Parte I Vida e Amor Sonetados · Capítulo 1 de 7
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Parte I

O ABRAÇO DE NUVENS E PLUMAS

O abraço dela é deitar nas nuvens,

O abraço dela é deitar em plumas.

Bem-aventurado o que tem alguém

Pra suavizar da vida as escumas.

Devolvo-lhe fidelidade de pajem,

Porque igual a ela vi pessoa alguma.

O abraço dela é deitar em nuvens,

O abraço dela é deitar em plumas.

Meus membros e músculos assumem

Que um abraço de deitar nas nuvens

É o abraço dela e o de mais nenhuma.

Meus olhos vazantes de tristeza confirmam

Que contra as dores que acaso me oprimam,

Vou ao seu abraço que é deitar em plumas.

SONETO PARA ASSANHAR OS CABELOS

O vento queria levar teus cabelos,

E em baforadas impetuosas,

Empurrava tuas bochechas rosas

Como o beduíno os camelos.

Eram rajadas que vinham em atropelos,

Cada uma com um cacho de melenas sedosas,

Se aproveitavam que tu és generosa

Por bem antes deixar-me assanhar-te os cabelos.

Teus cabelos tremulantes qual bandeira,

Eram o símbolo da menina fagueira,

A menina a quem até o vento deseja.

E eu brigava com ele com vigor régio,

Pois a mim que foi dado o privilégio

De assanhar-te os cabelos, minha Cereja.

IL PRIMO BACIO

A alavanca do amor, a intrepidez,

Deu à nossa despedida mais magia

E num ímpeto de ventura e ousadia

Beirava distante de nós a timidez.

Passo a passo o abraço se fez

E minha mão à tua mão se unia

E aceitaste o meu beijo com alegria

Porque o retribuíste mais uma vez.

As testemunhas da rua lusitana,

Naquela noite de fim de semana,

Chegavam depois da apoteose ocorrida.

Eu pirava até o meu domicílio,

Repetia a frase com ênfase e brilho:

“Ganhei o beijo que será pra toda a vida”.

BEIJO PERFUMADO

Acaso é algum dos teus costumes

Transformar teus beijos em fragrâncias?

Quero todos com delicada ânsia,

Quero todas as matizes de perfumes.

Como fazes isso tu me assumes?

Porque teu ósculo puro como infância

Cravou em mim tua elegância

E a lembrança cheirosa dos teus lumes.

Perfumaste-me os lábios num beijo

E aspiro, inalo, farejo

As memórias de obras anteriores.

Teu olor veio além permanecer

Com o teu jeito autêntico de fazer

Que num beijo residam flores.

FLAVORITISMO

Amo-te com poesia, mas não só, com teoria.

E se as teorias constituem-se de conjeturas,

A minha é composta com planura

E dou-te autenticidade e autoria.

Como é que se ama com teoria?

Como é que não se ama? A questão perdura,

Pois aquele que ama, por ternura,

Em tudo vê a amada luzidia.

Eu te vejo nas artes e nas ciências

E és e estás à frente das tendências,

Assim prefiro-te numa contagem temporal infinita.

O Flavoritismo é a minha teoria.

Acredito que tudo que a alma sacia

É ter-te como amada, Flavorita.

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