Capítulo Três Legado de Amor e Magia · Capítulo 3 de 5
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Capítulo Três

O grupo avançou pela estrada de terra que serpenteava entre colinas e bosques cobertos pela neblina da manhã. A carroça seguia à frente, com Finn acomodado entre cobertores, guiada por Caleb. Eagon e Scott cavalgavam em cada lado, com os olhos atentos à trilha e aos sons que os rodeavam. Cassandra vinha logo atrás, num ritmo constante, sentindo cada oscilação do cavalo enquanto a brisa gelada infiltrava-se pelas dobras da capa.

A estrada parecia segura e tranquila. Mas ela sentia um incômodo crescente que arrepiava a pele. A sensação de estar sendo observada era discreta, mas persistente.

Cassandra inclinou a cabeça como se apenas quisesse proteger-se melhor do vento. Suas mãos começaram a se mover com sutileza sobre a sela. Os dedos deslizaram pelo couro macio, traçando com leveza um antigo símbolo de proteção.

Ela visualizou o desenho na mente. Respirando fundo, concentrou-se em canalizar o ar que a rodeava, o calor invisível da terra sob os cascos dos cavalos e a umidade sutil da névoa que pairava adiante. O feitiço era silencioso, discreto, mas firme. Não havia luz, não havia brilho, apenas uma mudança quase imperceptível no ar ao redor da pequena comitiva.

Os pássaros cessaram o canto por um instante. As folhas pararam de balançar como se tivessem prendido o fôlego.

O mundo pareceu pausar.

Quando soltou o ar devagar, Cassandra sentiu a inquietação em seu peito diminuir. O peso no ar permanecia, porém agora havia uma camada de proteção envolvendo-os.

Scott, alguns metros à frente, virou-se por cima do ombro como se tivesse pressentido algo. Os olhos cinzentos encontraram os dela. Cassandra sustentou seu olhar por um instante, então, deliberadamente, concentrou o olhar na trilha à frente.

O sol estava alto quando Scott decidiu que deviam fazer uma pausa. Os cavalos foram deixados pastando e descansando. Os homens reuniram-se para dividir um pouco de uísque e a comida que haviam conseguido na taverna.

Cassandra aproveitou para verificar Finn. Em algum momento da manhã, o menino havia acordado e desde então permanecia desperto. Ela subiu na carroça e ajoelhou-se ao lado dele.

— Como você se sente?

— Estou muito bem, milady — disse Finn, torcendo para que a voz não o traísse. A dor no ferimento ainda era constante, sobretudo porque o efeito do anestésico já estava passando. Mas ele não queria reclamar. Seria muito infantil se ficasse choramingando. Já era ruim o bastante que tivesse baixado a guarda durante a batalha e sido ferido. Não queria decepcionar Scott ainda mais.

Finn lançou um olhar na direção do chefe do clã, que naquele momento mordiscava um pedaço de carne defumada. Lorde Callahan jamais reclamava de ferimentos. No máximo, xingava com muita criatividade.

Cassandra levou uma mão à testa do rapaz e ficou aliviada por ela estar em uma temperatura normal. Sabia que ele ainda estava com dor — o brilho nos olhos denunciava isso —, mas a ausência de febre era um excelente sinal. Com cuidado, ela retirou as bandagens para verificar o ferimento.

— Está cicatrizando bem — murmurou mais para si mesma, a cabeça nos passos que deveria seguir.

Finn soltou a respiração, aliviado. As mãos dela eram suaves e deixavam uma sensação de conforto por onde passavam.

— É uma boa notícia, não? Seria bom se eu chegasse praticamente curado em casa. Minha mãe não ficaria tão nervosa. Ela não queria que eu viesse nessa incursão, sabe?

— Hmmm. — Cassandra selecionou algumas ervas e esmagou-as no almofariz. Usava o de madeira, pois o outro estava na bolsa que o cavalo de Scott carregava.

Ela não queria falar com ele naquele momento, especialmente depois dos acontecimentos da noite. Não se considerava uma pessoa orgulhosa, mas o modo como aceitara a ajuda dele, com tanta confiança e em tão pouco tempo, ainda a perturbava.

Temia que, se se permitisse, acabaria dependendo demais de Scott Callahan.

Quando as ervas estavam no ponto certo, Cassandra esfregou a papa nas mãos e espalhou-a pelo ferimento em movimentos circulares.

Finn piscou, deixando escapar um sibilo de dor. Solidária, ela o fitou com um curvar de lábios encorajador.

