Um A PRIORI · Capítulo 2 de 2
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Um

No Time To Die

Bianca acordou antes mesmo de ter consciência daquilo.

Primeiro veio a luz, em um tom de branco agressivo e que fazia seus olhos doerem. Depois, o som: um bip regular, distante e constante como um coração que batia além do dela naquela sala fria. Quando tentou se mover, sentiu seu pescoço ser puxado para trás por um peso invisível que a mantinha presa ao colchão desconfortável da maca.

Piscou.

Não reconheceu o teto.

Não era seu quarto. Não era o lugar em que estivera há sabe-se lá quanto tempo.

Havia um cheiro que não existia fora dali: álcool, plástico e algo metálico. O ar ali era quente demais para ser madrugada, mas gelado demais para ser tarde. Que horas eram? Se perguntou, ainda confusa.

Ela tentou falar, mas nada saiu. Sua boca se abriu, as cordas vocais não quiseram obedecer e produzir sons. Era como se sua voz tivesse sido esquecida no lugar de onde a tiraram.

Um vulto atravessou seu campo de visão. Depois outro. Pessoas passavam sem olhá-la. Sapatos rangiam no chão encerado. Um carrinho de metal bateu contra a parede. Tudo continuava acontecendo apesar dela.

— Bianca Alves?

O nome soou quase estranho sendo falado de longe. Ela virou os olhos e encontrou uma mulher de jaleco, a médica estava parada ao lado de sua cama e segurava uma prancheta. Seu rosto parecia cansado e combinava com o coque malfeito, aquele que denunciava a péssima noite de sono.

— Bianca, você consegue me ouvir?

Bianca piscou uma vez.

— Aperta minha mão se estiver me ouvindo.

Ela tentou, mas a mão não se moveu. Seu corpo parecia não reconhecer seus comandos ou não desejar obedecer suas ordens. A médica anotou algo em sua prancheta, seu olhar mostrava uma preocupação clara.

— Pupilas reativas… — murmurou. — Frequência estável.

Outro vulto se aproximou. Um homem. Uniforme azul. Polícia.

— Ela já acordou?

— Sim, mas não responde verbalmente.

— Pode falar com ela?

A médica respirou fundo.

— Bianca, você sabe onde está?

Silêncio.

— Você lembra do que aconteceu?

O silêncio continuou sepulcral no quarto.

Policial e médica se olharam em silêncio. Dentro da cabeça de Bianca, algo começava a se mover como engrenagens que se encaixavam aos poucos.

Não era uma lembrança inteira. Era um detalhe inútil: uma lâmpada piscando. Não a do hospital — outra. Amarelada. Tremendo como se estivesse cansada de existir.

Depois veio o cheiro de ferro. Não, não era ferro. Ela sabia. Era quente e vivo como sangue. Ela tentou virar o rosto. O corpo não obedeceu.

— O que pode ser? — perguntou o policial.

— Ainda é cedo para dizer e, mesmo que já tivesse um diagnóstico, sabe que não poderia simplesmente passar assim, Soldado Duarte.

O policial voltou a observar a mulher que continuava na mesma posição, parecia ser um objeto quebrado.

— Ela é nossa única possível testemunha. É a única forma que temos para solucionar esse maldito caso, doutora Amaral.

Testemunha.

A palavra atravessou Bianca como uma faca, fazendo com que seu corpo se encolhesse contra a cama de hospital. O quarto pareceu maior ali, a lâmpada voltou a piscar e seu coração se acelerou, o barulho dos aparelhos foi alterado e a médica encarou a mulher com ainda mais preocupação.

Cecília Amaral, a médica responsável pelo plantão, se aproximou da maca e segurou o pulso de Bianca com delicadeza calculada. O monitor apitou mais rápido.

— Calma, Bianca. Você está segura agora — disse, num tom que soava mais como protocolo do que como certeza.

Segura.

