Segunda parte
Nota editorial. Tradução original Literunico, preparada a partir do texto francês de René Descartes em domínio público no Brasil. Descartes faleceu em 1650; esta tradução é nova e não utiliza tradução moderna protegida.
Eu estava então na Alemanha, para onde me chamara a ocasião das guerras que ainda ali não terminaram. Ao voltar da coroação do imperador para o exército, o começo do inverno me deteve em um alojamento onde, não encontrando conversa que me distraísse, e não tendo, por felicidade, cuidados nem paixões que me perturbassem, permanecia todo o dia fechado sozinho em um quarto aquecido, com todo o tempo livre para conversar comigo mesmo por meio de meus pensamentos.
Entre esses pensamentos, um dos primeiros foi considerar que muitas vezes não há tanta perfeição nas obras compostas de várias peças e feitas pela mão de diversos mestres quanto naquelas em que um só trabalhou. Assim, vemos que os edifícios começados e terminados por um único arquiteto costumam ser mais belos e mais bem ordenados do que aqueles que muitos tentaram remendar, servindo-se de velhas paredes erguidas para outros fins.
Do mesmo modo, as antigas cidades que no começo não passavam de aldeias e, com o tempo, tornaram-se grandes, são ordinariamente tão mal proporcionadas, comparadas às praças regulares que um engenheiro traça livremente em uma planície, que, embora se encontre muitas vezes tanta ou mais arte em seus edifícios tomados um por um, ao vê-los arranjados assim, aqui um grande, ali um pequeno, e tornando as ruas curvas e desiguais, diríamos que foi antes a fortuna do que a vontade de homens que usavam a razão que assim os dispôs.
E, se consideramos que sempre houve alguns oficiais encarregados de vigiar as construções particulares para fazê-las servir ao ornamento público, reconheceremos que é difícil produzir coisas plenamente acabadas trabalhando apenas sobre as obras dos outros.
Imaginei também que os povos que outrora foram meio selvagens e só pouco a pouco se civilizaram, fazendo suas leis à medida que o incômodo dos crimes e das querelas os obrigava, não poderiam ser tão bem ordenados quanto aqueles que, desde o momento em que se reuniram, observaram as constituições de algum legislador prudente.
É certo que o estado da verdadeira religião, cujas ordenações foram feitas por Deus somente, deve ser incomparavelmente mais bem regulado que todos os outros. E, para falar das coisas humanas, creio que se Esparta foi outrora tão florescente, não foi por causa da bondade de cada uma de suas leis em particular, visto que várias eram muito estranhas e até contrárias aos bons costumes, mas porque, tendo sido inventadas por um só, todas tendiam ao mesmo fim.
Pensei, assim, que as ciências dos livros, ao menos aquelas cujas razões são apenas prováveis e que não possuem demonstrações, por se terem composto e engrossado pouco a pouco com as opiniões de muitas pessoas diferentes, não se aproximam tanto da verdade quanto os raciocínios simples que um homem de bom senso pode fazer naturalmente sobre as coisas que se apresentam.
Pensei ainda que, como todos fomos crianças antes de sermos homens, e como por muito tempo tivemos de ser governados por nossos apetites e por nossos preceptores, muitas vezes contrários uns aos outros, e talvez nem sempre nos aconselhando o melhor, é quase impossível que nossos juízos sejam tão puros e tão sólidos quanto teriam sido se tivéssemos tido inteiro uso da razão desde o nascimento e jamais tivéssemos sido conduzidos senão por ela.
É verdade que não vemos derrubar todas as casas de uma cidade apenas com o propósito de reconstruí-las de outro modo e tornar as ruas mais belas. Vemos, porém, que muitos mandam demolir as suas para reconstruí-las, e que às vezes são até constrangidos a fazê-lo quando estão em perigo de cair por si mesmas e quando os fundamentos não são firmes.