— Temo que a dor seja uma parte da cura. Mas você vai se sentir bem em alguns minutos.

— Não se preocupe, milady. Já me sinto muito bem.

Um tolo corajoso, pensou Cassandra, não sem afeto, e observou o olhar do rapaz vagar novamente na direção de Scott. Era uma relação clara de admiração. E lealdade.

Ela sentiu o coração titubear. Um homem que inspirava tais sentimentos em um menino tão bondoso certamente tinha suas qualidades. Mas ela não queria pensar nelas. Não devia ser tão impactada por isso.

— Se você quiser, tenho um remédio para ajudá-lo a descansar. O sono, assim como a dor, faz parte da recuperação.

— Ah, não! Não precisa.

— A decisão é sua. — Ela recolheu as ferramentas e abriu sua bolsa com mantimentos. Ofereceu a Finn um pedaço de pão e um cantil de água.

— Obrigado, milady. — Ele a fitou nos olhos, a expressão solene. — E obrigado pelo que fez por mim. É uma dívida que espero poder pagar algum dia.

Incapaz de resistir, Cassandra afastou um cacho da testa de Finn.

— Você não me deve nada.

O rapaz sentiu as bochechas arderem. O gesto tinha um quê maternal e Finn estava ciente de que os outros os observavam.

Scott se aproximou e apoiou o cotovelo na lateral da carroça. Ele lançou um olhar a Finn, observou a pele clara e sardenta vermelha como um camarão.

— Ele me parece bastante saudável — declarou, os olhos brilhando com divertimento.

Cassandra conteve um sorriso.

— Finn está se recuperando. E isso significa: nada de batalhas por um bom tempo.

— Há uma batalha à espera em casa. — Scott fitou Finn. — Sua mãe vai matar nós dois.

O rapaz engoliu o pão, mexendo a cabeça com veemência.

— Mamãe vai me querer recuperado primeiro. Depois, quem sabe, vai me matar.

Cassandra arqueou uma sobrancelha.

— Isso me parece um pouco drástico.

— Você não conhece minha mãe — replicou Finn e bebeu toda a água do cantil.

Scott a observou pular da carroça e se afastar. Sem perceber os olhares trocados entre seus homens, foi atrás de Cassandra.

— Finn está realmente bem?

— Sim. Ele está se recuperando conforme o esperado. De certa forma, mais rápido do que eu imaginava.

— Acredito que isso tenha a ver com quem está cuidando dele.

Ela o fitou. Os olhos dourados pareciam conter algo antigo e difícil de decifrar. O olhar durou um longo tempo, como se ela estivesse decidindo o melhor jeito de lidar com ele.

Scott sustentou o olhar e viu um brilho de impaciência juntar-se à ponderação.

Dando as costas a ele, Cassandra revirou sua bolsa de suprimentos e ocupou-se em separar sua comida.

— Já aceitei acompanhar seu clã — disse ela. — Não precisa me bajular.

Scott contraiu o maxilar. Bajulando-a! Não era isso o que estava fazendo… Como chefe do clã, como responsável por Finn, sentia-se na obrigação de valorizar o que ela fizera por um dos seus.

Mas Scott decidiu deixá-la ter a última palavra. Aquele não era o lugar nem a hora para discussões.

Com as mãos no cinto, ele observou a floresta, atento aos sons e à paisagem que os rodeava.

— Acredito que não fomos seguidos — comentou — Mesmo assim, quero dar mais distância entre nosso grupo e aquela maldita aldeia. Partiremos em vinte minutos.

Cassandra hesitou, um sentimento de culpa ameaçando subir à superfície. Ele tinha interesse que ela fizesse parte do grupo, devido à preocupação com Finn, mas outros teriam-na descartado na primeira ameaça de perigo.

Afinal de contas, se fossem seguidos, todos sabiam que seria por sua causa.

Ela engoliu o pedaço de pão com queijo, bebendo um gole de água para ajudá-lo a descer.

— Obrigada — sussurrou, antes que ele se afastasse.

Scott se virou, surpreso com a palavra que não esperava ouvir tão cedo da boca dela.

Novamente, os dois trocaram um olhar. A desconfiança deu lugar a algo mais íntimo e profundo, que nenhum dos dois queria reconhecer, porém descobriram ser difícil de ignorar.

Ele inclinou a cabeça para o lado, a mão descansando sobre o cabo da espada atada à cintura.

