Capítulo Três
O garoto está sentado no sofá, passando as mãos nervosas nas pernas enquanto eu bebo um copo de água o encarando. Decidindo se ligava para a polícia, para meu pai ou para o psicólogo, pois devia estar louco.
— Conte de novo.
Ele suspira e bufa — minha mãe é a Jéssica, sua ex-namorada.
— Como?
— Olha, quando um homem e uma mulher são férteis e transam...
— Não, não — interrompo — faz uns dezesseis anos que nós terminamos.
— Sim, completei mês passado.
— Ela estava grávida quando terminamos? — me sento na cadeira — não pode ser. Ela te trouxe até aqui? Onde ela está? — me levanto.
— Ela escreveu essa carta para você.
— Carta? Por que ela escreveria uma carta ao invés de vir até aqui? Ela — hesito — não mora com você?
— Não mais, já tem um ano — ele para de falar e olha para baixo, depois para mim novamente — ela morreu em um acidente.
Aquilo me choca. Nosso relacionamento foi bom, apesar de rápido, Jéssica era uma menina cheia de vida e vontades. Sinto um pouco de dor em saber que tinha partido e que não pude me despedir da maneira correta, pedir desculpas ou sei lá o que poderia ter dito, mas queria ter feito. Não sabia se devia acreditar, devia ser alguma pegadinha, talvez o Joca querendo me dar um susto ou alguém mandou o garoto fazer isso por pura diversão. Observo o garoto e ele parecia um pouco comigo ou talvez eu estivesse alucinando e vendo alguma coisa apenas pelo choque da notícia — e você mora com quem?
— Meus avós. Eles me deixaram na sua oficia e foram para um retiro da igreja.
Eles eram muito religiosos realmente, mas largar um garoto com um "pai” que não conhecia e nem sabia de sua existência até alguns minutos atras era maluquice.
— Me dê o número deles.
— Eles não têm celular, dizem que a tecnologia atrapalha, ligam de um telefone fixo quando podem.
— Isso não existe, garoto.
— Leia a carta.
— Olha eu não sei qual a intenção disso aqui, mas, foi o Joca que te mandou?
Ele franze a testa — não conheço nenhum Joca.
Eu o encaro tentando pensar — e agora? Não pode ser verdade — falo baixo.
— Eu tenho três semanas de férias e não podia ir com eles, por isso me deixaram aqui.
— Desculpa, garoto...
— Júpiter — interrompe.
Respiro fundo, era realmente um nome que a Jéssica colocaria. Uma vez falando do assunto, ela dizia que gostava de nomes diferentes, pensava até mesmo nos deuses gregos e em contrapartida, eu dizia que era cometer bullying com uma criança.
— Nós não nos conhecemos e nem mesmo posso ser seu pai.
— Leia a carta.
Ele levanta e estica o braço, o envelope estava na sua mão. Eu hesito e depois pego, abrindo com receio e começando a ler:
“Caro Alfredo.
Sei que vai soar estranho, devo muitas explicações, porém, acho que essa carta vai resumir o que deve ser dito. Quando terminamos nosso relacionamento a onze anos atrás, eu estava grávida de três meses. Não o procurei por você dizer que não queria mais saber de mim e isso foi o suficiente para eu fugir. A verdade é que estava magoada e não queria ter algum laço com você.
Quando nosso filho nasceu, não sabia o que fazer e recorri aos meus pais que me deram suporte, mas eles não sabem de tudo. Pelo menos, acreditam que você sabe da existência dele. Espero que possamos nos encontrar e você possa conhecer nosso garoto. Ele lembra você em tudo além da aparência.
Júpiter, o maior dos planetas, é também símbolo de proteção, sabedoria e grandeza. Seu nome carrega a força dos céus e a beleza dos mistérios. Para que cresça com um coração generoso, uma mente curiosa e uma alma luminosa como as estrelas que inspiraram seu nome. A sua presença vai trazer expansão, alegria e descobertas por onde passar, é o que desejo para ele, que chegou ao mundo com um nome de gigante, não por peso, mas por luz. E não é justo que você não saiba a verdade.
Fredo, quem sabe você um dia irá conhecer, escrevi essa carta tantas vezes e nunca tive a coragem de entregar. Sua oficia continua no mesmo lugar, você continua no mesmo lugar, trabalhando com seu pai e morando no antigo apartamento dele.
Depois que fui embora de Águas de São Pedro a cinco anos, jurei nunca mais voltar. E caso você receba essa carta, vou ter a dignidade de reavaliar essa decisão se quiser ficar perto dele.
