Capítulo III
Como depois de considerações transcendentes sobre a Constituição do Império, prova-se até a evidência, que é pela barriga que se governa o mundo: faço uma conciliação, de que muito nos aproveitamos, eu, o meu compadre Paciência, o cavalo de meu Tio, e a mula-ruça; admiro as ideias políticas de um estalajadeiro, que tem nariz e barriga de estadista; vou deitar-me, e tenho uma visão, que me deixa de boca aberta.
AINDA bem que o incêndio da casinha do pobre votante de consciência e a leitura soletrada dos parágrafos VII e XXII do art. 179 da Constituição do Império me distraíram um pouco: devo entretanto confessar uma fraqueza: a cena de aflição que representava a família do farroupilha não chegou a divertir-me: o crime de resistência perpetrado pelo miserável, que ousara rejeitar a chapa, com que o honrara o delegado de polícia, proprietário da terra em que ele morava, devia ter um severo castigo; mas as lágrimas da velha, e o pranto desesperado da moça (que, aqui para nós, não tinha maus bigodes), chegaram quase ao ponto de enternecer-me.
Agora, quanto à leitura da Constituição, o caso muda muito de figura: a Constituição é um poema em oito cantos, contendo cento e sessenta e nove estrofes de metrificação variada, e, como todas as composições poéticas e de literatura amena, serve bastante para entretenimento das horas vagas.
Que é que faz um homem sério e grave, quando se sente fatigado depois de um longo estudo de matérias espinhosas e profundas?... lança mão de um romance, ou de um volume de poesias, e suaviza o espírito acabrunhado pelo peso de pensamentos transcendentais com essa leitura rápida e fugitiva, do mesmo modo que pratica aquele, que se vinga de um abafado dia de calor tomando de noite um refrigerante sorvete no Francioni.
Segue-se, do que acabo de dizer, que eu tenho a Constituição do Império na conta de uma espécie de sorvete: exatamente assim é; mas com uma pequenina diferença, e vem a ser que, apenas em uma certa e curta época do ano deixamos de ter sorvetes, porque os irmãos ou filhos de João Bull não nos mandam gelo; e a Constituição é pelo contrário uma coisa que raramente dá sinais de vida entre nós; porque como diz meu respeitável Tio, a Constituição é uma defunta, e todos sabem que os nossos ministros de estado têm sobretudo muito medo de almas do outro mundo, e por isso conservam quase sempre a embirrante sujeitinha fechada com sete chaves em um caixão de papéis velhos; também não sei, porque ainda não se lembraram de mandar lançar essa papelada na praia; pois valia a pena!
Realmente divertiu-me muito a leitura da Constituição: lembrou-me, que aquele nenê, que lia, soletrando, devia aborrecer tanto o pobre livrinho, que o privava de estar fazendo travessuras, como certos tamanhões, que o leem por cima, desprezam seus ditames, atacam suas bases, sofismam os seus princípios, exatamente porque o orgulhoso livrinho pretende levantar imaginárias barreiras aos abusos do poder.
A Constituição do Império!... eu não sei como há insensatos, que ainda acreditem nela, e lhe rendam cultos? Não posso de modo algum compreender a espécie de adoração, que lhe tributa meu respeitável Tio: pela minha parte declaro, que detesto a Constituição por três fortíssimas razões: primo: porque assim me assemelho a muitos dos grandes homens da minha terra; secundo: porque a Constituição do Império é um poema, e eu abomino a poesia; tertio: porque, ou ela há de ser sempre letra morta, e em tal caso é melhor enterrá-la já, que é obra de caridade dar sepultura aos mortos; ou tem de ser letra viva algum dia, e por isso mesmo é muito conveniente acabar com ela quanto antes, para que depois não nos venha dar água pela barba. Reparem bem que estas razões não são de cabo de esquadra; não, senhores, são razões de figurão de farda bordada.
Os entusiastas da Constituição dizem, que a adoram pelo que ela devia ser, e não pelo que a fazem ser: asneira do caso! as coisas são boas ou más segundo a natureza dos efeitos que produzem: respondem a isto, que a Constituição, sempre posta à margem não pode ser causa dos males do país, devidos somente aos maus ministros que a não querem executar, e que governam no sentido oposto, do que ela determina: asneira maior ainda! Eu entendo, que é muito mais cômodo lançar a culpa de tudo na tal Constituição, que é muda, e portanto não se pode defender, do que nos ministros de estado, que em regra geral são uns papagaios, que falam até pelas pontas dos dedos, e fazem tais artes de berliques e berloques, que são capazes de receber até felicitações por aquilo mesmo, porque tivessem todo o direito de se mudar das secretarias de estado paruma certa casa, da qual ninguém paga aluguel ao proprietário.
Adoram a Constituição pelo que ela devia ser: fazem-me rir os tais entusiastas!
Vejamos o que dizem, que ela devia ser, e o que ela é na realidade.
Devia ser... notem, antes de tudo, que quando escrevo devia ser, é repetindo, o que dizem os pobres de espírito, que acreditam nas cebolas do Egito; porque cá o Sobrinho de meu Tio reza pelo alcorão dos grandes estadistas de vontade de ferro.
Vamos ao caso.
A Constituição do Império devia ser como as asas de um anjo, à cuja sombra se acolhessem sempre todos os Brasileiros; é, porém, como dizia aqui há anos atrás um dos tais entusiastas, uma espécie de chapéu de chuva, que os ministros trazem aberto ou fechado, conforme o tempo que faz.
A Constituição devia ser uma virgem formosa, de quem os ministros e magistrados da nação fossem amantes apaixonados; mas é pelo contrário como uma velha, pobre e coberta de cicatrizes, de quem eles se riem e zombam constantemente.
A Constituição devia ser a arca santa do povo; e não é mais do que a peteca dos opressores do mesmo povo.
A Constituição devia ser um objeto sagrado, no qual nenhuma mão sacrílega tocasse sem que ficasse mirrada; e é como a terra aurífera, que vê enriquecerem-se e engrandecerem-se aqueles, cujas mãos mais lhe rasgam o seio e as entranhas.
A Constituição devia ser uma grande realidade, e é apenas uma grande pela.
Devia ser como uma divindade, pelo culto da qual estivessem prontos a sacrificar a vida os seus sacerdotes; e é como os oráculos antigos, cujas respostas as Pitonisas interpretavam e faziam ouvir sempre favoráveis aos que melhor lhas pagavam.
Devia ser como uma mãe idolatrada, cujos filhos lhe pagassem a maternal ternura com amor e dedicação; e é como a árvore frondosa, que definha e morre, porque certas parasitas que nela se enroscam, lhe roubam a seiva, e pagam com a morte o favor daquela que os elevou até sua cúpula altaneira.
Devia ser um escudo encantado, um asilo seguro para o inocente, perseguido pela prepotência ou pelo poder opressor, e é como uma casa sem portas, onde ninguém se julga livre de ser agarrado: por mais que um pobre homem se apadrinhe muito em regra com o mais claro e positivo de seus artigos, qualquer beleguim lhe põe a mão em cima: é o caso de se dizer — fia-te na virgem e não corras.
Devia enfim ser muita coisa, que não é; e pelo contrário é uma coisa, que não devia ser.
Segundo a opinião de alguns inimigos da boa ordem, cumpria, que a tal Constituição fosse invariável, que tivesse uma só face, um só parecer: que não mudasse nunca de sentido, apesar de se mudarem as circunstâncias e as posições dos homens: pois não! estavam bem arranjados assim os representantes da época! nessa não caíam eles.
Bem que a estátua da tal deusa houvesse sido perfilhada por um augusto estatuário, os grandes estadistas pregaram-lhe um nariz de cera, e quando lhes convém que ela se mostre inclinada para o lado esquerdo, zás, um piparote no nariz; se logo depois é preciso que ela pareça voltada para a direita, fogo, outro piparote! de modo que a Constituição não é o que está escrito no livro da nação, mas a ideia, que melhor sorri, e que mais conta faz aos maganões do poleiro.
Constituição! Constituição! diga lá meu respeitável Tio, o que quiser, a única coisa que eu e meus grandes mestres sentimos é, que a tivessem escrito em papel: ah! se fosse gravada em ouro, ou prata, ou mesmo em cobre... quem sabe?... algum de meus grandes mestres já teria proposto, que a mandassem reduzir na casa da moeda a meias dobras, patacões, ou enfim a vinténs.
E devia ser assim: porque tudo deve deixar transpirar o pensamento dominante da época, em que se vive e a história há de chamar o nosso bom tempo época do vintém.
Mas o que não posso negar é que a leitura da Constituição feita pelo nenê do inspetor de quarteirão, fez-me por algum tempo esquecer uma fome desesperada que já sentia: coisa célebre! coincidência notável! a Constituição que me aplacou durante uma boa meia hora esse terrível incômodo, tem também servido para matar a fome de muita gente, que como eu se declara contra ela!...
