Quinta parte
Nota editorial. Tradução original Literunico, preparada a partir do texto francês de René Descartes em domínio público no Brasil. Esta parte preserva o interesse histórico-filosófico da fisiologia cartesiana; não deve ser lida como explicação médica contemporânea. Descartes faleceu em 1650; esta tradução é nova e não utiliza tradução moderna protegida.
Eu ficaria muito satisfeito em prosseguir e mostrar aqui toda a cadeia das outras verdades que deduzi dessas primeiras. Mas, como para isso seria agora necessário falar de várias questões que estão em controvérsia entre os doutos, com os quais não desejo indispor-me, creio que será melhor abster-me, e dizer apenas em geral quais são elas, a fim de deixar aos mais sábios julgar se seria útil que o público fosse mais particularmente informado a seu respeito.
Permaneci sempre firme na resolução que havia tomado de não supor outro princípio além daquele de que acabo de me servir para demonstrar a existência de Deus e da alma, e de não receber coisa alguma como verdadeira que não me parecesse mais clara e mais certa do que antes haviam parecido as demonstrações dos geômetras. E, contudo, ouso dizer que não somente encontrei meio de satisfazer-me em pouco tempo quanto a todas as principais dificuldades de que se costuma tratar na filosofia, mas também notei certas leis que Deus estabeleceu de tal modo na natureza, e das quais imprimiu tais noções em nossas almas, que, depois de refletirmos bastante sobre elas, não podemos duvidar de que sejam exatamente observadas em tudo o que existe ou se faz no mundo.
Depois, considerando a sequência dessas leis, parece-me ter descoberto várias verdades mais úteis e mais importantes do que tudo o que antes aprendera ou mesmo esperara aprender.
Mas, como tentei explicar as principais delas em um tratado que algumas considerações me impedem de publicar, não poderia dá-las melhor a conhecer do que dizendo aqui sumariamente o que ele contém. Tive o propósito de nele compreender tudo o que pensava saber, antes de escrevê-lo, sobre a natureza das coisas materiais.
Do mesmo modo que os pintores, não podendo representar igualmente bem em um quadro plano todas as diversas faces de um corpo sólido, escolhem uma das principais e a colocam sozinha diante da luz, sombreando as outras e fazendo-as aparecer apenas tanto quanto podem ser vistas ao olhar aquela, assim também, temendo não poder pôr em meu discurso tudo o que tinha no pensamento, empreendi apenas expor com bastante amplitude o que concebia da luz. Depois, por ocasião dela, acrescentei algo sobre o sol e as estrelas fixas, porque quase toda a luz procede deles; sobre os céus, porque a transmitem; sobre os planetas, cometas e a Terra, porque a refletem; e, em particular, sobre todos os corpos que estão na Terra, porque são coloridos, transparentes ou luminosos; enfim, sobre o homem, porque é seu espectador.
Para sombrear um pouco todas essas coisas, e poder dizer mais livremente o que julgava delas, sem ser obrigado a seguir ou refutar as opiniões recebidas entre os doutos, resolvi deixar este mundo às suas disputas e falar apenas do que aconteceria em um mundo novo, se Deus criasse agora em algum lugar, nos espaços imaginários, matéria suficiente para compô-lo, e agitasse diversamente e sem ordem as várias partes dessa matéria, de modo a formar um caos tão confuso quanto os poetas possam imaginar, e depois não fizesse outra coisa senão prestar seu concurso ordinário à natureza e deixá-la agir segundo as leis que estabeleceu.
Assim, primeiro descrevi essa matéria e procurei representá-la de tal modo que não há no mundo, parece-me, nada mais claro nem mais inteligível, exceto o que há pouco foi dito de Deus e da alma. Supus expressamente que nela não havia nenhuma dessas formas ou qualidades sobre as quais se disputa nas escolas, nem, em geral, coisa alguma cujo conhecimento não fosse tão natural às nossas almas que não se pudesse sequer fingir ignorá-lo.
