Capítulo II
Como depois de se demonstrar que às vezes ideias muito feias se encapotam em frases e palavras muito bonitas, e que às vezes se perde quem deixa o atalho para seguir a estrada real, convém o homem das botas em dizer quem é, e metendo-se na política geral, conta uma história de porcos e de milho, que traz seu dente de coelho, e no fim dela se vê arder a casinha de um pobre, e logo adiante ouve-se um nenê, filho de um inspetor de quarteirão, lendo um artigo da Constituição do Império.
Apenas me vi são e salvo, fora do maldito atoleiro, soltei um grito de alegria; mas como neste mundo não pode haver gosto sem desgosto, que de perto o siga; logo depois me senti entristecer vendo-me todo enlameado; e para satisfazer meu justo despeito, tornei a dar ao diabo a barreira, e quem tivera a lembrança de estabelecê-la.
— Então que é isto?... perguntou-me o homem das botas, que se conservava parado do outro lado do lamarão.
— Ora é boa pergunta! respondi: pois não vê o miserável estado em que ficaram as minhas calças e o meu paletó?
— Queixe-se de si, meu jovem viajante: atolou-se e não conseguiu passar o atoleiro, porque não soube ser destro, nem cauteloso.
— Vamos a melhor! a menos que o senhor voltasse para casa, e perdesse a viagem; como, supondo-se no meu caso, deixaria de se enterrar neste tremendo lamarão, como eu me enterrei?
— Com destreza e cautela, meu caro, fazem-se milagres nesta vida, e milagres de ginástica muito principalmente: creia, que quando há jeito e convém passar de um lado para outro, passa-se mesmo através de um atoleiro, com finos sapatos envernizados e meias de seda; verdade seja, que sempre se fica com algum cheirinho do lamaçal; mas o viajante, a quem fez conta passar de um lado para outro, depois das terras baixas, em que andava, sobe as serras, e o ar delicioso das alturas o purifica.
— Não o entendo, meu amigo!... o senhor fala-me uma linguagem muito metafísica.
— Qual! se não fosse o miserável cavalo em que o vejo montado, eu o faria passar muito limpamente cá para meu lado, aí mesmo por cima do atoleiro; mas visto que estas passagens são próprias somente para aqueles que estão a pé; vou-lhe ensinar um atalho por onde virá a ter comigo sem o menor incômodo. Olhe, ande umas quatro braças para trás e tome por um atalho, que fica ao lado esquerdo... ao lado esquerdo, ouviu?... não se meta pelo do direito; lembre-se bem disto: nada de direito; o direito é atualmente um anacronismo.
Pelo sim, pelo não, aceitei o conselho do homem das botas: andei as quatro braças para trás, e entrando no atalho designado, contei achar-me bem depressa do outro lado do atoleiro e na estrada real; mas estava escrito, que tudo nesse dia tinha de sair às avessas do que eu pensava!
Sempre entendi, que um atalho é um caminho mais curto do que a estrada real; aquele porém em que eu acabava de entrar era vinte vezes mais comprido: estava no caso dos orçamentos de despesas do Império, em que os artigos aditivos são mais extensos do que todo o corpo da lei. O homem das botas chamava atalho ao mais evidente e dilatado desvio.
E, entretanto, pensando-se bem sobre o caso, reconhece-se que o homem das botas fez o que faz muita gente de gravata lavada: designou um objeto com o nome que pertence a outro absolutamente diverso; escondeu com a consoladora denominação de atalho a ideia antipática e maçante, que revela a palavra desvio. Assim mesmo é que se deve fazer: a vida humana é uma burla mais ou menos prolongada, e o homem mais eminente, mais hábil, e mais digno de geral respeito é aquele que melhor e mais vezes engana os outros.
Quando se quer fazer admitir, ou pôr em ação um pensamento, ou um sistema, que convém aos nossos interesses, embora seja nocivo aos outros, faz-se a mesma coisa, disfarça-se o bicho dando-se-lhe um nome sonoro; adorna-se a falcatrua com uma palavra que soe bem aos ouvidos; pratica-se o mesmo que pratica a velha feia, enrugada, e que ainda querendo casar, esconde os cabelos brancos em uma touca de blonde, e cobre as rugas do pescoço com adereços de brilhantes; neste caso a touca e o adereço tomam o lugar da palavra: a velha é o bicho, ou o casamento a falcatrua.
Se são capazes, digam que não é assim.
Pois seria a primeira vez, que se encapotasse uma ideia reprovada e perniciosa com uma palavra sonora ou pomposa?... ora! se só os homens de botas fizessem isso, meio mundo andaria de botas: verbi gratia — teriam andado de botas os tais fradecos da inquisição, que ao mesmo tempo que assavam em crepitantes fogueiras os pobres infelizes, que lhes caíam nas unhas, desenrolavam ante a multidão os estandartes do Santo Ofício, nos quais o povo lia a divisa Justiça e Clemência! era uma clemência que tinha o seu cheirinho de carne assada. Teriam andado também de botas os devotos de Robespierre, que em 1793 saudavam as cabeças que caíam da guilhotina com o grito entusiástico de liberdade: era uma liberdade com cheiro de sarrabulho. E também de botas teriam andado aqueles embaixadores e politicões da Grécia, que traindo os mais nobres e sagrados sentimentos e deveres pelas dádivas, presentes, e promessas do rei de Macedônia, defendiam com calor e empenho a necessidade da conciliação com Philippe; era uma conciliação, que trazia almiscar de corrupção.
Seria um nunca acabar, se quiséssemos ir adiante: porque clemencias de inquisição, liberdades à Robespierre, e conciliação de políticos são falcatruas engraçadas, muito comuns na história da humanidade, e que fazem muita honra aos seus inventores e repetidores.
De tudo isto se conclui, que a coisa não está nas botas: disfarçar uma ação, que os tolos e papalvos consideram imoral ou indigna, dando-lhe um nome que só pertence a uma ideia generosa e pura, já eu o disse acima, e agora dou capo, é um fato, que se vê reproduzido todos os dias, não somente pelos homens de botas, mas ainda por aqueles que calçam sapatinhos com fivela, meias de seda e calções, como os cônegos e os antigos cortesãos; pelos que andam de beca ou garnacha, como os desembargadores; pelos que trazem chapéu armado na cabeça, dragonas nos ombros, espada à cinta, e esporas de ouro nos botins, como os generais; e enfim (para ir de uma vez ao exemplo mais frisante) por aqueles que trajam calças com galão de ouro e fardas de ricos bordados do mesmo metal; e que têm sobretudo carradas de razão, sempre que dizem alguma coisa, e carradas de juízo sempre que estão calçados; e que sobretudo nunca têm atenção para ouvir queixosos, nem palavra para cumprir promessas: acabei com uma descrição tão completa, que todo mundo adivinha que eu quero falar dos ministros de estado, vulgo, fazedores de programas.
