por corrupção; logo, morram os juízes municipais e de direito!... que diz a lógica?... diga: têm sido sempre justas as decisões das relações?... não pecam elas mil vezes?... não é certo que até o próprio supremo tribunal de justiça uma vez por outra sicut et nos manqueja de um olho?... logo morram as relações e morra o supremo tribunal de justiça!... que diz a lógica? oh! mas o raio deve ferir unicamente o júri: os jurados devem ser objeto das mais severas censuras, ao mesmo tempo que os magistrados, responsáveis por seus erros e tantas vezes errando, nunca provam o amargor de uma séria, conscienciosa responsabilidade, porque enfim, lobo não mata lobo!... que diz a lógica?...
— Os jurados absolvem todos os afilhados e capangas dos potentados das vilas! bradou o escrivão.
— Absolvem alguns, é certo; não sabe porém a razão disso?... primeiramente é porque muitas vezes os magistrados da vila, pretendentes a deputações e por isso dependentes dos potentados, influem no espírito dos jurados, e promovem até às escâncaras essas absolvições, e em segundo lugar é porque não há segurança individual no país, e os cidadãos recuam ante a vingança e o furor dos poderosos: dê o governo segurança individual a todos, como lhe cumpre, e verá se a coisa vai-se endireitando ou não: o que faz porém o governo?... corteja, estende a mão, e cobre de honras os próprios mandatários de crimes, quando precisa deles para as eleições: dá-lhes todos os empregos, e arma-os de novos e terríveis meios de vingança e de terror. E dizem que o júri é a causa da impunidade! ora, é boa! a causa da impunidade é a mania de fazer deputados e senadores, que tem o governo: olhe, meu caro escrivão, se quer que eu lhe conceda que o júri é mau, há de me conceder primeiro, que o nosso governo é péssimo.
Tornei a agarrar nas abas da nizia de meu compadre.
O escrivão já estava vendendo azeite às canadas, tanto mais que via os jurados darem sinais de aprovação ao compadre Paciência, e foi com voz alterada e cuspindo em todos ao redor de si, que tornou, bradando:
— Sustento e juro, que esta coisa chamada júri é prejudicial, e inconveniente mesmo para os desgraçados réus: olhe, senhor liberalão, olhe ali para aquela cadeia, e saiba, que dentro dela existem alguns acusados, que esperam há três anos pelo seu julgamento, e que por isso amaldiçoam comigo esse tribunal funesto, que nem se reúne no tempo determinado pela lei!...
— E de quem é a culpa?... perguntou o compadre; o senhor e os presos a quem deviam maldizer era a autoridade, que tinha obrigação de convocar o júri, e que o não fez: e quer saber porque isto acontece?... é porque os magistrados em vez de permanecerem nas suas comarcas e vilas administrando a justiça, fazem-se deputados gerais, e provinciais, e além do tempo das sessões das câmaras, passam também fora dos seus lugares de magistratura longos meses de licença gozados em detrimento do serviço público: olá! mas a pepineira está por um triz: já temos as relativas, senhor escrivão, e as absolutas hão de vir correndo, como os rios correm para o mar; as incompatibilidades são uma espécie de maná do Céu, que está sabendo a gaitas ao paladar do povo!...
— Que indignidade!... exclamou o escrivão: homem dos diabos! não está vendo diante do seu nariz um tristíssimo exemplo?... não vê, que o júri foi hoje convocado, depois de três anos, e que não se reuniu o número legal de jurados?...
— Necessariamente assim deve acontecer; pois estes honrados lavradores, que leem nos jornais as descomposturas que ministros de estado, senadores e deputados dão ao júri; que ouvem até os escrivães insultando e desacreditando este respeitável tribunal: não hão de desgostar-se de fazer parte dele?... não hão de procurar fugir de tomar parte nas deliberações desse júri injuriado, caluniado e amaldiçoado por aqueles mesmos, que o deviam honrar e trabalhar por acreditá-lo?... Oh! sim, eu desculpo os jurados; mas reconheço, que eles erram gravemente, furtando-se a comparecer e desempenhar os seus deveres no júri; erram sim, porque dessa maneira emprestam armas aos inimigos de uma tão admirável instituição, que entretanto se pretende anular para erguer no país o poder onipotente da beca. Safa! que os projetos são de fazer arrepiar os cabelos!... Estou vendo que mais dia menos dia querem que se mande arrear o estandarte auriverde, e que se levante no pau do morro do Castelo uma beca por bandeira nacional!
