Capítulo Quatro
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Ele tinha poucas coisas na mochila, não parecia que iria ficar três semanas ou talvez não gostasse de trocar de roupa. No entanto, deu para achar uma camiseta limpa e isso já bastava. Chegamos na casa do meu pai depois de um caminho que pareceu mais longo que o normal. Ele usava o celular para caçar Pokémons no celular.
— Onde estamos? — perguntou quando paramos.
— Na casa do meu pai — falo olhando para o jardim bem cuidado.
— Vou conhecer meu avô? Legal.
— Certo, algumas ponderações antes de entrar — ele me olha — eu não sabia da sua existência, logo ninguém aqui também. Você tem um tio, um pouco mais novo que eu e gay.
Ele franziu a testa — qual a relevância disso?
— Não sei, não te conheço e seus avós são religiosos.
— Beleza, bom argumento.
— Mais uma coisa, em hipótese alguma você aceita jogar xadrez com o meu pai, isso leva horas e não estou a fim de voltar tarde.
— Certo, você quem manda.
— Pronto?
— Posso só falar uma coisa?
— Pode.
— Por um acaso, você se olhou no espelho antes de sair?
— Acho que sim, por quê?
— A sua calça ta rasgada na frente e ta aparecendo sua cueca.
Olho para baixo com certo desespero e nesse momento ele passa o dedo do meu peito ao meu nariz.
— Otário — começa a rir.
Respiro fundo e dou as costas.
— Eu tava brincando!
Paro na porta e não consigo tocar a campainha. Minha mão apenas não se mexia. Estava nervoso e respirava fundo. Júpiter se aproxima e fica esperando ao meu lado, ele me olha algumas vezes e faz algumas caras e bocas.
— O que foi?
— Estou tomando coragem — eu falo.
Ele revira os olhos — pelo amor de Deus, é só tocar — ele aperta o botão.
Agora estava feito e isso me deixa mais nervoso. A mulher baixa, com olhos redondos, cabelo crespo e volumoso vermelho, abre a porta e sorri ao me ver.
— Ah, meu Fredolino — ela diz alto e rindo.
Enquanto me abraça, Júpiter sussurra meu apelido rindo, colocando a mão no rosto para se recompor. Ela me solta e nos encara.
— Oi, Suzana — falo envergonhado.
— Quanto tempo, você não vem nos visitar já faz semanas — ela olha para o garoto — e quem é esse menino bonito?
— Bem...
— Vem, me fala lá dentro, estou com o bolo no forno — ela me interrompe e nos puxa para dentro — ADVINHA QUEM CHEGOU — berra em nossos ouvidos. Sua voz era fina e escandalosa.
— Freddy? — meu pai pergunta da cozinha.
Ele aparece da cozinha e caminha em minha direção, me abraçando — meu garoto — fala rindo — achei que iria não viria.
— Bem, eu...
— Ele trouxe alguém — Suzana me interrompe novamente.
— Olá — Júpiter diz sorrindo.
Meu pai me solta e observa o garoto — olhe, parece com você.
— Bem, aparentemente, ele é, meu filho — falo pausadamente e sem acreditar que estava dizendo.
Depois de alguns segundos em completo silencio meu pai gargalha — sempre com senso de humor terrível — dá um tapa no meu braço.
Eu começo a rir de nervoso.
— Naldo — Suzana fala — acho que ele está falando sério.
Meu pai vai parando de rir aos poucos.
— Lembra da Jéssica? — eu pergunto.
— Mas, como?
— Bem, quando dois adultos são férteis e transam...
— Quieto — interrompo o garoto.
— Quantos anos você tem?
— Dezesseis.
— Meu Deus, Fredo — ele chega perto e abraça o garoto — um neto. Que felicidade.
Suzana começa a chorar e os abraça. Júpiter me olha rindo.
— Eu só soube, bem, literalmente ontem — falo.
— Mas como ela guardou isso da gente? — meu pai o solta — como ela teve coragem? Aquela cretin...
— Ei — falo o impedindo de continuar.