É verdade, programas de ministros! ora haverá burla mais franca, usada, e já conhecida do que o programa político de um ministro novo?... onde se encontrarão mais palavras assim cheias de fósforos, mais palavras, que escondem o contrário do que significam, do que nessas peças de falcatrua ministerial?... suponhamos que eu tenho certeza de subir ao ministério amanhã: o que se passa em mim?... franqueza no caso; lá vai: já desde hoje me estou preparando para cair de unhas e dentes sobre os meus adversários; já de hoje estou resolvido a persegui-los, prendê-los, recrutá-los, espatifá-los, a fazer enfim o diabo a quatorze contra a tal súcia de oposicionistas, mas chega o dia de amanhã, vejo-me no poleiro, e apresento-me às câmaras; levanta-se lá um dos tais parlamentares, e pergunta qual é o programa do novo ministério. Digam-me agora: eu havia de cair na corriola de patentear o meu programa oculto?... pois não! faço o que fizeram os meus antecessores; não digo senão o que me convém: ergo-me por minha vez, e exclamo: “O nosso programa se resume todo em uma só palavra: ei-la — tolerância!” A chusma dos independentes, que já trazem requerimentos nos bolsos da casaca, e que já me deram terríveis atracações nas ante-salas, brada a uma voz: “apoiado!... bravo! muito bem!...” e eu volto daí a pouco para a minha secretaria, e começo a executar o meu programa de tolerância, demitindo a uma boa dúzia de empregados públicos, que são em verdade excelentes e honrados servidores do Estado, e chefes de numerosas famílias; mas que tinham também o desaforo de não pensar como o ministro novo.
Verdade, verdade: a geringonça não é tal e qual?
Sim; façamos de conta ainda que amanhã serei ministro: segue-se daí, que já em todo o dia e noite de hoje vou sentindo que a Constituição e as leis do Império incomodam-me tanto, como um sapatinho justo a um pé cambaio; a Constituição é o pesadelo, o trambolho, o pegulho de um ministro; as leis do Império são acanhadoras como soltas, ou maniotas, e incômodas como se fossem espinhos e carrapichos que se apegassem às excelentíssimas fardas: o primeiro pensamento, a meditação da primeira noite de um ministro novo devem dizer respeito exclusivamente à melhor maneira de dar férias à Constituição e sueto às leis do Império: eu, igual aos outros (e o povo há de crer que sim; porque até agora quase todos têm sido iguais uns aos outros: é, como diz o vulgo, cara de um, focinho do outro!) pois bem: eu igual aos outros, juro aos meus afilhados, à minha ambição de dominar, ao meu espírito de vingança, e ao meu ceticismo político fazer tanto caso da Constituição, e das leis, como um patriota, que conseguiu enfim ser senador, dos eleitores que votaram nele; passa porém a noite, chega o dia de amanhã, e com ele a hora do programa: eis-me no parlamento. — Peço a palavra! — (movimento de curiosidade; profundo silêncio). Levanto-me e falo: “Senhores! o ministério protesta, que há de executar, e fazer executar religiosamente a Constituição e as Leis do Império.” Dito isto, meto-me no carro, e enquanto os pais da pátria ficam lá de boca aberta, venho eu mais que depressa assinar no primeiro aviso uma interpretação jurídica que me convém, e que atira com uma lei de pernas ao ar; e na primeira portaria uma disposição tão bem tomada, que dá um encontrão no pacto fundamental, que o põe logo fora dos fundamentos.
Verdade, verdade: a coisa não é assim?...
Fica, portanto, evidentemente provado, que um programa ministerial é um agregado de palavras, que servem para exprimir o contrário do que os ministros têm no pensamento, e pretendem fazer: ora, isto é muito bem feito, e assim mesmo é que deve ser; porque o povo é um toleirão, que gosta de aparências, e de fantasmagorias, e nunca se aproveita bastante das lições, que lhe dá a experiência, que é uma mestra, cujas lições se pagam muito caro! É verdade que ainda fora do parlamento, e ainda depois de se tornarem notáveis pelos abusos que cometem, os ministros continuam sempre protestando o seu respeito, e desvelado culto à Constituição e às leis; daí, porém, não se segue, que eles não sejam os seus primeiros violadores. Também os grandes criminosos, que a sociedade condena com horror, vão frequentemente às igrejas, e lá rezam com tanta compunção, aparente ao menos, e batem nos peitos com tanta força, que mais parecem santos, do que diabos; todos os diabos são assim, sem exceção dos maus ministros de estado, que são excelentíssimos diabos.
Mas, como me arredei eu tanto da matéria principal, que até acabei por embrulhar-me em programas ministeriais?... Quanta coisa dita fora de propósito! está bem; não faz mal: façam de conta que sou deputado, e que o que acabo de dizer é um discurso sobre o voto de graças; vamos adiante.
Em que ponto me achava eu?... diabo! perdi-me no dilúvio de minhas brilhantes ideias, como o mais atilado dos nossos legistas no pasmoso labirinto das leis do Império! e por falar em leis do Império, lembrarei de passagem, que, segundo diz meu sábio Tio, as câmaras e os ministérios da nossa terra, graças ao predomínio da magistratura, assemelham-se muito aos porquinhos da Índia..... em fecundidade somente.
Mas... se bem me lembro, eu estava falando do desvio, que o homem das botas chamou atalho. Era isso mesmo.
E o tal famoso atalho é tão enfadonhamente comprido, que ainda não acabei de vencê-lo; mas enfim... lá descubro a estrada real, e o homem das botas, que me está esperando. Dentro em cinco minutos estou rente com ele: devo, entretanto, empregar estes cinco minutos em alguma observação filosófica: eu sou um filósofo de arromba, e não posso estar um só momento sem refletir sobre as coisas deste, e até mesmo do outro mundo: pareço-me neste ponto muito com certos sujeitos, que empregam todo o seu tempo, e sacrificam toda a sua vida, tratando de fazer o bem da pátria; a única diferença que há entre mim e eles, é que o tesouro público não me paga as minhas filosofias.
Meditemos, pois.
Diz um antigo anexim, que ninguém deve deixar a estrada real para seguir o atalho: eis aqui, porém, um fato demonstrando com a sua logica de ferro, que às vezes convém até deixá-la por um desvio, quanto mais por um atalho! Isto é quanto às viagens físicas; porque no que diz respeito à viagem moral, que o homem faz através dos montes e vales e dos despenhadeiros e precipícios da vida humana, o anexim dos antigos torna-se mesmo uma sandice miserável.
Com efeito, quem enxergar somente uma polegada adiante do nariz, convencer-se-há logo ao primeiro intuito, que a prudência e a sabedoria ensinam que na viagem da vida humana ganha sempre mais aquele, que abandona a estrada real pelo desvio, ou ainda melhor pelos desvios; porque neste caso é evidente que a estrada real só se trilha com a prática severa da virtude, e quando o homem toma por guia de suas ações e por farol de seus passos a — consciência — tudo ficções inventadas por poetas, que é gentinha que anda sempre com a cabeça no mundo da lua; os desvios, pelo contrário, levam ao gozo de trinta mil prazeres o homem que por eles se dirige na vida, desprezando todas essas ninharias a que dão o nome de honra, dedicação, incorruptibilidade (e muitos outros palavrões, que enchem a boca e deixam vazia a barriga: asneiras, em que todos falam, e de que poucos fazem caso!), e tendo somente em vista o interesse individual, como único móvel de todas as ações.
