Capítulo Cinco
Os aposentos ocupados pelos MacNeal no Castelo Callahan ficavam na ala dos criados e contavam com dois quartos conectados através de uma antessala. Era o maior cômodo da ala e costumava ser ocupado pela castelã do clã, cargo que Moira ocupava há mais de vinte anos.
Sentada na cama do quarto ocupado por Finn, Cassandra separava os utensílios que precisava para tratar do ferimento dele. Resolvera começar a manhã fazendo uma visita ao rapaz para verificar o estado da ferida.
Finn estava acordado quando ela chegou, mas o desconforto ainda aparecia em seus olhos castanhos. Mesmo assim, sorriu ao vê-la e permaneceu silencioso enquanto ela o examinava.
Cassandra retirou o tecido que cobria o ferimento, notando a pequena secreção rosada no tecido. A ausência de pus era uma boa evidência. Examinando os pontos, viu que o inchaço intenso dos primeiros dias havia diminuído e as bordas fechadas pela sutura começavam a aderir. A vermelhidão ao redor da sutura havia diminuído, e não havia sinal da secreção espessa que indicaria uma infecção. Quando passou os dedos pela pele próxima à incisão, em busca de calor excessivo ou alguma área endurecida, não encontrou nada.
Satisfeita, descartou o curativo antigo e começou a limpar cuidadosamente a região com uma preparação medicinal suave feita naquela manhã, usando um espaço da cozinha que a cozinheira cedera. Depois, aplicou uma pomada sobre o ferimento e avaliou sua evolução. No tecido interno — onde ela tinha concentrado sua magia —, a recuperação estava mais avançada. Por fora, a ferida ainda parecia séria. Por dentro, porém, não havia sinais de infecção, e o processo de cicatrização seguia além do habitual.
Ela pegou a faixa que usaria para passar em torno do abdômen dele, a fim de fixar o curativo limpo.
— Como você passou a noite?
— Dormi como um bebê — respondeu Finn, piscando quando precisou se afastar da cabeceira para que ela pudesse trabalhar.
— Isso é bom. — Cassandra passou a faixa com movimentos econômicos, finalizando em uma amarração confortável, mas eficiente.
Moira entrou no quarto com uma bandeja de café da manhã. O cheiro de chá fumegante e pãezinhos frescos substituiu o aroma de remédios e quarto de enfermo.
— Trouxe o que você pediu, milady.
— Ótimo. — Cassandra se levantou e foi lavar as mãos na bacia ao lado da cama.
Moira ajeitou a bandeja para o filho.
— Como ele está? — quis saber a mulher, servindo o chá na xícara.
Cassandra secou as mãos.
— O ferimento está sarando bem. — Ela assentiu em confirmação quando Moira ergueu o frasco de remédio que já estava separado no móvel de cabeceira. — Não há sinal de infecção e Finn me disse que passou bem a noite.
— Passou mesmo. — Moira pingou três gotas no chá. Entregou a xícara ao filho. — Finn tomou o remédio no fim de tarde e só acordou hoje de manhã.
— Alguma febre?
— Não. Eu verifiquei a cada hora. Nada de febre nem de calafrios.
Cassandra levou as mãos a cintura e analisou clinicamente o rosto do rapaz. Um rastro de vermelho começou a subir pelo pescoço de Finn.
— Eu me sinto muito bem, milady — insistiu Finn, tendo o cuidado de não piscar quando ergueu a xícara para beber o chá. A ferida estava dolorida e incomodava quando ele mexia os braços.
Moira suspirou. Com cuidado, retirou a xícara das mãos do filho para ajudá-lo.
Finn afastou-se num movimento abrupto demais. A careta de dor fez a mãe menear a cabeça.
Cassandra disfarçou um sorriso.
— É normal você ainda sentir desconforto quando se mexe, Finn — disse ela.
O rapaz pigarreou, mas não recusou quando a mãe levou a xícara a sua boca. Ele bebeu um pouco do chá com uma expressão contrariada.
— Não quero mais sentir desconforto.
— E eu não quero ter um filho teimoso — disse Moira. — Mas aqui estamos nós.
Finn mordeu o pãozinho com uma careta. Depois de mastigar, disse à Cassandra:
— Quando poderei voltar aos treinos? — quis saber o rapaz.
Cassandra ocupou-se em arrumar suas ferramentas na bolsa de couro que usava para carregá-las.
— É melhor você permanecer sem atividades físicas por mais uma semana.
— Uma semana? — O tom de voz de Finn subiu uma oitava. Ele se remexeu na cama diante do arquear de sobrancelha da mãe. — Milady… Talvez possamos negociar.
