O Galpão do Rio A Madrinha do Fim da Rua · Capítulo 4 de 5
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O Galpão do Rio

O galpão da família Valença ficava depois da estrada de terra, perto de um rio estreito que cheirava a barro e combustível. Gabriel dirigiu com faróis apagados no último trecho. Bianca ia ao lado dele, Elisa no banco de trás, sem véu agora, ainda segurando a faca dentro da bolsa. Teresa ficara na casa sob vigilância de um policial que talvez obedecesse Gabriel ou talvez obedecesse dinheiro antigo, ninguém tinha certeza. Durante o trajeto, Bianca contou a Gabriel a parte que faltava. Na noite do desaparecimento de Afonso, ela vira a mãe lavar sangue na cozinha. Também vira o pai sair pelos fundos com alguém menor, talvez Elisa, talvez outro adulto curvado. A memória voltava aos pedaços, cada um pior que o anterior.

Gabriel estacionou atrás de caminhões velhos. O galpão tinha uma porta lateral aberta e luz acesa no escritório. De dentro veio uma tosse masculina. André estava amarrado a uma cadeira, rosto machucado, camisa ensanguentada, vivo. Um homem contratado por Teresa vigiava a sala com celular na mão. Gabriel entrou primeiro e o derrubou com rapidez limpa, sem discurso. Bianca correu até André. Ele olhou para ela e reconheceu o rosto de Afonso antes de ouvir o nome. Disse que Elisa devia ter ficado fora. Elisa chorou de raiva, não de susto. Cortou as amarras com a faca, mãos firmes agora que a defesa tinha destino.

André contou que Teresa o contratara para desaparecer depois do falso casamento. Pagaria o bastante para ele esquecer Clara Rios e ir embora. Ele fingiu aceitar porque precisava chegar ao galpão. Acreditava que o corpo de Afonso estava enterrado ali, sob o piso novo feito quinze anos antes. Tinha provas parciais, notas de obra, pagamentos, mensagem de um pedreiro morto. Gabriel fotografou tudo. Bianca perguntou se André armara o convite para ela. Ele disse que Elisa armou a igreja. Ele apenas deu o nome falso, porque Valença nenhum escutaria um filho bastardo vivo sem uma encenação cara no meio. A frase doeu, principalmente por parecer correta.

O piso novo ficava atrás do escritório. Gabriel chamou reforço antes de tocar, sabendo que dali em diante qualquer erro viraria defesa para Teresa. Enquanto esperavam, Bianca e André ficaram lado a lado perto do rio. Ele tinha os olhos de Afonso, porém a expressão de Clara na fita, aquela mistura de medo e desafio. Bianca pediu desculpa. André disse que desculpa de irmã recém-descoberta entrava em análise. A resposta arrancou dela uma risada curta, imprópria, necessária. Gabriel observava de longe, atento demais. Quando ela voltou para perto dele, os dois ficaram em silêncio. A mão dele tocou a dela. Bianca não afastou. Em outra noite, aquilo teria nome. Naquela, era só um ponto firme.

A perícia improvisada encontrou ossos antes da madrugada acabar. Afonso Valença estava sob o cimento, junto com uma maleta de documentos, cartas de Clara e o relógio que Bianca lembrava no pulso do pai. Teresa chegou ao galpão escoltada, ainda elegante, ainda capaz de chamar aquilo de mal-entendido sucessório. Elisa avançou, mas André a segurou. Bianca foi quem falou. Disse à mãe que a versão dela acabara. Teresa respondeu que versão nunca acabava para quem sabia pagar. Gabriel ergueu o celular e reproduziu a confissão gravada na sala de jantar, clara o bastante para vencer arrogância. Teresa ficou em silêncio pela primeira vez. O rio atrás do galpão seguiu correndo, indiferente e livre de segredos que não eram seus.

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