A Casa Fechada A Madrinha do Fim da Rua · Capítulo 2 de 5
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A Casa Fechada

A casa do fim da rua ficava atrás de um portão verde, coberto por trepadeira seca e cadeado novo. Bianca lembrava do jardim cheio de hortênsias, das festas de domingo, do pai rindo alto demais, da mãe recolhendo copos antes que alguém percebesse a mão tremendo. Agora a fachada parecia menor, descascada, com janelas de madeira fechadas por dentro. Gabriel cortou o cadeado com ferramenta da viatura, sem cerimônia. Bianca perguntou se aquilo constava no procedimento. Ele respondeu que procedimento acabara quando o noivo inexistente desapareceu de um casamento inexistente. A frase teria graça em outro lugar. Ali, no fim da rua, até humor parecia falar baixo.

Dentro da casa, o ar estava parado havia anos e mesmo assim cheirava a perfume recente. Elisa usava aquele perfume, floral demais, comprado para parecer adulta quando ainda se comportava como menina que roubava batom. Bianca encontrou marcas de salto no corredor, pó removido sobre a mesa da sala e uma garrafa de água pela metade. A mãe jurara ter vendido a casa depois do desaparecimento do pai. Mentira. A escritura ainda estava no nome da família, segundo Gabriel. Ele descobrira durante a investigação de Augusto. Bianca andou até a sala de jantar, onde o antigo armário de louças permanecia coberto por lençol. Sobre ele havia um vestido de noiva dobrado com cuidado e uma mancha escura na barra.

Gabriel impediu que ela tocasse no vestido com a mão ferida. Usou luvas transparentes, não marrons, detalhe inútil que passou pela cabeça de Bianca com nervosismo absurdo. Sob o vestido, havia fitas VHS etiquetadas com datas antigas. A última trazia o nome de Bianca. Quinze anos antes, noite da chuva. Ela não lembrava de fita nenhuma. Lembrava de trovão, do pai discutindo com a mãe, de Elisa escondida no armário, de Gabriel jovem chamando por ela do portão, de uma pancada na cozinha e depois nada até amanhecer no quarto da avó. Gabriel levou as fitas para a sala, onde uma televisão velha ainda funcionava. Bianca perguntou se ele sabia o que havia ali. Ele disse que torcia para não saber.

A primeira fita mostrou a sala de jantar vista de cima, câmera escondida em algum ponto alto. O pai de Bianca, Afonso Valença, discutia com uma mulher que não era a mãe dela. A mulher estava grávida. Pedia dinheiro, reconhecimento e proteção. Afonso ria, cruel, muito diferente do pai barulhento das festas. A mãe de Bianca entrou logo depois. Não chorava. Trazia uma pasta de documentos e uma frieza que a filha jamais vira. A fita falhou antes da pancada. Bianca ficou sentada sem sentir os pés. Gabriel desligou a TV. Disse que a mulher grávida se chamava Clara Rios. O filho dela, se nasceu, teria hoje a idade de Augusto.

O celular de Gabriel tocou. Era a delegacia. Encontraram um carro abandonado perto da rodoviária, registrado em nome de uma empresa antiga da família Valença. No porta-malas, havia flores de casamento e sangue seco. Bianca levantou rápido demais. Gabriel segurou seu braço, não para impedir, e sim para firmá-la. O toque durou pouco, porém a memória dele atravessou quinze anos sem pedir licença. Ela retirou o braço com atraso. Do andar de cima veio um ruído. Passos leves, depois uma porta batendo. Gabriel sacou a arma. Bianca subiu antes dele, porque naquela casa sempre fizera besteira primeiro. No quarto antigo dela, Elisa estava sentada na cama, usando o véu de noiva e segurando uma faca de cozinha. Quando viu Bianca, disse que Augusto era irmão delas.

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