O Quarto da Avó A Casa que Dorme no Brejo · Capítulo 2 de 6
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O Quarto da Avó

Caio não abriu a porta. Isso contou a favor dele. Qualquer homem decidido a provar coragem diante de uma mulher que conheceu aos dezessete anos teria colocado a mão na maçaneta e condenado os dois a uma cena idiota. Ele apenas ergueu a lanterna e esperou Laura decidir. A voz da avó havia cessado, mas o corredor continuava ocupado por alguma presença doméstica, paciente, íntima. Laura respirou pelo nariz, irritada com o tremor nas mãos, e perguntou havia quanto tempo Caio sabia que a casa fazia truques. Ele respondeu que truque era palavra generosa. O pai dele restaurara parte do telhado quando Laura ainda morava ali, e voltara para casa com febre, lama nos sapatos e a certeza de ter visto dona Celina conversando com uma parede.

Laura lembrou desse inverno. Lembrou da avó proibindo que ela saísse para brincar perto do brejo, da mãe chorando na cozinha, de Caio mais novo esperando do lado de fora do portão com uma bicicleta azul. A memória veio incompleta, cheia de buracos que ela aprendera a respeitar. Perguntou por que ele queria comprar a casa se conhecia a fama. Caio guardou a lanterna no bolso e disse que não queria comprar para explorar história de medo. Queria impedir que outro comprador derrubasse as pilastras e acordasse o que dormia embaixo. Laura riu sem vontade. Disse que ele podia ter aberto a conversa com essa parte. Ele respondeu que corretores rejeitam anúncios com brejo consciente e possível maldição familiar.

A porta do corredor abriu um palmo. O cheiro mudou. Saiu do vão um ar de quarto fechado, remédio doce e sabonete de lavanda. Era o cheiro de dona Celina nos últimos meses de vida. Laura entrou antes de Caio, levando consigo a raiva antiga de quem volta à casa da infância e encontra tudo menor, menos a culpa. O corredor tinha fotografias viradas, cabides vazios e marcas de umidade em forma de mãos. No fim, o quarto da avó estava aberto. A cama continuava arrumada, coberta por uma colcha verde. Sobre o criado, uma lamparina acesa iluminava uma Bíblia, uma tesoura pequena de cabo preto e o relógio de pulso de Helena, mãe de Laura, morta quando Laura tinha dezoito anos.

Laura pegou o relógio com cuidado. A pulseira estava úmida. A mãe nunca entrara naquele quarto depois de sair de Santa Bruma, pelo menos era o que Laura acreditava. Caio ficou junto à porta, sem invadir. Ela perguntou se ele sabia do relógio. Ele negou. A negação veio rápida, direta, sem enfeite, e Laura acreditou contra a própria preferência. Dentro da gaveta do criado havia cartas amarradas por uma fita de cetim azul. A caligrafia da avó cobria os envelopes. Todos tinham o mesmo destinatário. Para Laura, se a casa me vencer. Ela sentiu o estômago fechar. Dona Celina morrera de infarto, segundo o atestado. Sentada na varanda, às seis da manhã, com lama seca até os joelhos.

Caio sugeriu levar as cartas para a cidade e abrir em lugar iluminado, com café normal e testemunha viva. Laura quase aceitou. Então a janela do quarto escureceu, embora ainda fosse tarde. O brejo subia lá fora, cobrindo raízes, pedras e a base das pilastras com uma rapidez que não pertencia à maré nenhuma. A casa inclinou de leve, assentando o corpo sobre a água. Uma batida veio debaixo do assoalho. Depois outra. Laura ajoelhou, encostou o ouvido na tábua e ouviu a voz da mãe, fraca, chamando seu nome. Caio a puxou pelo ombro antes que ela respondesse. O contato foi firme e cuidadoso. Laura odiou a sensação de segurança quase tanto quanto precisou dela.

Ela abriu a primeira carta para escapar da voz sob o chão. A avó escrevera que a casa fora construída pelo bisavô sobre um brejo sagrado para mulheres da região, um lugar onde se enterravam promessas que homens não queriam cumprir. Quando a família tomou a terra, a água começou a cobrar uma pessoa a cada geração. Não matava logo. Chamava, imitava, guardava sono, fazia a casa respirar até alguém aceitar descer pela porta sob a cozinha. Dona Celina passara a vida adiando a cobrança. Helena, mãe de Laura, fizera um acordo para salvar a filha. A frase seguinte estava borrada por lama, mas uma parte permanecia legível. Laura não deve vender. Laura deve escolher quem acorda.

Caio leu por cima do ombro dela, perto o bastante para que Laura sentisse o calor dele contra o frio do quarto. Ela perguntou o que significava escolher quem acorda. A resposta veio da cama. A colcha verde afundou no centro, moldando um corpo invisível. A lamparina aumentou a chama. Uma mão molhada apareceu sobre o lençol, usando o anel de casamento da mãe de Laura. Caio prendeu a respiração. Laura não se moveu. A mão bateu duas vezes no colchão, gesto que Helena fazia quando chamava a filha para sentar. A voz da mãe subiu da cama, agora clara. Disse que Caio tinha sangue de quem abriu a primeira vala no brejo.

Laura virou para ele. Caio estava pálido. Não surpreso o suficiente. A casa percebeu junto com ela. As paredes estalaram numa satisfação baixa. Ele disse que descobrira havia poucos meses, quando achou documentos do avô. Os Vilar haviam trabalhado para a família de Laura, drenando parte do brejo, desviando água, enterrando tábuas com nomes de mulheres. Queria comprar a casa para reparar ou, pelo menos, impedir venda. Laura guardou as cartas contra o peito. Disse que omissão continuava sendo uma forma covarde de entrar. Caio aceitou a acusação sem defesa. Do assoalho, a voz de Helena riu baixinho. A mãe de Laura, ou aquilo que falava por ela, pediu que a filha trancasse Caio no quarto antes da primeira noite.

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