Quarta parte
Nota editorial. Tradução original Literunico, preparada a partir do texto francês de René Descartes em domínio público no Brasil. Descartes faleceu em 1650; esta tradução é nova e não utiliza tradução moderna protegida.
Não sei se devo entreter-vos com as primeiras meditações que fiz ali; pois são tão metafísicas e tão pouco comuns que talvez não sejam do gosto de todos. Contudo, para que se possa julgar se os fundamentos que tomei são bastante firmes, vejo-me de algum modo obrigado a falar delas.
Havia muito tempo eu notara que, quanto aos costumes, às vezes é necessário seguir opiniões que se sabe serem muito incertas, como se fossem indubitáveis, conforme foi dito acima. Mas, porque então eu desejava dedicar-me apenas à busca da verdade, pensei que devia fazer exatamente o contrário: rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, para ver se depois disso não restaria em minha crença alguma coisa inteiramente indubitável.
Assim, como nossos sentidos às vezes nos enganam, quis supor que não havia coisa alguma tal como eles nos fazem imaginar. E, porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo nas matérias mais simples da geometria, e nelas cometem paralogismos, julgando que eu estava sujeito a falhar tanto quanto qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões que antes tomara por demonstrações. Enfim, considerando que todos os mesmos pensamentos que temos acordados podem também ocorrer-nos quando dormimos, sem que então nenhum deles seja verdadeiro, resolvi fingir que todas as coisas que jamais haviam entrado em meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos.
Mas logo depois percebi que, enquanto eu queria pensar assim que tudo era falso, era necessário que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade, penso, logo existo, era tão firme e tão segura que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não eram capazes de abalá-la, julguei que podia recebê-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que procurava.
Depois, examinando com atenção o que eu era, e vendo que podia fingir não ter corpo algum, e que não havia mundo algum nem lugar algum onde eu estivesse, mas que não podia por isso fingir que eu não era; e que, ao contrário, do próprio fato de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas seguia-se muito evidentemente e muito certamente que eu era; ao passo que, se eu apenas tivesse cessado de pensar, ainda que todo o resto do que jamais imaginara fosse verdadeiro, eu não teria razão alguma para crer que eu existisse; conheci daí que eu era uma substância cuja essência ou natureza inteira é apenas pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum nem depende de coisa material alguma. De sorte que este eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, e é até mais fácil de conhecer que ele; e, ainda que o corpo não existisse, ela não deixaria de ser tudo o que é.
Depois disso considerei, em geral, o que é requerido para que uma proposição seja verdadeira e certa; pois, como acabara de encontrar uma que eu sabia ser tal, pensei que devia também saber em que consistia essa certeza. E, tendo observado que nada há em “penso, logo existo” que me assegure dizer a verdade senão o fato de eu ver muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder tomar como regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras; havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente.
Em seguida, refletindo que eu duvidava, e que por conseguinte meu ser não era inteiramente perfeito, pois via claramente que conhecer é uma perfeição maior do que duvidar, ocorreu-me procurar de onde aprendera a pensar em alguma coisa mais perfeita do que eu era. Conheci evidentemente que isso devia vir de alguma natureza que fosse, de fato, mais perfeita.
Quanto aos pensamentos que eu tinha de muitas outras coisas fora de mim, como céu, terra, luz, calor e mil outras, não estava tão preocupado em saber de onde vinham; pois, não notando nelas nada que me parecesse torná-las superiores a mim, podia crer que, se eram verdadeiras, dependiam de minha natureza enquanto ela tinha alguma perfeição; e, se não eram verdadeiras, que as recebia do nada, isto é, que estavam em mim porque eu tinha defeito.
Mas o mesmo não podia ocorrer com a ideia de um ser mais perfeito que o meu. Recebê-la do nada era manifestamente impossível; e, como não há menos contradição em que o mais perfeito seja consequência e dependência do menos perfeito do que em que alguma coisa proceda do nada, eu também não podia recebê-la de mim mesmo. Restava, portanto, que ela tivesse sido posta em mim por uma natureza verdadeiramente mais perfeita do que eu, e que tivesse em si todas as perfeições de que eu podia ter alguma ideia, isto é, para dizer em uma palavra, que fosse Deus.
