O Irmão Inventado A Madrinha do Fim da Rua · Capítulo 3 de 5
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O Irmão Inventado

Elisa parecia acordada há dias. O véu prendia no cabelo desarrumado, a maquiagem escorrera sob os olhos e a faca em sua mão tremia sem direção. Bianca parou na porta. Gabriel ficou atrás dela, arma baixa, voz controlada. Pediu que Elisa largasse a faca. Ela riu com uma tristeza agressiva. Disse que homem nenhum naquela rua mandaria outra Valença largar defesa antes de saber quem estava no corredor. Bianca reconheceu a frase. A mãe dizia aquilo quando ouvia passos do pai voltando tarde. Elisa sempre fora pequena demais para lembrar. Ainda assim, a frase estava nela, guardada como farpa.

Augusto Rios não era noivo. Era nome escolhido para trazer todo mundo à igreja. Elisa encontrara as fitas meses antes, junto com cartas de Clara Rios. A mulher grávida dera à luz um menino, André, enviado para adoção depois que Clara morreu numa queda registrada como acidente doméstico. A família Valença pagou advogado, médico e silêncio. Afonso desapareceu na mesma semana em que Clara foi enterrada. A mãe de Bianca contou às filhas que ele fugira com dinheiro. Elisa descobriu outra versão. Afonso voltara à casa do fim da rua para destruir provas, e alguém nunca deixou que saísse.

Bianca perguntou onde estava André. Elisa apertou a faca. Disse que ele a procurara fingindo ser Augusto, contando parte da verdade, prometendo expor a mãe delas, pedindo ajuda para encontrar o corpo de Afonso. Elisa acreditou. Planejou o casamento falso para reunir provas, testemunhas e Bianca, porque sem Bianca ninguém enfrentaria dona Teresa Valença. Então André desapareceu. A faca esperava a mãe, caso ela entrasse primeiro. Gabriel perguntou por que Elisa não foi à polícia. Ela olhou para ele com pena. Disse que a polícia de Vila Serena sabia obedecer família antiga desde antes de ele aprender a assinar relatório.

A porta da frente abriu no andar de baixo. Três passos, bengala no piso, chave sobre a mesa. Teresa Valença chamava as filhas pelo nome completo apenas quando queria controlar uma sala antes de entrar. Bianca sentiu o corpo voltar à infância com raiva instantânea. Gabriel guardou a arma, decisão inteligente. Apontar arma para Teresa diante de testemunhas locais renderia manchete contra ele antes da verdade respirar. A mãe apareceu no corredor vestida de bege, cabelo perfeito, olhos secos. Olhou para Elisa de véu, para Bianca pálida, para Gabriel próximo demais da filha mais velha. Disse que aquele teatro precisava terminar antes que alguém se machucasse por sentimentalismo.

Bianca desceu primeiro. Teresa a seguiu até a sala de jantar, onde a televisão ainda mostrava a imagem congelada de Afonso com Clara Rios. A mãe não negou. Disse que Clara era chantagista, Afonso era fraco, e meninas precisavam de casa limpa para crescer. Bianca perguntou onde estava André. Teresa respondeu que rapaz sem nome definido costumava aceitar oferta melhor quando percebia o risco. Gabriel recebeu outra ligação no mesmo instante. O carro abandonado tinha uma segunda marca de sangue, compatível com pessoa viva ferida, e uma câmera de pedágio mostrava o veículo seguindo para um galpão antigo da família Valença perto do rio. Elisa desceu correndo, ainda de véu. Teresa olhou para a faca na mão dela e disse que, se pretendia ameaçar a mãe, ao menos segurasse direito.

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