Se não basta este simples enunciado para tornar bem patente toda a falsidade do anexim, considerado em relação à moral, imagine cada um a vida que passa o homem pobre e honrado, e a compare depois com a vida que goza mais ou menos cedo o homem, que começou também pobre, mas que não crê na virtude, nem a prática, e que se mostra sempre superior a todas essas vãs considerações, que, no dizer dos papalvos, são a base de toda a sociedade.
Aí temos um homem pobre, e honrado em toda a extensão da palavra! segue à risca as leis de Deus, e obedece à dos homens, a mentira nunca nodoou seus lábios, nem lhe fez corar as faces; nunca um pensamento imoral lhe enegreceu a alma; e preferiria antes morrer de fome e de sede a viver na abundância, usurpando a fazenda alheia; trabalha noite e dia para dar pão a seus filhos; tem uma consciência pura, um coração cheio de honra, faz a seus semelhantes o bem que pode; em uma palavra, cumpre todos os deveres de um cristão, que tem fé, e todos os deveres de um cidadão, que ama a pátria. Mas... é pobre! pobre nasceu, vive pobre, e há de pobre acabar: que lhe faça muito bom proveito!
Quem faz caso deste pobre diabo, que andou sempre pela estrada real?... Quem honra a sua honra?... Quem o aprecia e distingue na sociedade dos homens?...
Se ele espirra, nem lhe dizem — dominus tecum!
Quando passa na rua, ninguém lhe cede a calçada, ainda que o vejam manquejando, porque é um maltrapilho de jaqueta; e o carro do rico, mesmo rico sem honra, atira-lhe terra nos olhos, e lama no nariz!
Se vai falar a um ministro, nunca o acha em casa, e o correio o despede na escada.
Se faz alguma visita, causa receio de que vá pedir alguma coisa; e ainda que nada peça, se prolonga um pouco a visita, dizem-lhe nas costas: “que maçada!”
Quando requer o seu direito, torcem-lhe o nariz: se protesta e recalcitra, mandam-no para a cadeia.
Se serviu algum emprego, em que facilmente pudesse abusar, e assim fazer dinheiro, e preferiu ficar na sua honesta pobreza, e passa depois na rua com a casaca mostrando os cordões, não dizem: lá vai um homem de bem; apontão-no com o dedo dizendo em tom de mofa ou de piedade: lá vai um tolo que não se soube aproveitar.
Se rejeita um emprego de confiança para não tornar nem mesmo duvidosa sua firmeza política, os saltimbancos chamam-no excêntrico ou burro emperrado.
Se tem filhas, custa a casá-las, ou deixa-as ao desamparo, quando morre: se tem filhos, recrutão-nos: e ele que não tuja nem muja, porque filho de pobre é pelintra, e o único que deve ser recrutado.
Tem três direitos: ser guarda nacional, jurado, e votar nas eleições primárias; mas quando falta à ronda ou à parada, é o único que vai preso; quando não comparece no júri é multado sem remissão; e se no dia da eleição vai à matriz, dão-lhe uma chapa para levar à urna sem ler: se ele hesita, oferecem-lhe dois mil-réis pela consciência; se ele respinga, ameaçam-no; e se ainda assim não cede, mandam-no prender daí a dias para indagações policiais!... e é muito bem feito: pateta insolente: porque não havia de aceitar os dois mil-réis?... pois há consciência de pobre, que valha mais de seis patacas e quatro vinténs?!
Almoça pão duro; janta feijão aguado; muitas vezes na hora da ceia faz cruzes na boca; e na cama dorme ao som de uma orquestra de mosquitos, terrível familia de sopranos criada e sustentada na corte pela Ilustríssima Câmara Municipal nos lamaçais higiênicos da cidade.
Se adoece, descontam-lhe o ordenado, ou tiram-lhe a gratificação (se é empregado público) e ainda em cima chamam-no vadio: se está de saúde, fazem-no adoecer de trabalho.
Se é músico, desafina; se é padre, não lhe encomendam sermões; se é pintor, borra; se é ator, não tem partido, e leva pateada; se é operário, chama-se canalha.
Por prêmio das virtudes que tem e dos serviços que presta, ganha um hábito: aquele com que se enterra.
Se não acaba em um hospital, morre em casa em uma esteira velha.
E quando morre não deixa um amigo, que lhe reze por alma, e acaba ao menos com esta certeza consoladora: — não tem depois de morto poetas de certa ordem, que lhe façam versos.
Ora, em uma sociedade que assim raciocina e prática, o diabo que queira ser pobre honrado! não cabe nessa o Sobrinho de meu Tio, que é homem digno do século em que vive e interprete fiel da atualidade!
Agora o quadro oposto.
Bem entendido: eu não trato aqui do homem honrado e rico, que teve desde o berço honra e riqueza, nem de muitos e muitos, que trabalhando incessantemente e ajudados sempre pela fortuna, conseguiram chegar à opulência sem o menor sacrifício da honestidade. Faço os meus cumprimentos a todos esses senhores; desejo-lhes muita saúde e cem anos de felicidades; mas ponham-se de largo, que o meu negócio agora não é com eles.
Homens de bem, ricos e pobres... à retaguarda: tratantes ricos — à frente!...
Ha povo como formiga!... Que multidão tem chegado à Califórnia trilhando pelos desvios!...
Ora pois, consideremos ao acaso um de tantos: seja aquele figurão, que ali vai repotreado em um magnífico e soberbo carro.
Era há poucos anos um miserável diabo, que vivia de suas agências, e mais não disse; não tinha onde cair morto, e portanto ninguém fazia caso dele: mas não há nada como ter juízo!... o maganão atirou-se ao comércio, e foi de um salto ao apogeu da fortuna; eis o caso: primeiro abriu uma casa de secos, e quebrou; meteu-se logo nos molhados, e quebrou outra vez; excelente princípio! o quebrado ficou inteiro, e os credores com alguns pedaços de menos; depois, dinheiro a juros, três ou quatro por cento ao mês para servir aos amigos; um pouco mais aos indiferentes; duas dúzias de alicantinas por ano, e o suor alheio nos cofres do espertalhão: uma terça deixada em testamento por um estranho, e arrancada aos malvados parentes do morto; aqui há anos atrás o comércio de carne humana, que era um negócio muito lícito, negócio molhado e seco ao mesmo tempo, porque se arranjava por mar e por terra, terra marique: vai senão quando, no fim de dez ou doze anos o pobretão aparece milionário!
Mudam-se as cenas; antes ninguém tirava o chapéu ao indigno tratante, olhavam-no todos com desprezo, era um bicho que causava tédio, além de mau, era pobre; mas, ó milagrosa regeneração! ó infalível poder do ouro! o antigo malandrim já é um homem de gravata lavada! banhou-se no Jordão da riqueza, e ficou limpo e puro de todas as passadas culpas!...