Senti de novo os sérios avisos do meu estômago; voltei a cabeça para o meu companheiro de viagem, e exclamei:
— Compadre Paciência, estou furioso! estou com uma fome de jornaleiro!...
— Diabo! ia-lhe escapando a palavra jornalista; pois olhe na nossa terra tem havido fomes de jornalistas, que bem caras, ao que dizem, custaram ao tesouro público!
— O compadre fala do passado; ainda bem.
— Mude a linguagem para o presente, que eu aposto cem contra um, que ninguém lhe chamará a bolos.
— Mas o que eu digo, é que tenho fome!
— Espere.
— Qual espere! há estômagos, que não podem esperar muito tempo: não pensa que haja estômagos assim?...
— Oh! se penso! sei até que a fome é uma poderosa arma política.
— Pois então...
— Anime-se; ao quebrarmos aquela volta da estrada, esbarraremos em uma estalagem.
— Veja o que diz, compadre; quem se esbarra, corre o risco de esborrachar o nariz.
— Espero, que tal não nos aconteça; entretanto devo preveni-lo de uma coisa.
— De que?...
— O estalajadeiro é politicão de truz, e convém, que não tome a nenhum de nós por adversário de suas ideias; por consequência, nem meia palavra sobre a maldita política.
— Mas porque?...
— Porque o homem é intolerante e tem o mau costume de tratar muito mal aos que não pensam como ele.
— E que partido segue o bicho?...
— Sempre o que está de cima.
— Bravo! é meu correligionário.
— Não me acontece outro tanto.
— Pois mude de opinião em quanto estiver na estalagem: não haverá nisso novidade nenhuma; há muita gente, que modifica sempre suas ideias políticas conforme as casas e a companhia em que se acha.
— Já estou velho, compadre; não posso mais me corrigir da mania da franqueza: quando me fazem falar, digo só o que me dita a consciência, e dou ás coisas o seu verdadeiro nome: pão pão, queijo queijo.
— Pois há de acabar por ser tido na conta de original, ou de doido.
— Paciência.
— Ora, sabe o que me veio á ideia, compadre?... tornei eu depois de refletir um pouco: estou com vontade de experimentar até onde chega a intolerância do seu estalajadeiro.
— Como?...
— Fingindo-me oposicionista enraivado.
— Não caia nessa, tome o conselho de um velho.
— Pois que me poderá fazer o tal marmanjo!... não me há de prender, nem dar pancadas, e em quanto sentir que tenho dinheiro, fará todo o possível para tratar-me à vela de libra na sua estalagem.
— Veja primeiro bem em que se mete!
— Estou decidido: ao menos, serei oposicionista uma vez na minha vida: o compadre conhece o meu correligionário estalajadeiro?
— Não; mas tenho dele noticias bem pouco lisonjeiras.
— Conheçamo-lo pois por experiência própria; acendamos as fúrias do tigre.
— Vá feito: aposto porém que dentro de poucas horas o meu novo compadre dará ao diabo os seus improvisados sentimentos oposicionistas?
Não dei importância aos receios e sinistras previsões do meu compadre Paciência; calei-me, e moendo em silêncio a fome devoradora, que me ralava o estômago, esperei que o pacato e invariável ruço-queimado quebrasse a volta da estrada, e chegasse à suspirada estalagem.
Enfim, brilhou o momento desejado: vi a estalagem! senti-me um homem novo, e até o ruço-queimado, um pouco à semelhança das bestas de pajem, que marchando sempre atrás dos outros animais, com que viajam, apenas veem alguma cancela, deitam logo a correr; logo que descobriu a estalagem, fez o milagre espantoso de avançar a cabeça uma polegada adiante da orelha da mula-ruça do compadre Paciência, que, aqui para nós, não se quis tirar do seu trotezinho habitual.
O primeiro objeto, que me apareceu na porta da estalagem, foi uma figura humana notável principalmente pela barriga e pelo nariz.
— Eis sem duvida alguma o estalajadeiro, disse-me o compadre Paciência; aquela barriga e aquele nariz são dignos da fama que têm.
Aproximamo-nos e vimos o homem bem distintamente.
Era uma marquinha de Judas, de pés pequenos, pernas finas, enorme barriga saliente, cabeça enterrada entre os ombros, cara chata e vermelha, boca rasgada e sempre a rir, bochechudo, olhos vesgos, e nariz piramidal, tendo o ápice da pirâmide coroado por um volumoso calombo cor de camarão torrado; testa de menos de polegada, e abundante cabeladura muito desprezada.
Estava em pé em uma das portas da estalagem, com as mãos pousadas nas ilhargas, e olhando para o céu como um astrônomo posto a estudar as maravilhas do mundo da lua.
Logo ao primeiro aspecto podia-se adivinhar que o Marca de Judas era homem político, e político que sabe o nome aos bois: naquele ar embasbacado com que contemplava a abobada celeste, apreciava-se o estadista de arromba, que aos olhos do vulgo se finge sempre distraído e todo preocupado com os altos negócios do Estado, quando dentro de si não se ocupa senão dos próprios negócios.
O físico do estalajadeiro não era menos eloquente, nem depunha menos a favor de sua capacidade política.
No grande nariz, com que o dotara a natureza, e mesmo no próprio calombo, que rematava pirâmide narigal, estava a sede desse sentido mais que muito político — o olfato: — um estadista, que quer sempre estar de cima, deve ter a olfação muito apurada, a fim de sentir a tempo quando qualquer ministério cheira a defunto, para dar-lhe o pontapé junto da cova, ainda que ele lhe tenha dado a mão na época do seu maior vigor; pode, é verdade, procedendo assim, ser comparado justamente, com o burro da fábula, que dava o couce no leão moribundo; mas não importa: os estadistas da escola do Eu, que é a predominante, assemelham-se, conforme as circunstâncias, a todos os animais da terra: quem quiser ir sempre subindo, sem nunca descer, deve divertir aos que estão de cima, fazendo trejeitos, e dando saltos como o macaco; repetir o que lhe mandam dizer, como o papagaio; deixar-se cavalgar, como o cavalo; atacar de surpresa, como o leopardo; chafurdar-se nos charcos, como a hiena, etc., etc., etc.; mas para se fazer tudo isso, oportunamente, é preciso ter o sentido do olfato muito desenvolvido, como o tem com o seu nariz calombudo o nosso estalajadeiro.
Abaixo do seu tremendo nariz apresenta o Marca de Judas uma boca tremenda, outra importante qualidade dos estadistas do Eu, que, precisando sempre dizer mentiras de alto calibre, têm necessidade de uma boca da largura da barra do Rio de Janeiro, para dar livre saída a esses monstros destinados a iludir e enganar.
Depois da boca, segue-se a barba e o pescoço, que de nada prestam (pescoço até é bom não ter, por causa das dúvidas); depois o peito, que só serve de ornato, dentro do peito o coração, que é uma víscera incômoda e perturbadora do sossego; mas que os estadistas do Eu sabem aquietar e adormecer, colocando a algibeira do colete e um bolso da casaca bem por cima dela.
Enfim, do peito se passa para a barriga, e aqui brilha de novo o nosso estalajadeiro com o bojo imenso que tem. Um grande político deve ter uma grande barriga: está visto que eu não falo desses homens sem juízo, desses toleirões que vivem vida política dez, vinte e mais anos, e saem enfim dela pobres como nela entraram; eu falo dos estadistas do Eu, daqueles que se sabem aproveitar, e dão provas de juízo e de habilidade.
Os chineses, que são verdadeiros gênios, e que no que diz respeito à política podem dar lições aos mestres, tanto mais consideram e altamente avaliam o homem, quanto maior é a sua barriga, e mais crescidas as suas unhas: que perspicácia de povo!... Ah! se o meu estalajadeiro tem, como é provável, as unhas tão desenvolvidas como a barriga, e aparecesse na China, fazia uma revolução, produzia um cataclisma político, e acabava por ser declarado filho do sol; e não havia nisso muito que admirar; porque meu respeitável Tio assevera que aqui na nossa terra, que não é a China, há sujeitinhos, que ainda há poucos anos ele os conheceu paus de laranjeira, e agora já querem passar por netos da lua!
Sou obrigado a fazer ponto final, ou pelo menos pausa de suspensão na barriga do estalajadeiro, visto que chegamos à porta da estalagem, e apeamo-nos. Fique, porém, entendido, que já de antemão respeito o Marca de Judas, como um politicão de papo amarelo: aquele físico não engana a ninguém; e até mesmo por ter seus pontos de contato com Judas, na altura; deve por força ser um notável estadista da escola do Eu, na qual os Judas são sempre admitidos com vivas provas de entusiasmo, e recebem demonstrações não equívocas do muito que valem, e que deles se espera.
