Capítulo Quatro Legado de Amor e Magia · Capítulo 4 de 5
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Capítulo Quatro

Brianna supervisionava a preparação do jantar de recepção ao chefe. O grande salão havia sido escolhido para isso, uma vez que a refeição não seria limitada à família. Conselheiros, guerreiros de alta patente, comerciantes do vilarejo e membros de famílias proeminentes estariam presentes.

Era o costume do clã.

A ampla mesa de carvalho, com seus entalhes deixados pelo tempo, havia sido posta com cuidado. Pratos de cerâmica robusta, jarros de vinho e hidromel, cestos de pães frescos e travessas nas quais seria colocada a carne de cordeiro assado ocupavam cada centímetro da superfície.

A lareira acesa iluminava o espaço com uma luz dourada e acolhedora, lançando sombras dançantes pelas paredes de pedra.

Os convidados e suas famílias já circulavam pelo salão, conversando entre si, enquanto aguardavam a entrada de Scott.

Os homens de tropas exibiam os símbolos de seus cargos nos broches atados aos ombros. Havia o capitão da guarda, bem como os membros dos conselhos de guerra e o de anciões. Os representantes de comércio e de famílias proeminentes também exibiam seus cargos tanto com broches quanto em suas vestes impecáveis. As mulheres usavam vestidos ricamente adornados e joias belamente desenhadas.

Não era um salão exuberante e extravagante, mas ainda assim havia beleza e riqueza sendo ostentada ali.

Era outro costume, comum a todos os clãs.

Brianna usava um vestido azul cerúleo, com um corte discreto, adornado por delicados fios prateados. As joias que exibia eram herança de família e tão discretas quanto sua personalidade. Não era extravagante, embora fosse considerado elegante. Era exatamente o meio-termo entre festivo e confortável — como ela preferia —, adequado à ocasião e à posição que ela ocupava no clã.

Desde a morte da mãe, Brianna atuava como a senhora do Castelo Callahan. Primeiro, para o pai; agora, para Scott. O cargo seria ocupado tão logo Scott se casasse — embora isso parecesse uma realidade distante. Já fazia seis anos desde que o irmão se tornara o chefe do clã e ele não dava nenhum indício de arrumar uma esposa.

O trabalho não a incomodava. Tinha sido criada e educada para ser a senhora de um clã. Afinal, como filha de um chefe, desde seu nascimento, esperava-se que ela se casasse com um homem de alta posição.

Isso não havia acontecido, pois seu marido era o segundo filho de um chefe de clã. Na época do casamento, o pai de Brianna estava interessado em poder militar e não se importara quando argumentaram que o candidato a marido não estava à altura do nascimento dela. Mas fora justamente esse descaso do pai que permitira à Brianna permanecer no Castelo Callahan.

Ronan Maklair, seu marido, não tinha um castelo a ser administrado por ela, mas o pai dela — e depois Scott — tinham.

Considerava isso uma pequena bênção. Brianna acendia uma vela à Mãe sempre que visitava a capela do castelo.

Não suportaria viver longe do clã de seu nascimento. E temia o que Ronan seria capaz de fazer longe dos olhos de seus irmãos.

A lembrança do marido fez um arrepio subir por sua coluna. Brianna endireitou os ombros e ignorou o tremor.

Ronan estava longe e não poderia fazer nada com ela. Estava segura e sua posição no clã Callahan estava consolidada há anos.

Scott garantira isso.

Ela caminhou mais uma vez pelo salão, parando para cumprimentar os visitantes, certificando-se de que o vinho e o hidromel circulavam em doses generosas.

Moira se aproximou quando Brianna arrumava alguns talheres sobre a mesa.

— Está tudo certo na cozinha — declarou a mulher mais velha. — A comida está pronta para ser servida. Fiona apenas espera o aviso.

— Ótimo — disse Brianna. Mais uma vez, correu os olhos pelo aposento em busca de algo fora do lugar ou de alguma quebra no ritmo. — Scott já deve estar chegando.

Ela avistou Cassandra, que entrava no salão naquele instante. Assim como Brianna, Lady Willow usava um vestido simples, de um verde profundo, com um corte discreto e finos fios de linha dourada. No pescoço, ela exibia um colar com um pingente de âmbar e cobre bruto. Deveria ser uma joia rústica e simples, mas não. Em Cassandra, era como se a joia tivesse pertencido aos tempos dos Antigos Reis e ela mesma tivesse pertencido àqueles tempos.