Acrescentei a isso que, visto eu conhecer algumas perfeições que não possuía, eu não era o único ser existente; mas era necessário que houvesse algum outro, mais perfeito, do qual eu dependesse e do qual tivesse recebido tudo o que tinha. Pois, se eu tivesse sido só e independente de qualquer outro, de modo que tivesse de mim mesmo todo esse pouco que participava do ser perfeito, poderia ter tido de mim, pela mesma razão, todo o restante que sabia faltar-me, e assim ser eu mesmo infinito, eterno, imutável, onisciente, todo-poderoso, e enfim possuir todas as perfeições que podia notar em Deus.
Segundo os raciocínios que acabo de fazer, para conhecer a natureza de Deus tanto quanto a minha era capaz, eu só precisava considerar, entre todas as coisas de que encontrava em mim alguma ideia, se era ou não perfeição possuí-las. Estava seguro de que nenhuma das que indicavam imperfeição estava nele, mas todas as outras estavam. Assim, via que dúvida, inconstância, tristeza e coisas semelhantes não podiam estar nele, visto que eu mesmo gostaria muito de estar isento delas.
Além disso, eu tinha ideias de muitas coisas sensíveis e corpóreas. Embora supusesse que sonhava, e que tudo o que via ou imaginava era falso, não podia negar, contudo, que as ideias dessas coisas existiam verdadeiramente em meu pensamento. Mas, como eu já conhecera em mim muito claramente que a natureza inteligente é distinta da corpórea, considerando que toda composição testemunha dependência, e que dependência é manifestamente um defeito, julgava que não podia ser uma perfeição em Deus ser composto dessas duas naturezas, e que por conseguinte ele não o era. Se havia corpos no mundo, ou inteligências, ou outras naturezas que não fossem inteiramente perfeitas, seu ser devia depender de seu poder, de tal modo que não poderiam subsistir sem ele um só momento.
Quis depois procurar outras verdades. Tendo-me proposto o objeto dos geômetras, que concebia como um corpo contínuo, ou um espaço indefinidamente estendido em comprimento, largura e altura ou profundidade, divisível em diversas partes, que podiam ter várias figuras e grandezas e ser movidas ou transportadas de todos os modos, pois os geômetras supõem tudo isso em seu objeto, percorri algumas de suas demonstrações mais simples. Tendo observado que a grande certeza que todos lhes atribuem se funda apenas em que as concebemos evidentemente, segundo a regra que acabei de dizer, notei também que nelas não havia coisa alguma que me assegurasse da existência de seu objeto. Pois, por exemplo, eu via bem que, supondo um triângulo, era necessário que seus três ângulos fossem iguais a dois retos, mas nada via por isso que me assegurasse haver no mundo algum triângulo.
Ao contrário, voltando a examinar a ideia que tinha de um ser perfeito, encontrava que a existência estava nela compreendida do mesmo modo que na ideia de um triângulo está compreendido que seus três ângulos são iguais a dois retos, ou na de uma esfera que todas as suas partes são igualmente distantes do centro; e até mais evidentemente. Por consequência, é ao menos tão certo que Deus, que é esse ser tão perfeito, é ou existe, quanto qualquer demonstração de geometria poderia ser.
Mas o que faz muitos se persuadirem de que há dificuldade em conhecê-lo, e também em conhecer o que é sua alma, é que nunca elevam o espírito além das coisas sensíveis, e estão tão acostumados a nada considerar senão imaginando-o, que é uma forma de pensar própria das coisas materiais, que tudo o que não é imaginável lhes parece não ser inteligível.
Isso se manifesta bastante no fato de que mesmo os filósofos sustentam nas escolas como máxima que nada há no entendimento que não tenha estado primeiro nos sentidos, embora seja certo que as ideias de Deus e da alma nunca estiveram neles. Parece-me que aqueles que querem usar a imaginação para compreendê-las fazem como se, para ouvir sons ou sentir odores, quisessem servir-se dos olhos; salvo que ainda há esta diferença: o sentido da visão não nos assegura menos da verdade de seus objetos do que os do olfato ou da audição, enquanto nem nossa imaginação nem nossos sentidos jamais poderiam assegurar-nos de coisa alguma se nosso entendimento não interviesse.