Além disso, mostrei quais eram as leis da natureza; e, sem apoiar minhas razões em outro princípio além das perfeições infinitas de Deus, tentei demonstrar todas aquelas de que se pudesse ter alguma dúvida e mostrar que são tais que, ainda que Deus tivesse criado vários mundos, não poderia haver nenhum em que deixassem de ser observadas.
Depois disso, mostrei como a maior parte da matéria desse caos devia, em consequência dessas leis, dispor-se e arranjar-se de certa maneira que a tornasse semelhante aos nossos céus; como, entretanto, algumas de suas partes deviam compor uma Terra, algumas os planetas e cometas, e outras um sol e estrelas fixas.
Aqui, estendendo-me sobre o assunto da luz, expliquei longamente qual era aquela que devia encontrar-se no sol e nas estrelas, como dali atravessava em um instante os imensos espaços dos céus, e como se refletia dos planetas e cometas em direção à Terra.
Acrescentei também várias coisas sobre a substância, a situação, os movimentos e todas as diversas qualidades desses céus e desses astros, de modo que eu pensava dizer o bastante para fazer conhecer que nada se nota nos deste mundo que não devesse, ou ao menos não pudesse, aparecer de modo inteiramente semelhante nos do mundo que eu descrevia.
Daí passei a falar particularmente da Terra: como, embora tivesse expressamente suposto que Deus não pusera peso algum na matéria de que ela era composta, todas as suas partes tendiam exatamente para seu centro; como, havendo água e ar em sua superfície, a disposição dos céus e dos astros, principalmente da Lua, devia causar ali um fluxo e refluxo semelhante em todas as circunstâncias ao que se observa em nossos mares, e além disso certo curso tanto da água quanto do ar, do oriente para o ocidente, como também se nota entre os trópicos.
Mostrei ainda como as montanhas, os mares, as fontes e os rios podiam naturalmente formar-se nela; como os metais podiam vir às minas, as plantas crescer nos campos, e, em geral, todos os corpos chamados mistos ou compostos ali se gerar. Entre outras coisas, porque depois dos astros não conheço no mundo nada além do fogo que produza luz, esforcei-me por fazer compreender muito claramente tudo o que pertence à sua natureza: como se faz, como se alimenta, como às vezes tem apenas calor sem luz, e às vezes luz sem calor; como pode introduzir diversas cores em diversos corpos e várias outras qualidades; como derrete alguns e endurece outros; como pode consumir quase todos ou convertê-los em cinzas e fumaça; e enfim como dessas cinzas, pela simples violência de sua ação, forma vidro. Como essa transmutação de cinzas em vidro me parecia tão admirável quanto qualquer outra que se faça na natureza, tive particular prazer em descrevê-la.
Contudo, eu não queria inferir de todas essas coisas que este mundo tenha sido criado da maneira que eu propunha; pois é muito mais verossímil que, desde o começo, Deus o tenha tornado tal como devia ser.
Mas é certo, e é uma opinião comumente recebida entre os teólogos, que a ação pela qual agora Deus conserva o mundo é exatamente a mesma pela qual o criou. Assim, ainda que no começo não lhe tivesse dado outra forma além da do caos, contanto que, tendo estabelecido as leis da natureza, lhe prestasse seu concurso para agir como ela costuma agir, pode-se crer, sem prejudicar o milagre da criação, que por isso só todas as coisas puramente materiais poderiam, com o tempo, tornar-se tais como as vemos presentemente. E sua natureza é muito mais fácil de conceber quando as vemos nascer pouco a pouco desse modo do que quando as consideramos apenas já feitas.
Da descrição dos corpos inanimados e das plantas, passei à dos animais, e particularmente à dos homens.