Quando seus olhares se cruzaram, Brianna assentiu em reconhecimento.

— Finn diz que ela o salvou — comentou Moira, o tom carregado de uma cautela que se refletia em seus olhos.

— Ela é uma curandeira. — Brianna havia conversado com Eagon, um dos homens do grupo de Scott, naquela mesma tarde. Como o irmão passara um longo tempo em conversa com Declan, ela procurara as informações em outro lugar.

Lady Cassandra cuidara de Finn após uma emboscada e fizera um trabalho tão bom que o homem não conseguia disfarçar a admiração. Não, pensou Brianna, admiração era uma palavra muito simples. O homem parecera completamente estupefato com o feito da curandeira.

Brianna franziu o cenho.

— Eagon deu a entender que o que ela fez por Finn não foi um tratamento simples.

Moira cerrou os lábios. Sabia que o ferimento era sério e que a maioria dos curandeiros não teria conseguido impedir que Finn fosse encontrar o Grande Sete. Embora ainda não tivesse uma opinião formada sobre a forasteira, o fato de que a mulher havia salvado seu filho já pesava bastante na balança.

— Scott a ajudou a fugir de um ataque à própria cabana. — Pelo que Brianna entendera do relato, a ajuda e a fuga haviam sido dramáticas.

— O clã Willow é conhecido por ter mulheres com dons — observou Moira, trocando um olhar significativo com Brianna. — É um clã que sofre perseguição.

— Isso é lamentável — murmurou Brianna. Não conseguia entender por que um grupo de homens atacaria uma mulher sozinha, que apenas ajudava os adoentados e feridos, sem fazer mal a ninguém.

Ela se perguntou se a injustiça tinha sido o catalisador para a proteção de Scott. Não era incomum que o irmão ajudasse as pessoas, mas havia algo de diferente na maneira como ele reiterara a proteção à Cassandra naquela tarde.

Brianna observou Cassandra. A mulher analisava o salão, os olhos dourados e profundos percorrendo o salão de maneira avaliativa. Ela se mantinha à margem do mar de pessoas, como se estivesse decidindo entre ir embora ou integrar-se ao lugar.

As pessoas a observavam com a mesma cautela, divididas entre a desconfiança e a curiosidade.

Cassandra avançou pelo salão, a pose altiva, o olhar sereno. Ela não parecia uma mulher que tinha sido trazida àquele lugar. Se estava ali, era por escolha própria. E sua permanência no clã também seria uma escolha.

Incapaz de evitar, Brianna sentiu um misto de inveja e admiração. Invejava a liberdade e confiança daquela mulher, ao mesmo tempo que também a admirava por isso.

Sentindo-se culpada, Brianna esboçou um sorriso delicado quando Cassandra se aproximou.

— Lady Cassandra, gostaria de algo para beber? — Ela ofereceu uma taça de hidromel.

— Obrigada. — Cassandra levou a bebida aos lábios. O gosto era agradável, levemente adocicado, com uma nota de ervas no fundo. Depois da água adocicada da estrada, e diante da agitação que sentia no estômago ao entrar no salão, a bebida era um carinho bem-vindo.

— Espero que seus aposentos estejam do seu agrado, milady.

— São perfeitos. Agradeço pelo cuidado — respondeu Cassandra. Ela bebeu mais um gole de hidromel. Não sabia por que, mas a voz suave de Brianna e seu olhar amigável também ajudaram a acalmar aquela agitação.

Estava ciente dos olhares especulativos e curiosos em sua direção. Mas a ausência de hostilidade a intrigava.

Geralmente, a reputação do clã Willow a precedia. E era bastante comum haver um ou outro olhar hostil num grupo de pessoas. Era mais comum do que gostava de admitir, embora já estivesse habituada a ignorar esse tipo de reação.

Seus olhos encontraram os de Declan. Ele ergueu a taça em sua direção com um sorriso sedutor.

Ela retribuiu o gesto com um discreto curvar de lábios, embora nada afetada pelo charme que parecia fazer tão parte dele quanto a espada atada ao cinto.

Curioso, pensou Cassandra, que jamais recebera um gesto de flerte de Lorde Callahan e mesmo assim já sentira o coração disparar na presença do chefe do clã.

Diante do charme inegável de Declan, ela apenas sentia um divertimento quase fraternal…

Cassandra segurou a taça com força. O que havia naquela família que a fazia ter tantas reações que não reconhecia?