Eu e o compadre Paciência, entramos para uma saleta, no fundo da qual havia dois quartos, em que devíamos passar a noite: o cavalo de meu Tio, e a mula-ruça foram para a estrebaria.
O estalajadeiro entrou logo atrás de nós, e foi-nos dizendo que se chamava Constante, e que não só era constante no nome, como também nos princípios, porque nunca tinha mudado de partido: realmente o homem tinha razão de falar assim, pois que o compadre Paciência asseverava, que ele era sempre governista, governassem embora Gregos ou Troianos.
Pedimos ao senhor Constante, que nos mandasse dar de jantar, posto que fosse antes ceia, o que lhe devêssemos pedir às horas em que estávamos.
— Já, num pulo; exclamou ele; mas... os senhores vêm do lado da cidade... que novidades há da corte?...
— Jantar, primeiro que tudo, respondi eu.
— Já... num pulo; tornou-me ele: porém o ministério?...
— Jantar, ou não nos arranca palavra; estou com uma fome de quinze dias.
O senhor Constante fez uma pirueta, e correu para fora com a graça de uma siriema.
— Veja lá o que faz; disse-me o compadre.
— Deixe o caso por minha conta, respondi.
O estalajadeiro investiu-nos de novo.
— Estão dadas as ordens; dentro em meia hora terão os senhores um verdadeiro banquete!...
— Ainda bem.
— E que novidades há?... VV. SS. vieram da corte?...
— É verdade.
— Tudo em paz, não é assim?... nada de novo?...
— Não é tanto como pensa: anteontem a crise ministerial andava na boca de todos...
— Crise ministerial!... balbuciou o homem Constante: crise ministerial!... repetiu arregalando horrivelmente os olhos vesgos.
— É como lhe digo.
— Também aqueles homens!... aqueles homens!... eu bem dizia... já era de mais! os abusos... as violências... eu bem dizia!...
— Mas...
— Mas o que?...
— A notícia não se verificou; era um boato falso inventado pela oposição: o ministério está mais firme do que nunca.
— Eu logo vi! bradou o Sr. Constante, mudando de tom, bem como de expressão fisionômica; aqueles homens patriotas, salvadores da pátria não podiam abandonar-nos no momento supremo! Hei de hoje beber uma garrafa de vinho à saúde do ministério!
— E eu outra, no dia em que cair esse ministério fatal!
— Como?... o senhor é inimigo do governo?...
Abri a boca, e disse tudo que me veio à cabeça: chamei ladrões e celerados a todos os ministros, um por um; pus-los a todos pelas ruas da amargura: disse o diabo a quatorze! O compadre Paciência olhava para mim espantado, mas não dizia palavra.
O Marca de Judas deixou-me falar sem me interromper; mas foi pouco a pouco pondo-se nas pontas dos pés, e apenas fiz ponto final, tomou a palavra.
Foi um gosto ouvi-lo.
O Sr. Constante fez brilhaturas de eloquência, em defesa do ministério; falou como um deputado da maioria, que acaba de receber a promessa de um emprego rendoso para o filho, que no fim do ano deve sair bacharel ou doutor em São Paulo, ou Olinda; e acabando por descompor desabridamente a todos os chefes da oposição, correu para fora da saleta bufando encolerizado.
— Agora, espere pelas consequências; disse-me o compadre.
Não pude responder-lhe, porque acabava de desatar a rir como um perdido.
Eu não podia compreender que espécie de receios tinha o compadre Paciência; dentro em pouco porém reconheci a arma terrível, que tem um estalajadeiro para empregar contra seus adversários políticos.
Chegamos à estalagem às seis e meia horas da tarde; como disse, eu sentia uma fome desesperadora, não tinha comido nada desde o frugal e ligeiro almoço, que me dera meu Tio, e eram já oito horas da noite, e não aparecia o prometido banquete do Sr. Constante!
De cinco em cinco minutos bradávamos pelo Marca de Judas, que sempre nos respondia com a sua frase costumada:
— Já, num pulo!
Mas qual já, nem qual pulo! O já num pulo do estalajadeiro estava no caso do fará a semana ou mesmo no do amanhã de certos ministros de estado.
— Então, que lhe dizia eu?... perguntava-me de momento a momento o compadre Paciência.
— Estou furioso! respondi, e dando dois passos para o lado da porta, gritei com toda a força de meus pulmões:
— Ah, Sr. Constante! Sr. Constante! o jantar ou a ceia, senão rebento!...
— Já! num pulo!
— Pule! sim, pule de uma vez e com os diabos, ainda que quebre duas costelas; mas dê-me de jantar, ou de cear.
— Já! num pulo!
Tempo perdido! oito horas e meia, e nem os pratos na mesa! Oh que fome! o maldito estalajadeiro punha em horríveis tratos a minha firmeza de princípios; declaro francamente, que me arrependi de me haver mostrado oposicionista.
A experiência estava me dando uma grande lição e explicando-me os justos fundamentos, porque certos deputados e jornalistas da oposição se mostram tão furiosos, e tanto vociferam contra os ministérios, quando os ministérios duram mais de um ano. Um ano de fome! é realmente muito tempo: os que são ganhadores têm razão.
Ah! foi nessas raladoras horas de fome, nessas horas em que o meu estômago podia mais em mim do que a minha cabeça, que dei carradas de razão aos homens, que mudam de partido, alistando-se nas fileiras ministeriais.
Enfim, vitória! às nove horas da noite apareceu a ceia na mesa; corri para ela entusiasmado.
O banquete do Sr. Constante compunha-se de uma canja com galinha, uma frigideira de linguiça com ovos, peixe frito, arroz e carne assada: havia ainda roscas, e vinho de Lisboa.
Lançamo-nos desesperadamente contra a galinha e a canja: mas a galinha estava dura, como carne seca; e a canja sabia á sal, como água do mar.
Arrojámo-nos sobre a linguiça; mais sal ainda: era uma pilha!...
Fogo no peixe frito... estava moído!...
Venha o arroz... ah! era um emplastro de alhos e pimentas!...
A carne assada... tinha fel e vinagre!...
Enfim as roscas... cheiravam a baratas; ninguém as podia tolerar!
O vinho ao menos... era uma infusão de pão-brasil!...
Não pude comer, não pude beber, levantei-me da mesa com mais fome ainda, e rompi em invectivas contra o estalajadeiro.
O Sr. Constante resistiu a pé firme à tempestade; sustentou que todos os pratos estavam primorosamente preparados, e que o vinho tinha quarenta anos de idade; escapou de dizer que já podia ser senador.
Saí enraivecido para dar um passeio, e gozar o ar fresco da noite; passando, porém, pela estrebaria, redobrou-se o meu furor: a mula-ruça do compadre Paciência mastigava paus de rama velhos e secos, e o ruço-queimado de meu respeitável Tio roía as tábuas da manjedoura! Pobres animais! sem ter cometido a menor falta, pagavam as opiniões políticas de seus donos!
São assim as coisas deste mundo! Quando não se pode tirar diretamente uma vingança completa e satisfatória daquele, que se opõe às nossas ideias ou projetos, trata-se de feri-lo indiretamente nas pessoas, ou em qualquer objeto que lhe pertence, ou diz respeito.
É por isso que muitas vezes um chefe de polícia, ou delegado, não se atrevendo a prender, a fazer qualquer violência ao homem rico e poderoso, que não se quis curvar aos seus firmans, desforra-se recrutando-lhe os afilhados e protegidos, que não têm bastante dinheiro para serem respeitados, como pessoas de gravata lavada.
Recrutando disse eu, e não disse nenhuma mentira; porque todos sabem que o recrutamento não é somente uma caçada dos bichos-homens para alimento do exército; mas serve principalmente para satisfação das vinganças dos potentados, e como uma sublime arma eleitoral para ser manejada pelas autoridades policiais, ou por alguma outra autoridade, que melhor compreenda o pensamento do governo.
Estas reflexões faço agora, que estou escrevendo a sangue frio; quando, porém, saí da estrebaria, onde a mula-ruça comia pau de rama velha, e o ruço-queimado roía as tábuas da manjedoura com a sua proverbial paciência, trazia eu tanta raiva no coração, e tanto fogo no rosto, que se alguém me pusesse a mão na boca, sufocava-me, e se me chegassem uma brasa à ponta do nariz, estourava certamente.
Entrei na sala bramando como um touro.
— Então, que diabo é isso?... perguntou-me o compadre Paciência, que estava roendo as unhas.
— É o cavalo de meu Tio, e a mula do meu compadre, que jejuam ainda mais do que nós.
— E que lhe dizia eu?
— Mas isto é uma infâmia, e uma prepotência!
— Mude de partido, compadre; torne-se da opinião do estalajadeiro, e verá como se transformam as cenas: quem tem fome, e quer comer queijo, apoia e festeja aqueles, que estão com a faca e o queijo na mão: isto é regra, e regra muito seguida atualmente.
