A Casa Acordada A Casa que Dorme no Brejo · Capítulo 6 de 6
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A Casa Acordada

Santa Bruma levou três dias para fingir normalidade. O povoado era bom nisso. A ponte quebrada virou assunto de chuva forte, o brejo baixo demais virou sinal de estiagem futura, e a casa de dona Celina virou problema de inventário, palavra que acalmava gente adulta porque parecia pertencer a cartório. Laura ficou na pensão da praça, com a mão enfaixada, as cartas da avó espalhadas sobre a cama e Caio entrando e saindo com documentos, remédios, café e aquele silêncio de quem sabia ocupar espaço sem pedir absolvição. Ela leu todas as cartas. Algumas falavam de Rosa, outras de Helena, outras de pequenas covardias de família. Dona Celina não se poupava. Isso doeu. Mortos que confessavam tarde ainda obrigavam vivos a carregar a parte prática da verdade.

No quarto dia, Laura voltou à casa. Caio foi junto porque ela permitiu, não porque ele insistiu. A ponte provisória feita pelos homens do povoado tremia, mas não gemia. O brejo estava baixo, revelando pedras, raízes e pedaços de madeira antiga. A casa continuava de pé, menos ameaçadora, também menos viva. Por dentro, cheirava a mofo comum. A cozinha não tinha café fresco. O quarto da avó estava vazio. A porta sob o tapete continuava ali, porém a argola de ferro perdera o frio. Laura desceu sozinha. A sala circular sob a cozinha estava seca. No centro da mesa de pedra, onde Rosa dormira por gerações, havia apenas a chave do apartamento da cidade e um botão azul do vestido de Helena.

Laura pegou os dois objetos e chorou sem barulho. Caio esperou no alto, respeitando o limite que ela não precisou nomear. Quando voltou à cozinha, encontrou-o olhando pela janela para o brejo. Ele disse que tinha decidido entregar os documentos dos Vilar ao Ministério Público junto com as cartas dela. Havia crime antigo prescrito, crime recente de ocultação, posse irregular, fraude em registro de terra e muita gente viva que preferiria manter brejo em silêncio. Laura perguntou se aquilo era tentativa de reparo. Caio respondeu que sim. Perguntou se tentativa de reparo servia para alguma coisa. Ela disse que servia para começar e quase nunca para terminar. Era a resposta mais generosa que possuía naquele dia.

Eles não se beijaram na casa. Havia desejo, sim, estranho, sobrevivente, constrangido pela quantidade de morte ao redor. Laura o sentia quando Caio se aproximava para alcançar uma janela emperrada, quando a voz dele baixava ao falar de Helena, quando a mão dele evitava tocar sua cintura mesmo havendo espaço estreito no corredor. O passado entre os dois deixara de ser lembrança bonita e passara a ser material difícil, cheio de pausas, mentiras e escolhas que precisariam de tempo. Laura preferiu isso. Beijo rápido demais em história de brejo parecia desrespeito com os mortos e com a própria inteligência. Caio, para seu crédito, não tentou criar momento. Apenas perguntou o que ela faria com a casa.

Laura decidiu transformar o lugar em arquivo. Não pousada, não museu de susto, não atração para gente que desejava sentir medo com horário de visita. Um arquivo das mulheres que viveram, sumiram, negociaram ou resistiram em Santa Bruma. As cartas de Celina, os mapas dos Vilar, registros de terra, fotografias, nomes que o brejo devolvesse. Caio ofereceu trabalho de restauração sem cobrar. Laura recusou de primeira por reflexo. Depois aceitou com contrato, prazo, cláusula de saída e nenhuma chave sem cópia. Ele riu baixo. Disse que justo. A casa estalou acima deles, um som seco, sem suspiro. Laura olhou para o teto. Disse que, se a casa tivesse opinião, aprenderia a preencher formulário.

Na última noite antes de voltar à cidade, Laura dormiu na varanda. Não por desafio. Por despedida. O brejo permaneceu quieto, refletindo estrelas entre capins tortos. Ela sonhou com Rosa correndo na margem, sem boneca, sem lama nos pés. Sonhou com Helena sentada na cozinha da pensão, reclamando do café fraco. Acordou antes do amanhecer com Caio chegando pela estrada, carregando duas garrafas térmicas e pão embrulhado em papel. Ele parou no portão, pediu licença para entrar, e esse pedido simples valeu mais que qualquer declaração. Laura deixou. Sentaram lado a lado na varanda, olhando a luz crescer sobre o brejo que já não parecia boca aberta. Ele perguntou quando ela voltaria. Ela disse que em duas semanas, talvez antes.

Caio disse que esperaria. Laura avisou que esperar não dava direito adquirido. Ele respondeu que aprendera a desconfiar de direitos herdados. Foi a coisa certa para dizer, e o problema das coisas certas é que às vezes desarmam a pessoa sem pedir autorização. Laura olhou para ele, para a barba malfeita, para a camisa limpa demais para estrada de barro, para os olhos que ainda carregavam culpa e, agora, alguma paciência. Tocou o rosto dele com a mão enfaixada. O beijo veio devagar, curto, sem promessa grande. Tinha gosto de café, chuva antiga e começo difícil. Quando se afastaram, a casa permaneceu quieta. Nenhuma parede bateu. Nenhuma voz imitou morto. Laura considerou aquilo uma bênção administrativa.

Meses depois, a placa nova foi instalada no portão. Arquivo do Brejo Rosa Menezes. O sobrenome de Rosa não era conhecido, então Laura deu a ela o seu, não por posse, e sim por reparação tardia. As primeiras caixas chegaram numa caminhonete de Caio, catalogadas com letra dele e revisadas por Laura. Dona Elza trouxe fotografias escondidas da farmácia. Seu Arnaldo, o motorista, entregou um caderno da mãe. Santa Bruma começou a falar devagar, com vergonha, resistência e alívio. À noite, a casa às vezes estalava. Laura parava, escutava e seguia trabalhando. Nem todo som pedia medo. Alguns eram apenas madeira aprendendo a ser casa, e não dívida. No fim do primeiro mês, ela encontrou sobre a mesa da cozinha o botão azul de Helena, seco e limpo, ao lado de uma xícara vazia. Dessa vez, o café ela mesma tinha feito.

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