O Túnel de Santa Ilma
Nico falava pouco, talvez por medo, talvez por hábito de criança usada por adultos ruins. Disse que o chefe do trem guardava as cartas roubadas numa caixa atrás da terceira lâmpada do túnel de Santa Ilma. Disse também que havia outro homem no trem, alguém que comprara passagem sem mala e usava luvas marrons apenas quando ninguém via. Clara olhou para Raul. Ele ergueu as mãos vazias de novo, gesto que já começava a irritá-la por repetição. O terceiro envelope seria entregue na estação de Rio Seco a uma professora chamada Odete Miralha, mas o túnel vinha antes. Se perdessem a carta sete ali, a ordem do avô quebraria. Clara decidiu que ordem de morto teimoso ainda era ordem.
O túnel obrigou o trem a reduzir velocidade. Raul abriu a porta entre os vagões com uma chave emprestada de Jaime e uma habilidade que Clara arquivou para questionamento futuro. Nico guiou os dois até a plataforma externa, onde vento, fuligem e medo tinham a mesma textura. A entrada do túnel cresceu diante deles, preta, molhada, cheia de luzes fracas nas paredes. Clara segurou o corrimão com uma mão e o pacote de cartas com a outra. Raul ficou atrás dela, perto o bastante para impedir queda e longe o bastante para não receber reclamação imediata. Ela apreciou o cálculo contra a própria vontade.
A terceira lâmpada passou devagar. Nico apontou para uma portinhola de metal na parede do túnel. Raul saltou primeiro para a passarela lateral. Clara foi em seguida, com menos elegância e mais palavrão engolido. O trem continuou avançando a poucos metros, e cada janela iluminada parecia uma vida sensata que eles haviam abandonado. A portinhola estava trancada. A chave de Marieta serviu. Atrás dela havia uma caixa de ferro com papéis, moedas antigas, duas cartas extraviadas e uma luva marrom. Clara pegou a carta sete. Raul pegou os papéis. Nico pegou as moedas e fingiu que era por prova. Então alguém fechou a portinhola por fora.
Ficaram presos num nicho estreito, com o trem se afastando e o ar diminuindo. Clara sentiu a primeira pontada de pânico, seca, desagradável, infantil. Raul acendeu a lanterna da câmera, luz pequena que transformou o rosto dele em lembrança antiga. Ele pediu desculpa por mentir. Disse que não era apenas fotógrafo. Trabalhava para um arquivo independente que procurava provas do roubo da ferrovia havia anos. Procurou Evaristo antes da morte, chegou tarde, encontrou o nome de Clara no testamento. Ela perguntou se a seguira. Ele respondeu que sim. A honestidade tardia merecia raiva, mas o nicho era pequeno demais para briga completa. Clara disse que, se saíssem vivos, ela escolheria o tom.
Os papéis da caixa revelavam a peça central. O tesouro roubado nunca fora ouro. Eram títulos de terra de comunidades removidas para a ferrovia e recibos de indenização desviada. As onze cartas conduziam aos onze guardiões das provas. A última estação reuniria tudo diante de um tabelião ainda vivo, se alguém chegasse com os envelopes. Raul encontrou na parede um mecanismo manual. Nico, pequeno e ágil, passou por uma abertura inferior e destravou a portinhola pelo lado de fora. Quando saíram, o trem já deixava o túnel. Precisaram correr pela passarela e saltar para o último vagão de carga. Clara caiu sobre sacos de correspondência, Raul caiu ao lado dela, e por um segundo riram de puro susto. Depois viram, entre as malas, um homem sem bagagem usando luvas marrons.