Bianca não se sentia segura. Aquela palavra não parecia encontrar apoio em suas paredes internas para se apoiar e lhe dar qualquer tipo de esperança.

Dentro dela, o som da lâmpada voltava a existir ao lado de um estalo seco. Intervalos curtos demais rondavam sua mente. Ruídos arrastados, como algo pesado sendo puxado pelo chão, invadiam sua mente perturbada.

Ela respirou fundo, mas o ar não alcançou os pulmões.

A médica fez um gesto para a enfermeira que entrava.

— Soro. Devagar.

Santiago Duarte, o soldado, cruzou os braços.

— Quanto tempo até que ela fale?

— Não sabemos se ela vai falar — respondeu a doutora, sem olhar para ele. — O corpo entrou em um mecanismo de defesa.

— Defesa contra o quê?

A médica hesitou. Bianca sentiu quando o silêncio ficou diferente, pesado. Ela sabia que era o assunto ali, escutava tudo, só não conseguia se expressar.

— Contra o que ela provavelmente viu ou vivenciou, senhor Duarte.

O policial soltou um riso curto, sem humor.

— Ótimo. Então temos uma testemunha que não pode testemunhar, é isso? — Santiago revirou os olhos e a médica sentiu a vontade latente de lhe atingir com um soco por debochar de tal forma em frente à vítima que se encontrava totalmente indefesa.

A enfermeira, silenciosa como sempre, ajustou o acesso no braço de Bianca. O frio do líquido percorreu sua veia como algo estranho e invasivo. A vítima observou a própria mão imóvel sobre o lençol branco. Aquela mão tinha estado em outro lugar, tocado algo que não existia ali naquele momento.

Um detalhe surgiu sem aviso em sua mente: um sapato caído de lado. Não sabia de quem era, mas tinha a certeza de que não deveria estar assim. Era masculino e social, pertencia a alguém de muito dinheiro ou de profissão que exigia vestimentas formais.

Seu peito se contraiu e o monitor voltou a apitar mais rápido ainda.

— Ela está entrando em crise — disse a enfermeira.

— Bianca, olha pra mim — pediu a médica, aproximando o rosto dela. — Você está aqui. Está viva. Não está mais lá.

Mas “lá” não tinha um endereço, era apenas um galpão escuro com uma pequena e quase inútil luz amarela.

O policial se afastou da cama, partindo em direção à porta com passos firmes, antes de se virar para dizer:

— Quando ela puder falar, quero ser avisado imediatamente.

— Ela não é um interrogatório — respondeu a médica. — É uma paciente.

— Ela é uma chance de resolução.

Ele saiu e o quarto ficou a ser preenchido apenas pelo som das máquinas e da respiração ofegante de Bianca Alves. Ela tentou fechar os olhos, mas percebeu a lâmpada piscar. Estava consciente demais de sua estadia no hospital, do teto branco e nada acolhedor sobre si.

Não se sentia segura.

Uma lágrima escorreu pelo canto do olho sem que ela percebesse quando começara. A enfermeira limpou seu rosto com cuidado.

— Está tudo bem — disse baixinho, embora nada estivesse. Iara D’Ávila sempre havia sido a mais quieta da equipe, a mais paciente e aquela que acalmava os corações inquietos.

Bianca, em seus pensamentos, entendeu algo naquele instante, com uma clareza que não precisava de palavras: ela tinha sido o erro nos planos de um assassino. Era aquilo que havia ficado para trás. Era aquilo que nunca mais teria paz.

Bianca manteve os olhos abertos, encarando o teto branco que não lhe pertencia. O bip das máquinas marcava um tempo que ela não reconhecia mais. Cada segundo era uma lembrança que não conseguia organizar, cada respiração era um esforço para permanecer onde não queria estar.

Ela sobrevivera.

Em algum lugar, alguém acreditava que tinha terminado o trabalho. Bianca era a parte que havia sobrado e o silêncio era tudo o que lhe restava para que continuasse viva.

Precisava se forçar àquilo.

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