Mas, como eu ainda não tinha conhecimento bastante para falar deles no mesmo estilo que do restante, isto é, demonstrando os efeitos pelas causas e mostrando de que sementes e de que modo a natureza deve produzi-los, contentei-me em supor que Deus formasse o corpo de um homem inteiramente semelhante a um dos nossos, tanto na figura exterior de seus membros quanto na conformação interior de seus órgãos, sem compô-lo de outra matéria além daquela que eu havia descrito, e sem pôr nele no começo nenhuma alma racional, nem qualquer outra coisa que lhe servisse de alma vegetativa ou sensitiva, senão que excitasse em seu coração um desses fogos sem luz que eu já havia explicado, e que eu não concebia de natureza diferente daquele que aquece o feno quando é guardado antes de estar seco, ou que faz ferver os vinhos novos quando se deixam fermentar sobre o bagaço.
Examinando as funções que, em consequência disso, poderiam existir nesse corpo, eu encontrava nele exatamente todas aquelas que podem existir em nós sem que pensemos, e portanto sem que nossa alma, isto é, essa parte distinta do corpo cuja natureza, como foi dito acima, é apenas pensar, contribua para elas. São as mesmas funções pelas quais se pode dizer que os animais sem razão se assemelham a nós. Por outro lado, não podia encontrar nesse corpo nenhuma daquelas que, dependendo do pensamento, são as únicas que nos pertencem enquanto homens; e só as encontrava depois, quando supunha que Deus criava uma alma racional e a unia a esse corpo de certa maneira que eu descrevia.
Mas, para que se possa ver de que modo eu tratava essa matéria, quero apresentar aqui a explicação do movimento do coração e das artérias. Sendo esse o primeiro e mais geral movimento observado nos animais, será fácil julgar por ele o que se deve pensar de todos os outros.
Para que haja menos dificuldade em entender o que direi, gostaria que aqueles que não são versados em anatomia se dessem ao trabalho, antes de ler isto, de mandar abrir diante de si o coração de algum grande animal que tenha pulmões, pois em todos eles é bastante semelhante ao do homem, e que lhes fossem mostradas as duas câmaras ou concavidades que nele existem.
Primeiro, a que está em seu lado direito, à qual correspondem dois tubos muito largos: a veia cava, que é o principal receptáculo do sangue, como o tronco da árvore de que todas as outras veias do corpo são os ramos; e a veia arteriosa, assim mal chamada porque é na verdade uma artéria, a qual, tomando origem no coração, divide-se, depois de sair dele, em vários ramos que se espalham por todos os pulmões.
Depois, a que está em seu lado esquerdo, à qual correspondem do mesmo modo dois tubos tão largos quanto os precedentes, ou ainda mais: a artéria venosa, também mal chamada, porque não é outra coisa senão uma veia, que vem dos pulmões, onde se divide em muitos ramos entrelaçados com os da veia arteriosa e com os daquele conduto chamado traqueia, por onde entra o ar da respiração; e a grande artéria, que, saindo do coração, envia seus ramos por todo o corpo.
Gostaria também que lhes fossem mostradas cuidadosamente as onze pequenas membranas que, como tantas pequenas portas, abrem e fecham as quatro aberturas existentes nessas duas concavidades: três à entrada da veia cava, dispostas de tal modo que não podem impedir que o sangue nela contido corra para a concavidade direita do coração, mas impedem exatamente que possa sair dela; três à entrada da veia arteriosa, dispostas de modo contrário, permitindo ao sangue que está nessa concavidade passar aos pulmões, mas não ao que está nos pulmões retornar a ela; duas outras à entrada da artéria venosa, deixando o sangue correr dos pulmões para a concavidade esquerda do coração, mas opondo-se ao seu retorno; e três à entrada da grande artéria, permitindo que o sangue saia do coração, mas impedindo-o de voltar. Não é preciso procurar outra razão para o número dessas membranas senão que a abertura da artéria venosa, sendo oval pelo lugar onde se encontra, pode ser comodamente fechada com duas, enquanto as outras, sendo redondas, podem sê-lo melhor com três.
Além disso, gostaria que se considerasse que a grande artéria e a veia arteriosa são de composição muito mais dura e firme do que a artéria venosa e a veia cava; que estas duas últimas se alargam antes de entrar no coração e formam como duas bolsas, chamadas aurículas do coração, compostas de uma carne semelhante à dele; que há sempre mais calor no coração do que em qualquer outro lugar do corpo; e, enfim, que esse calor é capaz de fazer com que, se alguma gota de sangue entra em suas concavidades, ela se inche prontamente e se dilate, como fazem em geral todos os líquidos quando se deixam cair gota a gota em algum vaso muito quente.
