Capítulo 6 Conversas Improváveis Entre Estrelas e Batidas Aceleradas · Capítulo 6 de 20
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Capítulo 6 Conversas Improváveis

Luna e Alion caminhavam pelo terreno marciano como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo — uma engenheira terráquea e um ser azul, de óculos e leve propensão a tropeços, trocando ideias como colegas de longa data.

O céu em tons queimados projetava sombras longas e alaranjadas no solo, e a conversa entre eles flutuava tão naturalmente quanto a poeira fina sob seus pés.

— Então, me explica isso de novo — disse Luna, tentando conter o riso —, essa sua... mochila viva?

Alion tirou das costas uma estrutura que parecia feita de fibras vegetais entrelaçadas, com pulsações suaves. A coisa parecia respirar.

— É um repositório de vibrações. Armazena frequências, traduz padrões... também faz chá.

— Faz chá?

— De vibração. Relaxa as sinapses.

Luna observou enquanto ele apertava levemente a lateral do objeto. Uma nota musical suave — algo entre harpa e baleia — ecoou no ar.

— Vocês fazem tudo... cantando?

— Quase tudo. Exceto manobras de pouso. Muito arriscado. Preferimos o silêncio.

Ela riu.

— Você sabe, na Terra, a gente chama isso de tecnologia orgânica. Mas aqui, parece... vivo.

— Porque é. Não produzimos. Cultivamos.

Luna tocou a borda do "repositório" e sentiu uma vibração quente percorrer seus dedos.

— Isso explica por que tudo ao seu redor parece saído de um spa alienígena. Agora, sobre essa coisa que você disse mais cedo... “flerte”? O que é exatamente?

Ela piscou.

— Você ouviu essa palavra onde?

— No seu diário de voz. Você disse que “se alguém me encontrar aqui, que seja um alien charmoso que saiba flertar melhor que humanos no Tinder”.

Ela cobriu o rosto.

— Alion! Você ouviu isso?

— Eu tenho bom alcance auditivo. E curiosidade. O que é “Tinder”? E “flertar”? São armas?

— Não, são... são estratégias de acasalamento humanas.

Ele pareceu pensar por um segundo.

— Ah. Ritual de aproximação. Como o “giro de folhas brilhantes” dos Rynox da quarta lua.

— Mais ou menos. Mas, com menos folhas e mais vergonha alheia.

— Você tem vergonha? Agora?

— Não — ela disse, ainda com o rosto meio corado. — Um pouco. Ok. Segue a conversa. Alion sorriu, como se tivesse vencido um jogo interplanetário de lógica emocional.

— Gosto de aprender com você, Luna. Você tem muitas palavras. Algumas confusas. Como “miga sua loka”. É um insulto?

Ela gargalhou.

— Depende do tom. Pode ser afeto. Pode ser alerta. Pode ser os dois ao mesmo tempo.

Ele assentiu lentamente, como quem processava uma equação emocional de 12 linhas.

— Humanos são complexos.

— E vocês são... fascinantes.

Eles se sentaram perto de uma rocha que emitia uma vibração grave e ritmada. Luna percebeu que aquilo também fazia parte dos instrumentos naturais de Alion: uma espécie de banco que se comunicava com o solo, transformando os ventos finos de Marte em música de fundo.

— Isso aqui é tipo sua trilha sonora pessoal?

— Sim. Ambiente, influência pensamento. Música ajuda a sentir melhor.

— Parece poesia.

— Parece você.

Ela olhou para ele. Por um instante, o tempo pareceu suspenso. Não havia resgate. Não havia planeta. Só o som do banco vibrando e os olhos grandes e curiosos daquele ser azul à sua frente.

— Você é bom com palavras, Alion.

— Só as que aprendo com você.

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