Capítulo Dois
Cassandra estava quase adormecendo quando algo a fez despertar, o coração disparado. Estremeceu, apesar do calor da lareira, cujo fogo ainda estava bem alimentado. Jogando as cobertas para o lado, ela foi até uma das janelas.
Não viu nada de anormal. A floresta estava escura e silenciosa, com as folhas das árvores estáticas.
O canto de uma coruja solitária cortou a noite.
Inquieta, Cassandra percorreu a cabana em silêncio. Observou as outras janelas em busca de algo que explicasse a sensação de agouro que a atravessava. Seus olhos não perceberam nada, mas algo dentro dela se agitava. Confiando na própria intuição, vestiu-se rapidamente: um vestido de algodão grosso sobre a camisola, botas de couro confortáveis e, por cima, a capa verde escura.
Quando puxava o capuz sobre os cabelos, um vento repentino agitou as folhas das árvores, trazendo um sussurro urgente: Vá.
Com mãos firmes, ela encheu uma bolsa funda com objetos essenciais — ervas, frascos, pequenos talismãs — e prendeu uma bolsa com moedas na cintura. Mal abrira a porta dos fundos quando ouviu o som inconfundível de cascos se aproximando. Do lado direito da cabana, surgiram luzes oscilantes de tochas e lamparinas.
Cassandra parou. A raiva dominou-a tão profundamente que o chão estremeceu. As pessoas que estavam chegando eram a razão por que o vento sussurrava. Ela não poderia lutar contra aqueles que vinham até ali para acabar com tudo o que sua família havia construído e que ela havia mantido. Uma parte sua não admitiu a destruição que se seguiria.
Por um instante, quis ficar. Quis enfrentá-los, mostrar-lhes o que acontecia quando despertavam a fúria de uma bruxa.
Mas então se lembrou do juramento — de nunca ferir, a menos que fosse inevitável. O voto não era apenas uma promessa a si mesma. Era um elo com tudo o que existia. Estaria condenando o legado de sua família se o quebrasse.
Com um olhar para as luzes, Cassandra respirou fundo, buscando acalmar os pensamentos.
Quando o som dos cascos cortou a noite, um brilho perigoso surgiu em seus olhos dourados. Uma ideia tomou forma em sua mente.
Não podia permanecer, mas ao menos não facilitaria o caminho dos que se aproximavam.
Ela fechou os olhos e, embora o feitiço lhe tomasse um tempo precioso, deixou sua mente flutuar até a estrada. Pelo olho da mente, ela viu um grupo formado por quatro homens, todos com rostos raivosos, corações envenenados pelo ódio. Ela ignorou a voz dizendo que era capaz de combater apenas quatro homens.
Poderia livrar-se deles facilmente. Mas não podia lidar com as consequências.
Concentrando-se, Cassandra chamou a neblina. Sobre o caminho que os homens percorriam surgiu uma espessa camada de névoa. Eles hesitaram — e o cheiro do medo se sobrepôs ao do ódio.
Um sorriso feroz surgiu nos lábios de Cassandra.
Quando o líder soltou um grito e incitou os homens a continuar, ela derrubou duas árvores, bloqueando parte do caminho. Isso obrigou-os a parar mais uma vez, reavaliar o percurso para contornar o obstáculo.
Enquanto os homens se reorganizavam, Cassandra abriu os olhos e deixou os invasores à própria sorte. Sem perder tempo, ela adentrou a floresta na direção oposta àquela que os invasores usavam. Lançou uma prece silenciosa para a Mãe, pedindo que a deusa a guiasse. Que a protegesse.
A alguns metros de distância, já dentro da floresta, ela ouviu os primeiros gritos de triunfo. Em seguida, as chamas surgiram, subindo até o céu como a língua de uma serpente.
Cassandra sentiu — na alma — uma dor tão aguda que fez os olhos arderem. Sem olhar para trás, contendo as lágrimas, continuou a caminhar.
Ela usou um feitiço leve para ocultar o próprio caminho. Não podia se esgotar, pois a jornada seria longa, e sempre havia a possibilidade de a destruição da cabana não ser suficiente para aqueles homens. Se eles resolvessem procurá-la na floresta, precisaria estar forte.