E por onde chegou ele ao cume das prosperidades?... pelos desvios; se tivesse vindo pela estrada real, estava na esteira velha.
É verdade que o tal bargante, para se enriquecer, fez a desgraça de muita gente: mas que tem isso?... não goza ele agora muito sossegadamente a sua imensa riqueza?...
Quebrou fraudulentamente, pregou calotes, ofendeu as leis de Deus, e zombou das leis dos homens; ora viva! coisas do tempo da nossa avó-torta; águas passadas não moem moinho: dize-me o que tens, que eu te direi o que vales: bravo o nosso figurão!...
Todos o festejam, diplomatas, conselheiros, senadores, deputados, ministros, enfim a fidalguia toda da terra!
Dizem que é sedutor e libidinoso; historias da carochinha! todas as portas se abrem para ele, todas as famílias o recebem em seu seio!
Se dá um baile, não há fidalgo que deixe de ir dançar na casa do ex-velhaco: se é solteiro, ainda que seja feio, velho, e tenha fama de mau e de bruto, as mães metem-lhe as filhas pelos olhos a dentro.
Quando aparece no teatro, os grandes figurões quase que quebram o espinhaço, fazendo-lhe cortesias.
Antigamente era um maltrapilho, um trapaceiro desprezível; agora é o amigo de cama e mesa do senhor marquês; é o compadre da senhora viscondessa; é o fidus Achates do senhor conselheiro; é o querido, o nhônhô, o não-me-deixes das moças. O diabo do dinheiro faz até de um mono um cupidinho, e transforma uma azemola em um rouxinol!...
Dizem, que é estúpido: elegem-no deputado, ou votam nele para senador. E fica sábio!...
Tem fama de gatuno: nomeão-no tesoureiro. E fica honrado!
Acusam-no de todos os sete pecados mortais, e ainda dos quatro que bradam ao céu; fazem-no juiz ou mordomo de dez irmandades. E fica santo!...
Passa enfim vida regalada, embora alguns nas costas lhe mordam; tem tudo quanto deseja e aspira: festas, favores e honras, ainda que pela boca pequena o abocanhem: e, para dizer tudo, fica sendo um senhor da terra, como muitos outros senhores da terra.
Viva pois o dinheiro, que tudo o mais é história!
A única coisa que se não pode assegurar, é como passará o tratante milionário na eternidade! Mas também isto de religião, eternidade, pecados, purgatório, inferno e o próprio céu, são bruxarias do outro tempo, que já não fazem mossa nos espíritos fortes: são petas poéticas (e tão poéticas como as tais virtudes sociais!) inventadas pelos padres para enganar os papalvos: hoje em dia todas essas fantasmagorias caíram em desuso, e predomina vitorioso o interesse material ensinado magistralmente pelos grandes estadistas do século, e mesmo por alguns do nosso país.
Viva pois o dinheiro, repito: viva o dinheiro, que é a única realidade; e portanto tinha eu carradas de razão, quando declarava, que na viagem da vida os desvios são sempre mais proveitosos do que a estrada real; porque os desvios nos levam à Califórnia, e a estrada real é o caminho da esteira velha!
E não me venham cá em oposição ao que eu digo e sustento, com longos discursos fosfóricos, e maçantes brilhaturas de eloquência e de poesia, porque em tal caso eu me levanto armado com a história do passado, que é pouco mais ou menos a mesma do presente, como será a mesma do futuro.
Aí temos, por exemplo, o Sr. Sócrates, marchando muito senhor de si pela estrada real, dando o exemplo de todas as virtudes públicas e domésticas, pregando que a prática do bem é o mais seguro meio de se conseguir a felicidade, e merecendo enfim o título de rei da razão: pois bem, o que lhe acontece?... Lícon, que era um politicão, como alguns que temos, ajunta-se com mais dois compadres, e dão o bote no sábio, que bebe a cicuta e vai-se, como um passarinho!
Olhemos agora para os desvios: lá vai por eles Dionísio, o antigo, pobre filho de soldado, deu um pontapé na virtude, e correu à rédea solta, e tantas fez, que se tornou senhor de Siracusa: encarapitado no poleiro, banhou-se no sangue do povo, e encheu os seus cofres de riquezas e tesouros usurpados até aos próprios deuses, cujo culto seguia; e assim reina trinta e oito anos, e morre com sessenta e três de uma indigestão!! se não fosse a indigestão, que é moléstia muito própria de glutões políticos, creio que o tal bichinho passava dos cem anos correndo pelos desvios.
Aí vai outro pela estrada real: é Régulo, homem de bem às direitas não há dúvida nenhuma; e exatamente por ter provado sê-lo, cortaram-lhe as pálpebras e o amarraram ao sol ardente; e enfim prenderam-no em um caixão todo eriçado de pregos: o diabo que lhe inveje a cama! Agora ali desencabresta Sila pelos desvios, tigre sedento de sangue, devasso faminto de deboche, gozou tanto, que ele próprio se chamava o feliz, e se não são os piolhos, que lhe dão cabo da pele, julgo que nem o cólera-morbo, quer masculino quer feminino, podia obrigá-lo a fazer ablativo de viagem!
Oh lá! por ali se encaminha o Sr. Tomás Morus pela estrada real; sábio e íntegro, não há que se lhe dizer: homem de honra e de caráter firme, deixa o conselho de Henrique VIII, porque reprova as reformas que o rei quer introduzir na Igreja; está bem aviado!... teima ainda nas suas ideias!... pois lá vai morar na Torre de Londres, e depois o algoz lhe corta a cabeça! A propósito de firmeza de caráter vejo lançando-se cauteloso pelos desvios o Sr. Talleyrand-Périgord, príncipe de Benevento: o maganão é coxo; mas desce por uma ladeira escorregadia tão macio e seguro, como se estivesse passeando em uma sala de baile! atravessa um reinado que acaba em um patíbulo, uma república que morre aos pés de um soldado, um imperialato que expira em uma batalha, mais dois reinados, dos quais o último rebenta de encontro a uma barricada, e entra por outro reinado a dentro, como quem vai de viagem, e sempre fazendo um dos primeiros papéis na geringonça política! vê matar-se um rei, e não morre; vê cair por terra uma república, e não cai; vê abdicar um imperador, e não abdica; vê fugir outro rei, e não foge!... Viva o homem! é da têmpera de uns amigos que eu tenho! Quando teve de prestar juramento ao último rei que conheceu (Luís Filipe), dizem que exclamara com um gracioso sorriso: “He! he! sire, c'est le troisième.” E morreu sossegadamente com os seus oitenta e quatro anos bem puxados! Foi pena que não estivesse vivo em 1848 e em 1851, para prestar mais dois juramentosinhos. Se Talleyrand fosse brasileiro, e do nosso tempo, já teria sido saquarema cinco ou seis vezes, e luzia outras tantas; mas havia de encontrar competidores de barrete fora!