Por enquanto, é o que posso dizer. Até a próxima carta e espero que a última a ser escrita.
Com carinho, Jéssica”
A carta finalmente chegou, dezesseis anos atrasada. O garoto está sentado novamente, ele sorri e pega o celular.
— Me passa a senha do wi-fi?
Ainda desconcertado, respondo — rede “apto 224” e senha do 1 ao 8.
— Sério? Tipo, qualquer um pode usar.
Me sento novamente na cadeira e releio a carta. O que eu vou fazer com um adolescente? Onde ele vai dormir? O que ele come? Fico o observando enquanto desmonta a mochila. Coloca os fones e o carregador ao lado do sofá e depois tira os tênis. Como poderia saber se era verdade o que estava escrito? Eu não poderia reconhecer a letra dela depois de tantos anos.
— Se quiser a gente faz um exame de DNA — ele diz se deitando e interrompendo meus pensamentos.
— Eu preciso pensar.
— Mas de qualquer jeito, meus avós só voltam em três semanas, então vou ter que ficar por aqui.
— E sua tia?
Jéssica tinha uma irmã, não lembrava o nome dela, mas sabia que existia.
— Ela foi morar no exterior. Não tenho o contato dela.
— Eu vou ali — aponto para o quarto — já volto. Não mexa em nada.
Vou até o quarto e procuro pela minha antiga agenda de números. Lembro que tinha o da casa de Jéssica e que provavelmente seria o mesmo. Depois de uns minutos a encontro dentro de uma caixa, embaixo dos álbuns de fotografia. Procuro pelo número e percebo a página rasgada. Lembro que alguns anos passados do fim do namoro, rasguei pensando que nunca precisaria.
Pois bem, precisei. Grande ironia.
Respiro rapidamente sem saber o que fazer. Eu lembrava o endereço deles, mas pelo que havia entendido na carta, eles já não moravam mais na cidade e pelo visto o garoto não iria me dizer nada. Penso em levar ele até a polícia, de repente poderia me ajudar. Ou achar que sou um sequestrador. Mas, mesmo sendo obvio que eu não conhecia o garoto? O que aconteceria com ele? Como chegaríamos nos avós dele?
Volto para a sala, Júpiter está olhando os discos de vinil na estante.
— Eu disse para não mexer em nada.
— Cara, você tem uma coleção bem maneira.
— Você gosta de música?
— Todo mundo gosta. Mas meu lance são os jogos.
Ah, sim! A tecnologia.
Meu celular toca e era o Milko me ligando.
— Oi — falo sem energia.
— Chefe, você está voltando?
— Na verdade, estou com um probleminha em casa. Você pode fechar hoje?
— Claro. Posso fechar uns dez minutos mais cedo?
— Pode, só não esqueça o alarme.
— Perfeito, até amanhã.
— Até.
Desligo e volto para a cena atual.
— Você, tem, alguma foto da sua mãe?
— Óbvio — ele se levanta e mexe rapidamente no celular.
Ele vira a tela para mim. Era ela, mais velha, mas com o mesmo sorriso e olhos verdes. Abraçada nele, que sorria, mas não igual a ela, mas a mim. Era estranho me reconhecer na foto, como se fosse eu em uma versão mais jovem (e mais bonita).
— Aí, tem comida aqui? — ele pergunta.
Eu ainda continuo em choque, olhando a foto — certo, vamos alinhar as coisas aqui. Por que seus avós não falaram comigo antes?
O garoto hesita um pouco — bem, acho que eles estavam atrasados.
— Você acha? O pouco que conheço sua avó, ela não iria sem falar algo.
— Se conhece pouco, sabe que ela te odiava. E eu pedi para ficar com você.
— E eles aceitaram? Depois desses anos todos te largar com um desconhecido que ela odiava?
— Meu pai, ué.
— Garoto, eu não posso ser seu pai. Quero dizer, eu não sou pai nem de planta, imagina uma pessoa. Desculpa, mas vou te levar até eles.
Ele volta para o sofá — eles estão em um lugar distante e eu nem sei o nome de lá. Daqui três semanas eles vão voltar e me pegar na oficina. Esse foi o combinado.
— Combinado entre vocês, eu não sabia de nada.
Ele fica com os olhos tristes — sei que não me quer na sua vida...