— Desculpa, garoto...
— Júpiter — ele fala — tudo bem.
— Vamos, entrem, entrem — meu pai o foi puxando — estávamos prontos para começar uma partida de xadrez, você gosta?
— Não — respondo.
— Sim, sou ótimo — o garoto ri.
— Júpiter — falo entre dentes e ele me olha — não — faço alguns sinais com a mão.
— Quer jogar?
— Claro — ele vira o boné para trás, tal ao Ash antes de uma batalha Pokémon.
Respiro fundo e percebo que será um longo dia.
Enquanto eles faziam uma eterna partida de xadrez, observo a casa onde cresci. Com exceção de alguns aparelhos domésticos, estava tudo igual. Até a mesma cortina verde musgo horrível atras do sofá.
— Vocês ainda usam essa cortina? — pergunto franzindo a testa.
— Foi a cortina que seu pai me deu de presente de casamento — Suzana diz servindo uma vasilha de biscoito amanteigados — é o símbolo do nosso amor.
Dou um sorriso — ta certo. E o Joca?
— Deve estar chegando daqui a pouco, ele não acreditou que você viria, então liguei a pouco para ele e contei a novidade. Ah, querido, nem perguntei se tinha problemas contar.
— Não — falo acalmando-a — acho até melhor.
— Xeque-mate — Júpiter diz.
— Muito bom — meu pai ri — ele é melhor que você, Freddy.
— Deixe o menino comer, Naldo — Suzana chega perto e o puxa, entregando um pouco de biscoito.
Ele começa a comer e parece aprovar.
— Então, Júpiter — meu pai vai até o meu lado — você sabia que seu pai está fazendo quarenta anos hoje?
— Hoje? Sabia não.
— Pois é, ele nos visita pouco e só veio por causa de você, porque geralmente não gosta de aniversários.
— Não é bem isso — eu falo.
A porta da sala abre — cadê o meu irmãozão? — Joca diz entrando rapidamente — olha só — encara o garoto — quem diria que você faria uma criança tão bonita. E aí, Júpiter, sou seu tio, João Carlos — ele o abraça — mas me chama de Joca.
— Ah, Joca — o garoto retribui o abraço e sorri para mim.
— Só você para fazer seu pai sair da toca — ele o solta e caminha até mim, me dando um abraço e um beijo na bochecha. Volta para ele — você é igual seu pai, só que sem espinhas.
— Ah, obrigado por me lembrar.
— A minha mãe falou que ele era todo manchado e que mesmo assim gostou dele.
— Obrigado — fico cabisbaixo — muito bom saber o que ela pensava.
— Por isso começamos um tratamento cedo para eu não ter tanta espinha, já que dizem que é genético e não queria ser zoado na escola.
— Garoto esperto — Joca sorri e olha seu labrador entrar na casa — Júpiter esse é o Zayn.
O garoto sorri em uma felicidade transbordante — que nome legal.
— É de um dos cantores do One Direction — eu falo.
— Não conheço não.
Joca coloca a mão no peito e me olha — foi como uma faca no meu coração.
— Ele tem dezesseis anos, não deve conhecer nada antes de 2015. Bem-vindo a nova geração — dou dois tapas nas suas costas.
— Posso brincar com ele lá fora?
— Pode sim, se conseguir um graveto e jogar, ele adora buscar.
— Valeu, tio Joca — Júpiter fala saindo com o labrador.
Meu irmão me olha sorrindo — tio Joca, que fofo, nem parece seu.
— Pois é, eu também acho.
— Caramba, eu achei que o meu presente de aniversário seria o melhor e você me vem com essa.
— Sinceramente, eu estou apavorado.
— Qual é, Fredolino. Ele é só um adolescente — Joca me zomba ao falar o apelido.
— Eu nem sei se realmente sou o pai dele. Só tenho uma carta da Jéssica como prova — falo tirando do bolso e entregando para ele — mas não tive coragem de pedir um exame de DNA.
— Para que exame? — meu pai questiona — ele é a sua cara quando tinha essa idade.
