Parte V Vida e Amor Sonetados · Capítulo 5 de 7
Obra Menu

Parte V

ALADOS PARA AMAR

“As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”,

E se pudéssemos entender as aves?

Este soneto destrinça os entraves

E é uma jura de amor de um sabiá:

“Com o abraço das tuas asas aprendi a voar,

As léguas do céu são medidas suaves

Que nem o mais grave dos graves

Dos impasses me pode aporrinhar.

Enquanto aos homens faltam estrídulos,

A nós não e nem os estímulos

Para a poesia com nosso trinar.

Drapejou o Criador em nossa envergadura

Uma surpresa plumada, uma investidura...

Fez-nos aptos e dípteros para amar”.

SONETO DO ARREPENDIDO

Vieste com os braços estendidos

Como do novo dia da luz o raio

E eu frente aos teus risos emitidos

Saí pelas bandas de soslaio.

Encontraste-me de frontispício enrubescido;

Mais fugidio que um lacaio,

Que te viu e quedou embevecido

E saí, porém hoje não mais saio.

Esquivei-me de ti e não do arrependimento

De te ver e não cair no teu abraço

Quando o tempo criou nosso espaço.

E já que o tempo é fruto dum giro lento,

Estava a saudade do meu peito

Com teu abraço que hoje não rejeito.

A NOTA FLÁ

Não me deram o poder de um maestro

De dizer o que é possível ou não,

De impor por capricho ou sestro

O que muda a teoria da canção.

Por exemplo, aquele Tom, pianista destro,

Fez um samba com o Ré na solidão;

Frustradas as outras notas então sequestro

O Fá pra lhe dar nova denominação.

Não e por arranjo nem mera substituição

Que tomei uma nota para minha custódia

E inseri ditoso em minha prosódia.

Que saibam os músicos de plantão

Que Flá é a quarta nota do violão, do trombone...

E esse Flá é um brinde a Flávia Morôni.

PORTAIS DA ALMA

Ouço dizer, minha amada,

Que os olhos são da alma os portais

E se nos vemos com a vista igualada

É que portamos almas iguais.

É a mesma batida enamorada

De corações frementes e divinais.

Vida a vida equiparada,

Não dá outra, somos iguais.

Não são só os olhos que são idênticos,

Não, não, meu amor; é muito mais.

São olhos mostrando que temos almas iguais.

Tenho certeza de minha escolha num mundo cético,

Sou o que toma a decisão e não teme-a,

Porque vi-te com iguais olhos nossa’lma gêmea.

SONETO POLÍTICO?

Já que anda mal o parlamento

E não se vê respeito no congresso,

Vejo ainda uma chance de sucesso

Que visa à mudança de comportamento.

Essa luz enternece e dá alento

Sem contar o concreto e real progresso;

Não faz promessa em excesso

E não fornece espaço ao sofrimento.

Vejo o mandato que não é fatídico

E que revolucionará o meio político,

Esmerilhando esse cenário.

Pois em meio a tantos partidos,

Seremos diferentes, seremos unidos,

Unidos no mesmo grupo partidário.

AMO-TE EPELO AMOR

Amo-te pela razão imperscrutável

Do amor, razão a qual sem resposta,

Só sei que meu gênio do teu gosta

E se sente pacato e confortável.

Amo-te pela pessoa que és, incomparável,

A mim bem mais semelhante que oposta,

Alguém em quem meu coração recosta,

Guarida pacífica e agradável.

Amo-te pelo fim único do amor,

Mas, meu amor, amo-te por quem és:

Genuína, insofismável, e sem revés.

Tenha ciência que este é maior amor

Visto cá entre os seres humanos.

Por ti e pelo amor é que te amo.

UM SONHO E DOIS SONHADORES

Metade foi sonho, metade enigma,

O roteiro faltoso em totalidade

Faz o sonho parecer veleidade

E se prende ao sujeito feito estigma.

A ação de sonhar que é tão digna

Deixou-me o ar interrogativo e de saudade,

Pois eu queria o rosto do sonho e a realidade,

Enfim, a ação do sonho tão benigna.

No meu imo, busquei por uma resposta

Para a narrativa decomposta

Das aventuras soníferas anteriores.

