Capítulo 3 Silêncio Vermelho Entre Estrelas e Batidas Aceleradas · Capítulo 3 de 20
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Capítulo 3 Silêncio Vermelho

Os primeiros dias foram uma mistura de engenharia de

emergência e solidão. Luna sempre gostou de estar sozinha

— sozinha com suas ideias, suas ferramentas, sua música. Mas

essa era uma solidão diferente. Silenciosa demais até para o

jazz.

Ela usou partes da cápsula danificada para montar um abrigo

improvisado. Conectou painéis solares, regulou a pressão

interna, montou um cantinho para dormir, outro para

trabalhar, e um pequeno espaço onde podia dançar sozinha

ouvindo Samara Joy em um dos últimos arquivos ainda

funcionais do tablet.

O cronômetro do traje marcava cinco dias desde a queda.

Cinco dias sem qualquer sinal da Odyssey-9.

Cinco dias com Marte parecendo mais um quadro imóvel do

que um planeta vivo.

Até que... alguma coisa mudou.

Na manhã do sexto dia, enquanto coletava amostras de solo

perto de uma cratera, Luna notou algo que não era poeira,

nem pedra, nem paranóia: pegadas. Mas não as dela. Eram

diferentes. Alongadas. Profundas. Simétricas demais.

Ela parou, os olhos fixos nas marcas como se fossem uma

equação impossível.

— Certo… isso definitivamente não fui eu. E se fui, ou estava

muito bêbada, ou sonâmbula com pés de pato.

Seguiu as marcas até uma pedra alta. Lá, elas simplesmente…

sumiam. Nenhum sinal claro de onde vieram ou para onde

foram. Ela tentou ativar o scanner térmico, mas o

equipamento falhou — o que não era tão raro, considerando

o estado do traje e a interferência atmosférica marciana.

Ela olhou ao redor. Silêncio absoluto. Céu âmbar. Vento seco

e lento. Nada, e ao mesmo tempo… tudo.

E então, decidiu: não contar nada para ninguém.

Se alguém — ou alguma coisa — estivesse ali, ela não queria

correr o risco de entregar. Talvez fosse só sua cabeça lidando

com o isolamento. Talvez não. Mas se existia algo mais neste

planeta, ela sentia que sera melhor manter em segredo. Por

enquanto.

Naquela noite, ao deitar-se dentro do abrigo improvisado, ela

olhou para cima e sussurrou:

— Se você estiver aí fora… não precisa se esconder. Eu não

mordo. Só conserto.

E lá fora, na escuridão sutil de Marte, alguém realmente a

ouviu.

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