As Luvas Marrons O Trem das Onze Cartas · Capítulo 4 de 5
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As Luvas Marrons

O homem de luvas marrons era baixo, elegante e completamente fora de lugar entre sacos de correspondência, graxa e três pessoas sem fôlego. Apresentou-se como Dario Sette, procurador da Companhia Ferroviária Nacional, cargo que Clara traduziu mentalmente para ladrão com papel timbrado. Dario não sacou arma. Pior. Sacou uma ordem judicial plastificada, velha de vinte anos e cheia de carimbos, determinando apreensão de documentos referentes ao acidente de Serra Dourada. Raul pediu para ver de perto. Dario sorriu e disse que fotógrafos curiosos tinham vida curta em trem antigo. Nico se escondeu atrás de Clara. Ela guardou a carta sete dentro da blusa, porque formalidade nenhuma tinha direito de revista sem testemunha.

Dario explicou que as cartas pertenciam à companhia, assim como o trem, o túnel, as estações e a versão oficial. Disse que Evaristo e os outros guardiões eram ladrões românticos, gente que confundia reparação com vingança. Clara respondeu que ele falava igual a ata de reunião criminosa. Raul tentou avançar, mas Dario puxou uma corda de emergência e desacoplou o vagão de carga. O impacto jogou todos contra as caixas. O resto do trem seguiu adiante, levando passageiros, envelopes restantes e a chance de chegar dentro do horário. O vagão solto começou a perder velocidade nos trilhos, sozinho no meio da serra. Dario abriu a porta lateral e saltou antes que Raul o alcançasse, levando a bolsa da câmera com parte dos papéis.

O vagão parou perto de uma passagem de serviço, cercado por mato alto e pedras vermelhas. Clara queria xingar, correr e talvez morder alguém, nessa ordem. Raul examinou os trilhos e disse que havia uma estrada de manutenção até a estação seguinte, Rio Seco. Se cortassem caminho, poderiam alcançar o trem antes da partida. Nico conhecia a trilha porque fugira por ali duas vezes, informação que ninguém teve energia para repreender. Caminharam sob chuva fina, Clara segurando as cartas contra o corpo, Raul carregando a caixa de ferro, Nico à frente com uma moeda antiga na mão. O romance, se existia, tinha péssima infraestrutura.

No meio da trilha, Clara parou para respirar e Raul parou junto. Ela perguntou por que ele escolhera aquele trabalho. Ele contou que a bisavó perdera a terra para a ferrovia e terminara lavando roupa para os engenheiros que a expulsaram. A foto antiga do trem era a única imagem dela sorrindo. Clara ouviu sem comentário. Depois disse que o avô nunca falara das terras, apenas de culpa. Raul respondeu que culpa guardada por homem velho costuma chegar aos netos com juros. Ela riu, cansada. Havia afeto crescendo ali, inconveniente, empoeirado, sem pedir licença. Ele tocou a mão dela ao ajudá-la a passar por uma pedra molhada. Clara não retirou a mão tão rápido quanto planejou.

Chegaram a Rio Seco minutos antes da partida. Odete Miralha, professora aposentada, esperava na plataforma com uma sombrinha preta e um cachorro vesgo. Recebeu o terceiro envelope, leu, e entregou a Clara um caderno de chamada escolar com nomes de crianças removidas da antiga vila da serra. Dario estava no último vagão, entrando com a bolsa de Raul. O trem apitou. Clara correu primeiro. Raul veio atrás. Nico passou por baixo da catraca e abriu caminho com a autoridade de quem já roubara fruta naquela estação. Entraram no trem quando as rodas começaram a girar. Dario viu Clara no corredor e perdeu o sorriso. Ela ergueu o caderno de Odete, ofegante, e disse que agora a versão oficial teria dever de casa.

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