— Por que tão ansioso para voltar à vida de soldado, Finn? — quis saber Moira. — Já não basta seu último flerte com a morte?
— Eu não… Foi só um arranhão, mãe.
Moira crispou os lábios.
— Lorde Callahan disse que foi um ferimento sério. Lady Cassandra também. Não tente me fazer de boba, Finnigan.
Finn encolheu os ombros e suspirou, continuando a comer, aborrecido por ser alimentado pela mãe.
Cassandra colocou a bolsa no ombro.
— É um fardo e um privilégio ter alguém que se importa o suficiente para cuidar de você — disse, piscando na direção de Finn. — Com os cuidados de sua mãe, você vai se recuperar mais rápido. Imagino que queira isso, não?
A resistência na expressão de Finn abrandou. Ele bebeu mais chá servido por Moira. Encolhendo os ombros, disse:
— Peço desculpas, mãe. Sei que só quer o meu bem.
Moira segurou sua mão com cuidado.
— Desculpas aceitas — disse, com um aperto afetuoso e continuou a alimentar o filho.
Cassandra os deixou e foi atrás de Brianna. A mulher já tinha mandado avisar que estava à disposição para mostrar o espaço usado pelo último curandeiro do clã.
Mais ansiosa para conhecer o espaço do que gostaria de admitir, Cassandra atravessou o corredor da ala dos criados e foi ao encontro de Brianna.
Naquela manhã, quando fora à cozinha para preparar a pomada para o ferimento de Finn, Cassandra tinha sentido falta da solidão e do silêncio de seu antigo espaço de trabalho. Por mais que Fiona, a cozinheira, tivesse sido gentil e oferecido o espaço de bom grado, havia uma parte de Cassandra que buscava silêncio e tranquilidade. Sempre buscaria.
Além disso, os cheiros de temperos e comida frescos eram uma distração. Ela tinha terminado o trabalho faminta.
Cassandra decidiu que manteria a mente e o coração abertos para o espaço de cura. Se sentisse que poderia fazer seu trabalho lá, ficaria por mais algum tempo no clã Callahan.
Se não… Bem, seria hora de partir. Em sua cabeça, a solução era lógica e simples. Em seu íntimo, algo começou a torcer para que ela gostasse do espaço.
— w —
Quando a pesada porta de madeira do cômodo do curandeiro foi aberta, as dobradiças rangeram como um protesto envelhecido pelo tempo.
Acompanhada de Brianna, Cassandra entrou no aposento e sentiu uma suspensão no ar, como se o que estivesse ali tivesse parado um instante para entender uma alteração inesperada no espaço.
O cheiro de madeira antiga tomou suas narinas de imediato. Partículas de poeira dançavam no ar, agitadas pelo movimento de sua saia. A luz difusa do meio da manhã entrava por um trio de janelas estreitas que sustentavam vidros dominados por anos de sujeira acumulada.
Junto das janelas havia uma porta que dava para um dos pátios externos. Localizado no térreo, abaixo de onde ficava a área dos criados, aquele cômodo ocupava uma das laterais do castelo.
Brianna, que acompanhava o olhar dela, sinalizou a porta.
— É um dos motivos porque esse espaço é destinado ao curandeiro, ou curandeira. Uma passagem para o exterior garante entrada e saída particulares — disse ela — Quem procurasse seus cuidados não precisaria atravessar toda a extensão do castelo.
— É uma vantagem e tanto. — Cassandra já havia gostado do tamanho do espaço. A conveniência da porta para o pátio era um adicional inesperado, mas bem-vindo. Ela também poderia usar aquela porta se não quisesse andar pelo castelo.
Incapaz de ler a expressão de Cassandra, Brianna continuou:
— Os móveis e prateleiras são de madeira e talvez precisem ser substituídos. Mas isso não será problema.
Cassandra aproximou-se das prateleiras que ocupavam duas paredes. No momento, elas sustentavam grossas camadas de poeira e abrigavam diversas teias de aranha. Em algumas delas, repousavam potes de barro, frascos de vidro âmbar e cestos trançados — esquecidos ou deixados para trás pelo antigo ocupante do cômodo. Apesar de algumas terem buracos, a maioria apresentava apenas lascas na madeira e ainda pareciam firmes.
No centro da sala, havia uma longa mesa de carvalho, com marcas de cortes e manchas de substâncias antigas. Mas o material era sólido e resistira bem ao tempo. Um banco de madeira com pernas instáveis estava encostado à parede, ao lado de uma velha cadeira de encosto alto. Ambos precisariam ser substituídos.
Esculpida na parede de pedra, havia também uma ampla lareira com fuligem acumulada e algumas toras esquecidas, já apodrecidas pelo tempo. Um caldeirão de ferro pendia de um suporte enferrujado. Isso seria fácil de resolver.
