O Passageiro Sem Mala
O desaparecimento do menino transformou o vagão em feira mal iluminada. Uma senhora culpou a porta entre os carros, um vendedor culpou juventude sem disciplina, o chefe do trem culpou excesso de bagagem e Raul fotografou o corredor antes que alguém pensasse em proibir. Clara viu marcas de graxa no chão, pequenas, recentes, indo até a cabine de serviço. O menino dormira sobre uma caixa de ferramentas, e a caixa continuava lá, aberta, sem martelo, sem alicate, sem a pequena chave inglesa que ficava presa por elástico. O segundo envelope trazia o nome de Jaime do Trilho, antigo mecânico da estação Pedra Clara. A coincidência era grosseira demais para merecer esse nome.
Raul contou parte da verdade quando o trem voltou a se mover. Seu bisavô viajara com Evaristo Lins no mesmo trem, na noite em que uma carga oficial desapareceu antes de Serra Dourada. O governo dizia que era ouro. A família de Raul dizia que eram documentos roubados de trabalhadores da ferrovia, registros de terra e indenizações nunca pagas. Evaristo, Marieta e outros nove guardaram cartas para devolver alguma coisa no futuro. Clara perguntou por que futuro significava ela, sem consulta prévia, num trem onde criança sumia e idosa usava luva proibida. Raul respondeu que talvez Evaristo confiasse nela. Clara disse que isso provava declínio cognitivo no fim da vida.
Pedra Clara surgiu sob chuva fina. Jaime do Trilho esperava perto de uma locomotiva enferrujada, usando capa de borracha e expressão de quem reconhecia culpa pelo cheiro. Clara entregou o segundo envelope. Ele leu sem pressa, depois abriu a caixa de ferramentas deixada pelo menino e mostrou um fundo falso. Havia dentro um mapa dobrado e um botão de uniforme ferroviário manchado. Jaime disse que o garoto não era passageiro comum. Chamava-se Nico e vigiava o trem para alguém que queria as onze cartas juntas. Se sumira, talvez tivesse visto o ladrão. Clara perguntou quem era o ladrão. Jaime olhou para Raul, depois para ela, e disse que famílias bonitas costumavam esconder nomes feios.
De volta ao vagão, Clara encontrou sua mala aberta. Nada fora levado, exceto uma blusa branca e a carta número sete. O roubo específico a deixou furiosa de um jeito quase confortável. Raiva era melhor que medo, porque apontava para frente. Raul ajoelhou perto do assento e achou uma gota de barro vermelho no estofado. Disse que aquele barro vinha do túnel de Santa Ilma, uma parada técnica antes da quinta estação. Clara perguntou quando ele pretendia contar tudo que sabia sem precisar ser espremido por evidência. Ele disse que estava tentando protegê-la. Ela respondeu que proteção sem informação tinha o mesmo cheiro de mentira velha.
A conversa teria terminado em briga se a luz do vagão não tivesse apagado. No escuro, alguém correu pelo corredor. Clara sentiu uma mão puxar o pacote de cartas, segurou com força e acertou um cotovelo em carne viva. Raul prendeu o invasor contra a parede quando a luz voltou. Era o chefe do trem, sem boné, com a carta sete dobrada dentro do paletó. Ele sorriu para Clara, apesar do sangue no lábio, e disse que Evaristo devia ter queimado tudo quando ainda podia. Antes que Raul o imobilizasse melhor, o homem quebrou a janela de emergência e saltou para a noite em movimento. O trem continuou, indiferente. No banco vazio diante deles, Nico apareceu coberto de poeira e sussurrou que o túnel tinha uma porta.