Depois disso, não preciso dizer outra coisa para explicar o movimento do coração senão que, quando suas concavidades não estão cheias de sangue, necessariamente corre sangue da veia cava para a direita e da artéria venosa para a esquerda, pois esses dois vasos estão sempre cheios, e suas aberturas, voltadas para o coração, não podem então estar fechadas. Mas, assim que entram duas gotas de sangue, uma em cada concavidade, essas gotas, que só podem ser muito grandes por causa da largura das aberturas por onde entram e da abundância de sangue nos vasos de onde vêm, rarefazem-se e dilatam-se por causa do calor que encontram ali.
Por esse meio, fazendo inchar todo o coração, empurram e fecham as cinco pequenas portas que estão nas entradas dos dois vasos de onde vieram, impedindo que desça mais sangue para o coração; e, continuando a rarefazer-se cada vez mais, empurram e abrem as seis outras pequenas portas que estão nas entradas dos dois outros vasos por onde saem, fazendo inchar por esse meio todos os ramos da veia arteriosa e da grande artéria quase no mesmo instante que o coração. Logo depois, o coração desincha, como também essas artérias, porque o sangue que nelas entrou se resfria; suas seis pequenas portas se fecham, as cinco da veia cava e da artéria venosa se reabrem, e dão passagem a duas outras gotas de sangue, que novamente fazem inchar o coração e as artérias, do mesmo modo que as precedentes.
E porque o sangue que entra assim no coração passa por essas duas bolsas chamadas suas aurículas, daí vem que o movimento delas é contrário ao dele, e que elas se desincham quando ele incha.
Além disso, para que aqueles que não conhecem a força das demonstrações matemáticas, e não estão acostumados a distinguir as razões verdadeiras das verossímeis, não se arrisquem a negar isto sem examiná-lo, quero adverti-los de que esse movimento que acabo de explicar segue tão necessariamente da simples disposição dos órgãos que se pode ver a olho no coração, do calor que nele se pode sentir com os dedos e da natureza do sangue que se pode conhecer por experiência, quanto o movimento de um relógio segue da força, da situação e da figura de seus contrapesos e de suas rodas.
Mas, se perguntarem como o sangue das veias não se esgota ao correr continuamente assim para o coração, e como as artérias não ficam cheias demais, já que todo o sangue que passa pelo coração vai ter nelas, não preciso responder outra coisa além do que já escreveu um médico da Inglaterra, a quem se deve louvar por ter aberto caminho neste ponto, e por ter sido o primeiro a ensinar que há várias pequenas passagens nas extremidades das artérias, pelas quais o sangue que elas recebem do coração entra nos pequenos ramos das veias, de onde volta de novo para o coração; de sorte que seu curso não é outra coisa senão uma circulação perpétua.
Ele o prova muito bem pela experiência ordinária dos cirurgiões: quando amarram o braço moderadamente acima do lugar onde abrem a veia, fazem com que o sangue saia mais abundantemente do que se não o tivessem amarrado; e aconteceria o contrário se o amarrassem abaixo, entre a mão e a abertura, ou se o amarrassem muito fortemente acima.
É manifesto que o laço moderadamente apertado, podendo impedir que o sangue que já está no braço retorne ao coração pelas veias, não impede por isso que venha sempre sangue novo pelas artérias, porque elas estão situadas abaixo das veias e porque suas paredes, sendo mais duras, são menos fáceis de comprimir. Também o sangue que vem do coração tende com mais força a passar por elas em direção à mão do que a retornar dali ao coração pelas veias. E, como esse sangue sai do braço pela abertura feita em uma das veias, deve necessariamente haver algumas passagens abaixo do laço, isto é, em direção às extremidades do braço, pelas quais ele possa vir das artérias.