— Não! exclamei eu; não! agora é que estou deveras na oposição; e protesto...
— Não proteste nada... olhe a fome.
— A fome?... pois é mesmo por causa dela: a fome é a mãe do desespero; é a fonte das mais pasmosas revoluções: quando o povo tem fome, primeiro queixa-se e lamenta-se, depois vocifera, e finalmente arroja-se, como um tigre, contra aqueles sobre quem lança a culpa da sua fome.
— Ainda bem que estamos em um tempo em que ninguém tem fome, e em que o povo compra todos os gêneros alimentícios por dez réis de mel coado.
Não pude responder à ironia do meu compadre, porque acabava de cair quase desmaiado sobre uma marqueza.
O furor e o despeito acendiam-me ideias oposicionistas na cabeça: mas ah! de que me servia, e o que podia a cabeça, se eu tinha os princípios ministeriais roncando-me na barriga?
Fiquei em silêncio uns dez minutos, durante os quais a ira, de que me achava possuído, foi pouco a pouco cedendo o posto ao abatimento: comecei a refletir friamente.
De que me serve, pensei comigo mesmo, teimar em fazer oposição ao ministério, quando esta infeliz teima me faz sofrer uma tão endiabrada fome?... não será muito melhor conciliar-me com o Sr. Constante, declarar-me francamente ministerial, e receber em troco da minha metamorfose política algum petisco, que me venha beatificar o estômago?...
Está visto que a cabeça acabava de curvar-se diante do poder e da influência da barriga: o meu raciocínio mudo não significava outra coisa.
O primeiro passo para a minha conciliação estava dado: a barriga podia já em mim muito mais do que a cabeça, e do que o coração; por consequência, já eu me achava meio conciliado: só me faltava falar, e cantar a palinódia, e para isso não me era preciso mais do que vencer um restinho de vergonha... vergonha, sim, confesso; posto que eu pertença à escola do — Eu — sou por ora um miserável caloiro, um mais que miserável futrica, e tenho a fraqueza de ainda conservar um restinho de vergonha.
Mas... a fome continua a apertar-me... não há remédio: dou as mãos à palmatória; vou tratar de fazer a minha conciliação com o estalajadeiro.
Ninguém se lembre de acusar-me de leviano, inconsequente, inconstante e vira-folha; quem o fizer não sabe dois dedos de política, e ignora as noções mais triviais de filosofia; eu quero demonstrar estas duas proposições até a evidência.
Que fiz eu?... cedi á influência e ao poder da barriga; ofereci aos olhos do mundo um novo exemplo dessas cenas triviais e já tantas mil vezes repetidas, em que o homem se mostra atado pelas suas próprias tripas ao carro do governo. Que há nisto que admirar?...
Um grande gênio o disse: « é o estômago quem governa o mundo: estou, como também muita gente do meu conhecimento, na teoria do grande gênio; entretanto entendo, que esse brilhante pensamento exprimiria um princípio ainda mais verdadeiro e absoluto, se fosse modificado do seguinte modo: é pela barriga que melhor se governa o mundo. »
A fome é a mais poderosa das alavancas políticas, e a barriga dos adversários políticos é a Sebastopol, contra a qual deve um ministério sábio e adestrado assestar toda a sua artilharia.
Poucas barrigas resistem a um assédio feito em regra, e a um assalto dado oportunamente: toda a dificuldade está em descobrir-se o ponto fraco da fortaleza, e fazer-lhe aí a brecha.
Suponhamos, que aparece no parlamento um orador infatigável e sem peias na língua, que põe todos os dias no meio da rua os abusos, e as misérias do ministério: assédio no caso, e primeiro que tudo o mais cuidadoso reconhecimento da praça: o tal parlador é empregado público, ou magistrado?... fogo!... a primeira bomba deve ser uma demissão ou uma remoção; resiste ainda?... outra bomba; perseguição aos parentes e amigos; continua?... bloqueio rigoroso, tiram-se-lhe todos os meios de ganhar dinheiro, desacreditando-o ainda mesmo a poder de calúnias, atormentando-o, desesperando-o, até que enfim chegue a hora salvadora da fome; e apenas ela soar, está a brecha feita, e dá-se o assalto, fazendo-se oferecimentos de um alto e rendoso emprego ao tagarela, e de convenientes arranjos para seus irmãos, primos e compadres; mas, se ainda assim repelir o assalto, então é melhor levantar o sítio; porque um demônio, teimoso como esse, é dos tais que têm a alma na cabeça e não na barriga. Só enforcado.
Note-se bem, que este é o sistema mais simples e material de se dirigir a guerra; há muitos outros sistemas ainda, que todos se modificam mais ou menos, conforme o estado, e as necessidades da praça, que se quer ganhar.
Deseja, por exemplo, o ministério abrandar as iras, ou mesmo dar cor diversa às ideias de uma gazeta que o hostiliza? muito bem; examina e reconhece o estado financeiro dessa fortaleza, e depois ataca com um vigor proporcionado aos meios de defesa que tem de superar; se veio no conhecimento de que a receita da praça sitiada não chega para as despesas, lança em uma formidável bomba o oferecimento de um subsídio misterioso, dado e recebido em segredo, o qual fará desaparecer todos os receios de um déficit (que é bicho muito feio!) e ajunta ao subsídio mais alguns trocos miúdos para sossegar a consciência do terrível adversário: se, pelo contrário, essa lâmpada da imprensa tem óleo suficiente para conservar ativa a sua luz, o ministério trata de apagá-la, afogando a torcida em um excesso de azeite: em regra geral, quer num quer noutro caso, a praça acaba rendendo-se à discrição!
O que, porém, é muito necessário estudar, antes de se executar qualquer dessas operações bélicas, é as simpatias e a capacidade do estômago de cada um dos adversários, que se quer chamar à razão.
Ha estômagos miseráveis, que se contentam com um empregozinho de pouco mais ou menos, e que aceitam indiferentemente qualquer petisco que se lhes dê.
Ha outros de gosto mais apurado, que vão sempre gritando com fome, enquanto não lhes dão alguma pitança de encher o olho; esses não comem senão de bijupirá para cima!...
Mas que importa isso?... Qual é o prato, por mais caro que seja, que não se encontra no banquete ministerial?... Ali há de tudo; há guizados diplomáticos mais ou menos delicados; há guizados parlamentares, guizados de secretarias, de tribunais, de magistratura; há, em uma palavra, guizados próprios para todos os paladares! e quando dirige os negócios do Estado um ministério, que segue a política do — Eu —, não haja medo, que ele tenha a mesquinhez de não dar de comer a todos os que têm fome; pelo contrário, essa obra de misericórdia é cumprida e executada com tanta maior boa vontade, quanta é a certeza que se tem de que quem paga o pato é o cofre da nação!
Assim, pois, fica demonstrado, que é pela barriga que melhor se governa o mundo; porque o governo, que sofre menos oposição, deve-se entender, que é o que melhor governa; e o governo que ataca os seus adversários pela barriga, consegue sempre desarmar uma grande parte deles, e fica tendo contra si somente os tolos, que são os homens honestos e de consciência; e consequentemente merece ser tido na conta do melhor governo, visto que é dos que sofrem menos oposição: se isto não é a pura verdade, dicant paduani.
E não se presuma que a política da barriga, ou a arma da fome tem o inconveniente de ser improfícua, e nula, quando se emprega contra homens, que se devem julgar fortes e inconquistáveis pela sua riqueza; quem assim refletir, está no mundo da lua; a independência de caráter não provém da fortuna, existe no coração: há milionários mais bajuladores e escravos, do que os mendigos, que esmolam pelas ruas; há estômagos tão insaciáveis, há fomes tão desenfreadas como o mar, que nunca se enche, apesar do incessante tributo, que lhe trazem os rios; há politicões, que padecem de fome canina, e que se parecem com as harpias, de que nos fala Virgílio.
Também não seria justo acusar a política da barriga de baixa e ignóbil; a baixeza e a ignomínia está no modo por que se fazem as coisas: todos comem palha, contanto que lha saibam dar; dizia o Marquês de Pombal (si vera est fama), e o dizia no momento em que estava comendo palha, que ele não podia rejeitar, atenta a maneira graciosa por que lha davam.
A política da barriga seria realmente baixa e ignóbil, se se mostrasse aos olhos do público nua e crua, tal qual é; mas assim como encontramos aí por esse mundo moçoilas magrinhas e finas como um caniço, e que entretanto se apresentam com uma tal roda de vestido, que não passam por um corredor, senão andando de ilharga; assim também a política da barriga, que é um esqueleto hediondo, cobre a caveira com uma máscara, enche-se de postiços, mostra-se trajando ricos vestidos, e põe ainda sobre eles, por causa das dúvidas, um capote que se arrasta pelo chão, como os antigos vestidos de cauda, notando-se que o capote roçagante lhe é indispensável para esconder-lhe o rabo, que o tem de bom tamanho, devendo-se concluir daí, que é esqueleto de mono, ou de chimpanzé.