Ela inspirou fundo. Então, voltou-se para Moira:

— Estive com Finn. Ele ficou chateado por não poder participar do jantar.

Moira bufou de imediato.

— Que aprenda a lição! Eu disse para não ir nessa incursão. Mas ele me ouviu? Não, senhor. Agora está acorrentado à cama e acho muito bem feito!

A boca de Cassandra se puxou para cima.

— Finn certamente aprendeu a lição — disse, o tom conciliatório.

Brianna, mais acostumada às tiradas da outra mulher, apenas continuou a conversa.

— Lady Cassandra, temos uma alcova na lateral leste, que está desocupada. Era usada pelo último curandeiro que viveu aqui.

— O homem era horrível — declarou Moira, cruzando os braços. — Disse-me para usar urtiga mastigada quando Finn teve alergia. Imagine só… urtiga em pele irritada!

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— Não seria a minha primeira escolha — respondeu, os olhos vivos de humor. — Nem a última.

Moira riu, ao que Brianna franziu o cenho.

— Como eu disse, há uma alcova sem uso no castelo — insistiu. — Dependendo dos seus planos, Lady Cassandra, poderia usá-la para trabalhar.

— Não sei quais são meus planos — admitiu Cassandra, percebendo que a persuasão era uma característica Callahan tanto quanto o acolhimento. Brianna poderia ter um estilo diferente do irmão, mas o olhar estava carregado de uma insistência sedosa. — Manterei a informação em mente.

— Podemos visitar o lugar amanhã — disse Brianna.

— Não quero atrapalhá-la.

O sorriso de Brianna foi delicado. Afiado.

— Será um prazer.

— Está bem — concedeu Cassandra, entredentes. Ver não custaria nada e ela precisaria mesmo ocupar o tempo. Além disso, estava curiosa para conhecer mais partes do castelo.

Pelo que havia visto até agora, o lugar era imenso e digno de ser a sede de um chefe que era, ao mesmo tempo, o coração doméstico e militar de um clã. Era curioso como o lugar conseguia ser lar e fortaleza sem que uma coisa anulasse a outra.

Antes que a conversa pudesse prosseguir, a movimentação no salão mudou de tom. As pessoas olharam para a porta, por onde Scott entrou.

Ele havia trocado as roupas de viagem e agora vestia uma camisa de linho simples, as mangas arregaçadas até os cotovelos, encimada por um colete de couro marrom que era sua ideia de traje festivo. O rosto não entregava muita coisa, mas Cassandra viu irritação brilhando por trás do reconhecimento nos olhos cinzentos.

O que quer que ele tivesse discutido com Declan sobre o cunhado, não o deixara feliz.

Scott encontrou seu olhar e a agitação que ela sentia na barriga tornou-se algo completamente diferente.

Um homem com vestes elegantes, exibindo uma insígnia militar no peito, adiantou-se e ergueu sua taça.

— Ao chefe!

— Ao chefe! — As pessoas ecoaram o brinde.

Scott ergueu discretamente a taça em resposta ao brinde, bebeu um longo gole de vinho e, com isso, a recepção foi oficialmente iniciada.

— w —

Vários homens com insígnias importantes se aproximaram para uma palavra com o chefe. Eles surgiram com atualizações, comentários, reclamações e demandas que haviam surgido durante a ausência do chefe.

Ciente de seus deveres, Scott ouviu-os enquanto terminava sua bebida. Não estava com fome nem com disposição para um jantar formal, mas aquela era uma obrigação necessária e inescapável. Estava habituado a cumprir protocolos. Sempre fora assim.

Mas havia dias que ele amaldiçoava aquela parte de ser o chefe do clã.

Enquanto ouvia o relatório de Lorde Fallon, o capitão das tropas, Scott observou o salão e as pessoas que ali circulavam. Conhecia todos. Alguns eram mais velhos, pessoas que haviam servido seu pai. Nem todos apoiavam Scott e sua liderança moderada. Vários ali ficariam mais que felizes em apoiar um chefe interessado em liderar sob o medo e a coerção. Alguns daqueles homens permaneciam acreditando na ideia de liderança através da violência e da crueldade. Mas, ao menos, eles respeitavam a herança e — mais importante — o trabalho que Scott fazia há sete anos.

O lugar de herdeiro havia sido concedido a Scott por uma sorte do destino — afinal, ele havia nascido primeiro. Mas sua posição como chefe do clã Callahan fora consolidada através de muito trabalho, dedicação e de enfrentar constantes tentativas de desestabilizar sua liderança.