Cassandra correu os olhos pelo ambiente. Apesar do abandono, havia uma energia adormecida esperando para ser despertada pelas mãos certas.
Com tempo, limpeza e cuidado, esse cômodo pode se tornar um verdadeiro santuário de cura.
Ela tocou a lareira, sentiu a pedra gelada sob seus dedos. Mesmo com a bagunça e o cheiro de esquecimento, sentiu o ar no cômodo vibrar de novo, como se renovado por sua imaginação.
Como se o espaço a reconhecesse.
Sem precisar fechar os olhos, imaginou as prateleiras cheias de frascos de vidro com unguentos, a mesa apinhada de ferramentas de trabalho, a lareira acesa com uma poção de flores borbulhando no caldeirão, enchendo o ar com um perfume suave e um calor acolhedor. Nas paredes, feixes de ervas pendurados para secar.
Já conseguia visualizar tudo isso, a imagem solidificando-se em sua mente como uma visão clara e promissora.
— O lugar é perfeito — declarou, mais para si mesma.
Brianna franziu o cenho para as teias de aranha teimosas, a poeira que parecia ter aderido a todas as superfícies possíveis, os vidros sujos e os móveis apodrecidos.
— O trabalho vai ser grande — declarou, feliz por não ser ela a fazer aquela limpeza.
Cassandra curvou os lábios. Havia determinação brilhando nos olhos dourados.
— Nada que uma vassoura e panos úmidos não resolvam.
Brianna admirou isso. Como na noite anterior, invejou a maneira como ela demostrava ter um controle sobre si mesma, uma confiança que parecia tão parte dela quanto a cor dos olhos.
— Nesse caso, vou pedir que duas criadas venham ajudá-la.
Cassandra assentiu, olhando ao redor como se já estabelecesse uma conexão com o ambiente.
— Peça que elas venham apenas à tarde. — Diante do olhar intrigado de Brianna, explicou: — Quero entender o espaço... senti-lo. Depois disso, aceito toda a ajuda possível.
— Está bem — disse Brianna. Sua missão ali cumprida. Com mais sucesso do que previra. Não imaginara que Cassandra aceitaria o espaço tão rápido.
Scott ficaria satisfeito.
— Vou pedir que vasculhem os depósitos também — acrescentou ao alcançar a porta. — Você vai precisar de cadeiras e potes para seus remédios.
— Perfeito.
Brianna despediu-se e deixou o aposento.
Cassandra foi até as janelas e abriu uma delas — com alguma dificuldade —, tossindo com a poeira que se ergueu em um pequeno redemoinho.
Mas o cheiro de abandono não a afetou, pois carregava também o potencial de algo novo.
Ela abriu a porta que dava para o pátio, deixando entrar o ar fresco da floresta. Sua mente começou a planejar: quais poções começaria a preparar primeiro, onde penduraria os ramos de lavanda, onde guardaria os unguentos... Logo, este seria um lugar de cura de novo.
Quando deu-se conta de que estava fazendo planos para o futuro, parou no meio do cômodo.
Com o coração acelerado, disse a si mesma que ainda era uma decisão temporária.
Daria vida àquele espaço, pois ele precisava ser cuidado, e ficaria ali caso realmente fosse necessária. E aceita.
Sim, decidiu. Era um bom plano.
— w —
A limpeza do espaço de cura levou três dias de trabalho intenso. Aliando muito esforço físico e um pouquinho de magia — afinal, essa era uma ferramenta a seu dispor —, Cassandra passou a maior parte do tempo enfurnada na sala.
No quarto dia, satisfeita com o chão livre de sujeira, com as superfícies que reluziam e com as prateleiras prontas para uso, ela decidiu que era hora de explorar o terreno ao redor da propriedade Callahan.
Precisava reabastecer seu estoque de remédios, unguentos e poções. Para isso, seria necessário saber quais plantas e ervas tinha à disposição.
Munida de uma cesta e envolta por uma capa para protegê-la do ar gelado do amanhecer, Cassandra atravessou o pátio e seguiu para os arredores do Castelo Callahan. Uma camada fina de orvalho cobria o gramado baixo, enchendo o ar com o cheiro de terra molhada.
Ela caminhou entre ramos e arbustos que cresciam de forma selvagem, parando sempre que encontrava alguma flor ou planta que a interessava. Reconheceu a maioria — mil-folhas, camomila, urze, trevo-vermelho, azedinha, ulmária e prunela —, mas uma planta chamou sua atenção pela singularidade. Eram caules finos com folhas triangulares, em um tom de verde intenso, terminando em pequenas florzinhas azul-escuras em formato de coração. Ela colheu um ramo e cheirou-o, sentindo um aroma que lembrava alfazema, só que mais suave e doce.