Assim ornada e vestida, fica encoberta a hediondez, que porventura acham alguns na política da barriga, e pode ela fazer das suas, e colher todos os seus frutos muito honradamente, e até com aparências de moralidade, e de amor da paz e da pátria.
Quem tiver sua fome, não se envergonhe de ir vender a sua opinião, e sacrificar os seus princípios a troco de um prato da mesa ministerial; porque tudo isso se explicará convenientemente. As palavras compra e venda não serão por certo empregadas, e o faminto, que se deixou conquistar pela política da barriga, em vez de dizer: «desertei de minhas fileiras», «bandeei-me», «atraiçoei minhas bandeiras», pode muito bem exclamar com um angélico sorriso nos lábios: «fiz uma conciliação.»
E os pequenos, que têm pejo de proceder desse modo, são uns tolos, são uns pobres basbaques, porque entre os grandes há mestres sublimes destes arranjos conciliatórios: eu pela minha parte afirmo e sustento que o tal negócio da conciliação não deve envergonhar a ninguém; porquanto a conciliação é o belo desideratum, o fruto precioso da política da barriga, e consiste principalmente em um estado satisfatório e deleitoso das tripas dos conciliados.
Segue-se, do que acabo de dizer, que a política da barriga é uma grande realidade, e a mais sábia, profícua, e segura de todas as políticas! Como, porém, todos os sistemas se ressentem da imperfectibilidade humana, não podia este deixar de ter o seu defeitozinho: tem-no, e vem a ser, que os heróes que mudam de partido e se prendem ao carro ministerial pelos laços das tripas, id est, pela influência da fome, mostrão-se fiéis e dedicados enquanto o ministério lhes conserva as pitanças; mas logo que sentem que estas lhes faltam, ou que as rações diminuem, ou que outros estômagos são mais bem aquinhoados do que os seus, põem a boca no mundo, tomam ares de independência, largam o carro no caminho e tornam a levantar furiosa gritaria: estes sujeitos assemelham-se aos urubus, que persistem firmes sobre o corpo morto até que lhe devoram toda carne putrefata, e apenas resta só o esqueleto, batem as azas, e vão procurar carniça em outra parte. Eis aí, pois, o único defeito da política da barriga: é uma coisa bem triste, que não haja bonito sem o seu senão!
Tenho para mim que demonstrei acima de toda a evidência a imensa influência da barriga, no que diz respeito à política: agora tratarei de provar, que não é menos ponderoso e sublime o papel que ela representa debaixo do ponto de vista psicológico.
Os filósofos do nosso século, que são sábios de meia tigela, têm em suas obras e controvérsias posto de lado uma questão da mais alta importância, e que era objeto das profundas meditações dos grandes pensadores do outro tempo: é da sede da alma, que quero falar; dizem os modernos, que a alma não podendo ser contida em um ponto particular do espaço, não deve também ser circumscripta em uma parte determinada do corpo. Desculpa de máos pagadores!
Os filósofos da antiguidade e dos séculos anteriores ao nosso, pelo menos não fugiam da questão, e diziam sempre alguma coisa sobre ela; por exemplo: Platão, Pitágoras e outros, que tinham o bom-senso de acreditar em muitas almas, admitiam para cada uma delas uma sede diferente; a alma racional, como mais fidalga, devendo morar em sobrado, habitava na cabeça; a irascivel, como mais cheia de sufocações e mais necessitada de ar, aboletava-se no peito, e a concupiscível ou sensitiva, como mais conhecedora das realidades da vida, tinha o seu ubi no baixo-ventre. Aristóteles, que era um homem de fósforos, julgando o cérebro um órgão muito frio, destinado a refrescar o coração pelos vapores que fazia nascer, encerrava neste último órgão o princípio de toda vida e de toda inteligência. Descartes descartou-se com asseverar, que a alma estava encarapitada na glândula pineal; outros ensacaram-na nos ventrículos do cérebro; ainda outros fecharam-na no centro oval, outros até foram grudá-la no corpo caloso, etc., etc., etc.
Quanto a mim, Platão e Pitágoras meteram num chinelo a todos os filósofos do tempo presente e passado. Assim mesmo Aristóteles aproximou-se um pouco da verdade, porque, como já fizemos observar, o coração fica muito perto da algibeira, e por consequência não é lá uma grande asneira colocar a sede da alma no coração.
Mas eu vou muito adiante de Platão, de Pitágoras, e de todos os seus discípulos; aqui exponho, sem mais preâmbulos, as minhas ideias sobre a matéria.
Não é possível deixar de admitir almas de diversas naturezas, e com sedes também muito diversas. Não são somente os homens, que as têm.
O mundo tem alma; e a sede da alma do mundo está no espaço, que vai da culatra até à boca da peça de artilharia; é o que se chama vulgarmente alma do canhão; um homem muito notável do Brasil, o defunto Antônio Carlos, já tinha reconhecido esta alma, quando ao sair da Constituinte dissolvida bateu, como dizem, sobre uma peça, e disse: «Eis aqui a soberana do mundo!»
A divisa tem alma, a rabeca também por baixo do cavalete, a chancela é a alma das cartas, até o cântaro tem alma, e abaixo do cântaro o botão, que é uma das coisas mais pequeninas que há, não passa sem ela.
Agora, quanto aos homens, entendo que cada um deles tem muitas almas, e que o número destas varia indefinidamente conforme os indivíduos; não podia ser de outro modo.
Em um mesmo homem observam-se qualidades e disposições absolutamente opostas; por exemplo: pode haver um homem, que ao mesmo tempo seja um grande ladrão, e um fiel e dedicado amigo; ora, a ladroeira é um crime (pelo menos o diz o código, que me deu meu Tio) e a dedicação à amizade é uma virtude: mas a alma é simples; logo não pode haver na mesma alma uma mistura de vícios e de virtudes; portanto esse homem tem pelo menos duas almas: alma de ladrão, e alma de amigo.
Isto não tem resposta em metafísica.
Como o homem tem muitas almas, e como o mesmo lugar não pode ser ao mesmo tempo ocupado por duas entidades, segue-se que cada uma tem sua sede especial; que pode estar em qualquer parte do corpo.
Assim a alma da hipocrisia está espalhada por todo o rosto.
A alma da ladroeira tem a sua sede nas unhas!
A alma da adulação tem a sua sede na boca.
A alma dos ministeriais de todos os ministérios está assentada no nariz, que é por onde sentem, quando os gabinetes cheiram a defunto.
A alma do servilismo se estende pelas costas, pouco mais ou menos na região sobre a qual se costuma pôr o selim nos cavalos.
A alma do cinismo está toda em todo corpo, e toda em qualquer parte do corpo.
A alma da soberba e da vaidade, posto que pareça estar na fronte, acha-se empavezada no papo, onde de ordinário tem um trono de pau de laranjeira.
A alma da traição está no ponto mais profundo e oculto das entranhas.
A alma da preguiça está nos braços e nas pernas.
A alma dos ganhadores políticos está enfim na barriga; ficando um pouco mais para o interior a alma da conciliação, que tem a sua sede nas tripas.
E sucede também às vezes, que as almas residem fora dos corpos que dirigem; por exemplo:
A alma da imprensa do governo tem ordinariamente a sua sede no tesouro público, ou nos cofres da policia.
A alma das maiorias parlamentares está encerrada dentro das pastas dos ministros.
A alma ou solidariedade de certos ministérios está concentrada na vontade forte e absoluta de um dos ministros, representando portanto os outros membros do gabinete um papel dependente, passivo, e quase nulo.
Já se vê, do que acabo de mencionar, que se eu quisesse enumerar todas as almas, de que me pudesse lembrar, não fazia hoje as pazes com o Marca de Judas, o que me é muito necessário.
Mas onde está a supremacia do estômago debaixo do ponto de vista psicológico?... não pensem, que me esqueci do ponto principal da questão: lá vai a prova irrecusável da tal supremacia.
Admitindo-se, como já não é possível deixar de admitir, que o homem tenha muitas almas, seria um absurdo pretender e sustentar, que todas elas são iguais, e independentes; porque, se o fossem, tendo todas elas suas tendências, disposições, e naturezas diversas umas das outras, cada uma puxaria para seu lado, e dar-se-ia o caso de uma guerra entre as almas, o que seria verdadeiramente uma rusga de meter medo!
