8 de fevereiro de 1928
Minha idolatrada noiva: Acredita que não estou hoje contigo porque me foi impossível, inteiramente impossível, realizar a viagem domingo. Isto por aqui está em festa, mas, como podes imaginar, eu trocaria de boa vontade todas as festas do mundo pelo prazer de me encontrar junto de ti.
Tenho observado nestes últimos tempos um fenômeno estranho: as mulheres morreram. Creio que houve epidemia entre elas. Depois de dezembro foram desaparecendo, desaparecendo, e agora não há nenhuma. Vejo, é verdade, pessoas vestidas de saias pelas ruas, mas tenho a certeza de que não são mulheres. Esta observação vai como resposta à censura que me fazes de viver a ‘pensar meninices’. Quero ver se ainda me vais acusar depois de uma declaração tão importante. Morreram todas. E aí está explicada a razão por que tenho tanto apego à única sobrevivente.
A angústia acabou-se depois da tua penúltima carta. Sinto-me quase tranquilo. [...] Santo Deus! Então declaras que procedeste friamente, pesando tudo, e que para manter a palavra dada não retrocedes? Não fales assim. Ou fala, meu amor, se quiseres. Não tens culpa. A culpa é minha, que sou um sujeito de sensibilidade exagerada: coisas ditas inocentemente às vezes magoam-me. Amo-te tanto...
Felizmente, para afastar a impressão desagradável que recebi, há linhas deliciosas em tua carta. ‘Nada de desconfianças’! ordenas. E eu te acho encantadora assim. Estou a ver-te de rosto carregado, o dedinho erguido, a ameaçar-me. Eu recordo a manhã em que me vieste dizer: - ‘Quero que vá!’. Aliás nesse dia a ordem foi dada em voz trêmula, tinhas as mãos frias, a fortaleza dos nervos traiu-te desastradamente. Logo vi que eras autoritária, e isto me seduz, porque não gosto dos indivíduos servis.
[...]
Adeus, minha noivinha amada. Estou a repetir-te as palavras. Até que enfim, pela primeira vez, foste humana, foste mulher. Decididamente as tuas últimas cartas, com exceção de duas linhas detestáveis, vieram do céu.
Adeus, minha santa.
Lembrança a todos,
Especialmente à Dindinha. Como vão os cabelos dela? Teu Graciliano.
Quarta-feira, 08.2.1928.
[Fragmento avulso; posição por conferir]
Consideras-te rival da prefeitura, minha filha? Que lembrança! Há apenas entre mim e ela uma ligação precária, por três anos, mas se achas a ligação indecente, desmancho tudo e mando-a pentear macacos.