24 de janeiro de 1928 Cartas de amor a Heloísa · Capítulo 4 de 7
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24 de janeiro de 1928

Minha querida noiva: Duas cartas e um retrato no mesmo dia deram-me, naturalmente, a tentação de abraçar a empregada do correio. Não havia perigo: é uma senhora respeitável.

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Romântico! É exato, creio que me tornei romântico. Pior: tornei-me piegas, idiota. As minhas duas primeiras cartas são efetivamente um primor de maluquice. Entretanto, refletindo bem, reconhecerás que não tens razão. O estilo é pulha, com efeito, mas na essência tudo aquilo é verdadeiro. Realmente, que há de estranho em que um individuo ame com ternura, com saudade, com indignação e com ódio? Ficaste espantada! Pois eu me espantaria se te pudesse amar de maneira diferente. Quererias que, tendo motivo para indignar-me, para odiar-te às vezes, todos os meus sentimentos ruins desaparecessem por milagre e eu me transformasse num santo? Não me transformo, felizmente. Sabes o que acontece? É que novos hóspedes de minha alma brigam com os que já lá estavam alojados: surgem contendas medonhas, a policia não intervém – e aparecem cartas como as que te escrevi.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

A vinte e quatro de dezembro eu julgava que te chamavas Ana Leite, a sete de janeiro era teu noivo. Julgas que perguntei a alguém se tinhas habilidades, se tocavas piano, se fazias flores de parafina? Não perguntei nada. Minha loucura revelou-me tudo de pronto, e acredito que ela não me haja enganado.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Passa de meia-noite, meu amor, e isto não é carta: é romance. Há quase três horas que te escrevo! Como terás coragem de ler semelhante estopada! Pobrezinha!

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Ponho toda a ternura de que sou capaz em beijar-te o retrato. Teu. Graciliano. Palmeira, 24 de janeiro de 1928.

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