— É, mas pode ser que a gente esteja vendo isso porque estamos impactados, não?
— Não exagera, Alfredo — Joca me devolve a carta — ela não mentiria sobre isso e pelo visto nem queria que você soubesse. Só achei estranho ela não falar pessoalmente.
Fico sério — é aí que piora, ele disse que ela faleceu a um ano.
— O que? — meu pai fica chocado — coitadinho...
— Olha — interrompo — fiquei muito triste com a notícia, de verdade. Ela era uma pessoa muito boa, a gente teve uns problemas, mesmo assim, nunca desejaria algo ruim para ela. Só que, eu não sei no que acreditar.
— Fredo — Suzana chega perto — esse garoto lindo apareceu para você como um presente, deve aceitar.
— É uma pessoa. Eu não sei cuidar nem das minhas plantas, o que vou fazer com ele?
— Quanto tempo ele vai ficar? — meu pai pergunta.
— Três semanas, até os avós dele voltarem de um seminário ou sei lá o que. Por isso, pensei que nada melhor que ele ficar aqui até eu conseguir descobrir algo sobre o paradeiro deles.
— Aqui? Mas, meu filho...
— Qual é pai, quais as chances de isso dar certo?
— Alfredo, ele é seu filho. Eu vou amar ter ele como neto, mas não é responsabilidade minha. Posso te ajudar, claro. Mas você que tem que fazer a maior parte, ser o pai dele.
— O garoto tem dezesseis anos, passou muito bem sem mim, não sei se estou pronto para ser pai.
— Mas vai ter que ser, lamento irmão — Joca diz com a boca cheia — só tem que manter ele vivo, tudo bem que você não dá muita expectativa ou esperança para a gente que vai conseguir...
— Valeu...
— Agora não tem como fugir.
Respiro fundo — eu vou, sei lá, vou ter que fazer de qualquer jeito, pelo menos até achar a Leona e o Eduardo.
— Isso aí — meu pai dá outros tapas nas minhas costas — você vai gostar. Tenho certeza.
— E a mãe dele, como aconteceu?
— Só sei que foi um acidente, mas não quis perguntar.
— Deve ter sido horrível para ele.
— E o Fabricio? — pergunto desviando o assunto.
— Tinha plantão hoje. O que me lembra do meu presente — ele limpa as mãos no pano de prato e me encara sorrindo — sabe quem vai voltar? An-gé-li-ca — diz pausadamente — falei com ela semana passada.
— E daí?
— Ah, não vem bancar o machão resolvido para cima de mim. Todo mundo sabe que você teve seu amor reprimido.
— Eu superei ela.
— Vai falando mais algumas vezes para se convencer — ele ri.
— Deixa de ser babaca — jogo um biscoito nele — se não tivesse superado, o garoto não existiria.
— Ah, claro. E o seu término com a mãe dele não foi porque a Angélica voltou e descobriu da recaída de vocês? Depois foi embora de novo achando que você não a queria de verdade.
— Provável que ela tenha engravidado na recaída que tivemos, justamente quando a Angélica voltou. E depois, o término foi por outra coisa.
— E não por que você descobriu que foi ela quem contou para a Angel? Sobre a recaída?
— Como você sabe disso?
Ele riu — a Jéssica me procurou um tempo depois que vocês terminaram e me contou o que aconteceu.
— E por que nunca me disse?
— Não achei relevante na época, você já tinha descoberto e só para constar, ela não me disse que estava grávida.
Lembro da noite em que peguei ela falando com uma amiga que tinha contado para a Angélica que dormimos juntos na noite em que tínhamos marcado de conversar. A briga foi gigante e mandei ela embora da minha casa, dizendo para nunca mais olhar para mim. Dois meses depois ela me procurou dizendo que precisávamos conversar e agora entendo o que era. Mas eu não dera nenhuma oportunidade de ela falar naquele dia.
Júpiter aparece na cozinha, ofegante e suado, com Zayn logo atras dele — deita — ele diz e o cachorro obedece — vamos descansar — ele faz um carinho e o deixa deitado.
