Terceira parte Discurso do Método — Tradução Literunico · Capítulo 3 de 6
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Terceira parte

Nota editorial. Tradução original Literunico, preparada a partir do texto francês de René Descartes em domínio público no Brasil. Descartes faleceu em 1650; esta tradução é nova e não utiliza tradução moderna protegida.

Enfim, como não basta, antes de começar a reconstruir a casa onde se mora, derrubá-la, prover-se de materiais e arquitetos, ou exercitar-se pessoalmente na arquitetura, e além disso ter traçado cuidadosamente o desenho, mas é preciso também ter providenciado outra morada onde se possa ficar comodamente durante o tempo da obra, assim também, para que eu não permanecesse irresoluto em minhas ações enquanto a razão me obrigasse a sê-lo em meus juízos, e para que não deixasse de viver desde então o mais felizmente que pudesse, formei para mim uma moral provisória. Ela consistia apenas em três ou quatro máximas, das quais desejo dar-vos parte.

A primeira era obedecer às leis e aos costumes de meu país, conservando constantemente a religião na qual Deus me concedeu a graça de ser instruído desde a infância, e governando-me em todas as outras coisas segundo as opiniões mais moderadas e mais afastadas do excesso, que fossem comumente recebidas na prática pelos mais sensatos daqueles com quem eu teria de viver.

Pois, começando então a não atribuir valor algum às minhas próprias opiniões, porque queria submetê-las todas ao exame, estava seguro de que não poderia fazer melhor do que seguir as dos mais sensatos. E, ainda que talvez houvesse homens igualmente sensatos entre persas ou chineses, parecia-me que o mais útil era regular-me por aqueles com quem teria de conviver. Para saber quais eram verdadeiramente suas opiniões, eu devia observar antes o que praticavam do que o que diziam, não somente porque, na corrupção de nossos costumes, há poucas pessoas que queiram dizer tudo o que creem, mas também porque muitas o ignoram elas próprias; pois a ação do pensamento pela qual se crê uma coisa é diferente daquela pela qual se conhece que se crê, e muitas vezes uma existe sem a outra.

Entre muitas opiniões igualmente recebidas, eu escolhia apenas as mais moderadas, tanto porque são sempre as mais cômodas para a prática e verossimilmente as melhores, já que todo excesso costuma ser mau, como também para me afastar menos do verdadeiro caminho caso eu errasse, do que se, tendo escolhido um extremo, fosse o outro que se devesse seguir.

Em particular, eu contava entre os excessos todas as promessas pelas quais se retira alguma coisa da própria liberdade. Não que desaprovasse as leis que, para remediar a inconstância dos espíritos fracos, permitem, quando se tem algum bom propósito, ou mesmo, para a segurança do comércio, algum propósito que é apenas indiferente, fazer votos ou contratos que obriguem a perseverar. Mas, como eu não via no mundo coisa alguma que permanecesse sempre no mesmo estado, e como, no que me dizia respeito, prometia a mim mesmo aperfeiçoar cada vez mais meus juízos, e não torná-los piores, teria pensado cometer uma grande falta contra o bom senso se, porque aprovava então alguma coisa, me obrigasse a tomá-la ainda depois por boa, quando talvez tivesse cessado de sê-lo, ou quando eu tivesse cessado de estimá-la como tal.

Minha segunda máxima era ser tão firme e resoluto em minhas ações quanto pudesse, e seguir com não menos constância as opiniões mais duvidosas, uma vez que me tivesse determinado por elas, do que se fossem muito seguras. Imitava nisso os viajantes que, achando-se perdidos em alguma floresta, não devem errar girando ora para um lado, ora para outro, nem menos ainda permanecer parados em um lugar, mas caminhar sempre o mais reto que puderem para um mesmo lado, sem mudá-lo por razões fracas, embora talvez tenha sido apenas o acaso que, no começo, os determinou a escolhê-lo. Por esse meio, se não chegam exatamente aonde desejam, chegarão ao menos ao fim a algum lugar onde provavelmente estarão melhor do que no meio da floresta.

E assim, como as ações da vida frequentemente não suportam demora alguma, é verdade muito certa que, quando não está em nosso poder discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis; e mesmo quando não notamos maior probabilidade em umas do que em outras, devemos ainda assim determinar-nos por algumas e considerá-las depois, não mais como duvidosas enquanto dizem respeito à prática, mas como muito verdadeiras e muito certas, porque a razão que nos levou a determiná-las é ela própria tal.

