O Quarto de Baixo
Júlia passou vinte minutos diante da porta do porão, segurando uma lanterna e uma faca de cozinha pequena demais para dar coragem real. A casa fazia ruídos de madeira velha, cano antigo e vento preso nas frestas, ainda assim as três pancadas vinham de dentro, regulares, pacientes. No degrau mais alto havia um carrinho vermelho que ela jurava ter guardado no baú de Tomás. Pegou o brinquedo e viu letras riscadas na pintura. Clarice dorme acordada. A frase infantil, torta, suja de cera preta, tirou de Júlia qualquer chance de atribuir a noite à imaginação de criança medicada.
O porão tinha cheiro de sabonete vencido e roupa guardada. Ao descer, Júlia encontrou uma cama estreita, uma cômoda trancada e desenhos colados na parede com fita amarelada. Todos mostravam a mesma cena. Uma menina em pé ao lado de uma banheira, uma mulher de jaleco, duas crianças escondidas atrás da porta. A cômoda abriu com a chave que girara na fechadura. Dentro havia cadernos de Clarice, receitas médicas assinadas por Helena e cartas nunca enviadas a uma avó em outra cidade. Clarice escrevia que a mãe a chamava de problema, que os remédios a deixavam fraca, que Tomás e Nina tinham medo de contar a verdade.
Helena voltou antes das duas. Encontrou Júlia saindo do porão e deixou cair a bolsa, detalhe mínimo que denunciou surpresa verdadeira. Em vez de gritar, fechou a porta da cozinha e pediu que Júlia pensasse no contrato, no dinheiro e nas crianças que precisavam de estabilidade. Júlia perguntou onde Clarice estava. Helena respondeu que a filha morreu havia um ano, afogada na banheira por descuido próprio. A explicação veio polida, pronta, ensaiada com advogado. No andar de cima, Nina começou a cantar outra vez. Tomás chorou. A luz da cozinha piscou, e na mesa apareceu uma mecha de cabelo molhado, comprida, escura, pingando sobre o bilhete da médica.