Capítulo Dois
03/04 de 2025.
A chuva caia fortemente na pequena cidade, e chegar no trabalho se tornou uma grande aventura. A oficina ficava pouco mais de dez minutos da minha casa, então acabei pegando boa parte da água que caia. Depois de receber algumas encomendas, protegendo as caixas com um casaco que sempre levava na mochila, chego no trabalho e logo vejo meu fiel escudeiro e braço direito (e único funcionário que eu tinha).
— Bom dia — falo ao entrar.
Milko está de pé na frente do carro com o capô aberto — bom dia, chefe — ele sorri e continua seu trabalho.
Coloco a caixa na mesa e pego a prancheta para escrever o que foi entregue — o motor do corsa chegou?
— Ainda não, disseram que vão atrasar a entrega no mínimo dois dias.
— Certo, vamos ter que mudar de fornecedor desse jeito, já é a terceira vez que fazem isso — anoto e vou para a minha sala.
Tiro o casaco colocando estendido na cadeira e a mochila ponho em cima do pequeno sofá ao lado, pego minhas luvas e vou me preparando. Volto para a mecânica e paro ao seu lado.
— Ele não está funcionando, já mexi em tudo.
— A correia foi trocada?
— Claro.
— Dê partida para eu ver.
Milko se direciona até o volante e faz o comando. Observo o carro, “fale comigo” penso. Vou até o painel e a luz de injeção está acessa.
— Catalizador — ele sorri e fala.
— Verifique isso — aponto e toco seu ombro.
Ele afirmou com a cabeça e então vou fazer outras coisas. Durante o almoço, Milko me mostrou o “memes” e vídeos que me enviou e cobrou o fato de eu não olhar. Voltamos para o serviço, como era um HB20, o catalisador geralmente fica localizado próximo ao motor, entre o coletor de escape e o silencioso intermediário. Antes de remover o catalisador antigo, desconectamos os sensores de oxigênio, removendo também as abraçadeiras e parafusos que fixam o catalisador ao escapamento. Em alguns casos é necessário aquecer a peça antes, para facilitar a remoção e foi o que fizemos. Instalamos o novo catalisador no local do antigo, seguindo a ordem inversa da remoção. Certificando de que todas as conexões estevam bem fixadas e que os sensores de oxigênio estevam corretamente conectados. Conectamos novamente os sensores de oxigênio e verificamos o sistema de escapamento quanto a vazamentos e ruídos anormais. Também observamos se a luz de injeção eletrônica apagou, indicando que o sistema está funcionando corretamente.
E mais um dia termina, fecho a oficina e me encaminho para casa, agradecendo o trajeto estar um pouco melhor, já que parou de chover. Depois de chegar, vou logo preparando uma comida rápida: massa instantânea. Daquela de três minutos no fogo. Me sento diante da mesa e como lendo alguns informativos do jornal, já que o celular era apenas para atender os clientes e meu pai, que inclusive havia me ligado diversas vezes. Porém, atender me custaria um pouco da energia social que eu nem tinha.
Não que eu não gostasse de falar com ele ou visitar, mas iria me encher de perguntas para as quais eu não tenho resposta. Como, “Alfredo, porque você não procura namorar um pouco?” ou “quando você vai parar de trabalhar e cuidar da sua vida social?”. Eu não queria ter que reportar para eles que eu sou um fracasso social e humano. Nem mesmo ter que olhar nos seus olhos cheios de pena por eu não ter nenhum tipo de interesse além da minha vida pacata e regrada. Os meus dias correm normais, concerto os carros, pego as peças, volto para casa, como macarrão, me deito e durmo. Isso por vários dias consecutivos. Minha rotina é bem estabelecida e já tem anos que permaneço nela.
Eu sou um homem simples, assisto alguma coisa na televisão, durmo o suficiente para o outro dia estar disposto, como apenas comida de micro-ondas (pelo fato de não saber cozinhar nada), faço alguns exercícios em casa e não costumo sair. Uma vida sem exageros. Não costumo beber, apenas quando vou em algum evento, o que praticamente não acontece. As mulheres não me acham interessante, algumas já até disseram isso durante um encontro que outro e não sou bom de manter uma conversa com ninguém.