Seguindo esse exemplo, persuadi-me de que não haveria aparência razoável em um particular querer reformar um Estado, mudando tudo desde os fundamentos e derrubando-o para reerguê-lo; nem tampouco reformar o corpo das ciências ou a ordem estabelecida nas escolas para ensiná-las. Mas, quanto a todas as opiniões que até então eu havia recebido em minha crença, não podia fazer melhor do que empreender, de uma vez, tirá-las dela, para depois recolocar outras melhores, ou mesmo as mesmas, quando as houvesse ajustado ao nível da razão.
Acreditei firmemente que, por esse meio, conseguiria conduzir minha vida muito melhor do que se construísse apenas sobre velhos fundamentos e me apoiasse apenas nos princípios que eu me deixara persuadir na juventude, sem nunca ter examinado se eram verdadeiros. Pois, embora notasse nisso diversas dificuldades, elas não eram sem remédio nem comparáveis às que se encontram na reforma das menores coisas que tocam o público.
Esses grandes corpos são difíceis demais de levantar quando abatidos, e até de reter quando abalados; suas quedas não podem deixar de ser muito rudes. Quanto às suas imperfeições, se as têm, como a simples diversidade que existe entre eles basta para assegurar que vários as têm, o uso sem dúvida as suavizou muito, e até evitou ou corrigiu insensivelmente muitas delas, às quais a prudência não poderia prover tão bem. Enfim, quase sempre são mais suportáveis que seria sua mudança, do mesmo modo que os grandes caminhos, que contornam montanhas, tornam-se pouco a pouco tão lisos e cômodos pelo uso que é muito melhor segui-los do que tentar ir mais direto, escalando rochedos e descendo até o fundo dos precipícios.
Por isso, não posso aprovar de modo algum esses temperamentos turbulentos e inquietos que, não sendo chamados nem por nascimento nem por fortuna ao manejo dos negócios públicos, não deixam de imaginar sempre alguma nova reforma. Se eu pensasse haver neste escrito a menor coisa pela qual pudessem me suspeitar dessa loucura, ficaria muito triste de permitir que fosse publicado.
Meu propósito nunca se estendeu além de tentar reformar meus próprios pensamentos e construir sobre um terreno que é inteiramente meu. Se, por meu trabalho me ter agradado bastante, apresento aqui o modelo, não é por isso que queira aconselhar alguém a imitá-lo. Aqueles a quem Deus repartiu melhor suas graças terão talvez desígnios mais elevados; mas temo que este já seja ousado demais para muitos.
A simples resolução de desfazer-se de todas as opiniões recebidas anteriormente em sua crença não é exemplo que todos devam seguir. O mundo é quase composto de duas espécies de espíritos aos quais isso de modo nenhum convém: os que, julgando-se mais hábeis do que são, não conseguem impedir-se de precipitar seus juízos nem têm paciência bastante para conduzir por ordem todos os seus pensamentos; e os que, tendo razão ou modéstia suficiente para julgar que são menos capazes de distinguir o verdadeiro do falso do que algumas outras pessoas por quem podem ser instruídos, devem antes contentar-se em seguir as opiniões dessas pessoas do que procurar por si mesmos opiniões melhores.
Quanto a mim, eu teria sem dúvida pertencido a estes últimos, se tivesse tido apenas um mestre, ou se não tivesse conhecido as diferenças que sempre existiram entre as opiniões dos mais doutos. Mas, tendo aprendido desde o colégio que nada se pode imaginar tão estranho e tão pouco crível que não tenha sido dito por algum filósofo; e, depois, viajando, tendo reconhecido que todos os que têm sentimentos muito contrários aos nossos não são por isso bárbaros nem selvagens, mas que muitos usam tanto ou mais razão que nós; e tendo considerado quanto um mesmo homem, com o mesmo espírito, criado desde a infância entre franceses ou alemães, torna-se diferente do que seria se tivesse vivido sempre entre chineses ou canibais; e como, até nas modas de nossas roupas, a mesma coisa que nos agradou há dez anos, e talvez nos agrade ainda antes de outros dez, nos parece agora extravagante e ridícula, de modo que são muito mais o costume e o exemplo que nos persuadem do que algum conhecimento certo; e que, entretanto, a pluralidade das vozes não é prova que valha para as verdades um pouco difíceis de descobrir, pois é muito mais verossímil que um só homem as encontre do que todo um povo, eu não podia escolher ninguém cujas opiniões me parecessem dever ser preferidas às dos outros. Vi-me, assim, como que constrangido a empreender eu mesmo a minha direção.