— Ao seu dispor, milady.

— w —

Quando a visão do Castelo Callahan surgiu ao longe, no topo de uma colina, Cassandra sentiu algo em seu interior remexer-se, como um gato adormecido que abre um olho diante de uma mudança no ar. Depois de uma noite conturbada e de um dia inteiro de cavalgada, ela interpretou a sensação como alívio.

Avançando pela estrada de terra, ela observou o castelo de pedra que se erguia sobre uma ampla colina, com visão extensa dos campos verdejantes que a rodeavam e do vilarejo aos seus pés. Uma muralha de pedra cercava a construção. Torres de vigia e corredores de patrulha despontavam para lembrar que, para além do lar do senhor do clã, aquela também era uma construção de defesa.

O grupo se aproximou do vilarejo. Àquela hora da tarde, quando o sol começava a descer no horizonte, os aldeões preparavam-se para encerrar mais um dia de trabalho. Contudo, ao avistarem a pequena caravana liderada pelo chefe do clã, os gritos de boas-vindas os acompanharam até os portões do castelo.

Com serenidade, Cassandra sustentou os olhares lançados em sua direção. Ninguém a olhou com desconfiança; os olhos que caíam sobre ela eram apenas curiosos, como aconteceria com qualquer recém-chegado.

Os portões de madeira estavam abertos e o grupo avançou pelo caminho de terra batida.

No topo da escadaria principal, duas pessoas os aguardavam. Uma delas era um homem alto, com um rosto bonito e muito semelhante ao de Scott. Porém, a boca continha um sorriso fácil e os olhos brilhantes davam a ele um ar jovial e impulsivo. Com os cabelos castanhos-claros balançando ao vento, ele examinou Cassandra com um olhar interessado.

Ao seu lado estava uma mulher. Ela era jovem, com um rosto de beleza discreta e uma postura graciosa de anfitriã. A boca estava cerrada e, embora a expressão não fosse fechada, era contida se comparada com a curiosidade e exuberância do homem que a acompanhava.

Quando o grupo parou diante da escadaria, os dois desceram os degraus.

— Irmão — disse o homem com um sorriso que chegou aos seus olhos. Ele desceu os degraus de dois em dois e abraçou Scott com um tapa sonoro nas costas. — É bom recebê-lo de volta.

— É bom estar de volta. — Scott deu um tapinha carinhoso no flanco do cavalo. Entregou-o ao cavalariço e ordenou que dois guardas levassem Finn para os aposentos que o rapaz dividia com a mãe.

Satisfeito, Scott deu uma olhada no pátio ao redor.

— Como estão as coisas por aqui?

— Boas, na medida do possível. — O irmão observou Cassandra desmontar e fitou Scott com curiosidade no olhar. — Seu grupo tem um membro a mais.

Scott voltou-se para Cassandra e fez um discreto gesto com a mão na direção dela.

— Tivemos um imprevisto no caminho e Lady Cassandra aceitou nos ajudar.

O homem fez uma reverência cortês e tomou a mão de Cassandra entre as suas.

— Declan Callahan — disse ele e beijou as costas da mão dela. Então esboçou um sorriso incrivelmente sedutor. Os olhos, mais azuis que cinzentos, complementavam o charme. — Ao seu dispor, milady.

Cassandra curvou os lábios, inclinando a cabeça em sinal de cumprimento. Havia uma leveza naquela recepção que ela não esperava encontrar.

— É um prazer, milorde.

— Declan está ótimo. Faz eu me sentir menos um velho chefe de clã e mais o galanteador que secretamente ainda sou. — Ele piscou.

Scott franziu o cenho para o irmão, mas não disse nada. Seu olhar recaiu sobre a mulher de traços suaves que estava junto com Declan.

Os cabelos dela eram mais escuros e estavam presos com cuidado num coque simples, mas elegante. As feições também eram mais delicadas e os olhos azul-escuros continham uma sombra que contrastava com o brilho de Declan. Mas as semelhanças com os irmãos Callahan estavam lá — no formato dos olhos, nas sobrancelhas cerradas e no nariz aristocrático. Ela também era tão alta quanto Scott e Declan.

Ela estendeu a mão para Cassandra.

— Sou Brianna, irmã de Scott e Declan. — Ela esboçou um sorriso educado. — Espero que se sinta bem aqui, milady. O clã pode ser barulhento, mas é um bom lugar para descansar.