Os sons de destruição e júbilo ficavam cada vez mais abafados. Estava quase convencida de que ninguém a seguira quando uma mudança no ar a fez parar. Um arrepio percorreu sua espinha. Por dentro da capa, ela puxou a pequena adaga que carregava atada ao cinto.
À esquerda, ouviu o som de folhas secas sendo esmagadas.
Ela se virou com um movimento repentino. Ergueu a adaga no mesmo instante em que uma ampla figura surgiu por entre as árvores.
— Calma — disse uma voz grave, familiar, tocando-a naquele lugar da alma que ainda latejava.
Ela não precisava vê-lo para saber de quem se tratava.
Scott Callahan.
Ele ergueu as mãos, aproximando-se devagar.
Mas ela não baixou a arma de imediato. Seus olhos analisaram a silhueta iluminada pela lua, o rosto de feições marcantes. Os olhos profundos e sérios, como a neblina sobre um lago ao amanhecer, a observavam como se ela fosse um animal ferido e acuado que ele tentava ajudar.
Cassandra abaixou a adaga, apenas um pouco.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, a voz rouca de tensão.
— Vi os homens deixando a cidade — explicou Scott, o tom calmo, mas firme. Ainda sustentando o olhar dela, manteve longe do rosto a raiva que borbulhava seu sangue.
Ainda se lembrava do dono da cabana contando, de maneira casual e quase divertida, sobre o grupo de aldeões que decidira fazer algo em relação à bruxa na colina.
Scott nunca sentira tanto desprezo por uma pessoa. O homem parecia regozijar-se pelo destino que a aguardava.
Ele também nunca havia cavalgado tão rapidamente e com tanta determinação na vida. Nem mesmo quando saíra em busca de alguém para cuidar de Finn.
Durante todo o percurso, cada vez que pensava no perigo que Cassandra corria, um medo quase paralisador o atravessava. Sempre que isso acontecia, ele exigia mais de si mesmo e do cavalo que o levara até a mulher que o observava com cautela.
— Você está ferida?
— Não. — Ela baixou completamente a mão com a adaga, afrouxando o aperto no cabo da arma, ciente de que confiava naquele homem de uma maneira que parecia imprudente. Afinal, ela mal o conhecia. Mas isso já não importava. Estava cansada de lutar contra o que sentia, contra o que pressentia. Deuses! Estava tão cansada.
O luar banhava seu rosto pálido, revelando olheiras profundas. A exaustão era evidente.
— Permita-me ajudá-la — disse Scott, a voz firme, o tom quase autoritário.
Ela quase sorriu. Até quando oferecia ajuda, ele parecia dar uma ordem.
— Não tenho muita escolha, tenho? — E era bobagem recusar por orgulho.
Cassandra lançou um último olhar para trás, onde o fogo inflamava o céu noturno com chamas furiosas. Ela respirou fundo e soltou o ar lentamente. Então, endireitou os ombros e se virou para Scott, para o caminho à frente.
— Onde está seu cavalo?
— w —
Scott a levou por uma trilha pouco visível entre as árvores. À sombra de dois carvalhos espessos, seu cavalo aguardava. O animal, de pelagem escura e olhos atentos, bufava suavemente, incomodado pelos sons que ainda ecoavam à distância — estalos secos e gritos abafados, o fim de um lar sendo consumido pelo fogo.
— Vamos? — disse ele com uma voz baixa, sem quebrar o silêncio que se instalara entre eles.
Cassandra resistiu à vontade de olhar na direção de onde antes estivera sua cabana. Já não era mais possível ver as chamas, mas o cheiro da fumaça pairava no ar, denso como um presságio. Ela engoliu em seco. Sabia que, se voltasse a olhar por mais um segundo, ficaria ali até o fim. Mas não havia mais um ali. Tudo havia terminado.
Respirou fundo e se aproximou do cavalo.