— O senhor é um homem que divaga, que não argumenta, e que não diz coisa com coisa! tem olhos e não quer ver; tem ouvidos e não quer ouvir: pois não compreende, não lhe entra nessa cabeça de abóbora, que um povo ignorante, como o nosso, ainda está muito longe de achar-se habilitado para cumprir a missão difícil e espinhosa, que compete aos jurados?... O Brasil está muito atrasado, meu velho doido; o júri é uma coisa muito sublime para esta terra de caboclos, meu liberalão das dúzias!
Eu estava espantado da prudência, que até então havia mostrado o compadre Paciência, e tanto, que tinha deixado escapar de minhas mãos o rabo da nizia; a minha admiração porém subiu de ponto ao vê-lo rir-se dos insultos, que lhe eram dirigidos, e responder, sem se exaltar, como quem não tinha sido chamado velho doido, e cabeça de abóbora!
— Engana-se, meu estupendíssimo escrivão, engana-se redondamente: não é necessário ser letrado, nem sábio para ser um excelente jurado; escute lá um juízo insuspeito, pois que não saiu da boca de nenhum rusguento, nem da cabeça de nenhum liberalão; é o juízo de Catarina, imperatriz da Rússia: olhe que é da Rússia, terra bem-aventurada, onde se come sebo, e se tem suspenso sobre as costas o incomparável knout, que é um amável e delicado chicotinho, feito de couro de boi trançado, e terminando em muitas pontas do mesmo couro, as quais acabam ainda com o seu suplemento de fios de ferro torcidos; impagável instrumento, a que estão sujeitos criminosos, e soldados! doze vergalhadinhas bem puxadas mandam um homem desta para a melhor vida! por certo que é um instrumento mil vezes superior ao bacalhau, com que castigamos os nossos escravos: viva a Rússia! mas vamos à questão: eis aqui o que dizia a imperatriz Catarina: «Nas pesquisas das provas de um delito, são necessárias destreza e habilidade, são necessárias ainda clareza e precisão para formular o resultado dessas pesquisas; mas para julgar, segundo esse mesmo resultado, não é preciso senão o simples bom senso, que guia com mais segurança do que o saber de um juiz habituado a querer encontrar culpados por toda parte.»
O escrivão não se atreveu dessa vez a replicar: ouvindo pronunciar o nome da Rússia, e da imperatriz Catarina, curvou a cabeça de um modo teatral e respeitoso.
O compadre prosseguiu, voltando-se para os jurados.
— Meus amigos, não acrediteis nas histórias da carochinha, que vos querem embutir os tais reformadores do júri: a obrigação do jurado se limita a conhecer o fato, e não há um só de vós, que não seja capaz de desempenhar essa missão. Também eles diziam aqui há anos, que os nossos males provinham da chamada justiça barata, e fizeram uma reforma para acabar com os juízes populares: mas qual foi o resultado da reforma?... em lugar de um juiz municipal, e outro de órfãos, que eram os juízes leigos, deram-nos igualmente leigos seis suplentes do juiz municipal, um delegado, uns poucos de subdelegados, e uma dúzia de suplentes de tudo isso em cada vila!... e os sujeitos bradavam que as vilas não tinham gente para os dois lugares de juízes leigos!... de modo que onde não havia dois, descobriram eles duas dúzias!... E que tais! Oh! Sr. escrivão; como é que se diz em certos casos lá na sua geringonça judiciária?... não é: — embargado seja o embargante?... pois eu parafraseio o dito, e requeiro, que reformados sejam estes reformadores.
O escrivão deu um salto para frente, cuspiu à direita, cuspiu à esquerda, e exclamou gritando como um possesso:
— Os grandes estadistas da minha terra já condenaram definitivamente o júri.
— Puff!... bradou o compadre Paciência.
— E não há de ser um velho desmiolado que me fará adotar ideias perigosas e anárquicas!...
— Puff! puff!... Sr. escrivão!
— Abaixo o júri!... morra o júri!... gritou o escrivão.
— Viva o júri!... vivam as instituições livres!... gritou ainda mais alto o compadre.
— Morra!...
— Viva!...
O escrivão não pôde mais conter-se, vermelho como um camarão torrado, com os olhos em chamas e a boca espumante, avançou um passo para o meu pobre compadre Paciência, e como último argumento da sua lógica, deu-lhe tão tremendo murro, que quase o deitou por terra.
