Depois da Rua Fechada
Vila Serena acordou fingindo surpresa. Na padaria, ninguém sabia de nada. No cartório, todos sempre desconfiaram. Na delegacia, pastas antigas apareceram com velocidade milagrosa. Teresa Valença foi levada para a capital antes do almoço, por segurança dela ou dos outros, segundo Gabriel. Elisa dormiu na casa de Bianca pela primeira vez em anos, enrolada no sofá, faca finalmente guardada na gaveta da cozinha. André ficou no hospital, vigiado por uma enfermeira que parecia capaz de enfrentar família inteira com termômetro. Bianca passou a manhã assinando depoimentos, reconhecendo documentos e aprendendo que verdade oficial também precisava de fila, carimbo e paciência.
A casa do fim da rua foi isolada. Peritos retiraram fitas, cartas, recibos, roupas antigas e uma pequena caixa escondida sob o armário da sala. Dentro havia fotos de Clara Rios com Afonso, de Afonso com Teresa, de Teresa sozinha diante do galpão. Havia também uma carta de Clara para as filhas que ela jamais conheceu. Bianca leu ao lado de Elisa e André, os três sentados no degrau da varanda, sem saber ainda que tipo de família poderiam formar sem a mentira no centro. Clara escrevia sem pedir vingança. Pedia nome. Pedia que o filho soubesse que nasceu desejado. Pedia que as meninas Valença não carregassem culpa pelos adultos. Elisa chorou primeiro. André depois. Bianca segurou a carta até o papel parar de tremer.
Gabriel pediu afastamento temporário da investigação quando percebeu que seu nome começava a aparecer próximo demais de Bianca. Ela achou correto e irritante. Encontrou-o na igreja de Santa Lúcia, agora aberta, recolhendo a caixa do altar. Disse que ele podia parar de agir como santo de vidro. Ele respondeu que envolvimento antigo com testemunha principal gerava problema. Bianca perguntou se envolvimento antigo era o nome técnico para primeiro amor abandonado com carta sem resposta. Gabriel aceitou o golpe. Disse que guardara a carta por quinze anos. Bianca não sabia disso. Pensara que ele não respondera. Ele pensara o mesmo dela. Teresa interceptara tudo. A mãe controlara até o silêncio dos dois.
A revelação deveria soar pequena perto de corpo enterrado e irmão secreto, porém doeu com precisão própria. Bianca sentou no banco da igreja. Gabriel sentou ao lado, mantendo distância respeitável demais para quem ela lembrava sem camisa no verão da formatura. Ele entregou a carta antiga, ainda dobrada, amarelada, com o nome dela. Bianca não abriu. Guardou no bolso. Disse que leria quando tivesse coragem de odiar a mãe por uma coisa de cada vez. Gabriel sorriu pouco. Pediu que ela ficasse em Vila Serena alguns dias. Não por ele, acrescentou rápido demais, e sim por Elisa, André, depoimentos, segurança. Bianca olhou para ele até o profissionalismo dele perder força.
O casamento falso nunca aconteceu, mas a igreja recebeu flores mesmo assim. Elisa transformou os arranjos em coroas para o túmulo de Clara Rios e para a sepultura recém-aberta de Afonso, porque a cidade precisava aprender a ver nomes que fingira esquecer. André recusou o sobrenome Valença de início. Depois aceitou usá-lo em documentos do processo, não por afeto ao pai, e sim para obrigar a família a encarar o registro. Bianca voltou à casa do fim da rua uma última vez antes de lacrarem a porta. No quarto onde Elisa esperara de véu, encontrou outro pedaço de convite, preso no espelho. Nele havia uma frase escrita pela irmã. Madrinha não entrega noiva. Madrinha abre caminho.
Duas semanas depois, Bianca ainda estava em Vila Serena. Trabalhava remotamente da mesa da padaria, discutia com Elisa sobre terapia, visitava André no hospital e evitava decidir qualquer coisa sobre Gabriel depois das nove da noite. A decisão falhou numa quinta chuvosa. Ele apareceu com café, relatórios e a notícia de que Teresa tentara culpar Clara por tudo em novo depoimento. Bianca xingou por cinco minutos. Gabriel esperou. Depois disse que sentira falta dela todos aqueles anos. Sem enfeite, sem defesa. Bianca abriu a carta antiga ali mesmo. Leu a declaração desajeitada do rapaz que ele fora, pedindo que ela fugisse com ele depois da formatura. Quando terminou, beijou Gabriel no meio da padaria, sob o olhar satisfeito de três senhoras que fingiam escolher pão. O beijo não resolveu assassinato, família ou futuro. Resolveu apenas a mentira de que nada ainda existia entre eles. Para aquela semana, bastava.