— Não é isso, eu só, não consigo entender o que está acontecendo aqui. Sua avó não é o tipo de mulher que largaria o neto com um qualquer, ainda mais com quem ela nunca gostou. Seja justo comigo.
— Está bem, vou pegar minhas coisas e pego um avião.
— Mas você disse que não sabe onde eles estão.
— Eu me viro sozinho, vou encontrar eles.
— Espera, começa me dizendo onde vocês moram.
— A gente mora em Niterói.
— Niterói? Meu Deus.
Coloco as mãos na cabeça — não é possível que não tenha como falar com eles.
Ele começa a mexer na mochila e coloca os tênis — eu vou embora.
— Espera — o encaro tentando pensar em uma maneira de resolver — você pode ficar, até eu entrar em contato com eles.
Ele sorri — você tem comida, to faminto.
— Vou pedir algo. Só, fique aqui.
Eu pego o celular e procuro o número do restaurante que sempre como quando não quero cozinhar a massa. Vou para o quarto e faço o pedido. Me sento na cama e tento imaginar os cenários possíveis, pois o impossível já estava acontecendo.
Leona Russo Pimentel era uma mulher conservadora, sempre disposta a qualquer coisa pela família dela. Jéssica era a favorita dela e de Eduardo Russo, que era dono de uma empresa de transporte. Quando os conheci, ficaram irritados e só não proibiram nosso relacionamento porque consideravam “namoro de verão” como eles disseram. E agora aquele breve romance havia trazido uma pessoa para o mundo. Mas seria possível eles largarem o garoto comigo? Mesmo me odiando?
A comida chegou e depois que o garoto comeu, muito inclusive, preparei uma cama no sofá para eu deitar e o deixei ficar no meu quarto. Eu ia ter que levar ele até meu pai, poderia deixar lá, precisava falar com ele, pois no momento era a única pessoa que poderia me ajudar até eu achar os avós dele. Pensei em como falaria, mas já sabia que ele ia amar a ideia de ter um neto, já que o Joca não tinha filhos ainda.
Acordo com a luz que entra pela sala, “tenho que comprar um blackout” penso comigo. Percebo que a porta do quarto ainda estava fechada, me levanto devagar e vou olhar, o garoto dormia, completamente atravessado na cama. Fecho a porta novamente e coloco minha roupa para sair, pego as chaves e saio de casa.
O mercado da esquina já estava aberto, entro e começo a procurar o que um adolescente de dezesseis anos gosta de comer. Preencho o carrinho com alguns cereais, duas lasanhas congeladas, três refrigerantes, alguns salgadinhos, pão e frios. Não sei se a lista estava boa, mas teria que servir.
Ao abrir a porta me surpreendo pelo garoto estar sentado no sofá, agarrado nas pernas. Ele me olha envergonhado e limpa o rosto como se tivesse chorado. Eu entro devagar e coloco tudo em cima da mesa.
— Achei que tinha me abandonado aqui — ele fala um pouco rouco.
— Eu fui comprar algumas coisas — falo fechando a porta e volto.
— Eu não estava chorando — ele diz envergonhado — só, fiquei com medo, você sabe, de ficar sozinho.
— Você, tem medo de ficar sozinho?
— Não, é que, sei lá, achei que teria ido embora.
Ergo as sobrancelhas surpreso e decido deixar de lado para não o incomodar — eu moro aqui, meio que não teria para onde fugir. Você gosta de cereais?
— Sim — cafunga e limpa o nariz com a manga da camisa.
— Pode vir se servir.
Tiro tudo da sacola enquanto ele se aproxima. Pego uma caixa de leite que tinha no armário — vai estar quente. Eu só bebo leite fora da geladeira.
— Eu também não gosto de gelado.
— Certo — algo em comum ou apenas coincidência.
Ele começa a se servir — pelo que minha mãe disse, você é mecânico, isso?
— Isso.
— Legal — ele coloca leite por cima.
Começo o observar com mais calma, tínhamos muitas semelhanças, o formato do rosto, os olhos castanhos e a tonalidade do cabelo.
— Você trouxe roupa? — questiono.
— Sim, por quê?
— A gente vai precisar sair e acho que essa está cheia de ranho.
Ele puxa a manga para cima — posso fazer assim e ninguém nota.
— Vamos achar algo para você.
Ele confirma com a cabeça e continua comendo.
— Isso aqui é muito bom.
Ele sorri e nesse momento, vejo que até o sorriso era parecido. Era como olhar no espelho do passado e tirar o meu eu mais jovem de dentro dele.