Mas, desde o último inverno, as coisas começavam a se estabilizar. Sobretudo porque Scott havia conquistado a confiança do povo, coisa que seu pai nunca tivera.

Ele trocou um olhar discreto com Brianna, transmitindo a mensagem de que estavam prontos para o jantar. Ela assentiu e repassou o recado a Moira, que foi à cozinha providenciar para que a comida fosse servida.

Então, os olhos de Scott recaíram sobre Cassandra. Ela bebia de uma taça enquanto observava o salão como um soldado em meio a um campo de batalha.

Não podia culpá-la pela atitude defensiva. Observar o campo e seus ocupantes era uma boa estratégia.

Seus olhares se encontraram. Permaneceram. Scott continuou ouvindo o que o capitão falava, mas algo em sua mente foi silenciado. Ele afrouxou a mão que segurava a taça com força. A tensão das últimas horas tornou-se minimamente suportável.

Cassandra desviou o olhar. Mas a sensação de silenciamento perdurou.

A comida foi servida. Todos ocuparam seus lugares à mesa.

Na cabeceira, Scott tomou a palavra para si:

— Meus senhores e minhas senhoras — disse aos presentes —, antes de começar a refeição, gostaria de erguer um brinde a Eagon, Caleb, Otto e Finn, aqui representado por Moira — ele trocou um olhar com a mulher — em reconhecimento a sua lealdade e dedicação ao clã. Além disso — Scott fez uma pausa, passando os olhos pela mesa e demorando-se em Cassandra —, quero reconhecer a presença de Lady Cassandra Willow — Ele gesticulou com a taça na direção dela — e tornar pública a gratidão do clã pela inestimável ajuda prestada a um dos nossos. Como sabem, o jovem Finn MacNeal sofreu um ferimento sério durante nossa incursão. Não fosse o cuidado de Lady Cassandra, o destino de Finn poderia ser diferente.

Cassandra ignorou a revoada em sua barriga e inclinou a cabeça em reconhecimento quando as pessoas ergueram taças na direção do grupo de homens, em seguida, em sua direção. Sentia o coração acelerado — não apenas pela atenção dos outros, mas pelo modo como Scott a olhava.

Era quase como se ele a desafiasse a assumir uma posição. A permitir-se ser vista e reconhecida naquele lugar.

Ela não sabia se o amaldiçoava ou o agradecia por isso. Inspirando fundo, ela disse:

— Agradeço as palavras, milorde. — Sua voz saiu clara e firme. — Mas eu apenas cumpri meu juramento. Algo que qualquer curandeira faria.

Os olhos cinzentos de Scott adquiriram um brilho diferente. Algo em seu interior borbulhou. Um sorriso provocante surgiu em seus lábios.

— Continua sendo uma sorte que o seu dom tenha cruzado nosso caminho, milady. Serei eternamente grato pelo destino ter me levado até a senhorita.

— O que o trouxe até mim foi um cavalo, Lorde Callahan. — Ela devolveu a provocação com a sua própria.

Risadas soaram na mesa. Declan expressou seu divertimento com uma risada e um tapa na mesa. Brianna arqueou uma sobrancelha, os cantos dos lábios curvando-se. Os irmãos mais novos trocaram um olhar admirado.

Scott e Cassandra permaneceram encarando-se. O sorriso do chefe ampliou-se, divertido e afiado.

— De fato, milady.

— Talvez devesse mudar o nome da sua montaria, irmão. Que tal Dan? É o deus do destino, não é?

— Estou bastante satisfeito com o nome do meu cavalo — Ele acrescentou para Cassandra: — Você o conheceu, milady. Ele é bastante resistente e confiável. Já me acompanhou em muitas cavalgadas.

Ela se lembrou da noite que passara montada no cavalo de pelagem negra. De fato, era um animal confiável e paciente, como o homem que o conduzia. E com quem ela também havia compartilhado uma cavalgada no silêncio da noite.

Cassandra respirou fundo e, buscando algo para fazer com as mãos, bebeu de sua taça de hidromel. Sabia que Scott ainda a observava, mas o assunto morreu quando a comida foi servida.

Ela suspirou, aliviada. As atenções voltaram-se para a refeição, dando início a diversas conversas paralelas.