Ele prova igualmente bem o que diz do curso do sangue por certas pequenas membranas dispostas em diversos lugares ao longo das veias, de tal modo que não lhe permitem passar do meio do corpo para as extremidades, mas apenas retornar das extremidades para o coração. Prova-o ainda pela experiência que mostra que todo o sangue do corpo pode sair em muito pouco tempo por uma só artéria quando ela é cortada, ainda que estivesse estreitamente ligada muito perto do coração e cortada entre ele e o laço, de modo que não houvesse motivo algum para imaginar que o sangue que dali saísse viesse de outro lugar.
Há, porém, várias outras coisas que testemunham que a verdadeira causa desse movimento do sangue é a que eu disse. Primeiro, a diferença que se nota entre o sangue que sai das veias e o que sai das artérias só pode proceder de que, sendo rarefeito e como destilado ao passar pelo coração, ele se torna mais sutil, mais vivo e mais quente logo depois de sair dele, isto é, quando está nas artérias, do que pouco antes de entrar, isto é, quando está nas veias.
Se se prestar atenção, notar-se-á que essa diferença aparece bem perto do coração, e não tanto nos lugares mais afastados. Depois, a dureza das paredes de que são compostas a veia arteriosa e a grande artéria mostra suficientemente que o sangue bate contra elas com mais força do que contra as veias.
E por que a concavidade esquerda do coração e a grande artéria seriam mais amplas e largas que a concavidade direita e a veia arteriosa, se não fosse porque o sangue da artéria venosa, tendo estado apenas nos pulmões desde que passou pelo coração, é mais sutil e se rarefaz com mais força e facilidade do que aquele que vem imediatamente da veia cava? E o que podem os médicos adivinhar ao tocar o pulso, se não sabem que, conforme o sangue muda de natureza, pode ser rarefeito pelo calor do coração mais ou menos fortemente, e mais ou menos depressa do que antes?
Se examinamos como esse calor se comunica aos outros membros, não é preciso confessar que é por meio do sangue, que, passando pelo coração, ali se aquece e dali se espalha por todo o corpo? Daí vem que, se se tira o sangue de alguma parte, tira-se ao mesmo tempo o calor; e, ainda que o coração fosse tão ardente quanto ferro em brasa, não bastaria para aquecer os pés e as mãos tanto quanto faz se não lhes enviasse continuamente sangue novo.
Conhece-se também daí que o verdadeiro uso da respiração é levar ar fresco suficiente ao pulmão para fazer com que o sangue que vem da concavidade direita do coração, onde foi rarefeito e como mudado em vapores, ali se espesse e se converta de novo em sangue antes de cair na esquerda; sem isso, não poderia servir de alimento ao fogo que nela se encontra. Isso se confirma porque vemos que os animais que não têm pulmões têm também uma só concavidade no coração, e que as crianças, que não podem usar os pulmões enquanto estão encerradas no ventre de suas mães, têm uma abertura pela qual corre sangue da veia cava para a concavidade esquerda do coração, e um conduto pelo qual vem sangue da veia arteriosa para a grande artéria, sem passar pelo pulmão.
Como se faria ainda a digestão no estômago, se o coração não lhe enviasse calor pelas artérias e, com isso, algumas das partes mais fluidas do sangue, que ajudam a dissolver os alimentos que ali foram postos? E a ação que converte o suco desses alimentos em sangue não é fácil de conhecer, se se considera que ele se destila ao passar e repassar pelo coração talvez mais de cem ou duzentas vezes por dia?
Que mais é necessário para explicar a nutrição e a produção dos diversos humores que existem no corpo, senão dizer que a força pela qual o sangue, ao rarefazer-se, passa do coração às extremidades das artérias faz com que algumas de suas partes se detenham entre as dos membros onde se encontram e tomem o lugar de outras que dali expulsam? Conforme a situação, a figura ou a pequenez dos poros que encontram, umas vão a certos lugares antes que outras, do mesmo modo que cada um pode ter visto diversos crivos, diferentemente perfurados, servirem para separar diversos grãos uns dos outros.
