Serra Dourada O Trem das Onze Cartas · Capítulo 5 de 5
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Serra Dourada

As estações seguintes passaram em ritmo de cerco. Clara entregou envelopes a um padre sem batina, a duas irmãs que administravam uma pensão, a um ex-maquinista cego, a uma mulher que vendia pamonha na plataforma e conhecia mais mapas que qualquer engenheiro. Cada guardião devolvia uma peça. Títulos, recibos, fotografias, listas de famílias, laudos de acidente, cartas de ameaça, páginas de diário. Dario tentou bloquear duas entregas, falhou em ambas, e perdeu parte da compostura a cada derrota. Raul fotografava tudo, Nico corria entre vagões levando recados, e Clara sentia o avô menos como morto mandão e mais como homem assustado que finalmente escolhera alguém para terminar o serviço.

Perto da última estação, Dario fez sua jogada final. Tomou a cabine com ajuda do chefe do trem, que sobrevivera ao salto com menos dignidade que sorte, e anunciou que a composição seguiria direto para o pátio da companhia, sem parada em Serra Dourada. O último envelope, número onze, precisava ser entregue ao tabelião Anselmo Prado antes da meia-noite. Clara, Raul e Nico estavam no vagão restaurante quando ouviram o aviso. O ex-maquinista cego, guardião da nona carta, sorriu com poucos dentes e disse que trem antigo obedecia a alavanca antiga. Conduziu o grupo até uma passagem sob a cozinha, onde um freio manual ainda funcionava. Clara puxou a alavanca com as duas mãos. Raul puxou junto. O trem gritou nos trilhos e reduziu, furioso.

Serra Dourada apareceu cercada por neblina e luzes amarelas. O trem parou fora da plataforma, e todo mundo precisou descer por escada de serviço. Dario correu atrás deles com a ordem judicial rasgada e um revólver que enfim abandonava a fantasia administrativa. Clara atravessou o pátio com o último envelope dentro do casaco. Raul ficou entre ela e Dario, câmera erguida, fotografando cada ameaça. Nico jogou moedas antigas no chão molhado. Dario escorregou, caiu, perdeu a arma, e foi imobilizado pelo ex-maquinista cego com uma bengala de precisão humilhante. Clara não esperou. Subiu os degraus do cartório, onde um homem centenário, magro e acordado demais para aquela hora, mantinha a porta aberta.

Anselmo Prado recebeu o último envelope com mãos trêmulas. Leu a carta de Evaristo inteira, sem pressa, enquanto Clara tentava não chorar por raiva, cansaço e alívio. O tabelião abriu um cofre escondido sob o assoalho e retirou o registro original das terras. Faltava a presença dos guardiões ou de seus sucessores. A plataforma já se enchia atrás deles. Marieta, Jaime, Odete e outros tinham embarcado ao longo da rota, cada um carregando sua parte. Raul colocou as fotografias sobre a mesa. Nico entregou as moedas que jurara guardar como prova. Anselmo começou a lavrar a ata. Disse que talvez não devolvesse tudo. Clara respondeu que talvez era palavra de quem ainda não vira onze cartas vencerem um trem inteiro.

Ao amanhecer, Dario estava preso, o chefe do trem escondia o rosto, e a ata pública seguia para jornais, arquivo e famílias que esperaram tempo demais. Clara ficou na plataforma vazia com Raul ao lado, ambos sujos de fuligem, chuva e vitória incompleta. Ele devolveu a bolsa da câmera, agora com os filmes protegidos dentro da camisa. Ela devolveu a foto antiga do avô dele, que pegara no início e esquecera de entregar. Raul perguntou se ela voltaria para casa. Clara disse que sim, depois de dormir dois dias e processar emocionalmente o transporte ferroviário. Ele perguntou se poderia procurá-la. Ela fingiu pensar. Disse que aceitava, desde que ele chegasse sem mentira, sem luva marrom e sem ordem judicial. O beijo veio depois, breve, cansado, com gosto de café de estação. O trem apitou vazio atrás deles, e Clara decidiu que algumas heranças, quando entregues, finalmente paravam de pesar nos vivos.

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