Sentada entre Brianna e a esposa do capitão com quem Scott conversava mais cedo, Cassandra concentrou-se na carne de cordeiro assada banhada em ervas.

A mulher ao seu lado se chamava Katherine, Lady Katherine Fallon, e emendava um assunto atrás do outro enquanto comiam.

— Faz muito tempo desde que tivemos um curandeiro no castelo — comentou Lady Fallon — O último foi… convidado a se retirar pelo antigo Lorde Callahan.

Cassandra franziu o cenho. A mulher lançou um olhar constrangido na direção de Brianna. Pigarreou.

— O antigo Lorde Callahan — disse Brianna, com uma frieza que fez a mulher se encolher — era um homem bastante temperamental. Ele não aceitou que o homem não teve culpa na morte da antiga senhora do clã.

— Lamento por isso — Cassandra percebeu a mudança no ar, viu a expressão distante de Brianna, e resolveu mudar de assunto — Há quanto tempo vive nas Terras Callahan, Lady Katherine?

— Ah… — A mulher suspirou, satisfeita com o novo rumo da conversa — Faz mais de trinta anos. Eu era uma Kennedy antes de me casar com Lorde Fallon e tinha dezoito anos quando cheguei ao clã Callahan para um baile de inverno. Cheguei junto com a primeira neve e nunca mais fui embora.

Cassandra curvou os lábios.

— Parece uma história cheia de sonhos e romance.

Lady Katherine corou, um vislumbre daquela jovem ainda presente nos olhos marcados pelo tempo.

— Foi mesmo — disse a mulher e contou sobre sua história. Cassandra ouviu, lançando um olhar na direção de Brianna, que retribuiu com uma expressão aliviada.

O jantar prosseguiu.

A certa altura, Eagon, Caleb e Otto, os homens que haviam acompanhado Scott na incursão, revezaram-se em uma recontagem da emboscada que havia resultado no ferimento de Finn.

O relato foi simples, conciso e sem floreios. Mas era evidente o quanto eles estavam insatisfeitos por terem sido surpreendidos sem provocação.

— Sabemos quem foram os autores do ataque? — perguntou Lorde Fallon, marido de Katherine e capitão das tropas do clã.

— Eles não usavam nenhum estandarte — Eagon olhou entre seus companheiros, que confirmaram. Ele lançou um olhar na direção de Scott.

O chefe também assentiu.

— Não havia nada que indicasse um clã específico.

— É comum haver homens errantes vagando pelas estradas — comentou outro oficial das tropas.

Caleb meneou a cabeça.

— Esses homens estavam bem vestidos e pareciam bem alimentados — disse ele. — Além disso, em nenhum momento tentaram nos roubar.

— Seria muita estupidez tentar roubar o chefe do clã — comentou o oficial.

— Homens errantes não ligam para hierarquias e lideranças — comentou Declan. Ele trocou um olhar demorado com Scott. — Embora também não ataquem em estradas conhecidas.

Scott serviu-se de mais carne.

— Especular agora não mudará o ocorrido. — disse, em tom de encerramento.

A conversa tomou outro rumo.

— w —

A noite já caía com força quando os últimos convidados deixaram o grande salão. As vozes haviam se dissipado, ficando apenas o estalar das brasas na lareira e o som abafado dos passos de Moira e das outras criadas recolhendo os últimos utensílios.

Recostado em uma das cadeiras, Scott observava a luz da lareira refletir-se no líquido âmbar em seu copo.

— Ronan não voltou ainda — disse, retomando a conversa que tivera mais cedo com o irmão. O assunto permaneceu em um canto da mente durante todo o jantar. Havia algo na ausência do cunhado que despertava um incômodo sutil, mas persistente.

Declan colocou os pés sobre a mesa e cruzou os braços atrás da cabeça. Ele fechou os olhos, a mente embalada pelo estalar da madeira, o corpo relaxado pelo vinho.

— Como já disse, ele foi resolver um problema nas terras do leste.

— Há quantos dias?

— Foi enviado quatro dias atrás.

— E até agora, nada de mensageiro. — Scott girou o copo na mão, concentrado no movimento lento do líquido. — É tempo demais para resolver uma disputa por demarcação de cercas.

O irmão mais novo abriu um olho, lançando um olhar preguiçoso na direção de Scott.

— Ronan é um desgraçado. Você sabe como ele adora bancar o dissidente quando acha que pode.

