31 de janeiro de 1928 Cartas de amor a Heloísa · Capítulo 5 de 7
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31 de janeiro de 1928

Meu amor: Tenho passado uns dias inquieto, muito inquieto, e algumas vezes a inquietação se transforma em angústia. Que há? Causei-te algum desgosto? Esperei notícias tuas quinta-feira passada. Nenhuma linha – e isto aqui se foi tornando insípido e deserto.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Tenho a impressão de que há em redor de mim um desmoronamento, não encontro firmeza em nada, o próprio solo em que piso é traiçoeiro e cheio de perigos.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Restava-me a certeza de que o correio de hoje me traria cartas. Nada! Uma semana sem falar contigo!

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Mandei-te légua e meia de papel coberto de letra miúda. Talvez tenhas dito: – “Deixá-lo! Uma folha a mais ou uma folha a menos, não tira nem põe. Sempre quero ver se aquele pobre-diabo resiste sem receber resposta.” Resisto mal, muito mal.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Que te custa garatujar meia dúzia de períodos a lápis e metê-los num envelope? Achas razoável que eu passe horas da noite relendo as três folhas que me mandate e que sei de cor? É necessário que me mandes outras. Que avareza!

[Lacuna ou continuidade por conferir]

E desde que te vi (que horror, Deus do Céu!) meti os pés pelas mãos e foi aquela chusma de disparates que bem conheces.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Escreve-me aí qualquer coisa, meu amor. Se te faltar assunto, se não houver em tua alma uma pequenina parcela de afeição para mim, manda-me dizer o romance que estás lendo, a cor da roupa que vestes, o enredo da última fita a que assististe.

[Lacuna ou continuidade por conferir]

Perguntas-me que me fizeram teus olhos. Transtornaram-me, é claro. Mas a ti fizeram coisa pior: enganaram-te. Não te serviram para ver-me. Foi a tua loucura que me viu, essa loucura que poderá chamar-se imaginação, loucura que povoa os céus, embeleza a terra e, aplicada aos seres infinitamente pequenos, faz que se modifique e tome forma apreciável um pobre diabo como eu.

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