Assim, como não há convento sem abade ou guardião, nem parlamento sem presidente, nem loja maçônica sem venerável, para que um dirija e contenha em seus justos limites aos outros membros, posto que todos sejam deputados, frades, ou irmãos; assim também todas as almas do homem reconhecem a uma como chefe, e diretora, e a essa alma principal chamo eu alma das almas, e declaro e sustento, que tem a sua sede no estômago, sendo portanto o estômago quem governa a todo o resto do corpo, bem como a alma, que nele reside, é quem dirige todas as outras almas.
A demonstração é clara, como o dia.
Pode a cabeça andar à roda, como uma carrapeta; o coração bater, como o martelo de um sapateiro; os braços caírem paralíticos, como dois galhos secos de uma árvore; as pernas tremerem bambas, como pedaços de canotilho, e ainda assim estar o estômago em seu estado normal, e digerir um jantar suculento em casa alheia; ponde, porém, o estômago em abstinência completa aí por uns oito dias, e eu vos dou um doce, se a cabeça fizer um soneto, se o coração não palpitar abatido, se os braços não perderem as forças, e se as pernas forem capazes de dançar uma gavota.
Por consequência, o estômago é quem dá os dias santos no corpo humano; e a alma das almas, que tem a sua sede no estômago, é quem governa e marca o compasso a todas as outras almas.
Visto que gosto de dizer as coisas muito claramente, concluirei com uma comparação, que tornará a minha teoria transparente como o vidro. O caso da alma do estômago com as outras almas é muito semelhante ao que se observa com os nossos ministérios: o gabinete compõe-se de seis ministros, cada um dos quais preside à sua repartição especial, e não tem nada que ver com as outras; mas um dos ministros é presidente do conselho, e como tal fiscaliza as repartições de todos os seus colegas, e não os deixa mover uma palhinha sem perguntar para onde ela vai; ora, agora ninguém me pode acusar de obscuro; está visto que na minha teoria a alma do estômago é o presidente do conselho.
Demonstrei, pois, com verdadeira precisão matemática, a influência imensa e irresistível que tem a barriga ou o estômago (que cá para mim é uma e a mesma coisa, digam lá o que quiserem os anatômicos), tanto em relação à política, como à psicologia; mas esta demonstração que pode ser útil aos ignorantes, não me era necessária a mim; primo: porque deixo provado que sei mais filosofia do que os frades novos do convento de S. Francisco da capital do Império; e secundo, porque, ainda que não soubesse, o meu estômago me estava mostrando a luz da verdade, e de um modo que não admitia réplica.
Com efeito eu já não podia mais: a fome devorava-me as entranhas, como o abutre as do menino espartano; mas eu não tive a coragem do discípulo de Licurgo, que se deixou matar sem gemer; pelo contrário, olhei muito tristemente para o compadre Paciência, e balbuciei:
— Compadre, não há remédio: vou mudar de partido.
— Como?...
— Tenho uma fome endemoninhada, uma fome que me suspende todas as garantias da honra e da probidade.
— Eu bem o preveni; agora é tarde.
— Que tarde! declaro que vou fazer uma conciliação; sim, quero conciliar-me com o Marca de Judas.
— E de que modo?... e com que fim?...
— De que modo!... passando-me para o partido ministerial: com que fim!... só e positivamente com o fim de encher a barriga.
— Ah, compadre!... exclamou o terrível Paciência; compadre! você contou-me a historia de vinte conciliações em duas palavras!...
Nesse momento entrou na saleta o Sr. Constante.
Levantei-me, fiz cara alegre, e cheguei-lhe um tamborete.
— Meu caro amigo e Sr. Constante! disse eu com voz açucarada.
O homem do poder olhou para mim com olhos desconfiados.
— Então, continuei eu: acreditou naquela peta, que lhe preguei a respeito do ministério?...
— Qual?...
— A historia da crise.
— Pois era peta?...
— Sem dúvida: se fosse verdade, ver-me-ia alegre e satisfeito?... não há crise, que não deixe o ministério com uma ferida aberta: as crises ministeriais são como os ataques cerebrais, que de ordinário cedo se repetem, e acabam por matar; ora eu, que sei disso, se tivesse havido crise, tinha posto fumo no meu chapéu.
— O senhor brinca?...
— Nada, estou falando muito sério: sou e serei sempre amigo e defensor do ministério atual.
E acompanhei esta formal declaração com uma descalçadeira nos oposicionistas, que os deixei em panos de sal e vinagre.
O Sr. Constante não pôde resistir à minha eloquência, atirou-se a mim, e abraçou-me pelo pescoço com tanta força, que quase me afogou.
Quando nos desenlaçamos, o Sr. Constante olhou-me com um certo ar de malícia, e deu-me o primeiro bom dia, que me competia, como conciliado, perguntando-me:
— O senhor há de estar com fome?...
— Ah! se há tanto tempo que não como! respondi.
— Não pôde esperar mais: observou o compadre Paciência.
— Se se pudesse arranjar alguma coisa!... disse eu.
— Já, num pulo! exclamou o Marca de Judas, correndo para fora da saleta.
Mas, suspendendo-se na porta, voltou-se para nós, e perguntou, apontando para o compadre Paciência:
— E aquele senhor?...
— É dos nossos, exclamei.
— Nada; respondeu o maldito compadre; nada; eu sou o que era.
O Sr. Constante esteve meditando durante alguns instantes, até que enfim disse meio melancólico:
— Às vezes comem uns por causa dos outros.
E saiu.
— Ora pois, compadre: vai você regalar-se com uma boa ceia à minha custa!
— É verdade, e o estalajadeiro explicou isso bem claramente em suas últimas palavras: quis ele dizer que há casos em que, para se contentar e conciliar a um, é preciso dar que comer a dois.
Não pudemos continuar a conversar, porque o Sr. Constante entrou logo seguido de um caixeiro e de um moleque trazendo-nos uma ceia apetitosa, e algumas garrafas de vinho generoso.
Ah! comemos, como dois curadores de órfãos sem consciência! Depois do primeiro prato, que era de lentilhas, enchi um copo de vinho até às bordas, e pondo-me de pé, bradei com toda a força dos meus pulmões:
— Viva a conciliação!...
Enquanto ceávamos, o Sr. Constante tomou a palavra e discorreu larga e pomposamente sobre o estado lisongeiro e brilhante do país; falou em paz e sossego, em arrefecimento de ódios, em prostração ou aniquilamento dos partidos, e finalmente em todas as coisas e ainda em outras coisas mais.
O homem estava eloquente! mas onde se mostrou superior a todo elogio, foi nas sábias e profundas considerações que fez acerca do progresso, e dos melhoramentos materiais: isso sim é que foi brilhatura! eu não sei onde o estalajadeiro tinha aprendido tanta palavra bonita; o certo, porém, é que, espumando pelos cantos da boca, e gesticulando com um entusiasmo febril, não se lhe ouvia senão: empresas gigantes, canais, estradas de ferro, colônias, mineração, navegação a vapor; e, quando lhe faltava alguma frase dessas, repetia as que já tinha dito, ou exclamava com ardor:
— Progresso material!... melhoramentos materiais!... tudo material!... tudo material!...
O compadre Paciência por três ou quatro vezes depôs o talher sobre a mesa, e pareceu disposto a entrar na discussão; felizmente outras tantas vezes se arrependeu do que ia fazer, e continuou a cear, ao mesmo tempo que o Sr. Constante nos quebrava os ouvidos gritando sem cessar:
— Progresso material!... melhoramentos materiais!... tudo material!... tudo material!...
Quando nos levantamos da mesa, ainda o bom do homem bradava, dizendo a mesma coisa, e então o compadre Paciência, dando-lhe as boas noites, e dirigindo-se para o seu quarto, disse-lhe por entre os dentes:
— Tem razão, Sr. Constante, é isso mesmo: tudo material!... tudo material!...
Enquanto o estalajadeiro correspondia às boas noites do compadre Paciência, escapei-me eu para fora, e fui à estribaria ver em que estado se achava o cavalo de meu Tio.
Oh! milagre da conciliação!... o russo-queimado tinha a manjedoura atopetada de capim fresco, e a pobre mula-ruça roía pau velho de rama!...
— Não há dúvida alguma, disse eu comigo mesmo: é pela barriga que melhor se governa o mundo!
Desde a hora feliz da minha proveitosa conciliação tudo me correu com vento em popa: foi um dilúvio de boa fortuna! tive excelente ceia, achei o russo-queimado com a manjedoura farta, e até o compadre Paciência sentira refletir sobre o seu estômago os raios da minha brilhante regeneração política, mas o que veio ainda coroar a obra, e o que considerei uma dita não menos apreciável, foi o poder escapar das garras do Marca de Judas, que me estava esperando na varanda da estalagem, seguramente para maçar-me o resto da noite, fazendo-me ouvir a sua opinião sobre o merecimento, a sabedoria, e o patriotismo do ministério.