Scott nada respondeu, mas o maxilar tenso denunciava sua irritação. Sua relação com o cunhado nunca fora boa e não era segredo para ninguém que Ronan desprezava o clã da esposa.

O fato de que ele perdera espaço dentro do próprio clã ao longo dos anos, por incompetência própria, só tornava as coisas piores. Era fato conhecido que Ronan odiava ter que morar com os Callahan e ter de responder a Scott.

Ele bebeu um gole de hidromel e analisou as chamas baixas na lareira. Estava cansado da longa viagem, mas a mente seguia alerta e cheia de pensamentos. Muitos deles, admitiu com relutância, envolviam Cassandra.

Durante a noite inteira ele a observara. Ela parecia se adaptar com rapidez à nova realidade, conversando com Brianna, respondendo aos gracejos de Declan com bom humor, ignorando olhares especulativos de alguns homens e mulheres, ao mesmo tempo que observava tudo com atenção. Scott percebia que cada olhar, gesto e palavra dela era calculado, mas não de um jeito dissimulado. Ela só era uma mulher que observava e pensava antes de agir. Ao mesmo tempo, ele também vira uma curiosidade genuína lampejar nos olhos dourados.

Queria acreditar que isso seria o suficiente para convencê-la a permanecer no clã. Porém, não sabia se era sensato desejar aquilo.

Os boatos e os sussurros sobre a Viúva Willow começariam a circular muito em breve — se é que já não estavam circulando. O título era uma lenda mesclada à realidade e atravessava toda a extensão daquela parte do território. Em alguns, inspirava respeito; em outros, cautela. Nos mais radicais, um ódio perigoso.

Os mais velhos eram os que estavam habituados às mulheres que carregavam o legado Willow. Lendas de bruxas bondosas e protetoras dos mais necessitados figuravam muitas de suas histórias. Mas havia muitos dos adultos e mais jovens que preferiam acreditar nas versões sobre a magia sombria e maléfica praticada por mulheres com poderes.

Embora a religião do Grande Sete não perseguisse abertamente as pessoas com magia, Scott sabia que ela era uma grande responsável por tais crenças. Uma grande parcela de sacerdotes associava magia a algo maligno em suas pregações.

Ele não podia lutar contra todas as superstições e crenças de seu povo. Muito menos cabia a ele questionar a religião milenar que era parte indissolúvel da história de todos os clãs.

Mas tentaria encontrar um equilíbrio, de modo que isso não se tornasse um problema para Cassandra.

Tinha confiança de que sua autoridade como chefe seria suficiente para garantir a proteção dela. Minimamente.

Ainda assim, ela poderia escolher não ficar e ele não poderia fazer nada para ajudá-la.

E isso, pensou Scott com uma careta para o fogo, era o que estava incomodando. Não conseguia entender por que a permanência de Cassandra o interessava tanto. Nem por que a segurança dela ocupava espaço em sua mente. Seria muito melhor se ela decidisse partir e seus caminhos nunca mais se cruzassem.

Ele se lembrou da visão. Por mais estranho que fosse, por mais explícito que tivesse sido o vislumbre de futuro, a simples ideia de não tê-la mais por perto o preocupava muito mais do que a perspectiva de que ela talvez fosse responsável por sua morte.

Scott cerrou o maxilar. Um homem que pensava em manter a própria assassina por perto no lugar de mandá-la para longe só podia estar delirando.

Era melhor colocar uma noite de sono entre o agora e o amanhã, para ver se seus pensamentos e sentimentos voltariam ao normal.

Scott terminou o hidromel de um só gole e levantou-se.

— Vou me recolher.

Declan abriu os dois olhos dessa vez. Um sorriso maroto surgiu em seus lábios, iluminando os olhos azuis e humorados.

— Sozinho?

Scott franziu o cenho.

— É o que parece.

— Então posso assumir que sua proteção a Lady Cassandra é apenas um ato de bondade?

— Não, não pode — replicou Scott em tom gélido.

O irmão mais novo lutou contra uma risada. Ele ergueu ambas as mãos em rendição.

— Só quis saber. Ela é muito bonita.

Scott repetiu a careta. Bonita, sem dúvida. E absurdamente complicada. Ele não compreendia por que essa combinação o atraía tanto.

— Boa noite, Declan. — Ele deixou o salão em meio à risada do irmão. Era um som irritante, implicante e… reconfortante.

Significava lar.

Scott subiu as escadas para os próprios aposentos pensando que, apesar de tudo, era bom estar de volta.

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