Meu único amigo é o Mamouane Milko Philemon, que tinha dois metros de altura, a pele negra retinta e olhos escuros esbugalhados. Alguém com quem eu tinha longas conversas apesar de as suas palavras serem enroladas por ser haitiano, entretanto ele era fluente francês, inglês, italiano. Por viver há treze anos no Brasil, seu português não era perfeito, mas ótimo o suficiente para entender. Ele era um homem muito bonito, com presença e bem-humorado, sempre tirando risadas de quem conversava com ele.
E eu ficava em segundo plano, não que fosse feio, pelo menos nunca disseram isso. Eu até que era apresentável quando jovem, claro, depois dos vinte. Porque era um adolescente cheio de espinhas e meu rosto ficou um pouco manchado, então ainda tinha algumas inseguranças nessa parte. Meu corte de cabelo era o mesmo há alguns anos, curto na máquina três, castanho e escuro e agora com alguns fios brancos. O que me salvava era a barba. Minha pele era um pouco morena, talvez menos por nunca pegar um sol e isso era minha reflexão quando olhava no espelho e não enxergava nada demais. Algumas vezes escutava ser um homem de beleza mediana, o que não me incomodava. Tentei tomar coragem para me tatuar algumas vezes, mas nunca fiz de fato por medo de me arrepender um dia. E mesmo com alguns exercícios, meu corpo não era malhado, longe disso, a “pochete” existia, mas não me interessava tirar ela ou me esforçar para fazer sumir.
E quando me deitei na cama, pensei em como estaria Jéssica, não pensava muito nela, mas naquele momento me veio à mente. Já fazia dezesseis anos que não nos víamos, nunca mais soube notícias suas e isso anuviou minha mente por alguns minutos até eu pegar no sono.
Chego mais cedo na oficina. Preparo algumas coisas para poder trocar um carburador, depois que começo, me sujo de óleo e decido fazer uma pausa para tomar um café. Meu pai me liga mais uma vez, mas decido ignorar e atender em outro momento. Uma mensagem de Joca aparece nas notificações, dizendo para que eu parasse de desligar o telefone e falasse com a minha família.
Respondo gentilmente dizendo que faria quando pudesse. E como resposta, ele manda uma figurinha debochada e malcriada.
Retorno para o carro que eu mexia antes do café, olhando algumas peças e depois para fora, percebendo o sol que fazia mesmo depois da chuva intensa do dia anterior. Do lado de fora, um garoto parado na frente e olhando para dentro da oficina. Ele estava apenas lá, com uma mochila nas costas, boné virado para trás, um casaco vermelho e fones de ouvido.
Me lembrou quando era adolescente.
Volto minha atenção para o carro e permaneço fazendo meu trabalho, mais de duas horas depois e o garoto está ainda lá, comendo um cachorro-quente e ainda olhando. Penso que ele estava perdido ou procurando pelos pais, como um ponto de encontro.
Meu celular toca e eu vejo o nome do meu pai, resolvo finalmente atender.
— Fala, pai.
— Fredo — ele diz com carinho — é tão difícil assim atender? Esqueceu do seu velho?
— Nunca, apenas estou atolado de trabalho — continuo a mexer no carro — precisa de algo?
— Não — o outro lado fica mudo.
— Pai?
— Bem, sim — ele diz finalmente — meu carro parou de funcionar.
Dou uma risada — e você que foi mecânico por mais de 30 anos, não sabe arrumar?
— As peças são modernas demais para meu cérebro velho.
— Está bem — olho para frente e o garoto saiu de lá — eu passo aí no fim de semana.
— Pode ser amanhã?
— Sexta? — olho o calendário e noto o dia, entendo o porquê dá insistência, hesito, mas aceito — certo. Depois do trabalho passo aí.
— Obrigado, Fredo. Vou deixar você fazer seu trabalho. Suzana e eu te esperamos.
— Está bem, mande um abraço para ela.
— Pode deixar, até meu filho.
— Até — desligo.
Suzana, minha madrasta desde os dez anos de idade. Sempre carinhosa e amigável. Quando eles se casaram, Angélica já tinha um ano a mais que eu. Alguns anos após sua partida, eles foram a sua formatura, felizes por ela se tornar uma nutricionista e realizados por não ficar presa na cidade pequena em que vivemos.