Enfim, se há ainda homens que não estejam bastante persuadidos da existência de Deus e de sua alma pelas razões que apresentei, quero que saibam que todas as outras coisas das quais talvez se pensem mais seguros, como ter um corpo, haver astros e uma terra, e coisas semelhantes, são menos certas. Pois, embora se tenha dessas coisas uma segurança moral, tal que parece que só um extravagante poderia duvidar delas, quando se trata de uma certeza metafísica, não se pode negar, sem ser desarrazoado, que há motivo bastante para não estar inteiramente seguro, ao notar que se pode imaginar do mesmo modo, enquanto se dorme, que se tem outro corpo e que se veem outros astros e outra terra, sem que nada disso exista.
Pois de onde se sabe que os pensamentos que vêm em sonho são mais falsos que os outros, visto que muitas vezes não são menos vivos e expressos? Que os melhores espíritos estudem isso quanto quiserem: não creio que possam dar razão alguma suficiente para afastar essa dúvida se não pressupuserem a existência de Deus.
Primeiro, porque aquilo mesmo que tomei há pouco como regra, a saber, que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras, só é assegurado porque Deus é ou existe, porque é um ser perfeito, e porque tudo o que há em nós vem dele. Daí se segue que nossas ideias ou noções, sendo coisas reais e vindo de Deus, naquilo em que são claras e distintas, não podem ser senão verdadeiras.
Assim, se temos com bastante frequência ideias que contêm falsidade, isso só pode ocorrer com aquelas que têm algo de confuso e obscuro; pois nisso participam do nada, isto é, só estão em nós assim confusas porque não somos inteiramente perfeitos. É evidente que não há menos contradição em que a falsidade ou a imperfeição proceda de Deus enquanto tal do que em que a verdade ou a perfeição proceda do nada. Mas, se não soubéssemos que tudo o que há em nós de real e verdadeiro vem de um ser perfeito e infinito, por claras e distintas que fossem nossas ideias, não teríamos razão alguma que nos assegurasse que possuem a perfeição de serem verdadeiras.
Ora, depois que o conhecimento de Deus e da alma nos tornou assim certos dessa regra, é muito fácil conhecer que as fantasias que imaginamos enquanto dormimos não devem, de modo algum, fazer-nos duvidar da verdade dos pensamentos que temos acordados. Pois, se mesmo durante o sono alguém tivesse uma ideia muito distinta, como, por exemplo, se um geômetra inventasse alguma nova demonstração, o sono não a impediria de ser verdadeira.
Quanto ao erro mais ordinário de nossos sonhos, que consiste em nos representar diversos objetos do mesmo modo que fazem nossos sentidos exteriores, não importa que ele nos dê ocasião de desconfiar da verdade de tais ideias, pois elas também podem enganar-nos muitas vezes sem que durmamos, como quando os que têm icterícia veem tudo amarelo, ou quando os astros e outros corpos muito afastados nos parecem muito menores do que são.
Enfim, quer estejamos acordados, quer durmamos, nunca devemos deixar-nos persuadir senão pela evidência de nossa razão. E é preciso notar que digo de nossa razão, e não de nossa imaginação nem de nossos sentidos. Assim, ainda que vejamos o sol muito claramente, não devemos julgar por isso que ele tenha apenas o tamanho com que o vemos; e podemos imaginar distintamente uma cabeça de leão enxertada no corpo de uma cabra, sem que seja preciso concluir que exista no mundo uma quimera.
A razão não nos dita que aquilo que vemos ou imaginamos dessa maneira seja verdadeiro; mas dita que todas as nossas ideias ou noções devem ter algum fundamento de verdade, pois não seria possível que Deus, que é todo perfeito e todo verdadeiro, as tivesse posto em nós sem isso. E, como nossos raciocínios nunca são tão evidentes nem tão inteiros durante o sono quanto durante a vigília, embora às vezes nossas imaginações sejam então tão ou mais vivas e expressas, ela nos dita também que, não podendo nossos pensamentos ser todos verdadeiros, porque não somos inteiramente perfeitos, aquilo que têm de verdade deve encontrar-se infalivelmente nos que temos acordados antes que em nossos sonhos.