Capítulo Cinco
05/04
Aos sábados eu nunca abria a oficina de manhã. Milko aproveitava com sua família e só íamos depois das 13hs. Mesmo assim, eu acordava as 6hs, preparava meu café e ajeitava a casa. Mas dessa vez foi diferente. Acordei e olhei para o relógio, já passava das 10hs, o garoto estava esparramado na cama e eu em um pequeno cantinho. O sofá estava mais agradável ontem, com tudo, meu sono foi melhor essa noite.
Me levanto e vou para a sala começar o momento de limpeza, varro e passo um pano, coloco as roupas para lavar, organizo a louça que estava limpa e termino o que falta. Preparo o cereal em cima da mesa, com o leite levemente aquecido, porque nenhum de nós gostava de leite frio. E tive de guardar na geladeira depois o Júpiter abriu no dia anterior.
Vou até o quarto e o chamo para comer, ele resmunga algo e então se levanta lentamente.
— O que a gente vai fazer hoje? — ele pergunta enquanto comemos.
— Eu vou trabalhar.
— Posso ir junto?
— Não.
Ele faz um olhar triste — minha mãe me falou disse que era o melhor mecânico da cidade.
— Eu não vou cair nesse seu truque — me levanto e coloco minha tigela na pia e depois o encaro de novo — Sem chances de você ir comigo.
Três horas e meia depois, estou eu mostrando para Júpiter o que é um carburador na minha oficina. A cada coisa que eu fazia, ele ficava atrás observando.
Milko mostrava para ele as peças e explicava as suas funções. Eu o deixo entrar no carro e tentar ligar.
— Certo, embreagem, freio e acelerador — eu garanto que o freio de mão está travado — a gente só quer ligar e acelerar, okay?
— Okay — ele diz animado.
— Pode lá.
Ele gira a chave e o carro liga, o garoto ri de felicidade. Pisa no acelerador e o carro começa a ranger.
— Está ouvindo esse barulho?
— SIM — ele grita mesmo não precisando.
— Esse som é do motor fazendo força.
— E O QUE ACONTECE SE EU SOLTAR O CARRO?
— Não precisa gritar. Não vai acontecer, o freio de mão está travado.
— MAS E SE SOLTAR O FREIO.
— Você não sabe como solta!
— SEI SIM, É SÓ DESCER.
— Não, não é e não precisa gritar.
— ENTÃO COMO É?
Ele estava me provocando com os gritos.
— Primeiro você aperta o botão e depois desce.
Sem perceber eu fiz o movimento e o carro deu um tranco para frente. Milko pulou para o lado e acabamos quase batendo, porém fui mais rápido e travei o freio de mão novamente. O garoto estava apavorado e me olhou com os olhos arregalados.
— Desculpa? — perguntou com o rosto torcido.
— Sai do carro — falei abrindo a porta e saindo.
Dou uma olhada se ele chegou a bater e estava a centímetros do balcão. Milko para ao meu lado e observa junto comigo.
— Que susto, achei que iam me levar — ele diz rindo.
Júpiter se junta a gente — foi mal.
— Tudo bem — eu falo respirando fundo — por sorte não bateu.
Eu vou para o carro e seguro o volante, respiro fundo me acalmando e então dou a ré, deixando-o onde deveria. Júpiter para na janela e sorri.
— Você podia me ensinar a dirigir, não é?
— Eu não tenho carro.
— Ué, mas você ta sempre com um diferente aqui.
— Você não conhece a palavra limite? — abro a porta e saio, me encostando.
— Mas você tem que testar os carros depois que arruma e como faz se não dando uma volta?
— Ele tem um ponto! — Milko fala do balcão.
— Você, quieto — aponto para ele e depois para Júpiter — e você tenta não mexer em nada.
— Mas promete pensar a respeito?
— Se ficar quietinho no cantinho, posso pensar.
— Okay, eu vou na sorveteria aqui do lado.
Ele sorri e estende a mão.
— O que? Está esperando meu aval?
— Também, mas eu preciso de dinheiro.
— Seus avós não te deixaram com nada?
— Qual é, Alfredo? Eu tenho dezesseis anos, não tenho responsabilidade financeira e é perigoso deixar um adolescente com dinheiro sozinho por aí.
Pego minha carteira e tiro vinte reais — não demora.
— Pode deixar — ele fala pegando o dinheiro e saindo.
Dou uma bufada e volto para o serviço. Me posicionando na frente do carro.
— Eles são ótimos, não é?
— Quem? — eu questiono.
— Os filhos — Milko diz rindo levemente — eu não vivo sem os meus.
— Bem — puxo um dos cabos — você criou os seus e eu só descobri agora.
— Por isso mesmo, vai ser bem mais fácil. Eu amo meus filhos, mas as vezes — ele suspira — as vezes tenho vontade de pendurar eles pelos cabelos e deixar a tarde inteira lá.
Eu o olho — não devia estar me incentivando?
— Mas eles são os amores da minha vida, chefe.
Dou uma risada — está bem.
Enquanto eu fazia meu serviço, Júpiter jogava no celular. Ele intercalava e me alcançava algumas ferramentas e pedia algumas explicações. Quando chegamos em casa e ele foi direto para o quarto, caindo na cama e apagando com a roupa do corpo. Eu tiro seus tênis lentamente e o cubro com a coberta. Vou para a sala e olho as mensagens no meu celular. Maioria do meu pai, perguntando como estávamos e algumas do Joca, basicamente perguntando se eu iria ver a Angélica.
Fazia anos que não pensava nela. Ela não iria querer me ver. Depois de todo esse tempo, as coisas eram muito diferentes e nunca mais nos falamos. Nem mesmo sabia notícias dela, sempre que Suzana começava a contar algo, eu saia de perto, evitando ouvir qualquer coisa. Não sabia se era por sentimento, por ressentimento ou raiva dela nunca mais ter voltado.
Começo a preocupar pelos avós de Júpiter na internet e nas redes sociais que obviamente eles não tinham. Mas consegui o telefone da empresa de Eduardo e imediatamente ligo.
— TransRusso, boa noite — diz uma voz feminina.
— Boa noite, eu gostaria de falar com o senhor Russo.
— Quem gostaria?
Hesito um pouco — Alfredo Casagrande.
— Sr. Casagrande, ele está viajando, gostaria de deixar um recado?
— Você sabe dizer para onde ele foi?
— Essa informação eu não posso lhe dar. Tem algum motivo especial? Posso tentar agendar uma hora para quando ele voltar.
Começo a pensar se devo falar do Júpiter, não queria arranjar problemas para o garoto — não, não. Obrigado.
— Disponha — ela fala e desliga.
Olho para a porta do quarto, sem saber o que deveria fazer realmente. Talvez eu deva ligar novamente em alguns dias.