Enfim, o que há de mais notável em tudo isso é a geração dos espíritos animais, que são como um vento muito sutil, ou antes como uma chama muito pura e viva, que, subindo continuamente em grande abundância do coração para o cérebro, vai dali pelos nervos aos músculos e dá movimento a todos os membros. Não é preciso imaginar outra causa para que as partes do sangue que, sendo as mais agitadas e penetrantes, são as mais próprias para compor esses espíritos, se dirijam ao cérebro antes que a outro lugar, senão que as artérias que as levam para lá são as que vêm do coração pela linha mais reta de todas. E, segundo as regras da mecânica, que são as mesmas da natureza, quando várias coisas tendem juntas a mover-se para um mesmo lado onde não há bastante lugar para todas, como as partes do sangue que saem da concavidade esquerda do coração tendem para o cérebro, as mais fracas e menos agitadas devem ser desviadas pelas mais fortes, que por esse meio seguem sozinhas para lá.
Eu havia explicado com bastante detalhe todas essas coisas no tratado que antes tivera o propósito de publicar.
Eu havia mostrado depois qual deve ser a estrutura dos nervos e dos músculos do corpo humano para fazer com que os espíritos animais que estão dentro dele tenham força para mover seus membros. Assim se vê que as cabeças, pouco depois de serem cortadas, ainda se movem e mordem a terra, embora já não estejam animadas; que mudanças devem fazer-se no cérebro para causar vigília, sono e sonhos; como a luz, os sons, os odores, os sabores, o calor e todas as outras qualidades dos objetos exteriores podem imprimir ali várias ideias por intermédio dos sentidos; como a fome, a sede e as outras paixões interiores também podem enviar para lá as suas; o que se deve entender por senso comum, onde essas ideias são recebidas; por memória, que as conserva; e por fantasia, que pode mudá-las diversamente e compor delas outras novas, e que, pelo mesmo meio, distribuindo os espíritos animais nos músculos, pode fazer mover os membros desse corpo de tantos modos diferentes e tão apropriadamente aos objetos que se apresentam aos sentidos e às paixões interiores quanto os nossos podem mover-se sem que a vontade os conduza.
Isso não parecerá de modo algum estranho àqueles que sabem quantos diversos autômatos, ou máquinas móveis, a indústria dos homens pode fazer, empregando muito poucas peças em comparação com a grande multidão de ossos, músculos, nervos, artérias, veias e todas as outras partes que existem no corpo de cada animal. Eles considerarão esse corpo como uma máquina que, sendo feita pelas mãos de Deus, é incomparavelmente mais bem ordenada e contém movimentos mais admiráveis do que qualquer daquelas que podem ser inventadas pelos homens.
Detive-me particularmente em mostrar que, se houvesse máquinas que tivessem os órgãos e a figura exterior de um macaco ou de algum outro animal sem razão, não teríamos meio algum de reconhecer que não seriam em tudo da mesma natureza que esses animais. Mas, se houvesse máquinas que se parecessem com nossos corpos e imitassem nossas ações tanto quanto moralmente fosse possível, teríamos sempre dois meios muito certos de reconhecer que nem por isso seriam verdadeiros homens.
O primeiro é que nunca poderiam usar palavras nem outros sinais compondo-os como fazemos para declarar aos outros nossos pensamentos. Pois pode-se muito bem conceber que uma máquina seja feita de modo a proferir palavras, e até a proferir algumas por ocasião das ações corporais que causem alguma mudança em seus órgãos; por exemplo, se a tocam em certo lugar, que pergunte o que se quer dizer-lhe; se em outro, que grite que a machucam, e coisas semelhantes. Mas não se concebe que as arranje de diversos modos para responder ao sentido de tudo o que se disser em sua presença, como podem fazer os homens, mesmo os mais embrutecidos.