Por consequência, os desvios são sempre mais convenientes ao homem, do que a estrada real; está dito: é verdade que os contemporâneos, e a posteridade, deram a Dionísio e a Sila o nome de monstros, e lançam sobre Talleyrand a acusação de perjuro; é verdade, que o rico tratante, apesar de todas as cortesias que recebe e dos incensos que aos pés queimam, é e há de ser sempre um tratante; é verdade que, finalmente, vêm a morte, e depois... e depois a tal ficção poética da eternidade também é e há de ser sempre a esperança, a consolação, o prêmio seguro dos bons, e o castigo terrível dos malandros e perversos; mas... diz também um outro antigo anexim “ande eu quente, e ria-se a gente”. É esta pelo menos a filosofia e a moral do século e da atualidade; se preguei uma doutrina corruptora e infernal, a culpa não é minha, porque eu já disse, repito, e digo agora pela terceira vez, que não faço mais do que seguir as lições dos grandes mestres, ou dos mestres grandes, que vem tudo a dar no mesmo.
Para cinco minutos de reflexões já disse muita coisa: ajuizem por isto a velocidade com que anda o cavalo de meu Tio!... Ainda bem que fiz ponto final em minhas considerações filosóficas exatamente no momento em que o ruço-queimado abaixou a cabeça até bater com o focinho no chão, fazendo um cumprimento à mula-ruça em que está montado o homem das botas.
— Até que enfim!... disse este.
— Sim, senhor, respondi eu: o seu atalho demonstrou-me que, ao contrário do que dizem todos os gramáticos, o nome é uma voz com que se encobrem as ideias.
— Confesso que o atalho é um verdadeiro estirão; ao menos, porém, livrou-o do atoleiro: toca a viajar!
— Como!... pois o senhor não vai para o lado da barreira?...
— Nada; tenho o prazer de voltar na sua compania.
— Se não fosse muita curiosidade, estimaria saber com que fim.
— Adivinhei que não lhe dá gosto andar só e decidi que faríamos bem em andar juntos.
— Obrigado; mas realmente não sei como agradecer tão assinalado favor feito a um estranho e desconhecido.
— Não havia nisso do que se admirar: faça de conta que estamos numa época de virtude evangélica, na qual se fazem favores e presentes aos adversários, quanto mais aos desconhecidos! entretanto, fique sabendo, que eu sei quem é o senhor, e o que vem fazer por aqui.
— Esta é melhor!... então....
— O senhor é o sobrinho de seu Tio, e vem estudar no livro da sua terra.
— Pois meu Tio....
— É um compadre deste seu criado, a quem ele encarregou de fazer-lhe compania nesta viagem.
— Ainda bem!... O seu nome?...
— Conhecem-me menos pelo meu nome do que pela minha alcunha.
— Venha um ou outra!
— Lá vai a alcunha: chamam-me Paciência.
— Diabo! deram-lhe um apelido feminino!
— Outros há que, tendo nome e alcunha acabados em o, são muito piores do que eu, porque têm natureza macho-fêmea.
— Lá vai de má língua, Sr. Paciência.... nada! senhor, não: hei de também chamá-lo o compadre Paciência; é coisa decidida; meu Tio e eu somos solidários; bem entendido; eu não tenho remédio senão sê-lo, porque do contrário exponho-me a que ele me ponha pela porta fora; há solidariedades como a minha, creia no que lhe digo: meu Tio e eu somos pois solidários; o senhor é compadre de meu Tio, logo é meu compadre também.
— Está feito.
— A única coisa que nos falta é o afilhado.
— Isso acha-se depressa: estamos na terra dos compadrescos e dos afilhados; a moda está mesmo tão introduzida, que já não se faz nada, nem coisa alguma se consegue sem padrinho; e padrinho hoje em dia é sinônimo de inocência para o grande criminoso, de sabedoria para o analfabeto, de merecimento para o indigno.
Entabulada assim a conversação, prossegui na minha viagem com o compadre Paciência.
O meu companheiro de viagem, a quem nunca mais chamarei homem das botas, porque seria o mesmo que chamá-lo homem da roça, e homem da roça é uma entidade especial, que não presta para nada, e de quem os políticos só se lembram em vésperas de eleições; o meu companheiro de viagem, digo, ia tão mal montado como eu.
Cavalgava uma mula-ruça pequenina, velha, cambaia, e que não tinha senão um trotezinho curto e abaloso; mas o que me causou um verdadeiro sentimento de compaixão, foi o ar de triste simpatia com que o cavalo de meu Tio, e a mula-ruça do compadre Paciência se olhavam; não sei o que tinham aqueles dois bichinhos da terra para irem assim andando e olhando-se tão melancólicos, como dois bois que marcham para o matadouro. Enfim, provavelmente eles lá se entendem!
O compadre Paciência continuou a sua conversa comigo.
— Então, perguntou-me ele, persiste ainda nas suas disposições de se envolver em política?...
— Já vejo que meu Tio não tem segredos com o compadre!
— Somos dois corpos numa alma só; porém vamos: persiste ainda?...
— Estou decidido de pedra e cal; eu cá não mudo!
— Eu cá não mudo! começou logo com uma asneira, quando tratava de política: meu caro compadre, se quer ser político, e chegar a ser tido na conta de estadista, e fazer fortuna com esse modo de vida, deve ser catavento, e ter os pés sempre prontos para quebrar os degraus, por onde subir, assim que não precisar mais deles.
— Sim, sim, estou por isso; mas também não é menos verdade que todas essas coisas se fazem, porém não se confessam. Eu hei de afirmar sempre que sou firme como um penedo, ainda que seja mole como uma pamonha!
— Bravo! vá por aí, que tem futuro! do que diz se conclui que marchará justamente pelo caminho do inferno; mas console-se, porque antes de chegar ao inferno há de subir por muitas grandezas humanas, e talvez mesmo que chegue a ser ministro! Olhe, não seria o primeiro.
— O compadre fala sério, ou está brincando?...
— Sou um roceiro ignorante e rústico, que ainda reza pela cartilha da independência: não faça caso das minhas excentricidades; tenho a mania de ser homem de bem, e de acreditar que a base de toda a política deve ser a virtude: asneiras de homem da roça!...
— Poesia.... poesia....
— Será isso; mas vamos a saber: qual dos partidos pretende seguir?... o Saquarema ou o Luzia?...
— Qual é o que está no poder agora?...
— Homem, eu também não sei.
— Pois hei de me informar para me alistar nas suas fileiras.
— Dizem por aí que o partido que está no poder é o saquarema; note bem que eu não o asseguro, porque às vezes são mais as vozes do que as nozes; parecia-me, porém, que o compadre não se devia decidir a favor de qualquer partido, pelo simples fato de vê-lo no poleiro.
— A minha regra é que quem está no poder tem sempre razão; e, além disso, ainda não compreendo bem o nosso mistifório político: tenha o compadre a bondade de me explicar o que querem os tais dois partidos!
— Eis aí uma outra pergunta que me põem em sérios embaraços: o que querem os dois partidos?... conforme, compadre.