Apenas descobri de longe a barriga e o nariz do Sr. Constante, fiz o que deve e costuma fazer todo o conciliado, que já tem a barriga cheia; aproveitando a sombra, voltei-lhe as costas, sem que fosse percebido, e dando uma volta em torno da casa, encontrei aberta uma janela, que dava para a saleta: de um salto pus-me dentro, e fui pé ante-pé recolher-me ao meu quarto.
Não tenho vergonha da ação que pratiquei: não são somente os ladrões e os namorados, que entram pelas janelas em vez de entrar pelas portas; os grandes políticos da escola do — Eu — que, como se sabe, é a predominante na atualidade, às vezes e sempre que é necessário aos seus interesses, pulam também pelas janelas para dentro do ministério, e até mesmo se sujeitam, afim de chegar ao poleiro, a espremer-se tanto, que chegam a fazer caminho por qualquer buraquinho de rato. É por isso que eu sustento que a ginástica é uma arte indispensável aos estadistas: a política toda se reduz a saber atacar e retirar, saltar e correr, agarrar e comer, tudo muito oportunamente.
Chegando ao meu quarto, tratei logo de despir-me e deitar-me: a cama, que me preparara o Marca de Judas, não era boa, nem má, era uma cama assim assim; não me enfadei por tão pouco; só quem já foi ministro duas ou três vezes pelo menos, e aproveitou-se do ministério para arranjar a vida, é que pode deitar-se todas as noites em colchões macios. Eu hei de chegar lá; porque bons mestres me têm dado exemplos admiráveis, e aberto uma estrada, em que não se acha estrepe nem atoleiro; mas por ora não sou mais do que um simples admirador dos gênios transcendentes da minha terra: contento-me, pois, com os colchões do Sr. Constante.
Rolei na cama uma boa hora, sem poder dormir: querem ver, que asneira?... tinha eu na cabeça o estribilho predileto do Marca de Judas, e quer me voltasse para a direita, quer para a esquerda, como que o travesseiro me bradava: «progresso material! melhoramentos materiais!... tudo material!... tudo material!...»
Estava me acontecendo o mesmo que ao apaixonado da musa Terpsichore, que de volta do teatro deita-se e não pode conciliar o sono, porque tem incessantemente diante dos olhos as dançarinas, a quem acabou de ver executar um passo a dois, fazendo piruetas, e dando peruadas capazes de pôr em uma fogueira a cabeça de um velho celibatário.
Nada podia distrair e vencer minha imaginação exaltada: eu estava vendo o progresso material no escuro, e apezar de tudo: se uma pulga me dava uma ferroada, ainda assim parecia-me ouvir o Sr. Constante bradando: «progresso material!...» Se alguns insetos nojosos me chupavam o sangue, a despeito deles ouvia: «melhoramentos materiais!...» Se a cama jogava comigo em cima, como um andaime velho, e a ponto de fazer-me recear o ter de acabar a noite estirado no chão, assim mesmo eu escutava a exclamação entusiástica: «tudo material!... tudo material!...»
Em uma palavra, tanto se foi exaltando e abrasando o meu espírito, que acabei por ficar de todo fora de mim, e, em último resultado, tive uma visão.
E que visão!... vi coisas de fazer arrepiar os cabelos!...
«Ah! que não sei de nojo como o conte!»
Eis aqui em poucas palavras o que vi sem mais me lembrar, de que me achava deitado na cama, que me dera o Sr. Constante, e sem que me perturbassem os roncos do compadre Paciência, que dormia no quarto vizinho.
Pareceu-me que me achava em um lugar tão alto, que me considerei transportado ao mundo da lua, ou pelo menos encarapitado em cima da pedra do Corcovado; era enfim um lugar muito alto, tão alto, como a presunção e a vaidade daqueles que sendo há poucos anos muito pouca coisa, transformaram-se em grandes coisas, por graça da Constituição, de quem juram agora fazer a desgraça.
Eu não pestanejava e meus olhos estavam imóveis e firmes, como os de um candidato, quando os embebe na libérrima urna eleitoral; e por diante de meus olhos foi passando vagarosamente um vasto e rico império, como a esfera terrestre rodando ao olhar de um estudante de geografia.
Que império era esse, é o que não posso assegurar; parecia-se com o Império do Brasil, como as duas mãos de um mesmo homem: creio que era ele, e nele vi coisas que me deixaram com a boca tão aberta, como fica um deputado ministerial, quando fala o ministro, que lhe prometeu uma comenda ou um baronato para o seu compadre totum continens do colégio de tal.
Vi grande parte do corpo andando de pernas para o ar, donde concluí, que no tal império estava-se dando o caso do mundo ás avessas.
Vi a impudencia em pé, o servilismo de cócoras, o mérito atirado nos cantos.
Vi a imoralidade política vestida de casaca, e a honra coberta de farrapos.
Vi a corrupção armada de uma espada de ouro espatifando grandes bandeiras, e muitos dos defensores destas correndo pela porta a dentro de uma confeitaria, onde trocavam as insígnias das suas coortes por pedaços de pão de ló.
Vi o predomínio do individualismo substituindo a luta dos princípios, e o poder das ideias.
Vi pessoas e não vi sistema.
Vi a mentira e o sofisma abafando a verdade e triunfando da lógica.
Vi renegados zombando dos crentes.
Vi a opulencia em um circulo limitadíssimo, e a miséria na multidão.
Vi a prepotência dos grandes e a opressão dos pequenos.
Vi um governo representativo sem eleição: id est, uma pirâmide suspensa no ar.
Vi uma magistratura pedinchando ao governo: id est, uma Astrea com espada de pau.
Vi um sistema político sem equilíbrio dos poderes, que o compõem: id est, o universo sem a lei da atração.
Vi uma guarda nacional tropa de linha: id est, Washington com uma chibata levantada sobre as costas.
Vi a liberdade do cidadão à mercê dos beliguins; id est, o legado de Jesus Cristo exposto à vingança dos fariseus.
Vi direitos escriptos em um livro de ouro, que se lia em voz alta ao mesmo tempo que se calcava aos pés todos esses direitos: id est, palavras que não adubam sopas.
Vi a religião de Cristo profanada pelos seus próprios sacerdotes: id est, uma coisa muito feia, que não se diz.
Vi....
Mas fiquei horrorizado de tudo isso e de muito mais ainda, que fui vendo, e de que me não quero lembrar, até que por fim foi passando diante de meus olhos uma cidade irregular, porém já um pouco grande, e que sem dúvida alguma é a capital do vasto império.
Estremeci de repente ouvindo um grito levantado por mil bocas: era a mesma exclamação do Sr. Constante:
— Progresso material!
E vi, dirigindo-se para uma praça, uma procissão imensa, e por todas as razões extraordinária.
Quem rompia a marcha era um rapagão de maneiras muito cortezes, e que trazia sempre um doce sorriso nos lábios, posto que tivesse o coração cheio de fel: o único defeito físico, que lhe achei, foi ter os olhos meio vesgos: chamava-se o senhor Engodo e caminhava adiante trazendo uma bandeira erguida, na qual se lia em caracteres brilhantes a frase brilhante do Marca de Judas — Progresso material!
Logo atrás do Sr. Engodo, marchava um grande número de raparigas todas elas irmãs e primas umas das outras, e cada qual mais namoradeira e provocadora: chamavam-se as senhoras Empresas, e cada uma trazia a sua bandeirola com a competente divisa; em uma bandeirola lia-se Estrada de ferro, em outra Navegação a vapor, em outra Companhia de iluminação a gaz, em outra ainda, Colônias, e assim por diante.
Aplaudia-se muito a estas senhoras, e com razão, porque, apezar de namoradeiras e provocadoras, elas prometiam a todos favores, melhoramentos, e inegável progresso ao vasto império; mas sucedia ao mesmo tempo uma coisa diabólica por causa delas.
Apercebidos de que o povo estava festejando entusiasmado as tentadoras raparigas, uns poucos de figurões de grandes fardas bordadas arrancavam das mãos do incauto povo preciosos tesouros, que ele mais zeloso devera saber guardar.
Roubavam-lhe surrateiramente um formoso menino chamado Júri, que bem educado e instruído prometia fazer muito, e dava grandes esperanças para o futuro.
Punham em torturas uma linda menina irmã do Júri chamada guarda nacional, e vestindo-a de calças e botas faziam dela um soldado de linha, e amarravam-na de pés e mãos a um certo regulamento tão brutal, como anacrônico, a que em determinados casos, ficava sujeita para gloria e fama do passadíssimo defunto conde de Lippe.
Iam apagando uma a uma todas as grandes ideias políticas e morais, que alumiavam à nação o caminho do futuro, e aproveitando-se do escuro, em que por seu descuido ficava o povo, arrancavam-lhe dos braços uns escudos chamados direitos, de modo que sem o pensar tornava-se ele indefeso contra os golpes do arbítrio e da prepotência.
