A Menina do Brejo A Casa que Dorme no Brejo · Capítulo 4 de 6
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A Menina do Brejo

A mão infantil continuava fora da lama, segurando a boneca sem rosto com uma paciência impossível. Laura pensou em todas as vozes que ouvira na casa, na avó, na mãe, nas batidas sob as tábuas, e pela primeira vez o medo mudou de formato. A casa não era apenas predadora. Também era prisão. Caio percebeu a mesma coisa e ficou mais quieto. A figura de Helena disse que a menina se chamava Rosa, embora nenhum registro da cidade ainda admitisse isso. Fora enterrada viva durante a drenagem original, quando homens decidiram que brejo bom era brejo calado. A mãe de Rosa amaldiçoou a obra, e a água aceitou a maldição com a paciência das coisas que não têm pressa.

Laura perguntou por que a família dela pagava sozinha por crime dividido. A figura com rosto de Helena olhou para Caio. Ele respondeu antes dela. Porque os Vilar fizeram o serviço, mas os Menezes ficaram com a terra, a casa, o nome limpo e a mesa posta. A resposta era honesta demais para aliviar. Laura odiou ouvi-la e respeitou que ele dissesse. A água em torno dos dois parou de subir. Sobre a mesa, os documentos do avô de Caio afundaram devagar, aceitos ou engolidos. A escritura da venda virou uma pasta de lama. A chave do apartamento de Laura permaneceu intacta, brilhando na pedra, reconhecida pela casa como despedida, não como dívida.

A figura de Helena explicou o caminho. Rosa precisava ser levada pela porta da cozinha, pela sala, pela varanda e pela ponte. Nenhuma voz deveria ser respondida durante o trajeto. Nenhuma lembrança poderia deter quem conduzisse. A casa tentaria oferecer o que faltava. Para Laura, a mãe viva. Para Caio, a chance de voltar ao verão em que ela ainda confiava nele sem cálculo. Para ambos, uma saída sem perda. Laura riu baixo, quase sem som. Disse que casa nenhuma conhecia proposta mais velha que essa. Caio olhou para ela com um tipo de tristeza simples. Pediu para conduzir Rosa. Laura negou. Ele disse que o sangue da vala era dele. Ela respondeu que a casa esperava heroísmo masculino havia tempo suficiente e que ele podia inovar ficando vivo para ajudar.

Eles decidiram juntos, sem transformar a decisão em cerimônia. Laura conduziria Rosa. Caio levaria a lamparina e não soltaria a porta da cozinha, mesmo se ouvisse o pai, o avô ou o próprio medo chamando. A figura de Helena tocou o rosto de Laura com dedos frios. Por um segundo, era a mãe dela ali, não a água usando memória. Disse que queria ter voltado de outro jeito. Laura fechou os olhos, segurou o choro atrás dos dentes e respondeu que volta nenhuma prestava quando chegava tarde, mas aquela ainda servia. A figura sorriu. A mão infantil saiu mais um pouco da lama. Laura segurou os dedos de Rosa. Eram gelados, leves, e a força que puxou em seguida quase a levou de joelhos.

Rosa emergiu sem barulho. Tinha cabelo grudado ao rosto, vestido antigo colado ao corpo e olhos escuros demais para uma criança. A boneca sem rosto pendia de sua outra mão. Caio levantou a lamparina, e a sala circular estremeceu. As lamparinas das paredes apagaram uma a uma. A figura de Helena recuou para a água, ficando menos nítida. Pediu que Laura não olhasse para trás depois da cozinha. Laura apertou a mão da menina. A subida pelos degraus foi lenta. Atrás dela, vozes começaram a acordar, primeiro a avó, depois a mãe, depois ela mesma criança, chamando por objetos perdidos, por aniversários, por tardes inteiras antes de qualquer morte.

Na cozinha, a casa estava acesa. Todas as lâmpadas queimavam com luz amarela, e a mesa tinha café fresco, bolo de fubá, pratos postos para quatro pessoas. Dona Celina estava sentada perto do fogão, viva no melhor vestido, chamando Laura de menina teimosa. Helena, a mãe, estava à janela, jovem, inteira, sorrindo com uma ternura que quase destruiu a decisão. Caio prendeu a porta do porão com o ombro, pálido, olhando para o chão. Laura sentiu Rosa tentar parar. A menina queria aquela cozinha tanto quanto ela. A casa oferecia família para ambas, e a crueldade estava justamente no capricho dos detalhes. Laura disse em voz baixa que nada daquilo era mesa, que nada daquilo era mãe, que nada daquilo era avó. A voz de Helena respondeu que podia ser, se ela ficasse.

Laura não respondeu. Puxou Rosa pela cozinha, depois pela sala. Os retratos virados mostravam agora cenas impossíveis, sua mãe envelhecendo, sua avó cantando, Caio adolescente esperando na varanda com a bicicleta azul, um filho que Laura nunca tivera correndo pelo corredor. O golpe foi baixo e certeiro. Ela tropeçou. Caio largou a porta do porão e a segurou antes que caísse. A casa gritou nas paredes. Ele não falou com as imagens. Apenas segurou Laura e Rosa, uma mão em cada uma, e caminhou junto. A varanda parecia distante demais. O brejo subia do lado de fora, cobrindo o primeiro degrau, lambendo as pilastras com fome. A ponte esperava no escuro, estreita, brilhando sob chuva que não caía.

Quando chegaram à varanda, Rosa parou. Pela primeira vez, falou com voz própria, não imitada. Perguntou se do outro lado havia mãe. Laura não mentiu. Disse que não sabia. Disse que talvez houvesse apenas manhã, estrada e descanso. Rosa apertou a boneca sem rosto contra o peito. A casa se inclinou para trás, puxando o ar, preparando o último chamado. Da sala veio a voz de Helena, agora chorando, pedindo que Laura não a abandonasse outra vez. Caio fechou os olhos, sofrendo junto dela. Laura manteve o olhar na ponte. Deu o primeiro passo sobre a madeira alagada com Rosa ao lado, Caio logo atrás, e ouviu a casa inteira acordar atrás deles.

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