Isso foi capaz, desde então, de me livrar de todos os arrependimentos e remorsos que costumam agitar as consciências desses espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar inconstantemente a praticar como boas as coisas que depois julgam más.

Minha terceira máxima era tentar sempre vencer antes a mim mesmo do que a fortuna, e mudar meus desejos antes que a ordem do mundo; e, de modo geral, acostumar-me a crer que nada está inteiramente em nosso poder senão nossos pensamentos. Assim, depois de termos feito o melhor possível quanto às coisas exteriores a nós, tudo o que nos falta conseguir é, em relação a nós, absolutamente impossível.

Isso só me parecia suficiente para impedir que eu desejasse no futuro alguma coisa que não pudesse adquirir, e assim para tornar-me contente. Pois nossa vontade, inclinando-se naturalmente a desejar apenas as coisas que nosso entendimento lhe representa de algum modo como possíveis, é certo que, se considerarmos todos os bens que estão fora de nós como igualmente afastados de nosso poder, não teremos mais pesar por faltar-nos aqueles que parecem devidos ao nosso nascimento, quando deles formos privados sem culpa nossa, do que temos por não possuir os reinos da China ou do México. Fazendo, como se diz, da necessidade virtude, não desejaremos mais estar sãos quando doentes, ou livres quando presos, do que agora desejamos ter corpos de matéria tão pouco corruptível quanto os diamantes, ou asas para voar como os pássaros.

Mas confesso que é preciso longo exercício e meditação muitas vezes reiterada para acostumar-se a olhar todas as coisas por esse ângulo. Creio que é principalmente nisso que consistia o segredo daqueles filósofos que outrora puderam subtrair-se ao império da fortuna e, apesar das dores e da pobreza, disputar a felicidade com seus deuses. Ocupando-se sem cessar em considerar os limites prescritos pela natureza, persuadiam-se tão perfeitamente de que nada estava em seu poder senão seus pensamentos que isso bastava para impedir que tivessem afeição por outras coisas; e dispunham deles tão absolutamente que tinham nisso alguma razão de se estimar mais ricos, mais poderosos, mais livres e mais felizes do que todos os outros homens, os quais, sem essa filosofia, por mais favorecidos que sejam pela natureza e pela fortuna, nunca dispõem assim de tudo o que querem.

Finalmente, para concluir essa moral, ocorreu-me fazer uma revisão das diversas ocupações que os homens têm nesta vida, para tentar escolher a melhor. Sem querer dizer coisa alguma das dos outros, pensei que não poderia fazer melhor do que continuar naquela mesma em que me encontrava: empregar toda a minha vida em cultivar minha razão e avançar tanto quanto pudesse no conhecimento da verdade, segundo o método que me prescrevera.

Eu havia experimentado contentamentos tão extremos desde que começara a servir-me desse método, que não acreditava que se pudessem receber outros mais doces nem mais inocentes nesta vida. Descobrindo todos os dias, por seu meio, algumas verdades que me pareciam bastante importantes e comumente ignoradas pelos outros homens, a satisfação que eu recebia enchia de tal modo meu espírito que todo o resto pouco me tocava.

Além disso, as três máximas precedentes só se fundavam no propósito que eu tinha de continuar a instruir-me. Pois, tendo Deus dado a cada um de nós alguma luz para discernir o verdadeiro do falso, eu não teria acreditado dever contentar-me com as opiniões alheias por um só momento, se não me tivesse proposto empregar meu próprio juízo a examiná-las quando fosse tempo. Tampouco poderia isentar-me de escrúpulo ao segui-las se não esperasse, por isso, não perder nenhuma ocasião de encontrar outras melhores, caso existissem. Enfim, eu não poderia limitar meus desejos nem estar contente se não seguisse um caminho pelo qual, pensando estar seguro da aquisição de todos os conhecimentos de que fosse capaz, pensava estar, pelo mesmo meio, seguro da aquisição de todos os verdadeiros bens que jamais estivessem em meu poder. Pois, como nossa vontade não se inclina a seguir nem a fugir de coisa alguma senão conforme nosso entendimento a representa como boa ou má, basta bem julgar para bem fazer, e julgar o melhor que se possa para fazer também todo o melhor possível, isto é, para adquirir todas as virtudes e, ao mesmo tempo, todos os outros bens que se possam adquirir; e, quando se está certo disso, não se pode deixar de estar contente.