— Obrigada — respondeu Cassandra, apertando-lhe a mão com gentileza. Um arrepio a percorreu. Havia dor, uma dor que não tinha nome nem forma, por trás daquele olhar sereno e da postura elegante. Cassandra manteve a expressão neutra, mas se perguntou o motivo de tamanha tristeza.

Quando viu Scott observar cuidadosamente a irmã, como se analisasse a expressão de Brianna e buscasse algo ali, sua curiosidade ganhou uma camada de preocupação que a pegou de surpresa.

O que quer que tenha visto nos olhos da irmã o fez relaxar os ombros, ainda que minimamente.

— Onde está Ronan? — perguntou, o tom neutro.

Uma sombra surgiu nos olhos de Declan, ofuscando — ainda que só por um segundo — o brilho divertido em sua expressão. Era um vislumbre do guerreiro que o sorriso fácil quase fazia uma pessoa esquecer.

Cassandra viu que Brianna inspirou fundo, o gesto deliberado, antes de dizer:

— Meu marido saiu com alguns de seus homens. Parece que há… alguma comoção nas terras do leste — ela trocou um olhar tenso com Declan.

Ele pigarreou.

— Algumas coisas aconteceram durante a sua ausência, Scott. Quando tiver um tempo, podemos conversar sobre o assunto.

— Tenho tempo agora — disse Scott. — Brianna, ajude Cassandra a se instalar. Ela ficará conosco…

— Por enquanto — completou Cassandra, e sustentou o olhar dele quando Scott a encarou.

Os olhos cinzentos estavam obscuros pelo assunto envolvendo o cunhado. Mas o maxilar cerrado tinha um quê de contrariedade que Cassandra o viu conter rapidamente. Um observador descuidado nem teria percebido.

— Pois bem — murmurou Scott. — Lady Cassandra será nossa hóspede por enquanto. — Isso ele disse em tom alto para que os guardas, criados e cavalariços que observavam a cena o ouvissem e ficassem avisados.

Ninguém do clã Callahan trataria mal uma hóspede do senhor do clã.

Scott inclinou a cabeça na direção de Cassandra. Trocou um olhar com Brianna. Então afastou-se com Declan, sumindo por uma das laterais do castelo.

Quando voltou a olhar para Brianna, Cassandra viu que a mulher a observava com um olhar tranquilo. Se ela estava curiosa, era boa em disfarçar.

Brianna sinalizou os degraus. No topo da escada, a porta estava aberta e as tochas nas arandelas lançavam chamas acolhedoras. O interior parecia convidativo.

Cassandra engoliu em seco. A sensação de reconhecimento tornou a se agitar em seu íntimo, ronronando, como se o gato abrisse o segundo olho e se espreguiçasse, satisfeito. Ela conteve o sentimento, colocando-o numa caixinha para lidar com ele depois.

Segurando as saias do vestido, endireitou os ombros e seguiu Brianna para dentro do Castelo Callahan.

— w —

Assim que cruzou a soleira da porta, Cassandra foi envolvida por uma onda de calor e pelo cheiro familiar de madeira envelhecida.

O interior do castelo era tão imponente quanto o exterior, com seu pé-direito alto e as espadas e escudos de prontidão nas paredes de pedra. Os quadros e tapeçarias contavam a história de um clã que ocupava aquelas terras há muitas gerações e que as respeitava, honrando-as em pinturas que iam desde representações da paisagem a retratos das pessoas que já haviam caminhado por aqueles corredores.

Os vasos espalhados ao longo do hall enchiam o ambiente com uma fragrância doce e acolhedora, criando um contraste com o tom austero das armas que refletiam as chamas nas arandelas.

Pelas escadas de madeira que subiam pela lateral, Cassandra supôs que ficavam os aposentos particulares. Ela imaginou os irmãos Callahan — Scott, Declan e Brianna — circulando por aqueles corredores em diferentes momentos de suas vidas. Cada degrau, cada arranhão na madeira carregado de história.

Vida e história pareciam habitar cada canto daquele lugar. Estavam impressas na decoração e nas marcas deixadas pelo tempo. Ela sentiu isso sob a pele, no sangue, que vibrou com a energia que morava naquelas paredes de pedra.

Cassandra respirou fundo. O ar ali parecia pesado de lembranças, de tradição e de responsabilidade.

Um aroma de pão fresco e carne assada — provavelmente, vindo de uma cozinha bem nos fundos — juntou-se ao perfume das flores. Vozes e risadas ecoaram do lado de fora, onde criados e guardas circulavam, vivenciando o cotidiano do clã.