— Não pense que isso significa que vou aceitar sua oferta — disse, a voz soando mais ríspida, afiada pelo medo e pelo cansaço — Ainda não decidi se vou acompanhá-lo em sua jornada.
Scott arqueou uma sobrancelha,
— Nunca pensei — garantiu ele, com simplicidade. — Mas caminhar até o vilarejo levaria um dia inteiro. E você está exausta.
Ela lançou um olhar desconfiado em direção ao cavalo. Havia apenas um e eles teriam que dividir a sela. A perspectiva deixou-a nervosa.
Seguindo a direção do olhar dela e de seus pensamentos, Scott esboçou um meio sorriso. Mas o gesto não era zombeteiro. Era algo mais gentil, mais... compreensivo.
— Não tive tempo de pegar um segundo cavalo. Chegaremos à cidade mais rápido se dividirmos a sela.
— Entendo — murmurou Cassandra, ajeitando a bolsa no ombro.
— Pense assim: quanto mais rápido montar, mais rápido acabará a jornada. — Ele lhe ofereceu uma das rédeas para apoio.
Cassandra lançou-lhe um olhar de soslaio, uma faísca de humor surgindo sob a exaustão.
Ela montou com destreza, sentando-se à frente da sela. Não era uma posição ideal — próxima demais, íntima demais — mas não havia escolha. Assim que Scott montou às suas costas, ela sentiu o corpo amplo bloquear o ar frio da noite. O calor era reconfortante e a fez perceber que ela tremia.
Scott segurou as rédeas com uma precisão silenciosa, tendo o cuidado de manter distância, evitando tocá-la mais do que o necessário.
Mesmo assim, ele estava ali. Real. Quente. Protetor.
Ele me encontrou, pensou Cassandra, surpreendida com a ternura repentina que a inundou. Ele veio por mim.
Scott inspirou fundo, sentiu o perfume misterioso. Ela cheirava a lavanda selvagem e terra úmida, como uma floresta depois de uma chuva de verão. Sob aquele frescor, porém, escondia-se um aroma indefinível, antigo e delicado, que ele jamais havia sentido antes.
Seu corpo inteiro pareceu reagir, atento e desperto, como se respondesse a um chamado silencioso.
Ele estalou a língua para o cavalo, ignorando a tensão latente sob a pele, e o animal começou a caminhar, trotando com leveza pela trilha estreita. A floresta se fechava ao redor deles, mas não de maneira ameaçadora. As árvores sussurravam em coro baixo, e o luar esgueirava-se por entre os galhos como fios de prata.
Por um momento, ninguém disse nada. O silêncio era confortável. Familiar.
Ela recostou-se um pouco, permitindo que suas costas encostassem no peito dele. Scott nada disse — não recuou nem avançou. Apenas manteve as mãos na rédeas, os braços a rodeando sem encostar nela, como uma promessa silenciosa.
Cassandra fechou os olhos, sentindo-se aquecida e protegida. Talvez, pensou, esse fosse o início de algo que estava escrito nas estrelas há muito tempo.
Mas, com a mente aquietando-se, não deixou que o pensamento a preocupasse.
— w —
Quando chegaram à pequena aldeia, os homens de Scott os aguardavam do lado de fora da casa do aldeão que os ajudara. Ao longe, no horizonte, o amanhecer surgia com uma luz acinzentada, prenunciando um dia tempestuoso.
Um dos homens se aproximou e ajudou Cassandra a desmontar. Ela sentia os músculos rígidos após horas de cavalgada, mas a mente, curiosamente, estava mais descansada.
Talvez porque, em algum momento do percurso, tivesse mergulhado em um sono profundo que a pegara de surpresa.
Ela não sabia quanto tempo havia dormido — mas não importava. Tinha adormecido nos braços de Scott, e a realização a deixara mortificada quando despertou. Ele, no entanto, não tinha feito nenhum comentário.
— Conseguimos uma carroça, milorde — disse Eagon, quando Scott desmontou.
— Ótimo. E Finn?
O homem lançou um olhar de soslaio na direção de Cassandra.
— Tão pronto quanto conseguimos deixá-lo, senhor.
Cassandra se virou para Scott. Choque cruzou sua expressão.