— Explique-se, por quem é!
— Distinguamos então nos partidos três entidades bem diversas: a multidão que é a cauda do partido; os correligionários pensadores, que formam o corpo, e os chefes, que são a cabeça; ora, assentemos que cada partido é um animal de nova espécie, que tem uma cabeça sofrível, um corpo desproporcionalmente pequeno e uma cauda mais comprida do que o atalho, por onde passou ainda há pouco!
— Pois fique isso assentado.
— O tal bicho, como é natural, é ordinariamente governado pela cabeça; digo ordinariamente porque quando ele se desespera, e disparata, tem o mau costume de andar às avessas, e então a cauda arrasta a cabeça por onde lhe parece, justo castigo, porque é a cabeça quem acende as fúrias da cauda.
— Bem: e que mais?...
— Dadas estas explicações, respondo agora ao compadre: a cauda de qualquer dos nossos dois partidos não sabe, nem procura saber o que quer: segue o movimento que lhe imprime a cabeça, e vai indo: permitta Deus, que lhe não chegue a hora de se desesperar e disparatar!
— Até aqui a cauda; vamos agora ao corpo.
— O corpo dos partidos, que é formado pelos pensadores, pensa, prega e sustenta ideias que julga convenientes ao país; mas pode-se-lhe aplicar a vox clamantis in deserto: são idealistas, são poetas!...
— Id est: são tolos.
— Não; mas são vítimas dos velhacos.
— Já se vê, compadre Paciência, que isto não se entende comigo.
— Os chefes dos partidos, que são a cabeça, feita exceção de meia dúzia de homens sinceros e dedicados, que todos respeitam, são egoístas e ambiciosos, cujos princípios políticos se resumem todos no pronome — Eu —; trabalham só a favor de seus interesses materiais, lutam e fazem lutar os outros só para se verem em altas posições sociais, que lhes deem dinheiro e importância pessoal. Para eles a política não passa de uma guerra de ambições ignóbeis que se define perfeitamente com estas palavras já muito repetidas: «desce tu, que eu quero subir.»
— Mas, enfim: que diabo querem os nossos dois partidos?...
— A cauda de qualquer dos dois não sabe, nem se ocupa de saber o que quer; já o disse uma vez.
— E o corpo?...
— O corpo de um proclama, que quer conservar, embora vá, sim ou não, destruindo muita coisa boa; e o corpo do outro assevera, que quer progredir. Os conservadores dizem que não admitem o progresso político, porque temem que ele nos atire além dos limites da prudência; os progressistas repelem os erros do passado; sustentam que o sistema monárquico-representativo está falseado entre nós, e que é indispensável apelar para diversas reformas políticas, se quisermos que a monarquia constitucional seja no Brasil uma realidade: uns e outros, conservadores e progressistas, dizem ainda muita coisa, mas o essencial é isso.
— E, uma vez por todas, a cabeça o que quer?... o que querem os chefes?...
— Os chefes?... outra vez com exceção de alguns homens sinceros e dedicados, que todos respeitam, os chefes de um dos partidos se dizem também conservadores, e na verdade que o são sob certo ponto de vista; porque, quando estão no poder, tratam de conservar-se nele a todo o custo, e por todos os meios; e os do outro dizem-se também progressistas, e eu não duvido que o sejam, porque quando estão na oposição caminham para diante com toda a pressa que podem; a ver se nesse progresso chegam ao poder; mas o que é verdade, o que todos veem, é que estes conservadores logo que se acham no governo, andam para trás como caranguejos ou oprimem o país como pesadelos; e estes progressistas, ocupando o timão do Estado, desenvolvem e mostram um tal progresso de preguiça que chegam até a subir e descer sem jamais sair de um mesmo lugar!
— Portanto...
— Portanto, entre os chefes dos dois partidos, com exceção, repito, dos poucos que são sinceros e dedicados, não há luta pelas ideias, há briga por causa do poleiro: os princípios políticos deles são idênticos, porque se resumem, como já disse, no pronome — Eu; — e quer subam uns, quer subam outros, a coisa anda, pouco mais ou menos, sempre do mesmo modo.
— O que são os Whigs? dizia O'Connell; são os Tories fora do ministério.
— Pois digo-lhe, que esse tal O'Connell é ou era, porque não sei quem seja esse sujeito, nem se está vivo ou morto; assevero porém, que é ou era um homem de muito juízo, e que dava às coisas os seus nomes próprios: nessas breves palavras está pintado ao vivo o egoísmo dos grandes politicões; e nós precisamente devemos ao egoísmo dos chefes o mistifório dos nossos partidos políticos. Os partidos são animados, e sustentados pela nobreza, pela justiça, generosidade e utilidade das ideias que proclamam; mas entre nós têm sido muitas vezes iludidos, descaminhados, e indignamente burlados pelos manejos de homens ambiciosos. Olhe, compadre, às vezes aparece um desses espertalhões de alto coturno, que levanta aos olhos do povo uma bandeira grandiosa e entusiástica: é um prazer ver o ardor com que o tal Catão prega seus belos princípios, e faz mil protestos de desinteresse e de patriotismo! o povo não pode resistir à sua eloquência: rodeia e aplaude o esperançoso estadista: chega a hora do seu triunfo, ei-lo no poder: que é dos princípios por ele sustentados?... o novo ministro bebeu a água de um Letes, que corre pelas portas das secretarias de estado, e esquecendo tudo quanto prometera em oposição, trata somente de satisfazer os caprichos, que escondera, e a ambição, que o devora. Os chefes! os chefes!... a desmoralização dos chefes tem plantado a descrença no coração dos partidos; e a descrença... a descrença é a véspera do desespero.
— Bravo, compadre Paciência! está agora tocando o sentimental!
— Eu estou simplesmente dizendo as coisas como elas são. Vejo o santo fogo de um povo entusiástico extinguindo-se ao sopro frio e enregelado dos mais tristes desenganos; vejo a desconfiança por toda parte; o ceticismo nos grandes; a indiferença na classe média, e a miséria na classe, que chamam baixa, embora nela haja homens de muito boa altura. Vejo o povo cansado de ser iludido, zombado pelos seus guias, e desconfiado até dos poucos, que se conservam firmes em seus postos de honra. Vejo nobres e generosos ombros doidos por terem servido de escada a arlequins de todas as cores; vejo a abjuração de todos os princípios confessada publicamente por aqueles mesmos, que mais ardentemente os pregavam. Vejo Catões de albarda, e Aristocratas de blusa. Vejo, enfim, os partidos sem crenças políticas, porque a maior parte dos seus chefes trata exclusivamente de se arranjar, e de arranjar seus parentes mais chegados.
— Compadre, o senhor é um pintor de quadros lúgubres!
— Pois preferia que eu lhe pintasse esta desordem política burlescamente?
— Heróis burlescos só merecem poemas heroico-cômicos.
— Pois lá vai uma história.
— Política?...
— Não sei: é uma história de porcos e de milho.
