A Oferta da Madrugada A Baba da Casa Azul · Capítulo 1 de 4
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A Oferta da Madrugada

Júlia aceitou o trabalho porque devia três meses de aluguel e porque a mulher do telefone sabia exatamente quanto oferecer. A Casa Azul ficava depois do cemitério municipal, numa rua sem saída onde as árvores cobriam os postes e os muros pareciam mais altos durante a noite. A contratante se chamava Helena Arnaud, médica, viúva recente, mãe de dois filhos pequenos. Recebeu Júlia usando vestido claro, perfume seco e uma educação calculada. Explicou que as crianças dormiam cedo, acordavam pouco e tinham regras simples. Nenhuma porta do porão deveria ser aberta, nenhuma pergunta sobre a irmã mais velha deveria ser respondida, nenhum brinquedo encontrado na escada deveria voltar para o quarto.

As crianças eram educadas de um modo que assustava. Tomás, de oito anos, falava olhando para os sapatos. Nina, de cinco, sorria sem mostrar os dentes e carregava uma boneca sem olhos. Júlia preparou leite, conferiu janelas e encontrou no corredor uma fotografia familiar com três crianças. A mais velha aparecia atrás dos irmãos, cabelo preso, mãos pousadas nos ombros deles, rosto raspado por unha ou lâmina. Quando Júlia perguntou quem era, Tomás derrubou o copo e Nina começou a cantar baixo, uma canção de ninar com palavras trocadas. Helena surgiu no corredor antes que Júlia repetisse a pergunta. Disse que certas lembranças deixavam a casa agitada.

À meia-noite, Júlia ouviu batidas vindas do porão. Três pancadas, pausa, três pancadas. Chamou Helena, porém a médica havia saído para uma emergência sem avisar. No bilhete deixado sobre a mesa, havia instruções para dar xarope às crianças caso sonhassem com Clarice. Júlia encontrou o remédio dentro da geladeira, rotulado com data recente e dose alta demais. Subiu para conferir os quartos. Tomás estava sentado na cama, olhos abertos, pedindo desculpa a alguém que Júlia não via. Nina apontou para a escada e disse que a irmã queria brincar de escolher. Depois, no piso abaixo, uma chave girou sozinha na fechadura do porão.

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