— Você pretende partir e levar o menino junto?
— Sim — replicou Scott, em um tom que desencorajava qualquer discussão. Ele sinalizou para os homens: — Vamos movê-lo e colocá-lo na carroça.
— Isso é uma irresponsabilidade — Cassandra argumentou, o tom incisivo. — Finn precisa de um ambiente tranquilo e cuidados constantes.
— Ele já está consciente. Passou o dia acordado. Você disse que, se isso acontecesse, ele poderia ser movido.
— Pouco tempo se passou. — Ela tentou mais uma vez, a voz tão ríspida quanto a dele. — Seria melhor deixá-lo mais um dia em repouso.
— Não temos mais um dia — disse Scott, em tom definitivo, e entrou na casa.
Cassandra crispou os lábios. Discutir com ele era como discutir com uma parede de pedra. Ela o seguiu para dentro da casa, suspirou quando ele e dois de seus homens se preparavam para mover o rapaz.
Com a ajuda de Caleb e Eagon, Scott ergueu Finn da cama.
— Sem movimentos bruscos — instruiu Cassandra. Ela pegou uma coberta, imaginando que pertencia a Scott ou a algum dos homens, pois estampava as cores do clã Callahan, e acompanhou-os para fora.
Ela supervisionou os homens — robustos, sim, mas cuidadosos — enquanto eles moviam o rapaz. Finn estava adormecido e não acordou.
— Ele tomou o seu remédio — disse Scott, como se aquilo explicasse tudo.
— Imaginei. Mantenham o tronco dele reto, para não abrir os pontos — Ela instruiu. Seguindo à frente do grupo, ela subiu na carroça e cobriu a madeira com o cobertor. Então, orientou os homens enquanto eles colocavam o menino na carroça. — Precisamos de mais um cobertor.
— Está aqui, milady — Caleb entregou a sua própria manta.
Ela cobriu o rapaz e o ajeitou da melhor forma possível, enquanto os homens trabalhavam ao redor.
Enquanto Cassandra ajeitava Finn, Scott fitou o rosto pálido do menino por um instante. A respiração dele era regular, o que era um alívio, mas a decisão que havia tomado pesava em seus ombros. Havia um risco real em partir tão cedo, mas permanecer era ainda mais perigoso.
Já haviam perdido tempo demais naquele lugar desprezível. Ainda assim, quando Cassandra se aproximou, seus gestos cuidadosos com o menino o fizeram hesitar. Havia um jeito sereno nela, mas também uma firmeza antiga, difícil de explicar.
Ele desviou o olhar. O caminho à frente exigiria foco e ela... Ela era uma distração perigosa. Não por ser cautelosa, mas porque era um mistério. E mistérios exigiam mais dele do que estava disposto a dar naquele momento.
Mesmo assim, ao observá-la, silenciosa e determinada sob a luz trêmula do amanhecer, Scott soube que havia feito a escolha certa ao voltar para salvá-la.
Um quarto cavalo foi trazido e oferecido a Cassandra. Ela fitou o animal e, em seguida, olhou para Scott.
Ele a encarava.
— Você estará segura com meu clã — disse, alto o suficiente para que seus homens ouvissem. — Juro pela minha vida.
O vento soprou. Os primeiros raios de sol atravessaram as nuvens espessas.
Cassandra não disse nada. Apenas aceitou o cavalo e montou.
Eles partiram ao alvorecer, rumo ao clã Callahan, deixando para trás uma vila cheia de ódio e preconceitos.
No fundo do coração, com pesar pela terra no alto da colina que fora seu lar desde o nascimento, Cassandra teve a certeza de que jamais voltaria àquele lugar. Ela recebeu o sentimento, permitindo que ele a atingisse como uma onda. Visualizou a dor dissipando-se como a água que bate na pedra e se espalha.
Ela voltou o cavalo para o caminho à frente. Um caminho desconhecido. Não sabia o que a aguardava. Mas descobriu, ao puxar as rédeas, que respeitava o destino.
E estava disposta a descobrir o que ele tinha a oferecer.