— Mas a que vem uma história de porcos e de milho para o nosso caso?
— Homem, nós estávamos tratando desses pseudo-chefes de partidos, cujos princípios são difíceis de compreender, porque eles só cuidam de subir ao poder, ou de arranjar-se em belas posições oficiais, mesmo com sacrifício das próprias ideias, que fingiam sustentar de coração, e com ardente entusiasmo.
— Mas a história?... a história?...
— Estávamos tratando desses papagaios políticos, que gritam muito, quando têm fome, e se calam apenas têm a barriga cheia.
— Sim: mas a história?...
— Em uma palavra, estávamos tratando dos negociantes políticos; isto é, daqueles que fazem da política um meio de vida, e brigam quando não os deixam mamar nas tetas do Estado.
— Basta, por quem é, compadre.
— Ouça agora a história.
— Sou todo ouvidos.
— Houve tempo em que eu tive uma fazenda em Cantagalo.
— Bem: e que mais?...
— Plantava, e colia café, e por distração criava porcos.
— Então temos também o café na história?...
— Não: o café foi um episódio.
— Pois então episódios para um lado, e vamos ao fundo do caso.
— Vamos, com a condição porém de ser menos vezes interrompido.
— Os apartes esclarecem a discussão, compadre.
— Quando não a desnaturam, e conspurcam.
— Bravo! esta vai aos deputados e senadores!
— E eu fico sem contar a minha história!
— Prometo não dizer mais palavra.
— Ora bem: criava eu pois os meus porquinhos, e, conforme o uso, mandava todas as tardes dar-lhes uma ração de milho, assistindo ordinariamente à cena, porque na verdade a coisa me divertia muito.
— Realmente devia ser um espetáculo muito pitoresco!
— À hora do costume, vinham todos os porcos aproximando-se da casa já com sentido na ração...
— Instinto político! observei eu.
— Mandava deitar o milho no coche, destinado a esse fim; acontecia, porém, sempre uma dos diabos!
— Então o que?...
— O coche era de bom tamanho, mas os porcos eram muitos, e não podiam comer mais que duas ou três dúzias de cada vez.
— Bem: e depois?...
— Apenas os porcos viam cair o milho dentro do coche, corriam atropeladamente para ele, e os primeiros que chegavam, enterravam os focinhos no milho, e começavam a comer com uma disposição verdadeiramente devoradora!...
— E os outros?...
— Os outros, que tinham vindo logo atrás, trepavam nas costas dos primeiros e lhes ferravam os dentes nos lombos, grunhindo com raiva e desespero, e, finalmente ainda os outros, que mais tarde chegavam, mordiam os segundos, e gruniam tão fortemente como eles, de modo que era uma desordem dos meus pecados!
— E depois que acontecia?...
— Quando os primeiros se sentiam fartos ou não podiam mais sofrer as dentadas, que lhes davam, cediam o posto e o milho aos outros, que mais perto se achavam, e que por sua vez sustentavam a mesma luta...
— Que mais?...
— Os que tinham o focinho no coche e comiam o milho, não faziam o menor ruído; e os outros, pelo contrário, gruniam com um furor indizível até chegar a sua vez de comer.
— E que mais?...
— Ás vezes a briga se dava até entre os porquinhos da mesma raça!... era uma coisa capaz de fazer rir o filósofo chorão!
— E finalmente?...
— Acabou-se a história.
— Pois, meu caro compadre Paciência, juro-lhe que ainda não entendi o que quer dizer com a sua.
— Ora! a moral da história está entrando pelos olhos: quero dizer, que a razão da alta gritaria, que levantam, e do espalhafato, que fazem aqueles, que fazem da política o seu meio de vida, aqueles que quebram os degraus por onde sobem às primeiras posições oficiais, aqueles que atraiçoam os partidos, que os seguiram, e que os elevaram como seus chefes, aqueles que de tempo em tempo mudam de princípios e de opinião, como as cobras mudam de pele, aqueles que, como os papagaios, falam muito, quando têm fome, e calam-se logo que têm a barriga cheia; quero dizer, repito, que a razão da gritaria e do espalhafato, que fazem esses e outros que tais glutões políticos, está em ser o coche pequeno, e não poderem todos comer ao mesmo tempo dentro dele. Em uma palavra, compadre, quero dizer, que há entre nós uma certa qualidade de gente para quem a política é o milho, a pátria é o milho, o futuro e a glória é o milho, e só o milho; e está acabada a história.
— Ah!
Não sei mesmo o que ia dizer ao compadre Paciência, a respeito da estrambólica história, que acabava de ouvir, quando fomos obrigados a parar, atraídos por um espetáculo bem desagradável.
A algumas braças da estrada descobria-se uma casinha, que era naquele momento presa das chamas, que já lhe tinham devorado todo o teto, e sem dúvida que dentro em pouco fariam com que o pobre dono daquele modesto ubi escrevesse sobre as cinzas, e as paredes caídas o «campos, ubi Troja fuit!» que, entre parênteses, vem aqui muito a propósito.
Perto da casinha incendiada viam-se em desordem os velhos e pobres trastes da família, que nela morara, e junto deles uma velha representante do século passado, um homem de meia idade, que a consolava, ralhando ao mesmo tempo com uma rapariga de vinte anos, que vertia um pranto ainda mais teimoso, e desesperado, do que a vovó.
— Que desgraça é esta?... perguntou muito sensibilizado pelo que via o compadre Paciência.
O homem, que estava ao pé das duas choronas, voltou-se para nós e respondeu com cólera concentrada:
— É uma coisa bem simples, senhores: é que eu estou em Roma e não vejo as casas! sou pobre, e pensava, que tinha direitos civis e políticos, assim como os ricos; sou enfim um estúpido e mais nada.
— Mas que foi, que deu causa a esta desgraça?...
— A peste, que dá lugar a muitas outras. Em breve vão realizar-se as eleições primárias, e eu não me quis sujeitar a votar em uma chapa, que o dono desta terra, onde morei até hoje, e do qual sou foreiro, me mandou impor pelo seu feitor: despeitado por isso, ordenou-me, que me mudasse imediatamente; e como eu pedi, que me pagasse primeiro as minhas benfeitorias, ele cortou a questão, incendiando-me a casa (1)!
— É possível?!! perguntou o compadre numa exclamação.
— Também como se pode aturar a teima de um farroupilhá?... pensei eu comigo mesmo: ora que a gentinha miúda suponha, que em eleições pode ser mais alguma coisa, do que portadora de listas!... é um desaforo! não se deve aplicar a lei à plebe, quando a lei fala de direitos.
(1) O autor deste livro está convencido de que na Província do Rio de Janeiro, a mais civilizada do Império, não se observam fatos, como esse, que aí vai imaginando; mas, desgraçadamente, em outras províncias, e com especialidade em algumas do Norte, têm ocorrido não poucos atentados tão horrorosos como esse; e pois que está no pensamento do autor atacar os abusos, e a desmoralização, acredita ele, que pode bem supor praticados nesta ou naquela província, onde fizer viajar o seu herói, as ilegalidades e os crimes, que em qualquer outra parte do Império se têm observado.