Em um abrir e fechar de olhos agarraram-se os dois antagonistas; o escrivão agarrou-se à frente da nizia do compadre de meu Tio, e este fez honra igual à aristocrática e bela nizia do seu adversário.
Os jurados começaram a dar gritos de ordem! ordem! e eu achando que devia pôr um termo a aquela vergonhosa briga, principiei a puxar pelas abas da nizia do compadre, com toda a força que tinha, e tanto puxei, que por fim de contas caí de pernas para o ar com as abas da nizia nas mãos enquanto o escrivão caía do outro lado ao mesmo tempo e também de pernas para o ar com a frente da nizia entre os dedos, ficando em pé entre nós o compadre Paciência com a gola e os traseiros da nizia no corpo.
Valente nizia aquela!... resistiu, e ainda em pedaços ficou no corpo do seu dono, como Sebastopol em poder dos russos, apesar dos postos avançados que tomam os aliados; ou para mais propriedade da comparação, a nizia fez-me lembrar a Constituição do Império, que por mais que lhe tenham arrancado retalhos e pedaços, ainda se conserva embora dilacerada, presa ao coração do povo.
Mas a desordem não ficou aí.
— Viva o júri!... tinha bradado vitoriosamente o intrépido e indomável Paciência, que apenas viu em pé o seu adversário, atirou-se de novo sobre ele.
Os jurados acudiram então e o escrivão dando às gambias, pois recebera provas da força do velho, pôs-se a gritar com toda força dos seus pulmões:
— Ah quem d'El-Rei! querem assassinar-me!... ah quem d'El-Rei!...
O juiz de direito, o promotor, e o advogado já estavam jogando o voltarete, e muito ocupados com uma casca não se lembraram de que o escrivão poderia dar à casca.
Mas de súbito acudiram três meirinhos, e logo após o subdelegado (mestraço de eleições); apenas os viu o escrivão correu para eles, e bradou para a autoridade policial:
— Senhor subdelegado, prenda aquele revolucionário!
O subdelegado não fez mais cerimônia; piscou um olho aos meirinhos, e dirigindo-se ao compadre Paciência, exclamou:
— Está preso!
— Eu preso?... E o escrivão?...
— Não é da sua conta.
— Eu fui o agredido... Apelo para estes senhores...
— Apele depois que estiver na cadeia.
— É uma injustiça!...
— Silencio! não insulte as autoridades!
— É uma prepotência!...
— Meirinhos! gritou o subdelegado; tranquem-me já e já esse tratante na enxovia!...
— Na enxovia?... eu na enxovia?... isso é contra a Constituição... é uma infâmia!...
O compadre Paciência queria ainda protestar; mas os três meirinhos agarraram-se a ele, e sem respeito por seus muitos anos, o foram levando quase de rastos.
— Ora viva lá a Constituição!... disse o escrivão, soltando uma risada de escárnio.
Cinco minutos depois estava o pobre compadre Paciência trancafiado no chilindró!
Ah, que se ele não fosse compadre de meu Tio, não me causaria dó nem piedade a sua sorte. Os tais senhores liberais, e preconizadores do progresso são verdadeiros condutores de peste, e devem por isso mesmo ser recolhidos à cadeia, espécie de lazareto muito conveniente para se guardarem em quarentena os patriotas.
Ainda bem que a polícia entende a coisa assim e prende e solta a quem quer, sem dar satisfação a ninguém; se não fosse a polícia teria o Brasil dado à costa nos cachopos da anarquia! Viva pois a polícia, que é o sexto e penúltimo poder do Império.
Digo sexto e penúltimo, porque, além dos quatro poderes reconhecidos pela defunta, ainda há mais três, em que ela não fala, e que são os seguintes:
5.º — O patronato.
6.º — A polícia.
7.º — O fisco.
Tornando, porém, ao meu compadre, não tenho remédio senão ir tocar os pauzinhos para tirá-lo da enxovia; sou por consequência obrigado a interromper, não sei por quanto tempo, a minha viagem.
Enquanto o pássaro não sai da gaiola, tratarei de ver se engordo o ruço-queimado e a mula-ruça do meu compadre, para continuar em breve e menos vagarosamente esta importantíssima viagem, e encher com observações novas a — Carteira de meu Tio.
FIM DO 2.º FOLHETO E DO 1.º VOLUME.