Mas, como um homem que caminha só e nas trevas, resolvi ir tão lentamente e usar de tanta circunspecção em todas as coisas que, embora avançasse muito pouco, ao menos me guardaria bem de cair. Não quis sequer começar a rejeitar inteiramente nenhuma das opiniões que outrora se haviam introduzido em minha crença sem terem sido trazidas pela razão, antes de empregar tempo suficiente em projetar a obra que empreendia e em procurar o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas de que meu espírito fosse capaz.
Eu havia estudado um pouco, quando mais jovem, entre as partes da filosofia, a lógica; e, entre as matemáticas, a análise dos geômetras e a álgebra, três artes ou ciências que pareciam dever contribuir de algum modo para meu propósito.
Mas, ao examiná-las, observei que, quanto à lógica, seus silogismos e a maior parte de suas outras instruções servem antes para explicar a outros as coisas que já se sabem, ou mesmo, como a arte de Lúlio, para falar sem juízo das que se ignoram, do que para aprendê-las. Embora contenha de fato muitos preceitos muito verdadeiros e muito bons, há, entretanto, tantos outros misturados entre eles, nocivos ou supérfluos, que é quase tão difícil separá-los quanto tirar uma Diana ou uma Minerva de um bloco de mármore que ainda não foi esboçado.
Quanto à análise dos antigos e à álgebra dos modernos, além de se estenderem apenas a matérias muito abstratas, e que parecem de nenhum uso, a primeira está sempre tão presa à consideração das figuras que não pode exercitar o entendimento sem fatigar muito a imaginação; e, na última, sujeitaram-se tanto a certas regras e a certos sinais que fizeram dela uma arte confusa e obscura, que embaraça o espírito em vez de cultivá-lo.
Foi isso que me levou a pensar que era preciso procurar algum outro método que, contendo as vantagens dessas três disciplinas, estivesse livre de seus defeitos. E, assim como a multidão de leis frequentemente fornece desculpas aos vícios, de modo que um Estado é muito mais bem regulado quando, tendo poucas, elas são estritamente observadas, também, em lugar do grande número de preceitos de que a lógica se compõe, acreditei que me bastariam os quatro seguintes, desde que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los.
O primeiro era nunca receber coisa alguma como verdadeira sem conhecê-la evidentemente como tal; isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e nada incluir em meus juízos além daquilo que se apresentasse tão clara e distintamente ao meu espírito que eu não tivesse ocasião alguma de pô-lo em dúvida.
O segundo, dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e quantas fossem necessárias para melhor resolvê-las.
O terceiro, conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, supondo ordem mesmo entre aqueles que naturalmente não se precedem uns aos outros.
E o último, fazer por toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse certeza de nada omitir.
Essas longas cadeias de razões, todas simples e fáceis, de que os geômetras costumam servir-se para chegar às suas demonstrações mais difíceis, haviam me dado ocasião de imaginar que todas as coisas que podem cair sob o conhecimento dos homens seguem-se umas às outras do mesmo modo. Contanto apenas que nos abstenhamos de receber como verdadeira qualquer coisa que não o seja, e que guardemos sempre a ordem necessária para deduzi-las umas das outras, não pode haver coisas tão afastadas às quais afinal não se chegue, nem tão ocultas que não se descubram.