(Nota do autor).
— É um crime, disse o compadre! o senhor deve ir comunicar o ocorrido ao delegado de polícia.
— Mas se o delegado de polícia é o próprio autor do atentado?...
— Ao subdelegado!...
— Mora ali perto; caí na asneira de ir falar-lhe ainda há pouco e comuniquei-lhe que a minha casa estava em chamas.
— E ele?...
— Aconselhou-me que lhe deitasse água.
— Miséria e indignidade!... e não há por aqui perto alguma outra autoridade pública, a quem se possa recorrer?...
— Oh! pois não!... o senhor ainda insiste em me dar um excelente conselho!... mora ali adiante o inspetor de quarteirão: mas se eu lá for queixar-me deste atentado, o homem, que é dos de papo amarelo, ou me despedirá com duas gargalhadas e uma descompostura, ou me mandará recrutar, como vadio; ou enfim me fará passar alguns dias na cadeia, enquanto passa a eleição, porque a chapa, que eu rejeitei, chama-se chapa governista, e o proprietário desta terra, além de ser delegado de polícia, é o chefe do partido, e portanto tem o poder de fazer o que lhe der na cabeça. Ainda bem que ele se contentou somente com incendiar-me a casa: foi um exemplo, simplesmente um exemplo, para que não se alastrasse a desobediência.
— Mas o senhor tem a seu favor o direito que lhe confere a lei.
— E tenho também contra mim a pobreza, que é uma espécie de eterna suspensão de garantias, meu caro!
— Então não acha recurso?...
— Para mim agora já não há recurso algum; para os outros pobres, que não quiserem que lhes queimem as casas, há o recurso de votar, como lhes ordenarem os ricos de quem dependerem.
O meu compadre, apesar de ter a alcunha de Paciência, estava furioso como um possesso; mas eu, fiel aos meus princípios, achei a coisa muito natural.
Afinal, que diabo quer dizer liberdade de voto?...
Liberdade de voto, ninguém o ignora, é uma burla, que todos os partidos pregam, quando estão na oposição, e que nenhum admite nem respeita, nem tolera, quando está no poder.
E mesmo, admitindo-se essa miserável utopia: seria prudente conceder aos pobres o direito de votar de um modo diverso daquele, daquele em que votam os ricos proprietários, em cujas terras moram?... se passasse um tão perigoso precedente, também os empregados públicos quereriam votar livremente e com consciência; e então, adeus minhas encomendas! lá iria o Estado dar à costa sem remédio, porque isto é evidente: não pode haver governo estável, quando os governados têm liberdade e direito de votar livremente. Estas poesias de voto livre é que põem de rastos as nações: verbi-gratia — a Inglaterra.
Aí vai mais um argumento sem réplica para provar que a sabedoria e o patriotismo repelem o voto livre. Os estadistas que nos têm governado, devem ser tidos como sábios e patriotas, porque, se não o fossem, não teriam assumido o poder num governo representativo: ora, apesar de sábios e de patriotas, ainda não houve um só deles, que, achando-se no governo em épocas eleitorais, não tornasse impossível, por todos os meios, a livre expressão do voto do povo; logo, a sabedoria e o patriotismo repelem o voto livre. Eu tenho uma lógica de arrancar couro e cabelo! é mesmo uma lógica, como a de certos deputados ministeriais, que reduzem tudo a este raciocínio bípede: — o governo fez, logo é justo e bom.
E quanto à chamada prepotência do rico sobre o pobre, entendo, que ela é muito natural. Todo homem manda e quer ser obedecido; mas na escala social uns mandam mais do que outros, e mesmo assim todos mandam; até o pretinho escravo manda ao gato e ao cachorro, que tem em sua senzala; depois do escravo vem o pobre, que está dois furos acima do cachorro e do gato, e um acima do escravo, que por isso lhe obedece: ora, segundo a ordem natural, o pobre devia obedecer também a alguém, e portanto, cumpre, que obedeça ao rico, assim como o cachorro e o gato obedecem ao pretinho escravo, e este ao pobre. Isto é lógica de ferro! não há dúvida nenhuma, eu nasci para ser jornalista de um ministério, que pague bem!
Profundamente convencido destas verdades indestrutíveis, obriguei o meu compadre Paciência a pôr-se a caminho, deixando entregues a seus pesares o pateta e atrevido, que tinha a ideia de querer votar livremente, e a velha e a moça, que continuavam a derramar um dilúvio de lágrimas.
Alguns minutos depois de começar o trotezinho da mula-ruça do compadre, e o tique-tique do cavalo de meu Tio, lembrei-me do meu velho, e das suas recomendações; quis então comparar o que acabava de observar com o que determinava a minha companheira de viagem; tirei pois do bolso a defunta, isto é, a Constituição do Império, e comecei a examinar os seus artigos para ver se descobria algum que tivesse relação com o caso.
Estava cá muito ocupado com este trabalho, quando o compadre me disse em voz um pouco alterada:
— Olhe... eis ali a casa do tal inspetor de quarteirão, e sem dúvida é ele que está à porta.
Olhei e vi o bicho, mas ouvi também uma voz fina, como um assobio, que gritava com toda a força.
— E que voz é essa que me entra pelos ouvidos, como uma ponta de agulha?...
— É sem dúvida uma criança, provavelmente algum nenê filho do inspetor, que está lendo aos gritos: não ouve como soletra?...
Pouco a pouco nos íamos aproximando da casa.
— Mas que espécie de cartilha estará lendo o tal nenê?
— Ouçamos.
Prestamos atenção e ouvimos o menino lendo o seguinte:
«Artigo 179 da Constituição do Império.
«§ VII. Todo cidadão tem em sua casa um asilo inviolável, etc.
«§ XXII. É garantido o direito de propriedade em toda sua plenitude, etc.
— Que irrisão!... exclamou o compadre.
— É uma utopia constitucional desmentida pela lógica dos fatos. O nenê podia muito bem ler os §§ VII e XXII do artigo 179 da Constituição do Império, e alguns dos artigos da Lei de eleições ao clarão do fogo, que está acabando de queimar a pobre casinha do atrevido, que quer votar conforme sua consciência.
— E que me diz do belo inspetor de quarteirão?...
— Ora! é um inspetor comme il faut; faz o filho decorar a Constituição, e ele pela sua parte a executa, ou viola, conforme os casos e as circunstâncias.
— Um inspetor de quarteirão consentindo que perto de sua casa, quase diante de seus olhos se ofendam as garantias de um cidadão, e se menospreze a lei!... isto é insuportável.
— Oh, compadre?... pois deveras queria que o desprezo das garantias do cidadão e das leis fosse um direito exclusivo dos ministros de Estado?... nada, não senhor, os inspetores de quarteirão fazem também das suas, e podem dizer, como o poeta macarrônico:
«Nos quoque gens sumus, et quoque cavalgare sabemus.»
FIM DO PRIMEIRO FOLHETO.