Intrigada, colheu mais alguns ramos, adicionando-os ao cesto. Perguntaria a alguém que planta era aquela para entender se conseguiria usá-la.
O sol foi subindo no céu e a névoa já havia se dissipado quando Cassandra julgou que tinha ervas suficientes. Sua próxima parada seria na cozinha, pois precisava de alguns ingredientes de lá também.
Ela voltou ao castelo por outra parte do pátio, seguindo as muralhas que delimitavam a propriedade. Foi quando ouviu um grito seguido de risadas vindos do outro lado do muro. Rodeando-o, avistou uma jovem de cabelos avermelhados, presos numa trança frouxa, tentando controlar um balde de água que ameaçava tombar de suas mãos.
— Por todos os deuses… — murmurou a moça, os braços pendendo em um ângulo desengonçado. No instante seguinte, a água derramou-se pelo chão de terra, molhando a barra do vestido dela.
Cassandra se aproximou.
— Parece que o balde venceu desta vez.
A jovem ergueu o rosto e assoprou fios de cabelo que caíam sobre o olho. Tinha um semblante sardento e olhos cor de grama fresca que refletiam divertimento, apesar do chão encharcado.
— Eu me desequilibrei — disse ela, com uma risada na voz. — O que não é muito difícil. Minha prima seria a primeira a atestar isso. Agora, só preciso voltar e encher o balde de novo.
— Só isso. — Cassandra ajeitou melhor o cesto no quadril. — Quer ajuda?
— Aceitaria com gratidão, milady — disse a moça com um sorriso que iluminou o rosto e chegou aos olhos brilhantes. — Embora… — ela mordeu o lábio e olhou de relance para o cesto de Cassandra — acho que a senhorita já tem trabalho demais por hoje.
— São só umas ervas e flores. Elas podem esperar — disse, deixando o cesto de lado. Ela parou diante do poço enquanto a jovem começava a girar a roldana para baixo. — Qual o seu nome?
— Lyna Devlin, milady. — O balde atingiu a água.
— Acho que ainda não fomos apresentadas, Lyna Devlin.
— Trabalho no castelo. — Ela começou a subir a roldana. — Faço um pouco de tudo. Costuro, cuido da horta, ajudo na cozinha…
— E, de vez em quando, trava batalhas contra baldes.
Lyna riu, um som leve, como fadinhas alegres divertindo-se na floresta. Com a ajuda de Cassandra, apoiou o balde na borda do poço e, depois, colocou-o no chão.
— Um trabalho muito importante — disse, enxugando as mãos no avental.
— Certamente.
A moça mordeu o lábio, como se hesitasse em continuar a falar. Por fim, não conseguiu ficar calada:
— A senhorita é a Viúva Willow — comentou, com um olhar mais curioso que hostil.
— Meu nome é Cassandra — disse, e suavizou as palavras com um aceno de cabeça sereno. — Mas também respondo por esse nome.
— O que a senhorita fez por Finn foi muito importante — disse Lyna. A voz e os olhos adquirindo um tom solene. — Fico muito grata, milady.
— Curar é meu dever. Só cumpri meu juramento. Você e Finn se conhecem há muito tempo?
— Ele é meu primo. Bem, primo em segundo grau. Mas fomos criados juntos desde que vim viver com a prima Moira. Ela me criou depois que meus pais… partiram.
— Sinto muito. É difícil viver sem aqueles que amamos.
Uma sombra surgiu nos olhos de Lyna. Ela observou as árvores cujas folhas ondulavam com uma brisa leve.
— Tenho a prima Moira e Finn. Além disso — disse, o brilho voltando aos olhos —, Scott e Brianna são como irmãos. Bree e eu somos amigas desde que nascemos.
— É um conforto — Cassandra lutou contra uma súbita onda de inveja. Havia tantas conexões ali, tanto pertencimento. Ela se perguntou como seria viver num lugar onde todos se conheciam há tanto tempo, onde sabiam que podiam contar uns com os outros. Sua vida era solitária há tanto tempo que ela se esquecera do quanto conexões e relações podiam ser preciosas. Será que algum dia voltaria a chamar um lugar de lar?
Elas terminaram a tarefa. Lyna segurou o balde com ambas as mãos. Antes de se afastar, disse:
— Se precisar de algo, é só chamar. Eu… — Ela escolheu as palavras com cuidado —, não acredito no que dizem. Pode contar comigo.
Com um último sorriso solar, Lyna seguiu seu caminho em direção ao castelo, deixando Cassandra sozinha com a sensação acolhedora de ter feito uma nova e inesperada aliada.