Não tive muita dificuldade em procurar por quais era preciso começar, pois já sabia que era pelas mais simples e mais fáceis de conhecer. Considerando que, entre todos os que antes buscaram a verdade nas ciências, só os matemáticos puderam encontrar algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes, não duvidei de que devia começar pelas mesmas coisas que eles haviam examinado; embora não esperasse delas outra utilidade senão a de acostumar meu espírito a alimentar-se de verdades e a não se contentar com falsas razões.
Mas nem por isso tive o propósito de tentar aprender todas essas ciências particulares que se chamam comumente matemáticas. Vendo que, embora seus objetos sejam diferentes, todas concordam em nada considerar senão as diversas relações ou proporções que neles se encontram, pensei que seria melhor examinar apenas essas proporções em geral, sem supô-las senão nos objetos que servissem para tornar seu conhecimento mais fácil, e sem restringi-las a eles de modo algum, a fim de poder aplicá-las depois tanto melhor a todos os outros aos quais conviessem.
Depois, tendo notado que para conhecê-las eu teria às vezes necessidade de considerá-las cada uma em particular, e às vezes apenas retê-las ou compreender várias em conjunto, pensei que, para melhor considerá-las em particular, devia supô-las em linhas, porque não encontrava nada mais simples nem que pudesse representar mais distintamente à minha imaginação e aos meus sentidos; mas que, para retê-las ou compreender várias juntas, era preciso explicá-las por alguns sinais tão curtos quanto possível. Por esse meio, tomaria emprestado o melhor da análise geométrica e da álgebra, corrigindo todos os defeitos de uma pela outra.
De fato, ouso dizer que a exata observação dos poucos preceitos que eu escolhera me deu tal facilidade para deslindar todas as questões a que essas duas ciências se estendem que, em dois ou três meses empregados em examiná-las, começando pelas mais simples e mais gerais, e sendo cada verdade que eu encontrava uma regra que depois me servia para encontrar outras, não somente cheguei ao fim de várias que antes julgara muito difíceis, mas também me pareceu, ao final, que podia determinar, mesmo naquelas que ignorava, por quais meios e até onde seria possível resolvê-las.
Nisso talvez eu não pareça muito vaidoso, se considerarem que, não havendo senão uma verdade de cada coisa, quem a encontra sabe dela tanto quanto se pode saber. Por exemplo, uma criança instruída em aritmética, tendo feito uma adição segundo suas regras, pode assegurar-se de ter encontrado, sobre a soma que examinava, tudo o que o espírito humano poderia encontrar; pois, afinal, o método que ensina a seguir a verdadeira ordem e a enumerar exatamente todas as circunstâncias do que se procura contém tudo o que dá certeza às regras da aritmética.
Mas o que mais me satisfazia nesse método era que, por meio dele, eu estava seguro de usar em tudo a minha razão, se não perfeitamente, ao menos o melhor que estivesse em meu poder. Além disso, sentia, praticando-o, que meu espírito se acostumava pouco a pouco a conceber seus objetos de maneira mais nítida e distinta; e, como não o submetera a matéria particular alguma, prometia a mim mesmo aplicá-lo tão utilmente às dificuldades das outras ciências quanto fizera às da álgebra.
Não que por isso ousasse empreender de início o exame de todas as que se apresentassem, pois isso mesmo seria contrário à ordem prescrita pelo método. Mas, tendo observado que seus princípios deviam ser todos tomados da filosofia, na qual eu ainda não encontrava nenhum certo, pensei que era preciso, antes de tudo, tentar estabelecê-los; e que, sendo essa a coisa mais importante do mundo, e aquela em que a precipitação e a prevenção eram mais de temer, não devia tentar levá-la a termo antes de alcançar idade bem mais madura que a de vinte e três anos que eu tinha então, e antes de empregar muito tempo em preparar-me para isso: tanto arrancando de meu espírito todas as más opiniões que nele recebera até então, quanto reunindo muitas experiências para que servissem depois de matéria aos meus raciocínios, e exercitando-me sempre no método que me prescrevera, a fim de nele me firmar cada vez mais.