Por um instante, ela se sentiu deslocada, como uma peça estranha dentro de um mecanismo muito antigo. Mas também havia algo… familiar naquela solidez, como se o castelo estivesse disposto a acolhê-la.

Se ela deixasse, é claro.

Ao seu lado, Brianna aguardava de maneira silenciosa, a expressão inabalada por sua observação. O olhar dela, embora não fosse tão aberto, transmitia o mesmo tom receptivo que o lugar. Ela curvou os lábios quando seus olhares se encontraram.

— O castelo é mais que uma fortaleza escura e rústica, não é?

— Muito mais.

Havia uma tapeçaria elaborada na parede à sua direita. De perto, ela podia ver alguns desgastes na peça antiga, mas isso não diminuía seu impacto.

Era uma tapeçaria alta — talvez mais alta que Scott — que representava um salgueiro cujos galhos curvados pareciam mover-se, as folhas ondulando delicadamente, como se movidos por um vento suave. Delicados fios dourados serpenteavam ao redor da árvore, como se estivessem representando a leveza do vento — ou alguma outra coisa — em movimentos espiralados.

Cassandra sentiu os dedos formigarem, com vontade de tocar a tapeçaria. Ela deu um passo em direção à peça.

Por um instante, uma brisa leve entrou pela porta aberta e agitou suavemente a tapeçaria.

Brianna uniu as mãos diante do corpo e a acompanhou.

— Um trabalho de alguma de minhas ancestrais — disse ela.

— É lindo — sussurrou Cassandra.

O tom quase reverente dela iluminou o rosto de Brianna. A beleza suave transformava-se em algo quase etéreo quando a alegria surgia em seus olhos tristes.

— Ela era uma artista. — Brianna também observou a tapeçaria. Um lampejo de humor cruzou seu olhar. — Alguns dizem que ela era uma bruxa.

A boca de Cassandra se puxou para cima.

— O talento de um artista é um tipo de magia, não acha?

— Suponho que sim.

Uma mulher mais velha surgiu no topo das escadas.

— Brianna! — disse ela ao avistar a jovem. Ela desceu os degraus a passos apressados e parou diante das duas — Soube que o chefe voltou. Você viu Finnigan?

— Ele foi levado para os seus aposentos, Moira.

— Levado? Como assim levado? — A mulher levou uma mão ao peito. — O que aconteceu com ele?

— Finn está bem. — Cassandra adiantou-se, o tom tranquilizador. — Ele sofreu um ferimento durante uma luta, mas já está se recuperando.

O rosto de Moira contraiu-se numa mistura visível de desespero e raiva.

— Aquele menino! Eu juro… Eu vou matá-lo!

Cassandra franziu o cenho, lembrando-se das palavras de Finn sobre a mãe. Seus olhos encontraram os de Brianna, que parecia conter um sorriso.

— Por que você não vai vê-lo, Moira? — disse Brianna com delicadeza. — Eu me encarrego de organizar o jantar.

— Lorde Callahan vai querer um banquete hoje — disse Moira, o tom reflexivo. — Melhor dizer à Fiona que prepare cordeiro... É o prato favorito dele. E pudim! Ele provavelmente vai querer pudim.

Brianna segurou-a com suavidade pelo braço.

— Não se preocupe. Tenho tudo sobre controle.

— Sim, claro. Eu…

Moira então olhou para Cassandra e piscou, como se só naquele momento notasse realmente a presença da visitante.

— Lamento, milady. Não me apresentei — disse, com uma breve mesura. — Sou Moira MacNeal.

— Finn é filho de Moira — explicou Brianna.

Cassandra devolveu a mesura com uma breve inclinação de cabeça

— A senhora tem um filho gentil e corajoso, senhora MacNeal.

As bochechas de Moira coraram de imediato. Os olhos escuros, até então ansiosos, se encheram de umidade.

— Sim... Ele é. — Mais uma vez, ela levou a mão ao coração. — Finn realmente é um doce de menino.

— Vá vê-lo, Moira — disse Brianna, num tom suave como água de lago tranquilo, empurrando-a com delicadeza na direção do corredor.

Quando a mulher finalmente cedeu — tranquilizada por Brianna quanto à preparação para o jantar —, ela desapareceu por um dos corredores laterais.

Brianna voltou-se para Cassandra e, com divertimento, disse:

— Bem-vinda ao clã Callahan.

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