O segundo meio é que, embora fizessem várias coisas tão bem ou talvez melhor que algum de nós, falhariam infalivelmente em algumas outras, pelas quais se descobriria que não agem por conhecimento, mas apenas pela disposição de seus órgãos. Pois a razão é um instrumento universal, que pode servir em toda espécie de encontros, enquanto esses órgãos precisam de alguma disposição particular para cada ação particular. Daí vem que é moralmente impossível que haja em uma máquina diversidade bastante de órgãos para fazê-la agir em todas as ocorrências da vida do mesmo modo que nossa razão nos faz agir.
Por esses mesmos dois meios também se pode conhecer a diferença que há entre os homens e os animais. É coisa muito notável que não haja homens tão embrutecidos nem tão estúpidos, sem excetuar mesmo os insensatos, que não sejam capazes de arranjar diversas palavras e compor com elas um discurso pelo qual façam entender seus pensamentos; e, ao contrário, não há outro animal, por mais perfeito e bem nascido que seja, que faça o mesmo.
Isso não acontece por falta de órgãos, pois vemos que as pegas e os papagaios podem proferir palavras como nós, e contudo não podem falar como nós, isto é, testemunhando que pensam o que dizem. Ao passo que os homens nascidos surdos e mudos, privados dos órgãos que servem aos outros para falar tanto ou mais que os animais, costumam inventar por si mesmos alguns sinais pelos quais se fazem entender por aqueles que, estando ordinariamente com eles, têm tempo de aprender sua língua.
Isso não testemunha apenas que os animais têm menos razão que os homens, mas que não a têm de modo algum. Pois vemos que é preciso muito pouca para saber falar; e, como se nota desigualdade entre animais de uma mesma espécie, assim como entre homens, e uns são mais fáceis de adestrar do que outros, não é crível que um macaco ou papagaio dos mais perfeitos de sua espécie não igualasse nisso uma criança das mais estúpidas, ou ao menos uma criança que tivesse o cérebro perturbado, se sua alma não fosse de natureza inteiramente diferente da nossa.
Não se deve confundir as palavras com os movimentos naturais que testemunham as paixões e que podem ser imitados pelas máquinas tanto quanto pelos animais. Nem se deve pensar, como alguns antigos, que os animais falam, embora nós não entendamos sua linguagem; pois, se fosse verdade, já que têm vários órgãos relacionados aos nossos, poderiam fazer-se entender tanto por nós quanto por seus semelhantes.
Também é coisa muito notável que, embora haja vários animais que mostram mais indústria do que nós em algumas de suas ações, vê-se contudo que os mesmos não mostram nenhuma em muitas outras. De modo que aquilo que fazem melhor que nós não prova que tenham espírito, pois, por essa conta, teriam mais que qualquer de nós e fariam melhor em todo o resto; mas antes prova que não o têm, e que é a natureza que age neles segundo a disposição de seus órgãos. Assim um relógio, composto apenas de rodas e molas, pode contar as horas e medir o tempo mais exatamente do que nós com toda a nossa prudência.
Depois disso, eu havia descrito a alma racional e mostrado que ela não pode de modo algum ser tirada do poder da matéria, como as outras coisas de que falara, mas que deve ser expressamente criada. Mostrei ainda que não basta que esteja alojada no corpo humano como um piloto em seu navio, a não ser talvez para mover seus membros, mas que é necessário que esteja unida e ligada a ele mais estreitamente, para ter, além disso, sentimentos e apetites semelhantes aos nossos, e assim compor um verdadeiro homem.
De resto, alonguei-me aqui um pouco sobre a alma porque é uma das matérias mais importantes. Depois do erro daqueles que negam Deus, erro que penso ter refutado suficientemente acima, não há outro que afaste mais os espíritos fracos do reto caminho da virtude do que imaginar que a alma dos animais seja da mesma natureza que a nossa e que, por consequência, nada temos a temer nem a esperar depois desta vida, do mesmo modo que as moscas e as formigas.
Quando se sabe o quanto elas diferem, compreendem-se muito melhor as razões que provam que a nossa é de uma natureza inteiramente independente do corpo, e por conseguinte não está sujeita a morrer com ele. E, como não se veem outras causas que a destruam, é-se naturalmente levado a julgar que ela é imortal.