— Você cansou ele — Joca disse sorrindo.
— Ele é muito rápido e esperto.
— É sim, eu adestrei ele pessoalmente.
— Sério?
— Não, na verdade me custou mil e oitocentos reais, mas valeu a pena.
O garoto ri — onde posso lavar as mãos?
Eu me levanto — vem, vou aproveitar e te mostrar a casa.
— Faça isso, filho, mostre seu quarto — meu pai diz sorrindo.
Nós caminhamos pelo pequeno corredor entre a sala e os quartos. Ele entra no banheiro e aguardo do lado de fora, em seguida começamos o tour. Depois de mostrar o quarto do meu pai, abro o do antigo quarto da Angélica, que agora virou uma pequena academia.
Então o meu e do João Carlos, que ainda tinha algumas coisas antigas, como a estante de livros e o guarda-roupa. As duas camas foram substituídas por uma de casal e virou o quarto de hospedes.
— Não deve ter muita coisa minha aqui — falo mexendo nas prateleiras.
— Uou — ele fala indo em direção a primeira parte do guarda-roupa que era aberta. Ele pega o antigo Nintendo — eu já vi um vídeo falando dos vídeos games velhos.
— Ah, sim. Deve ter uma caixa aí com as fitas.
— Você é muito velho, imagina jogar com fita.
— E não só isso garoto — vasculho algumas caixas atras dos jogos — tinha que assoprar as vezes, para funcionar.
Ele ri — tempo das cavernas.
— Bons tempos — ainda procurando, abro uma caixa e encontro outra menor com os jogos, logo acima do meu antigo livro da escola.
Livro que a Jéssica me emprestou e se não me enganava, tinha uma foto nossa na primeira página. Abro e estava lá. Pego a foto e me sento na cama. Eu e Jéssica sorrindo, abraçados no parque.
— Achou os jogos? — ele me pergunta se sentando ao meu lado — será que funciona ainda?
— Aqui — mostro para ele a foto e entrego — sua mãe.
Ele pega e começa a olhar — me pareço mesmo com você.
Dou um sorriso — sim — admito — pode ficar.
— Valeu — ele me olha sorrindo — ela era diferente quando nova. Eu gostava do cabelo dela, esse loiro era bonito.
— Ela — falo firme — era muito bonita.
— Olha — ele pega o celular e procura as fotos e então me entrega — ela estava assim.
Mostra uma foto diferente da que tinha mostrado em casa. Dessa vez só dela. O cabelo tinha umas mexas mais claras, os olhos verdes e pequenos com maquiagens marcantes, a boca era grossa e desenhada com um batom. Ela era robusta e sempre teve o corpo preenchido, o que a deixava envergonhada quando era adolescente. Foi um dos piores momentos dela, quando sofria bullying na escola por ser chamada de gorda. Quando nos conhecemos, ela conseguiu deixar um pouco de lado o que sentia em relação ao seu peso.
Devolvo o celular — você, quer falar sobre o que aconteceu?
Ele guarda o celular e fica triste — ela estava indo para o trabalho, então a moto entrou com tudo no carro. Ela chegou a ir para o hospital, mas...
— Entendi — interrompo — sente muita saudade?
— Ah, agora faz um ano, talvez não do mesmo jeito, mas sim.
Devagar e hesitante, coloco o braço ao redor dele e aperto para reconfortar.
— Quer levar o Nintendo?
— Eu posso?
— Claro, a gente pode instalar lá em casa, mas já aviso, os gráficos são péssimos.
— Valeu — ele sorri.
— Vamos lá, ta na hora dos parabéns.
Dou um sorriso e ele se levanta, indo na minha frente, enquanto fico sentado, observo novamente a foto com Jéssica, que ele deixou em cima da cama.
Fico tentando entender o porquê de ela esconder algo tão importante. De repente achava que eu não daria conta e talvez não desse mesmo. Depois dos parabéns, voltamos para minha casa, indo diretamente para a cama.