Depois de me assegurar assim dessas máximas, e de tê-las posto à parte com as verdades da fé, que sempre foram as primeiras em minha crença, julguei que, quanto a todo o resto de minhas opiniões, podia livremente empreender desfazer-me delas. E, como esperava chegar a isso melhor conversando com os homens do que permanecendo mais tempo fechado no quarto aquecido onde tivera todos esses pensamentos, o inverno ainda não havia terminado quando voltei a viajar.

Durante os nove anos seguintes, não fiz outra coisa senão andar de um lado a outro pelo mundo, tentando ser antes espectador do que ator em todas as comédias que nele se representam. Refletindo particularmente, em cada matéria, sobre o que podia torná-la suspeita e dar-nos ocasião de engano, eu arrancava nesse meio tempo de meu espírito todos os erros que ali antes se haviam introduzido.

Não que por isso imitasse os céticos, que duvidam apenas por duvidar e afetam estar sempre irresolutos; ao contrário, todo o meu propósito tendia apenas a assegurar-me e a rejeitar a terra movediça e a areia para encontrar a rocha ou a argila.

Isso me sucedia, parece-me, bastante bem. Pois, tentando descobrir a falsidade ou a incerteza das proposições que examinava, não por fracas conjecturas, mas por raciocínios claros e seguros, não encontrava nenhuma tão duvidosa que dela não tirasse sempre alguma conclusão bastante certa, ainda que fosse apenas esta: que ela nada continha de certo.

E, assim como ao derrubar uma casa velha se reservam ordinariamente os restos da demolição para servir à construção de uma nova, também, ao destruir todas as minhas opiniões que julgava mal fundadas, fazia diversas observações e adquiria várias experiências que depois me serviram para estabelecer outras mais certas.

Além disso, continuava a exercitar-me no método que me prescrevera. Pois, além de cuidar para conduzir geralmente todos os meus pensamentos segundo suas regras, reservava de tempos em tempos algumas horas que empregava particularmente em praticá-lo em dificuldades de matemática, ou mesmo em algumas outras que podia tornar quase semelhantes às matemáticas, destacando-as de todos os princípios das outras ciências que eu não achava bastante firmes, como se verá em várias questões explicadas neste volume.

Assim, sem viver aparentemente de outro modo que aqueles que, não tendo outro emprego senão passar uma vida doce e inocente, procuram separar os prazeres dos vícios e, para gozar seu lazer sem aborrecimento, usam todos os divertimentos honestos, eu não deixava de prosseguir em meu propósito e de aproveitar no conhecimento da verdade talvez mais do que se apenas tivesse lido livros ou frequentado homens de letras.

Entretanto, esses nove anos se passaram antes que eu tivesse tomado qualquer partido sobre as dificuldades que costumam ser disputadas entre os doutos, ou começado a procurar os fundamentos de alguma filosofia mais certa que a vulgar. O exemplo de vários espíritos excelentes que antes haviam tido esse propósito e que, parecia-me, não haviam conseguido realizá-lo, fazia-me imaginar nisso tanta dificuldade que talvez eu não ousasse empreendê-lo tão cedo, se não tivesse visto que alguns já faziam correr o rumor de que eu havia chegado a esse resultado.

Não saberia dizer em que fundavam essa opinião. Se contribuí para ela por meus discursos, deve ter sido confessando mais ingenuamente o que ignorava do que costumam fazer aqueles que estudaram um pouco, e talvez também mostrando as razões que tinha para duvidar de muitas coisas que outros estimam certas, mais do que me vangloriando de alguma doutrina.

Mas, tendo o coração bastante bom para não querer que me tomassem por algo diferente do que eu era, pensei que devia tentar por todos os meios tornar-me digno da reputação que me davam. Há justamente oito anos esse desejo me fez resolver afastar-me de todos os lugares onde pudesse ter conhecidos e retirar-me aqui, para um país onde a longa duração da guerra fez estabelecer tais ordens que os exércitos mantidos nele parecem servir apenas para que se gozem os frutos da paz com tanto mais segurança. No meio da multidão de um grande povo muito ativo e mais cuidadoso de seus próprios negócios do que curioso dos alheios, sem carecer de nenhuma das comodidades que existem nas cidades mais frequentadas, pude viver tão solitário e retirado quanto nos desertos mais afastados.

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