E quando por acaso alguma sentinela popular mais vigilante bradava alerta! e o povo mostrava querer pensar no que procuravam fazer dele; os homens de grandes casacas bordadas improvisavam imediatamente alguma rapariga da família das senhoras Empresas, que aparecia com sua bandeirola, e namorando e provocando o papalvo, conseguia entusiasmá-lo outra vez, esquecendo o brado da sua sentinela, e sacrificando toda sua grandeza e todo seu progresso moral à grandeza e ao progresso material, que aliás não é nem pode ser incompatível com aqueles, e muito pelo contrário devem sempre marchar a par um dos outros, menos quando se emprega traiçoeiramente o progresso material para deslumbrar o povo a ponto de perturbar-lhe tanto a vista que ele não possa ver a obra da aniquilação de suas conquistas morais e políticas.
Dirigindo a procissão, pondo em ordem as figuras, e mantendo a ordem das fileiras, mostravam-se aqui e ali os tais homens das grandes fardas bordadas vestidos um pouco esquisitamente, pois que suas fardas tinham rabos muito compridos, dos quais pendiam, arrastados pelo chão, uns livrinhos bem semelhantes àqueles, que em sua despedida me dera meu respeitável Tio, dizendo-me, que eram a defunta que nunca viveu, e os seus competentes filhinhos: ora como às vezes acontecia que os livrinhos metiam-se por entre os pés e atrapalhavam a marcha dos diretores da procissão, estes, que queriam andar livremente, e sem embaraços, calcavam aos pés os pobres livros, e lhes rasgavam as folhas sem cuidado nem piedade.
Acompanhando por toda a parte os homens de casaca bordada, via-se um número espantoso de pessoas de todos os tamanhos; algumas tinham grandes barrigas, e fisionomia risonha; outras estavam magras e abatidas, e levavam as mãos estendidas, como quem pedia alguma coisa; todas porém traziam de fora línguas enormes: seguindo os brilhantes figurões, caminhavam umas arrastando-se pelo chão, como serpentes; outras de cócoras e aos saltos, como sapos, e as mais gordas em pé, mas de cabeça curva e braços cruzados, como servos humildes; e toda esta súcia, enfim, entoava de quando em quando com voz antissonante este hino entusiástico e patriótico:
Sublimes, potentes, heróes devotados,
Da terra os senhores somente sois vós!
Enquanto seguros de cima estiverdes,
Tereis defensores constantes em nós.
Favores, emprego, dinheiro
Esperamos, senhores, de vós;
E do vosso banquete um pratinho
Venha a nós! venha a nós! venha a nós!
Enquanto esta turba-multa seguia constantemente os homens de casaca bordada, cantando o hino do venha a nós, uma mocetona diligente, esperta, saltona, pérfida e usurária metia-se por entre as senhoras Empresas, festejava agora umas e desprezava outras, e logo depois corria para a multidão com os bolsos do vestido, e as mãos cheias de papéis, e gritava: ações! ações! ações!...
O povo agarrava-se à tal mocetona, que se chamava a Exma. Sra. D. Agiotagem, tomava-lhe os papéis, e dava-lhe em troco dinheiro a mais não poder; e a sujeitinha apenas vendia todos os seus papéis, tornava a correr para as senhoras Empresas, e aí maltratando àquelas, a quem há pouco festejara, aplaudia, e abraçava-se com as outras, a quem desprezara; enchia outra vez os bolsos dos tais papéis, e voltava a vendê-los ao povo, que caía, como um patinho!
No meio destas idas e voltas da Exma. Agiotagem, ouvia-se partir do seio do povo brados de desespero de muitos, que por ela se achavam logrados, enquanto um circulo privilegiado de protegidos da embusteira, repartia os lucros da negociata, que ela arranjava.
Além desta mocetona de inconcebível mobilidade, uma outra já matronaça, vestida tão faustosa como indecentemente, percorria todo o préstito da procissão, misturava-se com os espectadores, e perdia-se até no meio da multidão, que vinha atrás, era a Imoralidade, conforme a ouvi chamar: assoprava aos ouvidos de todos conselhos infames, ensinava a uns a calúnia, a outros a concussão, a estes a perfídia, àqueles o cinismo, a alguns a hipocrisia, e a todos o esquecimento de todos os deveres: ela não cantava, mas bradava, e o seu brado era um, único e sempre o mesmo:
«Ouro! ouro!... ouro!...»
E essa mulher, cujo contato era perigoso, e cujo bafo era pestifero, mas que oferecia a todos aqueles, que encontrava em sua marcha tortuosa e agitada, riqueza, luxo, fausto, e grandezas humanas, via-se festejada por muitos homens ambiciosos, a quem dava em signal de proteção um beijo fatal e desde que esse beijo estalava, os que o recebiam, escravos logo de um encanto infernal, acompanhavam a Imoralidade, identificavam-se com ela, e devorados por uma certa fome e sede inextinguíveis, repetiam em coro o brado sinistro:
«Ouro! ouro! ouro!»
Mas não havia ouro que os fartasse! nem dez Californias juntas com um suplemento de vinte Tury-assús teriam ouro bastante para lhes matar a fome, e saciar a sede.
Após a Imoralidade vinha a Hipocrisia com o rosto coberto com uma máscara, e a máscara coberta com um véo, marchando com a cabeça baixa, falando com voz de choro, e rindo-se a bandeiras despregadas dentro de si.
Depois da Hipocrisia seguia-se o Escândalo; sem máscara nem véo, manchado de crimes e de ações torpes, e com a cabeça levantada e o rosto brilhante de soberba e de ousadia: coisa celebre! muita gente da procissão fazia barretadas ao Escândalo, como se ele fosse um grande fidalgo!
Depois do Escândalo aparecia a Corrupção vestida de casaca e repartindo honras, empregos e dinheiro, e cercada de christãos, que punham de repente turbantes sobre a cabeça, e que rião-se a não poder mais, quando alguma voz perdida lhes gritava: — renegado.
E vinham ainda o — Egoísmo — a Intriga — a Traição — a Covardia.
E muitas outras figuras além destas, tomavam parte também nesta procissão, que era muito maior que todo o exercito da Rússia, e todas as figuras, que marchavam nas filas, ou que entre as filas se mostravam, alegres, descuidosas e ao som de uma orquestra de tachos, cegarregas, matracas, e instrumentos infernais, cantavam estes versinhos, que deviam saber a gaitas ao Marca de Judas!
Vai tudo o melhor possível;
Oh que fortuna tão bela!
Navegando em mar de rosas,
Nossa pátria vai à vela.
Viva o dinheiro;
Fora o ideal!
Viva o progresso
Material!...
A vida que nós passamos
É contra a Constituição,
Mas não faz mal é milagre
Da santa conciliação.
Viva o dinheiro!
Fora o ideal!
Viva o progresso
Material!...
Isto de pátria e virtude
Honra e gloria é só — poesia:
Poder, dinheiro et cetera
É que tem gosto e valia.
Viva o dinheiro!
Fora o ideal!
Viva o progresso
Material!...
Nosso altar é a algibeira,
Nossos deuses prata e ouro,
Nossa oração — venha a nós,
E o nosso Céu o tesouro.
Viva o dinheiro!
Fora o ideal!
Viva o progresso
Material!...
Mas logo atrás da brilhante procissão, que tão entusiasticamente saudava o progresso material, e a riqueza de alguns, vi uma multidão de gente sem conta, toda ela triste, abatida, sem direitos, sem crenças e quase enfurecida, porque além do seu abatimento, além da sua descrença, e além da consciência, que tinha, de que seus mais caros direitos eram todos os dias postergados, ela se mostrava ainda andrajosa, e horrorizada diante do aspecto mirrado da fome, que de perto a ameaçava.
Essa multidão olhava com furor para as brilhantes figuras da procissão, que ia marchando adiante, levantava de quando em quando as mãos para o céu, e cantava ela também por sua vez; mas o seu canto era como um longo ribombar de borrasca, ou como um bramido de tigre....
Eu quis ouvir o que ela dizia no seu tremendo canto; não entendi, porém, uma só palavra!...
Era uma bulha, um alarido dos meus pecados!
E logo depois a multidão foi-se afastando e pareceu-me, que toda aquela grande terra, que eu tinha visto se cobria de nuvens pesadas, e negras, que uma tempestade horrorosa desabava sobre ela... que o susto, e o terror se apoderavam de todos os ânimos, que.....
Ouvi rebentar um trovão espantoso....
Dei um pulo da cama assombrado....
Diabo! o trovão, que eu acabava de ouvir, era simplesmente um ronco do meu compadre Paciência, que dormia como um porco!
E foi-se a minha visão!
Amanhã hei de pedir ao compadre Paciência, que me explique, e me ponha em trocos miúdos esta singular extravagância do meu espírito.