Olho para o carro e lembro de alguns momentos juntos, algo que não pensava há quase vinte anos. Nós brincávamos bastante quando crianças e quando começamos a “namorar” tiramos nossas virgindades. Era engraço lembrar, porque foi estranho, nenhum sabia o que fazer e mesmo tentando mais umas duas vezes, não conseguimos sentir que estávamos fazendo certo. Não sabíamos separar o fato de nossos pais terem casado. Eu tinha vinte anos quando aconteceu a primeira vez, nunca fui muito popular com as garotas. Ou comunicativo. E meu pai gostava de cortar meu cabelo no estilo “general de quartel”, apesar de ele ser liso e ter uma quantidade excessiva e isso não ajudava muito.
Eu não tinha habilidades, nunca cantei bem, nem tocava instrumentos. No esporte era uma negação. A única coisa que não fazia mal, era desenhar, o que perdi o jeito por falta de prática. Gostava de estudar, mas não era “CDF”, então, fui uma sucessão de fracassos sociais.
Quando Milko liga o carro, fico encharcado de gasolina, por estar segurando o cabo que devia ter conectado antes — PARA, PARA, DESLIGA — grito.
Ele o faz.
— Foi mal, chefe — fala pela janela.
— Droga — vejo o estrago.
Ele chega perto — estamos com o chuveiro estragado.
— Não brinca — o encaro — quem era para ter trocado?
— Eu, mas você ficou de comprar um novo.
Dou uma risada lembrando que falei exatamente isso — verdade. Você segura as pontas aqui, passo em casa para me trocar e volto em seguida.
— Pode deixar.
— E limpa essa bagunça.
— Você quem fez, chefe — ele ri.
Caminho para minha sala — está demitido, Milko.
— Aí o senhor não teria mais ninguém para trabalhar.
Coloco a mochila nas costas — volto logo — falo passando por ele.
Sigo o caminho de casa e fecho a jaqueta para ninguém perceber, mas pelos olhares, me sentia como se tivesse mijado nas calças.
— Alfredo! — grita uma voz conhecida.
Olho para trás e Tiago do mercado está correndo na minha direção.
— Opa — falo tentando colocar a mochila na frente.
— Olha — ele tira um papel do bolso, o jovem parecia animado — vou ser o primeiro da minha família a cursar uma faculdade.
Pego o papel e olho o que estava escrito — nossa, meus parabéns, engenharia?
— Sim, na universidade de São Paulo, na federal.
Ele dá pulos alegres — isso é realmente muito bom.
— Claro que entrei nas cotas raciais — ele coça o cabelo afro volumoso — mas o importante é que vou me formar.
— É uma grande conquista, Tiago. Você tem um futuro brilhante pela frente. E vai servir de exemplo pra suas irmãs.
Ele sorri e me encara — o que houve com você?
— Ah, um acidente de trabalho, nada que já não tenha acontecido antes — devolvo o papel para ele — eu tenho que ir, mas saiba que estou muito feliz por você. Mande um abraço para sua mãe.
— Pode deixar.
Eu sorrio para ele e dou as costas. Tiago era o filho mais velho da Dona Graça. Tinha mais duas irmãs, Julia de dez anos e Maria Clara de seis. O pai havia falecido há dois anos e eles passavam algumas dificuldades, mas maioria dos vizinhos ajudavam. Saber da conquista dele era muito importante, um garoto esforçado e que merecia vencer.
Entro no meu prédio fazendo um sinal com a cabeça para o porteiro e depois vou para o apartamento olhando se nenhum vizinho apareceria. Jogo tudo no sofá e sigo para o chuveiro e me lavo com força em uma água escaldante para sair o óleo.
Depois a roupa suja coloco de molho com um pouco de sabão líquido e bicabornato. Deveria lavar na mão, mas deixo para mais tarde, quando voltasse da oficina. Enquanto eu termino de me arrumar, a campainha toca.
Era estranho já que ninguém me visitava, muito menos nesse horário. Abro a porta e tenho uma surpresa, ficando espantado. Fico mudo apenas olhando o garoto que estava na frente da oficina.
— Ah, posso ajudar? Está perdido?
— Não estou. Na verdade, você é o Alfredo Casagrande?
Olho em volta, ninguém no corredor — está sozinho?
— Sim.
— É muito novo para ser oficial de justiça.
Ele ri — posso entrar?
— Olha garoto, eu não sei que educação seus pais te deram, mas não é muito seguro você andar batendo na porta de estranhos pedindo para entrar?
— Você não é um estranho, é o meu pai.
Tudo fica silencioso por alguns segundos — pa-pa-pai?