A outra metade também alvejada

Ficou para alguém descobrir, intrigada,

Como que um sonho liga dois sonhadores.

NA BEIRA DO CONTINENTE

Vês, amor, a linha que contorna o mapa

É transposta agora pela gente;

O mar que a Terra encaçapa

Tem-nos como amigo recente.

Acontece que o sol não tapa

Todo o seu aparato de raios candentes,

É o prêmio por sairmos do mapa

E dividirmos o mar com o continente.

É muito mais que banho de praia

Tradicional com um monte de alfaia,

É estender nosso domínio pelo Atlântico.

É passear pela aquática do globo

E ter o rosto corado de sol e de bobo

Quando escrevemos um poema romântico.

A TUA PRAÇA

Com o teu parecer positivo,

Eu interpelo prefeitos e cardeais

E arrogo a praça para nosso cultivo.

A praça que quiseres, meu bem, tu terás.

Tal como fez aquele que, vivo,

Pôs na rua ladrilhos e cristais;

Tu terás, anjo, em exclusivo

Mais que a amada de Vinícius de Moraes.

Pois terás adro, praça, fontes...

Para nós fitarmos os horizontes,

Dize tão somente à praça que desejas.

E ali leremos as lindas histórias

Enquanto a cidade tem em tua memória

Local que reservas, preservas e verdejas.

SONETO DA UNIFICAÇÃO

À iminência de elevar-se à unicidade,

A mente indaga uma coisa ao coração,

Pergunta quanto por cento da minha personalidade

Já é produto de nossa união.

Se os trejeitos e a sagacidade

Eu já os tinha do berço a concessão

Ou se parte do que sou é novidade

De criar contigo a nossa comunhão.

Para quem já possuía alma gêmea,

A convivência faz macho e fêmea

Serem um em tudo, em muito, em tanto.

Por detrás de defeitos e hábitos,

O amor gigante faz-nos aptos

A perpetuar da vida o encanto.

A MULHER AMADA É O IDEAL

A mulher que amo não idealizo,

Ela por si só é o meu ideal,

Não exijo nada em si, seu sorriso...

Quero-a como ela é, natural.

A mulher amada eu humanizo,

Faço-o por ela ser tão transcendental

E olha que digo que não a idealizo,

É que ela em si é o meu ideal.

É a bandeira que se levanta,

É a corrente que se segue,

É ideologia, questão de princípios.

É a causa que se agiganta

De forma que não se negue,

Mais forte que nações e municípios.

VELOCIDADE DA LUZ II

A lampeira menina de cabelos trêmulos

Deixara no caminho rastos de riso,

Fossem manhãs, fossem crepúsculos

Ela saía a pedalar de improviso.

Não viram tão hábeis pés os pedais

Até estribarem o da menina engraçada

E ainda que desse volta nos mesmos locais,

Eu parava em cada canto da pedalada.

Voltei-me à menina que dava volteios.

“Segura minha mão ao soltares os freios”,

Pensei em dizê-la, quando ela na bicicleta.

Em seu trajeto espirituoso e elegante,

Eu de mirá-la que ficava estonteante,

Desde aí ganhou a menina um poeta.

UM DIA DE SAUDADE

Em um dia sofri de saudade

Mais que os poetas sofreram em decênios,

Mais que a quantidade no ar de oxigênio,

Mais que a população de nossa cidade.

Em um dia sofri de saudade

Mais que os conflitos do mundo em milênios,

E que pacientes atendidos sem convênio,

Mais que os operários em minas de jade.

Foi o dia em que Cronos esteve vacante,

Foi o dia que saí do equilíbrio constante

Ensinado por eremitas e monges.

A saudade me agitou com violência

E o lento tempo bradou com persistência

Que estavas de mim muito longe.

DOÇURA

Se alguém, por seres melíflua, diz,

Querendo encomiar, que és doce;

Outra coisa na verdade quis,

Mas o seu falar limitou-se.

O panegírico que seria mais feliz

Por mais ousado que fosse,

Era admitir, como eu fiz

Que és a doçura e não um doce.

És fonte ilimitada de pólen,

Que por mais que a isolem,

Sempre será a fonte e não a feitura.

Assim és, minha cara,

Cuja meiguice qualquer um repara

Que não és um doce, és a doçura.

1/1
Menu

Fazer anotação